Notas iniciais
E foi assim que ela iniciou sua vida de artista. Antes de esse ano letivo acabar, Êve frequentava aulas de pintura numa Escolinha de arte “La Gouache”, paga pelos camaradas de Pierre. Desenhava pessoas e paisagens. Em casa imitava todas as figuras dos gibis, pois achava os desenhos maravilhosos. Reproduzia também rostos de homens, e de bichinhos. Aos doze anos, Êve ganhou um prêmio num concurso de pintura infantil, de toda a França, com um cartaz gigante sobre os direitos humanos.

Agradecimentos para meu amigão Jean Vignay, pela correção do francês.

Eva nasceu no dia 2 de maio de 1945, enquanto os russos invadiam Berlim e o povo alemão se rendia ao inimigo. O sonho alemão da revanche contra o mundo terminara de forma trágica. Se na Primeira guerra mundial, a Alemanha sofreu a humilhação da derrota, desta vez a consequência era ainda mais grave. Todo o país estava em ruínas. E em meio a toda essa desgraça, o pai americano de Eva também morria nas fronteiras alemãs, atingido por uma bala.

Manon entrou no hospital com as dores do parto, após escrever para seu amado que estava para vir ao mundo o fruto desse grande amor. Ele nunca recebeu a missiva. Morreu antes disso, deixando uma filha sem pai e uma mãe solteira cheia de problemas. Manon era filha do povo. Havia lutado na Resistência francesa contra os alemães, e arriscado a vida em assaltos que custaram a vida de muitos amigos.

No dia em que Êve nasceu, ela esperou estendida no corredor do hospital Saint Denis que algum médico a recebesse, pois chegavam feridos das fronteiras, vítimas dos últimos combates contra a Alemanha. Também atendiam pessoas trazidas de campos de concentração à beira da morte, e mulheres para gerar filhos.

Paris estava abarrotada de mães solteiras dando à luz. Em todo lugar por onde as forças armadas atravessaram, a euforia levou a encontros entre tropas e mulheres do povo, que deram à luz, nove meses depois, a centenas de filhos. Se bem que nem todo recém-nascido era produto de uma relação de amor como no caso de Manon. Os estupros dos militares praticados contra a população civil, em todos os países europeus, havia sido maciço. Fora um abuso coletivo, bestial, que acontece quando os homens em guerra perdem qualquer noção de bom senso e de serenidade.

Milhares de adolescentes e de crianças sofreram abusos durante a grande guerra. Quem estava em idade reprodutiva, deram à luz esses filhos sem pais, nos primeiros dias de liberdade. E muitos eram filhos de soldados alemães.

Foi no que na América chamou-se de Baby boom. Nunca nasceram tantas crianças, como naqueles primeiros anos depois da Segunda guerra mundial. Era como se a humanidade quisesse ressuscitar seus mortos, ou equilibrar a taxa de natalidade aos 40 milhões de baixas em combates.

No corredor desse hospital parisiense, uma enfermeira atendeu Manon, na beira da morte, por causa de hemorragia e mau atendimento. Êve foi levada para uma sala com recém-nascidos berrando, que nem ela, enquanto Manon ia para cirurgia, ganhar curetagem, pontos nas feridas, sangue, soro, pois estava desidratada, com febre, a ponto de uma parada cardíaca.

No segundo dia nesse hospital de guerra, alguns camaradas da Resistência chegaram a vê-las. Um casal de amigos, os Dupont, se ofereceu para cuidá-las em casa, pelo tempo que fosse necessário. Manon agradeceu sorrindo e mostrou sua linda filha para os amigos pedindo-lhes para escolher o nome. Um deles pensou: — Vamos chamá-la Pasionária! em homenagem a Pasionária espanhola. Outro falou: — Não, melhor Simone, como tributo a Simone de Beauvoir!

— Mas, ela quer se chamar Êve...

— Como sabes disso?

— Ela me fala... Não com palavras, mas eu sei tudo que ela está pensando...

— O que, por exemplo?

— Que vocês são um bando de homens feios...

E Êve deu uma gargalhada de vez. Um sorriso que derreteu o coração de sua mãe, e de todos seus amigos, desde aquele dia.

