Aelin

2 2 Esquecida


Há quase dez anos antes...

O sinal da pré escola tocou e todos se levantaram para sair. Arrumei minhas coisas lentamente deixando que a sala se esvaziasse e eu finalmente ficava só.

Esperei que os passos e as conversas cessassem completamente antes de levantar de meu lugar e seguir para fora. Não havia mais ninguém na escola, e eu pude respirar tranqüila pela primeira vez no dia. Caminhei com passos rápidos em direção a saída da escola e em seguida peguei o caminho de minha casa.

Eu sempre caminhava sozinha para casa, não tinha amigos e colegas naquele lugar. A vida era muito melhor quando eu tinha aulas em casa, com meu avô. Não precisava lidar com professores e colegas de sala que me tratavam como se eu fosse um inseto.

A verdade é que isso não era uma novidade, ser tratada como se fosse lixo, como se fosse nada. Eu estava acostumada, afinal desde que nasci essa era a minha realidade. Eu nunca entendi o porquê era odiada e excluída pelas pessoas da cidade de Adarlan. E meu avô, o único que não me olhava com desprezo, se negava a me contar o motivo.

Então decidi superar isso e seguir em frente tentando não me importar com o que as pessoas pensavam sobre mim. Eu tinha o meu avô e isso era o suficiente. Não precisava de mais ninguém.

Mas na escola era difícil não me importar quando a repulsa das outras crianças era tão nítida. Só que eles mantinham a distância e sempre que podiam me ignoravam. Mas havia um garoto que era diferente dos outros. Ele e seu grupo de amigos sempre me olhavam com ódio profundo e quando não havia nenhum adulto por perto, me xingavam e jogavam coisas em mim. Um sapato, uma bola e até mesmo comida. E ninguém nunca me ajudava ou me defendia. Eu tinha tentado contar ao Ancião responsável pela escola, mas eu mal tinha terminado de falar quando ele me expulsou de seu escritório. Então foi ai que eu soube que não podia contar com a ajuda de ninguém, eu tinha que me virar sozinha e me manter escondida do grupo de garotos sempre que pudesse.

Estava quase chegando a minha casa quando decidi seguir pelo o atalho de sempre pela floresta de carvalhal.

A floresta rodeava a parte norte da cidade de Adarlan e era vasta e muito bela. Era o meu local favorito no mundo, o único lugar onde não havia ninguém para me olhar com desprezo ou me importunar. Eu costumava passar horas andando pela floresta, conhecia cada caminho, cada curva, cada rio e cachoeira, sabia quando alguma pedra estava fora do lugar. Era tão silencioso e tranqüilo, me fazia sentir uma paz tão grande que eu odiava quando a noite chegava e tinha que retornar a minha casa.

Caminhei pela parte da floresta que ficava próxima aos fundos de minha casa, mas parei quando me aproximei do quintal e percebi os quatro garotos me esperando.

ϞϞ

Eu não me lembrava mais de seus nomes depois de todos esses anos, mas seus rostos sempre assombravam meus sonhos.

Conforme eu entrava no quintal, percebi que havia um clima estranho entre os garotos que me esperavam. Sabe aquele vento que precede a chegada de uma tempestade? Então. Eu pude sentir no ar quais eram as intenções deles.

O Garoto mais alto e de cabelos loiros sorriu pra mim, um sorriso frio e cheio de malicia. Os outros também sorriram enquanto me observavam sair da floresta.

— Você demorou Galathynius, não foi educado da sua parte nos fazer esperar. — disse o loiro. Ele mantinha a mão direita escondida às costas, mas eu podia ver que segurava algo longo e afiado.

Meu sangue ferveu. Eu estava farta daquela situação, farta daquela cidade, daquelas pessoas que tanto me desprezavam. E principalmente daqueles garotos que há meses me perseguiam. Fechei minhas mãos em punhos, dessa vez eu iria revidar e eles finalmente iam me deixar em paz.

Quando não respondi, os outros garotos riram e se aproximaram de mim alguns passos.

Eu sabia o que ia acontecer quando entrei naquele quintal, sabia que meu avô não estava em casa e sabia que mesmo que gritasse ninguém viria me socorrer. Então fiz algo que nunca tinha feito antes: comecei a rezar.

