Adão e Eva, do inferno ao paraíso, Segunda parte
12 A escolha do sacerdote (continuação)
Notas iniciais
Adão olhou para os filhos de Amon-rá, todos em redor da mesa, e lhes perguntou:
— E vocês não vão escrever o nome de seu pai na urna?
Rubinho respondeu:
— Mas o pai não faz nada de nada... Fica o dia todo embaixo das parreiras, comendo uvas... Eu e meus manos limpamos os pôneis, recolhemos os legumes para o almoço, e juntamos as folhas secas...
Jorge falou em seguida:
— E ele só abre a boca! Porque quem tira as uvas das parreiras, lava as uvas, é a mãe! Ela coloca na boquinha dele um grãozinho, depois dá um beijinho... Much, mum, hum...
Jesus e Paulo riam às gargalhadas, pois o guri era engraçado. Imitava os beijos com barulhos e mímicas, e o irmão Amon-rá era mesmo um vagabundo...
Adão voltou à carga:
— Mas não é isso que interessa a “00”! Ele vai ver se o sujeito ama os filhos, ama a família, seus bichinhos, ama a povoação e o que é que ele faria pelas pessoas...
Julia, a menina de cabelos vermelhos, perguntou:
— Fala, pai, o que é que tu ias fazer pelo povo, se fosses escolhido?
— Bem... Eu mudaria o ensino! Na Escolinha infantil, colocaria duas matérias muito importantes, primeiro seria derrubador de cana de açúcar, segundo lugar catador de batatas, e sobre a licença da paternidade eu a mudaria para 20 anos...
Desta vez, Stanislav riu junto de todos os homens. Esse cunhado era um cara de pau. Dos maiores. Só fazia uma escultorinha de vez em quando, e jamais entrara no mato a ver bicho algum. Vivia na vida mansa.
Patrícia, a filha morena falou para Adão:
— Tá vendo, avô? Tá vendo? O pai não tem conserto...
Depois mudaram as conversas, sempre dando gargalhadas, pois os filhos de Adão eram de alma leve, de risos fáceis, faziam piadas, e Eva gracejava alto de todas as palhaçadas.
E o grande dia aconteceu.
Primeiro chegou à Lua um envelope vindo numa cápsula desde o mundo “B de ALPHA” lacrado, que foi aberto em frente de uma câmera de televisão. Como todas as cidades olhavam TV nas praças, um médico da Lua abriu o envelope, e falou bem alto: O escolhido é: — Amon-rá, filho de Adão, neto de João...
João chorou em público, abraçado a Dina. Amon-rá era seu neto preferido. João o adorava desde que nascera. Enquanto isso todos os amigos de Adão e de seus filhos se mexeram em busca de Amon-rá, que estava sentado num banquinho, com Julia no colo, e os outros quatro filhos sentados em redor.
Adão abraçou seu filho em primeiro lugar e lhe disse: — Você mereceu, não se esqueça disso... Eva lhe deu um beijo, e Noemi se abraçou nele eufórica, pois era incrível. Ela seria algo assim como a rainha de “Z”. E ainda meio aturdido, Amon-rá foi abraçado pela cidade inteira, pois era um orgulho para todos os cidadãos que o escolhido fosse daquela cidade. Seus quíntuplos riam felizes, e recebiam as felicitações dos amigos da Escolinha. Mas não entendiam ainda o porquê é que seu pai fora indicado.
Depois chegou o Prefeito Alain, com o prêmio surpresa para o único homem que votou nele: — Adão. Ele havia colocado o nome de seu garoto, sem contar para ninguém. Adão recebeu um carro para duas pessoas, movido com motor de água. O primeiro carro inventado nesse mundo, guardado em segredo para esse dia.
Adão subiu no carro, examinou o volante, as marchas, os freios, mas deixou o aprendizado para outra ocasião.
E como Alain havia preparado mais um banquete na Prefeitura, quem conseguiu entrar no lugar se preparou para escutar o primeiro discurso do primeiro Sacerdote Estelar desse planeta.
