Adão e Eva, numa galáxia distante
1 Cap. 1. O nascimento de Evita
Notas iniciais
Em seguida Dina recebeu sua recém-nascida. Evita, faminta como nunca, mamou gulosamente, até que caiu no sono.
Ao raiar do Sol, Dina dormia com Evita numa rede, outras mulheres dormiam sentadas, enquanto João bebia as últimas bebidas com os amigos mais íntimos, todos eles abraçados, cantando com vozes de bêbados.
Quando o último festeiro foi embora, só então foram para a suíte. As outras filhas já estavam na casa dos avós, para que eles tivessem um reencontro de amor longo, como era o costume dessa sociedade fantástica.
Nos dias seguintes, enquanto mãe e filha flutuavam, nadavam, ou mergulhavam na piscina térmica da sala, num divertimento sem fim, João, o melhor cozinheiro de Atalanta, preparava banquetes gastronômicos para sua mulher. No primeiro dia ele fez uma sopa de ossos, pois os ossos eram a maior fonte de vitaminas e proteínas nessa sociedade vegetariana. João os fez ferver, acrescentou ervas aromáticas, em seguida adicionou cebolas em rodelas, cenoura ralada, pimentão, três dentes de alhos, farinha de arroz para engrossar e três ovos de galinha bem batidos. Para acompanhar a sopa, ele cozinhou um prato à base de cogumelos, verduras, molho de soja, acompanhado de um purê de maçã e arroz com açafrão. De sobremesa ele completou com uma torta de bolachas com cremes, que Dina adorava, decorou com frutas para dar um toque artístico e colocou tudo numa mesinha com rodas.
O
dia começou alvoroçado na cidade de Atalanta.
João e Dina estavam gritando, através da telepatia, em todas as direções, e para quem quisesse ouvir, que a quarta filha deles estava para nascer e que eles encontravam-se correndo pelas ruas com toda pressa possível.
As outras filhas do casal, Mariuska, Joana e Thatiane, fazia tempo que se acotovelavam com seus amigos na parte subterrânea do aquário desse hospital. Através de um grosso vidro, admiravam as criaturas aquáticas de cores reluzentes e extasiantes. Principalmente os peixes comedores de placenta que entretinham a gurizada com suas piruetas. Enquanto os meninos se divertiam, um médico parteiro e três enfermeiras arrumaram uma cama de areia, nas profundezas desse aquário, empolgados com aquele momento tão sagrado que é a reprodução da espécie humana.
Quando João chegou naquele hospital, ele pulou na água com Dina nos braços e nadou com ela a procura da equipe médica. Ele deitou-se nas areias macias, e em seguida Dina recostou-se por cima dele, sendo abraçada com firmeza pelo marido na altura da cintura. Depois entreabriu as pernas, dobrou-as levemente, e empurrou com toda força. O médico recebeu a recém-nascida carinhosamente, cortou o cordão umbilical e depois passou o bebê para uma parteira. A médica nadou com a criança nos braços até a superfície, no instante em que a gurizada atrás das vidraças corria escadas acima barulhentamente, dispostas a enfiar a cara na beira desse aquário e alguns deles determinado entrar na água.
Quando Dina e João apareceram para respirar, suas outras filhas nadaram até eles para abraçá-los, dar-lhes muitos beijos, enquanto o bebê olhava tudo com curiosidade. Dina tomou sua criança recém-nascida nos braços, e voltou com ela para as profundidades, rodeada das filhas e seus amiguinhos. Saíram para respirar, voltaram a imergir e só desistiram dos mergulhos depois que a menina nadava sozinha em meio a guris desordeiros, e quando o médico gritou para todos que Dina precisava descansar.
João, que nos partos anteriores não obedecera aos conselhos médicos de abstinência sexual, foi castigado desta vez pelo parteiro chefe dessa clínica. Ele internou Dina, sem pedir licença à família, para mantê-la longe do sedutor. Além do que, era o quarto parto dela, seu útero estava muito dilatado, e em casos como esse era mais sábio deixar que a natureza reagisse por si só. Sentou mãe e filha numa cadeira de passeio e levou-as até um cômodo. Sete cores brilhavam ali dentro, como um arco-íris, e duas camas flutuavam uma ao lado da outra. O médico pôs um dedo na testa do bebê, para fazê-lo dormir durante 7 horas, e depois repetiu a ação com a mãe. Ao João e a turma de adolescentes baderneiros colocou-os fora desse hospital, pois estavam pingando água e molhando, sem dó, o tapete alto e felpudo.
