Aelor Velaryon
1 Capítulo único
– Lorde Stannis quer que partamos com ele para a Muralha? — Exclamou o jovem Monterys com sua voz esganiçada que apenas chamava atenção para os seus sete anos de idade incompletos. — Mas lá é terrivelmente frio e distante. Não desejo ir.
Meistre Gareth pigarreou baixinho.
– Seria o Rei Stannis, meu senhor. — Ele corrigiu seu amo. — Não podemos esquecer que Derivamarca é vassala de Pedra do Dragão e que seu pai, o bravo Lorde Monford, que o Pai o julgue com justiça, jurou fidelidade ao Rei Stannis.
Aelor partiu o pão com um estalo alto, atraindo o olhar de todos os outros que partilhavam a ceia no aposento privado de Lorde Monterys. Sua prima, Alessa, e sua irmã, Arissa, tão semelhantes entre si que pareciam irmãs gêmeas ao invés de primas, pararam de conversar para encará-lo. Dos Velaryon que restavam em Derivamarca e, depois da Batalha da Água Negra, em toda Westeros, Aelor era o homem mais velho, embora tivesse apenas dezessete anos.
– Meistre Gareth, e quais navios nós devemos enviar para responder ao chamado de Pedra do Dragão? — Ele afastou os lisos cabelos platinados que caíam na frente da face. — Caso não se lembre, nossa frota fazia parte daquela que Lorde Stannis levou para o fogo na Água Negra há alguns meses e afundou, arrastando consigo Lorde Monford e meu pai, Sor Vaemond.
– Eu sei disso, meu senhor. — O meistre levou as mãos à corrente que trazia no pescoço, inquieto. — Mas ainda temos recrutas que podemos convocar, e o rei possui a frota lisena, que poderá transportá-los. Deve escolher um cavaleiro para liderá-los e terminar seu treinamento, ou talvez até mesmo um membro da Casa Velaryon para provar a fidelidade de Derivamarca.
Alessa deu um risinho, logo acompanhada por Arissa. Monterys pareceu não entender, mas Aelor sabia que o meistre estava sugerindo veladamente que ele deveria acompanhar Lorde Stannis na sua continuação da guerra.
– Se eu não o conhecesse, meistre, diria que está querendo que eu deixe Derivamarca para que possa ter mais espaço e compartilhar sua sabedoria com Lorde Monterys mais livremente. — Aelor bebeu um gole de vinho. — Essa carta, na verdade, é um chamado vazio. Lorde Monford declarou fidelidade a Stannis, mas nossos homens se curvaram ao Trono de Ferro após a Água Negra e nosso tio Aurane serviu ao Rei Joffrey e agora serve ao Rei Tommen. O senhor mesmo leu a carta que Lorde Tywin nos enviou, oferecendo termos generosos caso o ajudemos a tomar Pedra do Dragão de Lorde Stannis.
– Meu senhor está sugerindo que realmente levemos em frente a traição ao suserano de Derivamarca?
– Isso é para Lorde Monterys decidir. O senhor já cumpriu seu dever e trouxe a correspondência, Meistre Gareth. Peço permissão ao meu primo Monterys para dispensá-lo.
O jovem lorde, com o queixo sujo de gordura de peixe, concordou com a cabeça. Visivelmente contrariado, Meistre Gareth deixou o local.
O risinho estridente de Alessa acompanhou sua saída.
– Parece que nosso meistre o quer ver pelas costas, primo. — Ela balançou a taça de vinho. — Tem mantos de pele suficiente para sobreviver na Muralha?
– Ora, cale-se. — Aelor balançou a cabeça. — Maldita hora em que Meistre Daleon morreu e nos enviaram esse aí. Ele é um Meadows, caso não se lembre, e sua família ainda é uma das principais apoiadoras de Stannis. É óbvio que ele vai querer nos arrastar para mais carnificina.
– Eu pensei que os meistres não tivessem família. — Balbuciou Monterys. — Meistre Daleon me disse uma vez que a ordem deles serve, e que eles abandonam os sobrenomes quando fazem seus votos.
– Isso é o que deveria ser no mundo ideal, meu doce primo. — Arissa limpou o queixo de Monterys com um lenço. — Infelizmente, esse mundo está longe de ser ideal desde que os dragões nos deixaram.
Os últimos Velaryon se entreolharam, trocando olhares de cumplicidade. A Casa Velaryon era quase tão antiga quanto a Casa Targaryen e a servira na Cidade Franca por gerações. Sua fidelidade era tanta que quando Lorde Aenar Targaryen ouviu a previsão da filha Daenys acerca de Perdição e decidiu se mudar para Pedra do Dragão, os Velaryon o acompanharam.