Como Amon-rá estava sem palavras, Adão apresentou um resumo de suas vidas anteriores. Contou que uma vez, milênios estelares atrás, seu filho saíra de Atalanta junto com ele numa missão, com 5 anos de idade, e que com oito anos ele já era o Rei do Egito na Terra. Uma cidade, onde poucas pessoas sabiam ler e escrever. Durante dez anos, ele governara esse país, deixando-o rico. Depois viajara para outro mundo, ao encontro de Ana e Nestor, onde cuidara desse planeta durante 2.000 anos, livrando-o de uma invasão de assassinos. Também falou de Eva e de Peter, que lutaram contra esses invasores.
Durante todo esse discurso, as pessoas interrompiam falando: — Oooooo... ou às vezes — Uauuuuu... Sinais de surpresa, pois ninguém nessa cidade fazia ideia de que existisse a maldade em outras partes do Universo.
Três dias depois, Amon-rá teve que ir ao templo receber sua medalha. Quem o levou foi o Prefeito Alain, num caminhão, na parte dianteira, pois na parte posterior viajavam 20 pessoas num espaço aberto. Adão e Eva, sozinhos em seu carro viajavam atrás, como crianças com um brinquedo novo. O resto do povo foi de carruagem, ou a cavalo.
Infelizmente, dentro da pirâmide, só podiam entrar o Sacerdote e sua esposa.
Uma porta se fechou, assim que eles entraram no interior do templo. Um caminho iluminado se formou dentro dele como luzes, e eles caminharam de mãos dadas, até chegar defronte ao espelho, onde o Universo se manifestava como numa tela de cinema. Pouco a pouco a imagem de “00” e sua esposa apareceram.
Era um casal bem parecido com eles mesmos.
Ele estendeu um braço e lhe entregou um medalhão que se solidificou nas mãos de Amon-rá. Ela estendeu um colar de pérolas que também se materializou. Depois a mulher lhes lançou um beijo no ar com a mão, e deixou que “00” falasse com telepatia algumas palavras:
— Filho, eu não vou fazê-lo trabalhar, não vai ficar assustado... Só gostaria que ampliasse o sucesso das missões estelares. Existem em cada Galáxia pelo menos três mundos selvagens em extinção. Animais que vão morrer sem deixar sequer um casalzinho para continuar a espécie. Use e abuse de seu poder. Peça ajuda aos Espiões de “E de ALPHA”, para que os procurem, encontrem, e lhe deem o endereço universal. O sucesso de Nestor tem sido uma inspiração para mim... Você não imagina o que vai ser esse mundo aquático, graças ao trabalho de todos vocês... Salvaram uma espécie. Eu apenas peço que salvem outras. E você não vai fazer nada. Pode continuar comendo suas uvas... E fale para seu pai que suas férias estão acabando...
Depois as duas imagens desapareceram, acenando com as mãos, com “00” rindo às gargalhadas, sem parar.
Noemi começou a rir junto. Eva já lhe havia contado que “00” era um zombeteiro. Acenou para eles e lhes fez um sinal com a mão, levantando o dedão, que significa legal. A mulher no outro lado respondeu-lhe da mesma maneira.
Só então Noemi percebeu que seu macho estava chorando que nem bebezinho. Ajudou-o a colocar seu lindo medalhão no peito com a imagem de “00”, e ela colocou seu lindo colar de pérolas. Limpou-lhe as lágrimas, beijou, e saíram abraçados para enfrentar a multidão.
Durante muitos anos a vida de “Z” não teve grandes mudanças.