Depois de um ano, Manon casou-se com Pierre, um camarada da Resistência, e Êve foi batizada com o sobrenome desse padrasto. Ela foi mimada, amada, mas teve uma infância bastante humilde. Conheceu o frio do inverno, sempre usou roupas velhas, oferecidas por algum amigo caridoso, usara sapatos com buracos, meias com outros buracos bem piores, e ganhou piolhos nos cabelos muitas vezes. Também teve dois irmãos, Paul e Georges, aos quais amou com amor verdadeiro. Cuidava deles, ajudava nas trocas de fraldas, auxiliava a mãe lavar no tanque, ainda nos dias frios, e aprendeu a cozinhar com 6 anos. Sabia preparar ensopados, crepes e saladas. Preparava os crepes dos irmãos com geleia, servia para eles, e era feliz com o sorriso das carinhas iluminadas.

Manon e Pierre eram membros do “Partido Comunista Francês”.

Êve abria a porta aos camaradas, pois era nessa casa que funcionava a Célula Aleksei Rykov do “Partido Comunista Francês”. Todos os camaradas eram muito amigos, se ajudavam em tudo, e discutiam o futuro de Europa e do mundo. Êve sentava no colo de Pierre, e observava tudo de olhos bem abertos. Todos concordavam que, em poucos anos, o mundo todo seria comunista. Êve ouviu desde o berço que o capitalismo era o câncer da sociedade moderna. Os camaradas terminavam seus encontros cantando canções de guerra, inclusive a Internacional, que era a preferida de todos.

E os anos se passaram, e o primeiro dia de aulas de Êve finalmente chegou.

Manon colocou-lhe uma fita nos longos cabelos, um cinto cor de rosa com um laço bem grande na cintura, e deu-lhe uma bolsa onde havia um caderno, um livro de leitura, um lápis, uma borracha e um apontador. Dez minutos depois ela beijou Pierre na porta de sua escola, e entrou num lugar que era mágico. Lindo. Muitas meninas iguais a ela corriam, riam, e as professoras as abraçavam com carinho. Êve ficou admirando tudo em redor, e sem falar nada se deixou guiar. Sentou-se na primeira fila, e uma linda mulher principiou a ensinar a letra “O”. No dia seguinte, foi a letra “A”, depois a letra “I”, “U”, e “E”.

Para aperfeiçoar a lição escrita, Êve fazia uns desenhos em cada folha desse caderno, que deixava Manon de boca aberta. Também Pierre e seus irmãos Paul e Georges adoravam ver suas caricaturas. Quando os camaradas do partido chegavam à casa de Manon, Pierre mostrava os cadernos da filha com orgulho.

Na Escola, a professora deu-lhe de presente um caderno de cartolinas brancas, um pincel, uma aquarela, uma caixa de lápis de cor, para ela pintar tudo que quisesse.

E foi assim que ela iniciou sua vida de artista.

Antes de esse ano letivo acabar, Êve frequentava aulas de pintura numa Escolinha de arte “La Gouache”, paga pelos camaradas de Pierre. Desenhava pessoas e paisagens. Em casa imitava todas as figuras dos gibis, pois achava os desenhos maravilhosos. Reproduzia também rostos de homens, e de bichinhos.

Aos doze anos, Êve ganhou um prêmio num concurso de pintura infantil, de toda a França, com um cartaz gigante sobre os direitos humanos.

Manon nunca chorou tanto como naquele dia. Viu sua filha subir num palco no Ministério de Educação para receber uma paleta de cores, um diploma, e muitos aplausos. Seu nome saiu no jornal, e Pierre e os camaradas recortaram o artigo e o colocaram numa moldura com muito amor-próprio.

Aos 13 anos, Êve aprendeu disciplinas mais avançadas, com uma bolsa do governo, que pagaria seus estudos até que ela chegasse à universidade.

E foi assim que Eva cresceu, dedicada a estudar, pintar, desenhar, sem saber que com isso também se podia ganhar a vida.