De início, os Velaryon prosperaram, tornando-se praticamente os donos do Mar Estreito. Com a Conquista de Aegon essa riqueza apenas aumentou, sendo o cargo de Mestre dos Navios praticamente hereditário para eles. O seu ápice aconteceu com Lorde Corlys Velaryon, dito Serpente do Mar, cuja esposa e filho quase ocuparam o Trono de Ferro. Ele também foi responsável por viagens ao Leste que tornaram a Casa Velaryon mais rica até do que os Lannister por algum tempo. Contudo, foi durante a vida do próprio Corlys que a fortuna da Casa Velaryon começou a acabar; com Maré Alta e seus tesouros queimados na Batalha da Goela durante a Dança dos Dragões. A Cidade das Especiarias, que antes rivalizava com Porto Real, também sofrera o mesmo destino e nunca havia sido reconstruída.
O decair continuara e chegara ao ápice com a Rebelião de Robert, quando Derivamarca teve de jurar lealdade ao irmão do homem que derrubara seus milenares suseranos, a Casa Targaryen, além de perder territórios e influência. Quando Stannis então reclamara a coroa do falecido irmão, Lorde Monford Velaryon juntara o cavalo-marinho de sua Casa aos estandartes do veado com o coração em chamas, e em chamas ele perecera na Batalha da Água Negra. Com o fim de Monford, a liderança da Casa cabia a uma criança, seu jovem primo Monterys, enquanto que a maior parte de seus soldados ainda estava no continente sob as ordens de seu tio bastardo, Aurane Waters, que se curvara ao Rei Joffrey Baratheon rapidamente.
Deveria ser eu no lugar dele, Aelor pensou consigo mesmo, e talvez fosse capaz de conseguir algo a mais para nós nessa crise. Mas Aelor não pudera acompanhar o pai, assim como nunca poderia realmente estar numa batalha, e tudo por causa de Aurane. O bastardo o derrubara do cavalo quando ele tinha a idade de Monterys enquanto treinavam no pátio de Maré Alta. Como Aelor se agarrara nos arreios de seu pônei, o animal caíra com ele em cima de sua perna direita, entortando-a irremediavelmente. Desde aquele dia, o rapaz se vira obrigado a usar uma bengala para andar. Apesar de Aurane ter sido terrivelmente açoitado por Sor Vaemond como punição, para Aelor não servira de compensação, e a mágoa dentro de si apenas crescia.
Sou um homem mutilado, Aelor pensava todos os dias ao mancar por Maré Alta e acompanhar o treinamento dos soldados da guarnição no pátio sob os brados de Sor Bartimus Waters. Condenado a apodrecer em Maré Alta como primo e conselheiro de uma criança enquanto o bastardo que me arruinou se enche de glória na capital.
Tais pensamentos haviam sido o suficiente para cortar o apetite de Aelor pelo resto da refeição. Enquanto Alessa e Arissa conversavam entre risinhos sobre os relatos que tinham ouvido do casamento real entre o Rei Joffrey e Margaery Tyrell (deixando à parte o seu sufocante desfecho), Aelor fitou o conteúdo de sua taça de vinho, como se o dourado da Árvore pudesse dar-lhe as respostas que buscava.
Pouco depois, Aelor, Alessa e Arissa se despediram de seu jovem senhor e rumaram para seus próprios aposentos. Arissa gentilmente tomou o braço direito do irmão, ajudando em seu lento claudicar pelo longo corredor. Ao chegar na porta do quarto de Aelor, Arissa o beijou na testa e se despediu.
– Tenha uma boa noite, irmão.
Ele acariciou os longos cabelos dourados de Arissa e a deixou ir, sumindo no corredor escuro.
Quando Aelor entrou em seu quarto, deparou-se com o aposento na penumbra; apenas um castiçal com a vela acesa num dos cantos. A lua encoberta pelas nuvens não fornecia iluminação alguma, mesmo com a janela aberta. Mancando, Aelor se aproximou da cama quando um vulto surgiu do canto e agarrou por trás, tapando sua boca com uma mão calejada. Ele pensou em puxar o punhal, mas ao largar a bengala o peso caiu sobre sua perna inerte e ele teria despencado se não fosse amparado por seu agressor.
– Shh! — Ele fez em seu ouvido, e Aelor inesperadamente se acalmou, reconhecendo o hálito e o cheiro salgado das mãos que o seguravam. O estranho o apoiou até a cama e então Aelor pôde ver seu rosto: um rapaz magro, mas com fortes braços de estivador. A pele outrora fora tão clara quanto a dele, mas escurecera, castigada pelo sol. Os cabelos, contudo, eram de um branco pálido, mais claros do que os do próprio Velaryon já que Lysaro viera de Lys, e lá o sangue valiriano também corria forte.
Aelor se apoiou na cama e olhou para o intruso com raiva.
– Pensei que eu havia dito que não poderia vê-lo por uns dias. — Chiou para Lysaro. — O maldito meistre já é inconveniente o suficiente ser ter histórias para levar ao meu primo.
O rapaz liseno se aproximou dele e se ajoelhou.
– Perdoe-me, milorde. Eu apenas não podia esperar mais para vê-lo, sabe que sinto sua falta.