Como Sacerdote, Amon-rá explicava para os Prefeitos que ele não ia mudar nada, pois o trabalho de todas as Prefeituras era impecável. Podiam continuar a fazer tudo como sempre fora, pois, seus problemas estavam além desse mundo. Mostrava para eles mapas estelares, com milhões de Galáxias, algumas bem perto, onde dava para ir e voltar salvando espécies, em viagens curtas. Mas havia outras que ficavam tão longe, que um veterinário não teria tempo de regressar. E não se podia obrigar ninguém a morrer. Seriam missões para veterinários muito velhos, que quisessem falecer em outro mundo. Eles não poderiam retornar. Seria uma excursão sem volta. Mas ainda havia viagens tão longas, que se necessitava de gente jovem, mas que morreriam da mesma maneira. Podiam se congelar, mas nem sempre. Havia que controlar as rotas, examinar constelações, mudar rumos, tarefas que se fazia acordados.
Os Prefeitos começaram a estudar as listas, e as colocaram no exterior das Prefeituras com dizeres que falavam: — Missão de mil anos... ou, — Missão de 5.000 anos. E marcavam uma linha para que voluntários escrevessem seus nomes. Mas só podiam se inscrever veterinários formados, e com experiência prática.
E pouco a pouco, os encargos começaram a acontecer, com casais que viajavam com seus filhos adultos, ou seus amigos, para levar de volta uma espécie para algum lugar, ou, despontar para o espaço a trazer um grupo de bichos moribundos.
Dali para frente, ver naves gigantes que pousavam na Lua de “Z”, foi rotineiro. Elas sempre chegavam equipadas com pilotos experientes de outros mundos, robôs, e muitas mordomias, pois o único trabalho dos veterinários era cuidar da bicharada nessas viagens de resgates.
E o tempo, mais uma vez, transcorreu na doce rotina.
Quando Nestor regressou de sua viagem ao mundo aquático, ele o fez como herói.
Xixim os deixou cair em meio da praça da cidade através de um raio branco, que os desceu levitando lentamente. Depois, a nave desapareceu como mágica. As pessoas saíram de casa correndo, para abraçá-los, perguntar pelos sereios, e Nestor para evitar discursos pediu para um Estagiário colocar na televisão um filme com todos os detalhes dessa viagem.
Adão se abraçou nele emocionado, e Ana cingiu Eva, bem forte, contando que Sílvio os abandonara. Mas que um dia chegaria a visitá-los, como Vendedor espacial. Mostrou as fotos de seus netos recém-nascidos, assoando o nariz, pois não conseguia se conformar com a separação deles. Eles eram tão lindos. Eva deixou as lágrimas para depois. Olhou o álbum de fotos, sentada num banquinho dessa praça, onde o turbilhão de gente não parava de aumentar. O regresso de Nestor havia acordado essa cidade.
Depois chegaram Dina e João, que sentaram junto às filhas, para olhar as fotos choramingando para valer. Pareciam chorões profissionais.
Quando a gangue chegou, as lágrimas pararam, pois, os machos caíram por cima do herói Nestor sem nenhum respeito. Piadas, golpes de Box, suaves, tapas na bunda, abraços brutos, pois eles eram assim mesmo. Enquanto isso, a mulherada da gangue gritava olhando a televisão, pois nela estavam aparecendo às primeiras imagens do mundo dos sereios, com um mar magnífico, cidades submersas, e animais desconhecidos. Cada vez que a câmera enfocava uma baleia gigante, as pessoas faziam: — UUAAUUUUU... em coro. Alguns aplaudiam. Era uma gritaria geral.
Mas quando Adão perdeu a fala, e quase se esquece de respirar, foi quando Moisés Beto apareceu falando para ele. Rama, ao seu lado, paralisara de assombro. Seu amigo Moisés Beto lembrava-se dele como Zaratustra! Nossa! Foi quando Adão e Rama deixaram escorregar as lágrimas, pois o passado os pegou de surpresa. Durante anos Rama fora o líder mais amado na Terra com o nome de Zaratustra. Suas filosofias cruzaram os milênios e seu nome ficara na história desse mundo para sempre. E agora, Moisés lembrava-o de tudo isso.
