Adversários Compatíveis
4 Um amor vermelho e azul
Notas iniciais
"Olhar pra este uniforme está fazendo eu me sentir cada vez mais presa no passado...", pensou Nobume já olhando ao redor para ver se encontrava alguma loja de roupas por ali. "Antes de entregar os dangos e seguir com meu novo objetivo, vou comprar uma roupa nova."
Após achar uma loja e fazer a compra, já vestida, ela foi para o local onde deixou os dangos, mas ao chegar lá, o que viu foi uma caixa vazia com uma mensagem escrita dentro. Nela dizia: "Os dangos que comi não foram suficientes, por isso peguei os que você deixou largados aqui".
"Quando foi que ele...?"
Por estar com pressa, a samurai logo desistiu de tentar descobrir e seguiu em frente. Levar os dangos para Kagura era só uma das coisas que ela pretendia fazer ao encontrar o trio. Com Gintoki sendo procurado, não seria tão fácil achá-lo e, sabendo disso, Nobume foi em direção ao Yorozuya só para ter certeza de que ninguém estava mais lá.
"Tenho um pedido para fazer ao Yorozuya-san e tem que ser o mais rápido possível. Os dangos vão ficar pra outro dia."
Como o lugar estava vazio, Nobume, que já esperava por isso, foi procurar pelas cidades vizinhas. Embora estivesse focada naquilo, lembrar do que havia acontecido há pouco estava sendo inevitável. Vez ou outra um certo alguém invadia seus pensamentos. As imagens que iam surgindo eram como um flashback do momento em que passou encarando aqueles olhos que mais pareciam dois pedaços do mar.
"Espero que esses pensamentos repentinos não me atrapalhem", disse ela para si mesma um tanto preocupada.
Kamui também seguiu com seu objetivo, mas pensando no que poderia fazer após concluí-lo. Graças a alguém, ele estava menos obcecado em matar seu pai.
"Depois que a diversão acabar, talvez eu encontre aquela espadachim de novo. Ver aquele rosto tão de perto outra vez vai ser algo bem improvável, já que nem ao menos moro neste planeta. Bem, se for mesmo pra ser, uma passada por aqui vai bastar."
Não demorou muito para as coisas acontecerem. Nobume encontrou Gintoki na cidade de Akiba e pôde fazer seu pedido. Kamui teve sua luta tão esperada contra Umibouzu. De algum modo, o que estava acontecendo os ligava. Era como se eles fossem guerreiros com objetivos diferentes, mas que os buscavam por meio da mesma guerra. Mesmo não tendo chegado a se ver, algo lhes dizia que suas batalhas aconteceram ao mesmo tempo e tinham alguma ligação.
"Por um instante, eu tive a sensação de que ela estava lutando naquele lugar também...", disse o yato em baixa voz após lembrar da luta que teve contra a Harusame dentro de uma das naves da Kiheitai. "Eu já estava com vontade de vê-la novamente, só que agora quero que isso aconteça o quanto antes."
Nem tudo estava resolvido, entretanto, o problema de Kamui com sua família parecia não existir mais. Nobume conseguiu lidar com boa parte dos homens de Nobunobu e alguns amantos problemáticos que invadiram a Terra. Enquanto o jovem descansava e observava o espaço pela janela de sua nave, a samurai aproveitava o tempo livre para experimentar as rosquinhas de uma padaria que havia acabado de abrir em Kabuki, mas sua mente não estava tão voltada para isso.
"A minha vontade de revê-lo está aumentando cada vez mais, e não é só por causa dos dangos que ele me deve. Aquilo que senti durante uma das lutas contra os amantos... Cheguei a pensar que ele estava comigo por alguns segundos. Quando vi que tudo não passava de uma mera sensação, desejei que tivesse sido real."
Seus desejos eram mútuos.
"Quero vê-la."
"Quero vê-lo."
Kamui não queria acabar parecendo um idiota procurando por alguém que nem sabia o nome, mas o mesmo ansiava por algum motivo para ir à Terra. No fim, ele arrumou a desculpa de que iria comprar algo para Shinsuke comer.
"Aposto que ele sente falta de uns doces terrestres" pensou o rapaz já entrando em sua nave. "Vou apenas ajudá-lo a matar a saudade."
Enquanto o yato tentava enganar a si mesmo, Nobume seguia em direção à barraca de dangos. Ela não estava mais acreditando muito que um certo esfosmeado fosse pagá-la, e também havia mais um motivo para sua ida.
"Se no anime nós não chegamos a nos conhecer, acho difícil nos vermos pela segunda vez aqui, mesmo que isso seja uma fanfic. O jeito vai ser perdoar a dívida dele, comprar os dangos novamente e finalmente dá-los a Kagu..."
Seus pensamentos foram interrompidos por algo inesperado. O mesmo rapaz de antes se encontrava em frente à barraca de dangos. Antes que pudesse se sentar e fazer seu pedido, ele avistou a moça. Ambos ficaram parados se encarando por um tempo, e isso deixou a dona da barraca um pouco assustada.