– Sente falta de minha companhia ou de minhas moedas, Lysaro? — Deixou as palavras chicotearem, mas logo se arrependeu ao ver a expressão do outro. Desde que conhecera aquele maldito trabalhador do porto há dois anos, Aelor permitira que a prudência fosse ofuscada pelo desejo, se enredando num jogo perigoso enquanto Sor Vaemond e Lorde Monford estavam vivos. Para o pai, já era vergonhoso ter um filho aleijado. Saber que ele se deitava com um pobre estivador liseno seria uma desonra inimaginável.
A morte dos dois na Água Negra deixara o destino de Aelor livre, e ele agora até se atrevia a encontrar Lysaro dentro de Maré Alta. Contudo, o primo Monterys era uma criança e ele precisava do seu favor, de modo que não seria inteligente permitir que tentassem colocá-lo contra ele.
– Se minha presença não o fizer feliz, posso me retirar, milorde. — O olhar de Lysaro era duro. — Também posso devolver a chave que me deu.
– Não, fique. — Aelor o abraçou, trazendo-o para sua cama. — Desculpe-me, recebi notícias ruins essa noite e acabei descontando em você. Quero-o aqui, você me faz bem.
Lysaro sorriu para ele, seus lábios eram grossos e beijáveis. Para um estivador, Lysaro era extremamente bonito, o que só poderia ser justificado por seu sangue liseno. Mesmo a cicatriz que lhe corria por uma das bochechas, fruto de uma briga numa taberna segundo ele, apenas servia para deixá-lo mais belo. Uma pequena mutilação da qual não posso reclamar, afinal deve ser pior se deitar com um manco.
Eles não precisaram conversar mais. Logo, Aelor retirou as vestes suadas de Lysaro, correndo as mãos por seu peito torneado e pela pele lisa. As costas eram marcadas por cicatrizes de açoite em decorrência dos castigos no cais.
Ele deixou que o estivador o despisse e logo os dois se amaram na penumbra, esforçando-se para fazer silêncio. Naqueles momentos, enquanto se movimentavam unidos, Aelor conseguia se esquecer de sua deformidade. Na cama com Lysaro, ele era um rapaz bonito e desejável, ao invés de um magricela e mau-humorado de cabelos pálidos que precisava de um pedaço de pau para andar.
Quando acabaram, o liseno se virou e logo adormeceu. O dia para ele sempre era cansativo, então era comum estar exausto. Aelor, por sua vez, se recostou nos travesseiros e olhou para o teto, sentindo o suor evaporar da pele. O clima era sempre agradável em Derivamarca e uma brisa fresca entrava pela janela.
Aelor lembrou-se então da antiga glória dos Velaryon, quando eles dominavam os mares sob os Targaryen. Por vezes, até detiveram os céus montados em seus próprios dragões, como Sor Laenor Velaryon e seus supostos filhos com a Princesa Rhaenyra haviam feito. Pensou em Sor Laenor, que perdera seu verdadeiro amor, Sor Joffrey Lonmouth, o Cavaleiro dos Beijos, numa justa e depois se apaixonara pelo pérfido Sor Qarl Correy, que o apunhalara até a morte numa feira na antiga Cidade das Especiarias. Seria Lysandro capaz de fazer o mesmo comigo? Ele se virou para ver o rapaz que dormia ao seu lado e a mera visão de seu sono tranquilo acalmou seu coração.
Se eu tivesse um dragão, como Laenor tivera, poderíamos fugir juntos para o Leste e viver como reis, ou mesmo ir para as Ilhas do Verão onde nenhuma forma de amor é vista com maus-olhos. Se eu tivesse um dragão, minha perna não importaria, já que eu teria asas.
Mas não poderia ser assim. Os dragões não existiam há mais de um século e, mesmo se existissem, os Velaryon atuais não eram tão poderosos quanto haviam sido a ponto de poder possuir um. Sentindo-se levemente melancólico, Aelor se aninhou junto de Lysaro para dormir.
Naquela noite ele teve um sonho, tão intenso quanto os que tinha quando bem criança. No sonho, uma estrela sangrava no céu como o cometa que cortara o horizonte algumas luas antes, enquanto um imenso dragão negro vinha do Leste para Westeros, suas imensas asas deixando Pedra do Dragão e Derivamarca ocultas em sua sombra. No dorso do dragão, uma mulher de cabelos prateados e olhos violeta empunhava uma espada em chamas e convocava seus súditos.
Ele acordou de manhã tranquilamente, confortável sob os lençóis de linho. Lysaro ainda dormia ao seu lado e a luz da alvorada começava a inundar o quarto. Lentamente, esforçando-se para não acordar o outro, Aelor se levantou da cama e buscou sua bengala, mancando até a janela. Voltada para o norte, sua janela dava uma visão privilegiada de toda a ilha. Com cuidado, Aelor se inclinou para a frente e se voltou para a direita, sentindo o calor do sol nascente na pele do seu rosto.
– Talvez esse não seja o fim. — Murmurou ele para a manhã. — Talvez os dragões ainda retornem.
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