Depois foram Diana e Aruma, que ficaram com olhos bem abertos, incrédulos, pois Xixim e Geninho acenavam para eles, chamando-os pelos nomes. Enquanto isso Aruma Júnior viu seus primos gêmeos Adão Júnior e Moisés, e chorou abraçado em Maria, que nem guri. Eles haviam sido como irmãos na encarnação anterior. E descrevia para ela a viagem atrás de seus pais, e de como se suicidaram abraçados, pois eram solteiros loucos, em busca do amor. Depois lhe contou que Adão Júnior e Moisés encontraram o amor nas gêmeas, mas que ele havia sido um eterno solitário, até o dia que nasceu nesse mundo maravilhoso.
Como estava chorando, Maria zelou-lhe muitos beijos. E continuaram a olhar a televisão, pois os gêmeos apareciam na tela a todo o momento.
O Sacerdote estelar Amon-rá tentou conter a sua emoção.
Lacrimejou com sutileza ao ver Abel, mais uma vez levando sua genialidade em engenharia para algum lugar do Cosmos. Peter e Fernando Júnior sorriram, abraçados às esposas. Lembraram-se da Terra, dos dias em Atlântida, do terremoto, de tantas coisas vividas. A Terra sempre ocuparia um lugar especial nas lembranças de todos eles, e quem sabe, um dia regressariam lá, numa outra missão estelar, quando nascessem em outro mundo superior.
Quando o documentário acabou, o Prefeito Alain teve que colocá-lo mais uma vez, pois a galera ensurdecida queria repetir a visão encantada desse outro mundo, do interior dessa nave, e principalmente das roupas das mulheres navegadoras. Essas mulheres de outro mundo vestiam coisas que não estavam em nenhuma lojinha dessa cidade, e as costureiras queriam copiar.
Tarde da noite, as pessoas regressaram para casa.
Nestor e a gangue, junto ao Prefeito, ficaram mais um pouco na cidade, bebendo sucos, comendo petiscos, pois Alain pediu para trazer às pressas para seus amigos. Amon-rá explicava para seu tio e seus irmãos tudo sobre seu governo como sacerdote estelar. Alain contava das outras viagens que se estavam realizando, e, pouco a pouco, Nestor e seus filhos perceberam o quanto esse planeta havia mudado. Agora existiam homens que viajavam, sem medo das estrelas, e a selva estava convertida num viveiro de seres estranhos trazidos de outros lugares, de outras galáxias. Nestor viu fotografias de cavalos voadores, de insetos com mais de um metro de asas, que se reproduziam em lugares escolhidos, e deveriam serem enviados de volta, para algum lugar.
Quase ao amanhecer, Adão levou finalmente sua família para casa.
Nestor e Ana se instalaram definitivamente na mansão de Adão, pois ela estava cheia de suítes desocupadas.
Miguel e Alessandro ficaram na mansão por pouco tempo, pois ganharam um presente de Rama. Duas casas enxaimel, de dois andares cada uma, prontas para serem levantadas onde eles quisessem. O material estava embaixo de uma lona, guardado com zelo, e Rama se oferecia para ajudar com as instruções da instalação. Ele explicava para os cunhados que a casa pré-fabricada seria com material natural de “Z”. Madeiras nobres, já curtidas com piche grosso, para evitar ataques de cupins.
Alessandro e Miguel as levantaram perto da mansão. Aliás, o lugar já era uma vila fazia muito tempo. Vivia nas redondezas Peter, Marta, Inês, e agora se juntariam ao grupo Miguel e Alessandro. Seria definitivamente a Vila de Adão.
Nos dias subsequentes, essa mansão lotou mais uma vez, pois os filhos de Adão, e os amigos de Nestor queriam perguntar milhares de coisas sobre os pilotos, sobre os sereios, sobre os gêmeos, sobre o futuro.
Para não dar trabalho para a mãe, Nohiki trazia junto um banquete. Fazia verduras com molho de soja, arroz com uvas passas, castanhas e açafrão, em panelas de barro, e saladas em bandejas tampadas com lenços.
