Adventure Of A Lifetime

1 Adventure Of A Lifetime


Mu poderia passar horas observando Shaka meditar, e não mentia quando dizia que realmente ficava sentando frente ao loiro por um longo tempo apenas apreciando a expressão serena. Porém, como todo bom ariano, Mu era extremamente inquieto, enquanto o amante da sexta casa se transportava para outra dimensão em seus pensamentos e conversava trivialmente com deuses, o pobre mortal de dois pontinhos na testa, aproveitava para analisar cada característica física do outro.

E como gostava daquele hobby, em seus anos de observação, notou como a pele de Shaka era pálida, até demais para um indiano; seus cílios eram extremamente longos e negros demais para alguém tão loiro, em seu antebraço havia três pintinhas charmosas, e uma delas era de um marrom clarinho. As vezes, o outro franzia os lábios durante a meditação ou enrugava a testa.

Mu sempre ria com aquele tipo de reação, e quando o virginiano abria os olhos e o encontrava sorrindo, sempre fazia uma careta engraçada.

O hobby se tornou um hábito. E quando se deu conta, Mu observava cada detalhe do mais novo com gosto e diversão, o modo como Shaka andava, pisando levemente torto para fora com o pé esquerdo, mas ainda assim, de forma altiva como um modelo; este odiava cozinhar, não tinha mão nenhuma para preparar algo que envolvesse fogo ou forno e por isso, na ausência do ariano, vivia de saladas e tabules. Shaka tinha muitas roupas e sáris azuis e púrpuras, odiava sexo, cantava em sua língua natal com a escova de dentes na boca e amava beijar. Quando Mu conseguia a façanha de se deitar com o loiro, este sempre tinha uma expressão mais de prazer do que tédio, como ele alegava. Os lábios ficavam constantemente abertos e gemiam baixinho, como se por vergonha da própria voz. E falando em voz... Mu adorava ouvir seu nome sair dos lábios de Shaka e por isso, sempre derrubava algo no chão, apenas para ter o amigo ralhando consigo.

Shaka tinha uma estranha e confortável amizade com Afrodite de Peixes, Mu por diversas vezes viu ambos irem a feira juntos, passarem tardes em silêncio jogando xadrez e ainda mais exótico... Via e admirava quando ambos sentados lado a lado, ficavam em silêncio, com as pernas cruzadas, meditando.

Quando questionou o pisciano sobre o porquê da excêntrica amizade, levando em consideração a diferença de ambos, o sueco lhe deu um lindo sorriso e afagou seus cabelos.

—Ele neutraliza meu ódio.

E isso acalmou até mesmo o incerto coração ariano, que naquele tempo, jovem e inocente, acreditava que perderia o namorado para Afrodite. Depois, entendeu bem a relação de ambos, e como Shaka neutralizava a ira de Afrodite e como o pisciano ativava a paixão de Shaka.

Sorriu. Graças ao sueco que nem mesmo vivia mais no santuário, teve noites incríveis ao lado do indiano. Tinha muito o que agradecer.

Agora, em seus trinta e cinco anos, diziam que não havia mais o que se descobrir de novo em seus parceiros, e prova disso, foram os muitos relacionamentos que assistiu se acabarem em sua longa existência. Foram idas e vindas inesperadas, e, ver o loiro andrógeno que todos juravam de pés juntos ter um caso com Máscara da Morte, fugir com uma menina cinco anos mais nova para algum tempo depois aparecer com um filho, foi extremamente chocante. O mesmo para Camus e Milo, que em meio de uma relação perfeita, terminaram de um dia para o outro. Riu quando soube que Milo teve um caso com o aprendiz de Camus, logo depois, enquanto o aquariano treinou seu garoto que agora o substituía em seu templo. As vezes se perguntava que fim deu aqueles dois...

—Mu?

—Hm?

Acordou de seu transe quando a voz de Shaka se fez presente no recinto o observando com os grandes e poderosos olhos azuis.

—Acorde.

—Desculpe... -Sorriu de lado esticando os braços de forma preguiçosa. -Estou acordado.