Nos dias seguintes, Dina adorou sua internação.
Levantava cedo pelas manhãs para cair numa piscina baixinha com sua menina, pois ela nadava como um peixinho. A recém-nascida continha a respiração e mexia as nádegas com graça cruzando o espaço. E depois mamava agarrada na mãe. A cada dia ela ficava mais gordinha e mais tostada pelo sol matinal. Dina também deitava numa cadeira que flutuava sobre a água, com um biquíni bem fino, onde ambas cochilavam. Voltavam para a suíte ao meio dia a comer um banquete trazido pelo robô-enfermeiro. Após o almoço, as enfermeiras colocavam absorventes internos na mãe, para o sangramento, e o bebê era embrulhado em lençóis de papel macio, próprios para recém-nascidos. Em seguida, acendiam luzes cor de rosa para ambas dormirem a sesta.
Assim que a família invadia esse hospital, Dina vestia uma bata semitransparente, colocava chinelos no pé, enquanto sua filhinha era transformada em princesa, com roupinhas lindas que as irmãs traziam das lojas, como se ela fosse uma grande boneca viva.
João, morrendo de saudades da mulher, sentava numa poltrona com ela, beijando-lhe a boca, pescoço, sem poder fazer mais nada, pois o parteiro estava de olho nele. Depois recebia seu bebê nos braços, sem saber qual de todas suas mulheres era a mais linda e a mais amada, pois todas eram seu maior orgulho nesta vida.
No grande Espelho do templo, um Sacerdote Estelar de Atalanta descobriu finalmente o nome das vidas anteriores da quarta filha de João. Ele chamou-o em onda telepática, dizendo-lhe que a criança deveria ser nomeada Evita, conforme o costume de todos os Mundos Superiores, que viajavam ao passado em busca de sua história.
O dia em que mãe e filha saíram daquele hospital, João apareceu sozinho, assobiando alegremente, enquanto as outras meninas preparavam o jantar em casa. Carregou sua mulher no colo, enquanto a criança dormia nos braços dela. Uma vez no carro, João conduziu pela rua vagarosamente. Cada vez que um amigo cruzava-lhes o caminho, detinha o trajeto, pois eles corriam a abraçá-los, com flores e presentes nas mãos. João imediatamente convidava todo mundo para ir a sua casa para uma “festa improvisada”. Como Dina era integrante do coro, o pessoal topava na hora, ali mesmo, no meio do caminho, organizando a maior farra da cidade, que terminaria no dia seguinte, quando raiasse o Sol sob o céu matinal. Dina fazia cálculos mentais rápidos, pois seriam mais ou menos uns 200 indivíduos bagunçando seu lar. Depois olhava para o marido, olhos brilhando de felicidade, e entendia que teria que ser assim mesmo. Ele estava radiante e lindo, como nunca fora.
E a festança foi mesmo apoteótica.
Dina cantou varias canções clássicas, onde mostrou toda a beleza de sua voz de soprano alto. Suas amigas do coro entoaram canções mais românticas, enquanto João e os machos improvisavam com os instrumentos, para acompanhar às esposas. Depois Mariuska, Thatiane e Joana dançaram balé clássico, os seus amigos também deram pulos no ar, e quando não havia mais ninguém querendo mostrar o talento, João colocou um toca-fitas com músicas para dançar. No centro dos jardins, a festa se alastrou, iluminada pelo brilho das Luas desde o céu.
Horas mais tarde, abraçado na sua mulher numa dança suave, João pouco a pouco foi saindo da roda de amigos, se afastando em meio de sua grande fazenda agrícola, caminhando com sua mulher no meio das colheitas, e assim que chegaram à casinha do Processador de fezes, abriu a porta e empurrou-a para dentro.
O Processador de fezes era uma edificação no meio de um sítio, que possuía uma mesa com folhas, as quais desidratavam lentamente com a luz solar que entrava através do teto transparente. Mais além, estavam no chão as frutas podres caídas das árvores, embaixo de uma luz roxa, que além de secá-las tirava-lhes o cheiro da podridão. Dina, atracada contra a porta, abriu seu vestido e fizeram amor. Quando não aguentou mais a tontura, pediu para marido levá-la de volta para a festa.
— Primeiro me deixe examiná-la... Acho que você está grávida de novo...