Sira preparava outras delícias, como empadão de verduras, empadinhas de arroz doce, lasanhas recheadas de tomates, queijos e manjericão. Diana trazia algo simples, pois o cozinheiro em casa era Aruma. Délia trazia ovos cozidos com molhos de queijo, amendoim amassado e pimentas, que seus cunhados adoravam. Caim trazia alguma águia no ombro, que não assustava mais ninguém.
Antes das visitas invadirem a mansão, Eva e sua família começavam cedo a organizar o ambiente.
Inês, Miriam, Natália, Zezé e Marta ajudavam Eva desde cedo a tirar leite das vacas, para fazer queijos, colocavam as cucas no forno, recolhiam frutas e faziam lindos arranjos em pratos de cerâmica, por cima de todas as mesinhas dessa mansão. Os maridos faziam mutirão limpando a grama, amontoando folhas secas, desintegrando as fezes da bicharada, ou limpando os cavalos brancos, os pôneis e os unicórnios. Adão lustrava o pelo dos unicórnios com pente de cerdas macias, enquanto Estanislau preferia levar a manada de cavalos para a beira do lago. Ali esfregava todos com sabão de coco, num trabalho que ele adorava.
Quando Amon-rá e seus 5 filhos apareciam, os pôneis e os cavalos os cercavam limpinhos, prontos para correr com eles pelo mato. Depois chegavam outras crianças, filhos de amigos, e os animais ficavam o dia todo carregando no lombo os visitantes.
Na hora do almoço, metade comia na sala principal, metade tinha de comer fora de casa, em sistema de piquenique.
Depois do almoço, a piscina lotava de gente. Deitava-se sobre toalhas por sobre a grama, e os homens puxavam piadas sem fim. Terminavam a noite com os tambores, as danças e as risadas. E o tema principal das tertúlias eram as viagens para outros mundos.
Nesses encontros Nestor contava que uma viagem para outra Galáxia não entediava coisa nenhuma. Era como um passeio muito, mas muito longo. Apenas isso. Férias de mil anos, três mil anos, ou o que fosse. Tampouco poupava detalhes de tudo que havia dentro das naves. Dos robôs, dos comandos com pilotos bem treinados, e do horário maluco, que marcava dias e noites bem curtas.
Ana falava para as mulheres que no espaço o tempo não existia. Portanto, uma relação amorosa durava talvez 200 anos, e eles nem percebiam nada disso. Também davam detalhes das suítes, dos assentos eróticos, onde se fazia amor até desmaiar.
A mulherada começou a gostar de viajar.
Mas quem menos falava mais cativado ficava pela aventura.
Eva percebeu Adão calado demais, depois de algum tempo. Custou para ele abrir o coração. Por um lado, Adão não queria ver sofrer a família e muito menos sua mulher, que tolerara 5.000 anos na Terra junto com ele. Mas Eva o conhecia como um livro aberto, e numa tarde em que estavam sozinhos na piscina, lhe disse:
— Se quer viajar, amor, vamos terminar a carreira de veterinária. Se não, isso não vai dar certo...
— Você faria isso, mais uma vez?
— Faria! Por mim! Adoro ficar fechada numa suíte espacial com você! Não existe nada mais divino do que isso...
— Sabia que você é tarada? Se eu murchasse, também me amaria?
— Sim! Você não me amou velha, toda descabelada, magra, feia, busto murcho, mais parecia um espantalho?
— Para mim, sempre esteve linda! Sempre! Para os olhos do amor, não existe a feiura...
Quando Adão e Eva retornaram a seus estudos de veterinária, nenhum filho ficou surpreso. Todos sabiam que Adão era um aventureiro. Que nem Nestor. E estava cheio de netos, e bisnetos, e um filho de Aruma Júnior lhe dera o primeiro tataraneto. Adão estava com todos seus desejos e sonhos realizados. Havia criado mais numa vez seus filhos, e os filhos de seus filhos. E os amara como nenhum pai amou, pois o fez desde antes deles nascerem. E Eva merecia um descanso no espaço. Havia vivido enfiada na cozinha preparando cucas, almoços, lavando fraldas, havia sido uma escrava da família, com toda a felicidade que uma mulher pode ter, quando os filhos são bem-amados.