"Está tudo bem, rapaz?", a senhora perguntou.
"Está sim" respondeu ele de modo simpático, mas sem tirar os olhos da samurai.
Nobume ainda estava um pouco distante, mas após voltar a si, se aproximou e iniciou a conversa com a pergunta: "Veio aqui para pagar o que me deve?".
"Pelo que estou vendo, nós dois queríamos nos ver de novo, mas meu motivo era um, e o seu era outro", disse abrindo um sorriso que parecia esconder algo.
Ela preferiu ficar quieta. O viu fazer dois pedidos, que foram duas caixas de dango para viagem, sem dizer uma palavra. Ele as recebeu e pagou logo depois.
"Uma dessas caixas eu vou levar para uma pessoa fazendo o possível para não esvaziá-la até lá, e a outra eu vou te dar, ou melhor, te devolver", o rapaz explicou. "Mas antes disso, gostaria que viesse comigo."
"Pra onde?", perguntou desconfiada.
"Pra praça aqui do lado", respondeu desconfiado da desconfiança dela.
Por um breve momento, Nobume pensou que o yato estivesse querendo levá-la com ele.
"É aqui", disse Kamui ao chegar na praça e se sentar num banco.
"Quando vai devolver?", enquanto se sentava, ela perguntou.
"Farei isso assim que responder algumas perguntas."
"Isso parece meio injusto, mas tudo bem."
"Você realmente só queria me reencontrar para cobrar os dangos?", sem conseguir olhar nos olhos dela, mas com o tom de voz mais sério, ele perguntou.
"Não."
"É impressão minha ou nenhum sentimento por mim despertou em você?"
"Impressão sua."
"Então por que toda essa frieza? Eu quero saber o motivo de... Hã?"
O rapaz se interrompeu ao perceber que a samurai estava com o rosto bem próximo do seu.
"Imaginei que se chegasse mais perto você iria olhar pra mim. Pelo visto funcionou."
"Entendo...", se segurando para não beijá-la, o yato falou. "Agora responda a última pergunta. Por que você age assim?"
"Apesar de eu sempre ter sido uma pessoa assim, admito que evitei deixar sinais de que estava morrendo de vontade de te ver outra vez", ela respondeu. "Queria que você se revelasse primeiro, caso houvesse algo pra revelar."
"Então você só não queria correr o risco de ser rejeitada... Que esperta", disse ele soltando um sorriso de canto. "Saiba que durante esses dias, eu estive confundindo as estrelas com os seus olhos. Elas ficavam vermelhas e começavam a brilhar. Cheguei a pensar que era um problema de visão."
"E eu não conseguia olhar para nada de cor azul sem lembrar de você... Parecia que os seus olhos estavam em todo lugar...", disse a moça com uma voz sussurrada. "Eu nem sei o seu nome ainda, mas quero te conhecer o máximo possível. Eu nunca beijei ninguém por causa da minha falta de interesse, só que agora sinto que posso ceder a qualquer momento. Você não faz ideia do quanto estou me segurando."
"Acho que eu faço..."
Suas respirações pesadas deixavam claro que ambos queriam a mesma coisa. Foi uma questão de segundos até eles não aguentarem mais ficar só no olhar. O comentário que surgiu pouco tempo depois foi de que dois jovens que há alguns dias estavam tentando se matar, foram vistos entre abraços e beijos, e que embaixo do banco em que estavam sentados, havia duas caixas de dango.
"Não sei como vai ser daqui pra frente", disse o yato. "Tenho responsabilidades que me impendem de morar aqui, mas como eu já pretendia vir visitar a minha irmã algum dia, posso começar a fazer isso sempre."
"Tenho a sensação de que conheço a sua irmã...", disse Nobume logo em seguida. "Foi para uma menina muito parecida com você que eu prometi dar os dangos. Na verdade, eu decidi ir comprá-los naquela hora porque já não esperava que você fosse reaparecer e tampouco me pagar. Embora fosse uma promessa, eu também iria usar aquilo como desculpa para vê-la. Parece idiota, mas acho que inconscientemente eu decidi me consolar enxergando você nela."
"Aquela pirralha é a minha versão feminina. Essa garota do dango provavelmente é ela. Bem, ouvir essa última parte foi bonito e triste ao mesmo tempo. Se eu soubesse que ia perder a esperança tão rápido, teria vindo antes."
"Não é como se eu tivesse a perdido por completo, ainda havia uma pequena faísca...", com um pequeno sorriso, a samurai disse. "Mas de agora em diante, mesmo que você demore pra voltar, vou estar sempre te esperando. Vai ser assim até decidirmos onde vamos viver definitivamente."
Os dois estavam dispostos a suportar a saudade. Seria assim até Kamui se mudar para a Terra, ou Nobume se mudar para o espaço.
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