— Amor, esse médico vai surrar você...
— Também acho... Mas juro que depois desta quinta filha, eu vou ficar estéril... Juro...
— Filha? E quando é que eu vou ter o meu rapaz?
— Você quer ter um garotinho igual a mim?
— Igual!
— Então eu vou dar-lhe vários... Quantos filhos vai querer ter, meu amor?
— Vinte...
— Amor, eu acho que esse parteiro vai mesmo me dar uma bronca! Vou massagear seus peitos, pois Eva está com fome...
Dina chegou à festa radiante, beijando seu homem com o rosto iluminado pelo amor, enquanto os amigos em redor riam e faziam piadas. Ele não respeitara o resguardo. A maioria falava que João ia ser surrado nesse hospital.
Em seguida Dina recebeu sua recém-nascida. Evita, faminta como nunca, mamou gulosamente, até que caiu no sono.
Ao raiar do Sol, Dina dormia com Eva numa rede, outras mulheres dormiam sentadas, enquanto João bebia as últimas bebidas com os amigos mais íntimos, todos eles abraçados, cantando com vozes de bêbados.
Quando o último festeiro foi embora, só então foram para a suíte. As outras filhas já estavam na casa dos avós, para que eles tivessem um reencontro de amor longo, como era o costume dessa sociedade fantástica.
Nos dias seguintes, enquanto mãe e filha flutuavam, nadavam, ou mergulhavam na piscina térmica da sala, num divertimento sem fim, João, o melhor cozinheiro de Atalanta, preparava banquetes gastronômicos para sua mulher. No primeiro dia ele fez uma sopa de ossos, pois os ossos eram a maior fonte de vitaminas e proteínas nessa sociedade vegetariana. João os fez ferver, acrescentou ervas aromáticas, em seguida adicionou cebolas em rodelas, cenoura ralada, pimentão, três dentes de alhos, farinha de arroz para engrossar e três ovos de galinha bem batidos. Para acompanhar a sopa, ele cozinhou um prato à base de cogumelos, verduras, molho de soja, acompanhado de um purê de maçã e arroz com açafrão. De sobremesa ele completou com uma torta de bolachas com cremes, que Dina adorava, decorou com frutas para dar um toque artístico e colocou tudo numa mesinha com rodas. Entrou na sala bem em tempo delas saírem da água. Evita mamou e adormeceu imediatamente. João então lhe colocou um dedo na testa para que dormisse 4 horas seguidas. Depois sentou sua mulher no colo, de frente, e deram a primeira garfada. Esvaziaram os pratos com ânsia. E, em seguida, rolaram sobre as grandes almofadas macias, para um namoro sem fim. Quando Evita abriu os olhos, grudou a boca nos seios cheios de leite durante uma hora, e dormiu de novo hipnotizada pelo pai. Um robô trocou sua roupa descartável, enquanto sua mãe ficava beijava seu homem.
A maratona de amor foi interrompida, quando as filhas voltaram, pois as três estavam morrendo de saudades da caçulinha Evita. Elas correram a abraçar a mãe, beijar o pai, e pegar a irmãzinha para levá-la a um passeio pelos jardins.
Mas como em Atalanta todos os homens eram paranormais, o parteiro chamou Dina, telepaticamente, para exame médico, durante esses dias de amor sem fim.
João convidou vários amigos para ir junto com ele ao hospital, rindo, alegando que o médico não teria coragem de surrá-lo acompanhado de guarda-costas. Mesmo assim, ele ganhou uma injeção no baço, que o enviou ao mundo dos sonhos. Também passou por uma cirurgia de esterilidade, pois engravidar uma mulher em época de resguardo médico era uma falta grave em Atalanta.
A casa de Dina e João possuía sugadores de pó, umidade, e cheiros desagradáveis, dentro de paredes grossas, em vários cantos próximos ao chão. Também tinha irrigador automático, que se acionava sozinho cada vez que uma planta precisava de água. As samambaias eram regadas duas vezes por semana. Já os cactos recebiam água uma vez em cada ciclo Lunar. As flores, que as havia em todo canto, os robôs as regavam com delicadeza, conforme a necessidade de cada uma. Dessa maneira a casa de Dina era uma floresta dentro e fora dela. Hortênsias azuis misturavam-se às rosas vermelhas, aos cravos brancos, aromatizando a casa com seu cheiro extasiante.