Aos 15 anos, entrou num Ateliê de pintura “La Palette”, perto de um mercado de frutas em Saint Germain, cujo lugar tinha um sebo onde se trocavam livros semanalmente. Como seus desenhos eram os mais vendidos nesse ateliê, um dia recebeu uma quantia generosa de dinheiro. Feliz, saiu correndo pelas ruas, entrou numa loja no “Boulevard de Saint Germain”, onde havia grifes caríssimas, e adquiriu sapatos para Manon e seus dois irmãos. Para Pierre escolheu um cachimbo novo e um pacote de bom tabaco.

E os anos se passaram.

O ateliê era um recanto maravilhoso. Cheio de potes com tintas e muitos pincéis, das melhores marcas. Para Êve a pintura era como falar com os anjos, portanto ganhar por pintar era algo incrível. Ela viajava com a mente, imaginava seus sonhos realidades, e construía castelos no ar, como toda adolescente faz. E cada vez que recebia dinheiro pela venda de seus lindos desenhos, comprava algo para levar para casa.

Êve adorava seus pais. Amava seus irmãos Paul e Georges. E amava sua cidade maravilhosa. Gostava de escutar músicas, e se surpreendia com os artistas fazendo retratos nas ruas.

Êve entrou na “Arts Et Métiers” a estudar Desenho Decorativo, que por esses anos era o furor da Art Noveau. A França queria ser o centro da arte ao serviço da indústria, e por esse motivo estava incentivando o estudo da Moda, do Design, em todos os níveis. Êve especializou-se em reprodução para impressões, e além de estudar Design na Universidade começou a trabalhar como estagiária numa estamparia. Seus desenhos começaram a decorar tecidos em metro, cortinas, toalhas, que ela via com amor-próprio, nas vitrines das mais lindas grifes de Paris. Olhava para um tecido e dizia a si mesma: — Fui eu que inventei!

A única coisa que Êve jamais olhou foi para “namorados”.

Manon sempre lhe apresentava filhos de alguma amiga, ou de camaradas de partido, a quem Êve abordava igual que a Paul e Georges, seus dois irmãos. Beijo no rosto, conversas sem fim sobre materialismo dialético, mas nenhuma chance para beijos, ou namoricos. Cada vez que um rapaz tentava beijá-la, ela ficava gélida, e corria para longe como quem foge do extermínio.

Manon lhe dizia que se estava almejando um marido endinheirado, que esquecesse. Rico era sempre inescrupuloso, especulador da classe operária, infiel, não possuía moral, e que a felicidade estava entre os camaradas. Teria uma vida humilde, mas cheia de amor, fidelidade, e nada de vícios. Êve tentava acalmá-la:

— Mãe, você e o pai são ateus! Vai ser difícil entender, mas eu tenho uma alma-gêmea. Não sei onde, mas eu vou esperar por ele.

— E se ele está por aí, buscando você? Ah? Não seria melhor ajudar o destino? Comece a sair, filha... Se divirta... Vai para alguma festa, vai ao teatro, ao cinema, sei lá... Você mais parece uma freira. Até gosta de ir a rezar na igreja...

— Verdade! A imagem da Virgem Maria me dá uma paz tão grande! É como se a conhecesse desde sempre. Eu converso com ela, sabia? E ela me confirmou. Existe um homem que é o maior homem da terra, o mais lindo, o mais inteligente, o mais bondoso, e que ele é capaz de se matar por mim...

— Mas, filha... Os camaradas são todos assim mesmo. Durante a Resistência, a existência de um dependia do outro. Dávamos a vida por cada um...

— Mas isso não é amor, mãe... É companheirismo... Você e meu pai são camaradas. Amam-se, e são felizes. Mas me diz, ele é o grande amor de sua vida?

— Não! Foi um soldado americano. Morreu na fronteira da Alemanha no dia em que você nasceu. O seu cadáver foi enviado aos Estados Unidos para a família. Seus avós verdadeiros sequer sabem de sua existência...

Êve viu sua mãe derrama-se em lágrimas. Todas atravessadas na garganta, desde o dia que ela nascera. Êve abraçou-a com doçura e entendeu outros episódios de sua vida. Pierre não era seu pai biológico, mas a amava muito mais do que os próprios filhos. E Manon havia aprendido a amá-lo por esse motivo.