Somente Amon-rá estava apavorado.
Seu pai não ia desejar uma viagenzinha de vizinhos, como o tio Nestor. Ia escolher a pior de todas. Revistou sua lista e escondeu todas as viagens sem retorno. Falou para os Prefeitos que por enquanto ficariam apenas com as viagens curtas, e que guardassem aquelas onde os veterinários deviam morrer.
E os anos mais uma vez transcorreram.
Depois que se formaram veterinários, Adão e Eva entravam na selva montados nos unicórnios, com arco e flechas nas costas, cujas pontas eram embebidas com calmantes fortes. Assim que um leopardo ameaçador lhes cruzava o caminho, disparavam as flechas, e esperavam que ele dormisse. Examinavam-no, medicavam, costuravam feridas, desinfetavam com água medicinal, e continuavam selva adentro como aventureiros em busca do perigo. Cuidaram de elefantes, girafas, dragões alados, de morcegos gigantes, borboletas com asas de 4 metros, e bestas incomuns que encontravam à beira da morte.
E foi olhando para esses gigantes alados que Adão se lembrou dos dinossauros. Em “Z de ALPHA” estavam todas as espécies mais esquisitas. Mas não havia dinossauros. E nem todos os “dinos” eram carnívoros. Havia os herbívoros, que ficariam maravilhosos nos lagos de “Z”. Comeriam plantinhas, e decorariam a paisagem com seus pescoços elegantes fora da água.
E em algum lugar do Universo deveria ter dinossauros.
Foram até a biblioteca da Escola de Veterinária, e procuraram por livros com seres de outros mundos. Olharam para os ratos alados, horríveis, para maravilhosos centauros, para dragões esquisitos e perigosos, e finalmente para os dinossauros. Ainda existiam na “Oitava dimensão”. Ou seja, no outro lugar do Universo. “Z de ALPHA” ficava na primeira, e a oitava era a última dimensão do espaço conhecido. E somente os Anjos, em estado espiritual, viajavam para lá.
Como Adão era teimoso, pediu para os cientistas da Lua que lhe fizessem um cálculo de vida para uma viagem até a “Oitava dimensão”, ao planeta com dinossauros.
E os especialistas enviaram o resultado para Amon-rá. O prognóstico dizia que numa nave, somente com robôs, se podia chegar lá com vida, dormindo congelado durante a viagem, mas acordando oito vezes para mudar a rota. Depois a nave regressaria sozinha, com sua carga animal hibernando. O viajante ficaria na “Oitava dimensão” numa nave menor, para morrer em breve, ou descia em algum mundo vizinho para morrer de velho.
Amon-rá chorou no colo de sua mulher que nem bebezinho. Seu pai ia partir o coração de todos os filhos e amigos com sua partida. Principalmente do avô João, que ia querer surrá-lo antes de viajar. Mas por outro lado, os dinossauros eram uma espécie em extinção. Estavam morrendo com a pior seca desse planeta, e eram as últimas espécies universais.
E enviou para seu pai o relatório, através do Prefeito Alain. Ele não conseguiria olhar Adão cara a cara, pois ia chorar mais uma vez, implorando para que não fizesse essa loucura.
Adão esperou mais uns 10 anos para partir.
Ambos tiveram que fazer curso de navegação espacial, pois não teriam pilotos de carreira. Viajariam sozinhos. Visitavam a Lua para estudar o nome das estrelas, das Constelações, calcular distâncias universais, rotas de navegação, e principalmente a trajetória entre as oito dimensões do Universo.
Quando Adão soube que Sílvio estava para chegar a “Z” com seus gêmeos, acompanhado de Xixim e seu marido, Adão marcou a data dessa viagem para o mês anterior. Seus garotos sofreriam com sua partida, mas Sílvio os consolaria com a sua chegada.
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