Os pequenos robôs tiravam cedo o leite da bicharada e depois eles mesmos preparavam a manteiga, o queijo e o creme. O leite para as sobremesas, sorvetes, e pão, submetiam-no à pasteurização, a secagem e armazenamento, tudo em frascos de vidros. Também percorriam a fazenda palmo a palmo recolhendo frutas frescas, verduras, ovos dos bichos, que viviam na estância livremente, entrando e saindo atraídos pelas comidas dos humanos. Aliás, os animais sabiam que alimentar os homens era um dever e uma troca justa. As vacas, os zebus, as gazelas, as cabras e os carneiros comiam das colheitas tanto quanto os homens, e davam o leite para eles sem reclamar. As galinhas, os gansos e os marrecos tinham milho farto, cultivado e espalhado pelos robôs, e em troca eles deixavam seus ninhos com ovos ao alcance de todos.
Depois que os robôs terminavam de acumular os suprimentos, João carregava seu caminhão. Em seguida distribuía as frutas, os legumes, o leite e os ovos nos supermercados de Atalanta, colocando-os em prateleiras bem bonitinhas. Afinal, nessa sociedade todos os homens compartilhavam o que possuíam, num comércio de troca.
Além de suprir os supermercados com produtos agrícolas, havia também as tarefas domésticas que João e Dina adoravam fazer por prazer. Ele amava se enfiar na cozinha a preparar banquetes para a família e os amigos em festas que não tinham fim. Dina gostava de lavar as roupas esfregadas com a mão, suavemente, com sabão de coco feito pelos seus robôs inteligentes. As filhas costumavam ajudar ambos, tagarelando ao lado deles as novidades do dia a dia.
Poluir a terra em Atalanta era um crime contra a humanidade.
Por esse motivo, o lixo doméstico que não podia ser reciclado, nem transformado em estrume natural, era desintegrado no fim do dia. Fraldas de crianças, toalhas higiênicas, estrume inútil, bichos mortos e podres, móveis de madeira infestados de cupim, cerâmicas quebradas, vidros estilhaçados, tudo isso era apagado por um olhar demolidor.
Joana desintegrou sua primeira montanha de lixo com dois anos de idade, Mariuska com um, Tathiane com dois anos e meio, e Evita com três meses. Dina, com ela no colo, perdera a fala e até a respiração, pois ela mal sabia falar papai e mamãe. Isso a definia como um gênio que estava nascendo. Dina teve que ensinar-lhe o que ela podia, e o que não podia desintegrar, antes dela sequer aprender a falar.
No dia em que Aninha nasceu, Evita caminhava, cantava, dançava com as irmãs, desintegrava a sopa com prato e tudo, e os robôs evitavam circular ao redor dela. No grande Aquário do hospital de Atalanta, Evita mergulhou ao encontro de sua irmã, nadando ao lado da recém-nascida, sem respirar, mais ou menos durante 150 batidas do coração seguidas. O maior recorde de Atalanta em meninas com nove meses.
Dina ficou no hospital durante um mês desta vez, para desgraça e desespero do marido. Evita ficou internada numa sala especial, com robô-babá, que cuidou dela em tempo integral. Também a mãe ganhou cirurgia interna, pois seus partos seguidos haviam-na dilatado além do normal, foi submetida a banhos quentes para derreter gorduras na barriga e na cintura, massagem para endurecer os músculos e uma dieta rigorosa para recuperar-se da fraqueza da gravidez e da desnutrição geral. Enquanto a mãe era cuidada com zelo pela equipe médica, Evita e Aninha, aos cuidados de duas enfermeiras e dois robôs-babá, boiaram na piscina de manhã e de tarde, todos os dias.
No dia em que Dina regressou para casa, um robô-babá foi junto, pois cuidar de duas meninas ia ser difícil. Mesmo assim, elas não escaparam da festa em casa com todos os amigos, os avôs, os vizinhos, que lotaram a fazenda até o raiar do Sol do dia seguinte.
A lua de mel do casal foi diferente desta vez.
As filhas mais velhas eram levadas para Escolinha cedo, pelo pai, e quando regressava em casa ajudava cuidar de Evita, enquanto Dina dava de mamar para Aninha. Depois João as hipnotizava as duas, por 4 horas, e rolava com sua mulher em qualquer canto dessa casa.
Depois do almoço faziam amor novamente, até o entardecer, quando João saía correndo a buscar as filhas, e Dina saía de passeio com as pequenas ao jardim.
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