Depois desse dia, Êve começou a pintar perto do Marché Aux Puces, na Rue de Rosier, entre Porte de Saint-Oven e de Clignancourt. Um lugar conhecido, trivial, comum, cujas lojas vendiam a baixo custo, e onde artistas pobres se enfileiravam para pintar pessoas, em troca de algumas moedas.

E Êve começou a fazer outro tipo de amizades. Jovens como ela, que gostavam de pintar, dialogar sobre livros, assistir a concertos, óperas, e com os quais percorriam as galerias de arte analisando obras. E entre todos eles, Mirelle e Alain eram as pessoas preferidas. Alain era um retratista de grande talento, mas tão pobre que ainda usava sapatos com buraco embaixo do pé. E Mirelle, uma jovem pintora, amiga de infância de Alain, conquistou-a com seu primeiro sorriso, no primeiro dia de pintura ao ar livre.

E com esses novos amigos, ao entardecer, guardavam os cavaletes num estúdio de um pintor, e Êve, Alain e Mirelle, e mais uma dúzia de pessoas contavam os centavos, faziam uma vaquinha, e iam ao teatro, ou a um café, e discorriam sobre assuntos variados noite adentro.

Cada vez que Alain levava Êve para casa, tentava beijá-la, mas era em vão. E não adiantava driblar, pois Êve adivinhava seus pensamentos. Para deixá-lo mais confuso, Mirelle jurava que Êve não gostava de mulher. Não era sapatão. Ela só estava esperando “Le Prince charmant”. Apenas isso.

Depois de dois anos pintando na rua, Êve conseguiu ajuda dos camaradas de Pierre para fazer uma exposição, dela e de seus amigos. Alugaram uma sala perto da Place dês Vosges, onde havia butiques, antiquários, salões de chá, e um grande movimento intelectual. Emolduraram os quadros, colocaram faixas na entrada do prédio, imprimiram convites, e o grande dia da vernissage aconteceu. Manon, Pierre e todos os camaradas chegaram ao salão vestidos elegantemente, e Alain comprou sapatos super brilhantes e colocou sua melhor camisa, com uma gravata verde. Combinava com seus olhos verdes cristalinos. Na verdade, Alain era um homem muito belo, e Manon torcia para que Êve se apaixonasse por ele.

E foi naquela noite, que um grupo de atores entrou na vida de Êve. Uma companhia, perto dessa Place, cuja peça teatral era de Anton Checov, distribuiu convites para os pintores, compraram algumas obras, abraçaram a todos, e iniciaram uma longa amizade.

Uma semana depois Mirelle e Êve estavam na primeira fila, para ver a companhia atuar, num teatro superlotado, pois os atores eram muitos bons.

E foi naquele dia, que Êve ficou múmia, sem sequer piscar, olhando para o homem mais lindo que viu na vida. Moreno, olhos verdes, sobrancelhas densas, olhar enigmático, e uma boca que convidava a beijos. Sorria como anjo, mexia-se como uma gazela, e a plateia nem respirava com sua voz perfeita que eletrizava o recinto.

Mirelle deu uma cotovelada nela e soprou ao ouvido: — Esquece, amiga, ele é gay! Mas Êve não entendeu. Ela própria era chamada de lésbica na Universidade pelo seu desinteresse pelos homens. Na França, era assim mesmo. Ou se era meretriz, ou então se era lésbica. Não existia termo mediador. Com certeza, ele esperava-a com juramento de castidade. Igual a ela, que nunca beijara ninguém, e estava a sua espera. Perguntou para Mirelle no seu ouvido: — Conheces ele? Ela respondeu no sussurro: — Conheço um amigo dele... Êve falou: — Depois da peça vamos aos camarins? Mirelle lhe respondeu: — Mas não fala depois que eu não te avisei!

Notas finais
E foi naquela noite, que um grupo de atores entrou na vida de Êve. Uma companhia, perto dessa Place, cuja peça teatral era de Anton Checov, distribuiu convites para os pintores, compraram algumas obras, abraçaram a todos, e iniciaram uma longa amizade. Uma semana depois Mirelle e Êve estavam na primeira fila, para ver a companhia atuar, num teatro superlotado, pois os atores eram muitos bons.