Fechei meus olhos e rezei aos céus, ao vento e a água pedindo forças e coragem. Eu era uma e eles quatro. Era pequena e fraca. Eu não sairia daquele quintal viva. E além de meu avô, mais ninguém se importaria com a minha morte naquele lugar.

Não percebi quando o primeiro golpe veio, só senti algo afiado cortando meu rosto e o sangue começou a escorrer por minha bochecha. Abri meus olhos e vi o garoto loiro sorrindo para mim enquanto segurava um galho de arvore de tamanho médio, mas com a ponta afiada como uma lança.

Olhei em seus olhos azuis e perguntei:

— O que eu fiz para você?

Ele respondeu ainda sorrindo:

— Você nasceu.

Algo em mim se remexeu e eu senti minha temperatura abaixar, uma raiva que nunca tinha sentido antes se apoderou do meu corpo. Era tão forte e primitiva que ia me quebrar ao meio se eu não colocasse pra fora. Eu comecei a tremer cada vez mais forte até que os garotos começaram a rir, achando que eu estava com medo.

O garoto loiro ajeitou o galho em suas mãos, olhou para minha barriga e começou a vir rápido em minha direção.

Foi quando eu explodi.

Não me lembro o que aconteceu, só me lembro de acordar e olhar os quatro garotos caídos no quintal de meu avô. Estavam todos mortos. Seus rostos tinham uma expressão fixa de terror, e seus olhos estavam vidrados em direção ao céu.

Fiquei sentada tentando entender o que eu tinha feito, quando vozes se aproximaram dos fundos da casa.

Duas moças apareceram no quintal e pararam quando viram os corpos. Olharam para mim com expressões idênticas de choque antes de começarem a gritar.

ϞϞ

Não demorou para os guardas de Adarlan chegarem e me prender. Eu estava entorpecida, não sentia minhas pernas e não conseguia falar. Tinha pensado em correr e nunca mais parar até chegar à costa. Mas meu corpo não me respondia. E eu só pude observar enquanto era levada para a carruagem da guarda e de lá para uma cela no quartel general.

Me lembro vagamente que um soldado tentou me interrogar mas ainda não conseguia formar frases completas. Então fui deixada sozinha em uma cela.

Algum tempo depois meu avô chegou e me abraçou. Seu abraço foi como um remédio, e eu senti que finalmente recobrava o controle sobre meu corpo e minha voz.

— Oi vovô. — eu falei com a voz rouca.

— Minha pequena Aelin — disse ele em um tom triste. — O que você fez?

— Eu não me lembro vovô. — comecei a chorar.

— Estão dizendo que você matou aqueles garotos querida. Precisa me dizer o que aconteceu.

— Eles iam me machucar vovô, eu só me defendi. — enxuguei minhas lagrimas na manga da blusa.

— E como você se defendeu querida? O que você fez? — ele segurou meu rosto me forçando a olhar pra ele.

— Eu te juro que não sei, em um momento eles estavam lá e no outro tinham morrido.

Meu avô me observou por um momento, ele me conhecia como ninguém. Sabia quando eu mentia e quando falava a verdade. E ali sentado naquela cela comigo, ele soube que eu dizia a verdade e isso era mil vezes pior que uma mentira. Eu tinha matado pessoas e nem sabia como.

Ele se levantou e ainda segurando minha mão disse:

— Eu vou dar um jeito nisso Aelin, me espere aqui.

ϞϞ

Acontece que ele não deu um jeito. Não tinha como me salvar. A cidade estava implorando vingança pela morte dos garotos, todos queriam a minha cabeça.

O conselho se reuniu para decidir o que fazer comigo. A pena por assassinato era execução em praça pública e a maioria votou a favor disso. Mas como meu avô era um membro do conselho, pode interceder por mim. E o que ele disse naquela reunião salvou minha vida patética.

Quando meu avô veio até mim naquela cela e disse que eu viveria, eu chorei de felicidade e o agradeci. Afinal eu nem imaginava o que me esperava.

Se eu tivesse a mínima ideia de como seria os meus próximos dez anos, com certeza eu teria escolhido a execução. Sem pensar duas vezes.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.