—Vamos?

—Ah sim, Shun chega hoje?

—Sim.

O homem de poucas palavras se levantou ainda sob o atento olhar do mais velho, a armadura de Virgem já não repousava em seu corpo, porém em uma urna, afastada a espera de seu novo dono. Mu sorriu novamente. Sentiria falta daquele lugar... Foram tantas memórias, batalhas, lágrimas, risos... E agora, passariam seus dias para outra geração.

O santuário já não cheirava a cavaleiros de meia idade, mas a juventude. Hyoga pegara seu lugar em Aquário, Seiya desfilava pomposo com sua armadura de Sagitário, Shiryu silenciosamente repousava em Libra, Ikki queimava seu poderoso cosmo no tempo de Leão e finalmente... Shun viria, com sua paz, calma e seu ar tão divino quanto o de Shaka, tomar o lugar de seu mestre.

Era a vez dos novos, dos garotos e garotas que trajavam a armadura dourada e protegeriam a deusa que veneravam. O homem -não mais garoto ou rapaz, mas homem — de Jamiel já tinha alguns cabelos brancos, e por vezes controlou a gargalhada ao ver Shaka fazer careta frente ao espelho quando encontrava algum. Fora uma boa vida, e uma ótima nova chance... Seria eternamente grato pela oportunidade que tiveram...

Iria divagar por um longo tempo, se a mão fria de Shaka não tivesse entrelaçado à sua, o lemuriano virou o rosto alargando o sorriso ao ver a mochila com os poucos pertences do loiro em suas costas, saíram juntos do templo, parando no último degrau que levaria à quinta casa.

Não pode deixar de suspirar ao ver o templo de Virgem, sentiria falta... Deuses como sentiria falta de ser um cavaleiro... Porém, estava orgulhoso e feliz, mesmo que a saudade se implantasse em seu peito... Kiki seria um ótimo Guardião de Aries, e mesmo que temesse pelos novos garotos, sabia que seu tempo havia passado. Era hora de descansar.

—Vamos aproveitar a aposentadoria, Mu.

As raras brincadeiras vindas de Shaka sempre acalentavam o coração inquieto do ariano, e lhe trazia um satisfeito sorriso, virou o rosto depositando um singelo beijo nos lábios do mais novo.

—Acabou?

—Sim.

—E agora?

—Agora...?

Ouviu um riso baixo e sua mão ser largada enquanto Shaka tomava a frente do caminho, sem olhar para trás novamente, descendo templo por templo, parando apenas quando estavam fora do santuário. Mu o seguiu um tanto confuso com aquela reação, mas não parou os passos até ter o outro o encarando de frente.

—Agora Mu... Nós iremos viver.

O sorriso foi largo e quente, sem dúvidas, sem questionamentos, sem remorsos. Sua era não tinha acabado... Estava apenas começando, e dessa vez, estaria acompanhado.

—Vamos viver.

E saíram. Deixando para trás o passado de batalhas, as memórias, o calor de seus templos. Deixando, definitivamente, a vida de cavaleiro de Atena.

~

Quando Shun entrou no templo de Virgem e trajou sua armadura pela primeira vez, teve vontade de chorar. Não pela emoção de ter se formado, de carregar a alcunha de mais forte ou por ter superado seu mestre e sido honrado com o contato dos deuses...

Teve vontade de chorar, apenas por um motivo... Ao por seus pés naquele templo, um grande calor aqueceu seu peito lhe fazendo sorrir tanto que pode sentir seu maxilar doer. Ali havia felicidade... Muito amor, carinho, dedicação... Tudo pelo que um certo casal passou ficara gravado naquelas paredes, e Shun sabia que sempre que se deitasse não temeria pesadelos, afinal apenas boas lembranças residiam o templo de Virgem.

Afastou-se até a porta olhando o céu onde duas constelações brilhavam fortemente em meio as trevas, secou com o indicador a lágrima única que correu de seus olhos, cruzando os braços para se proteger do frio noturno, e sorriu... Desejando do fundo de seu coração a mais pura felicidade aos últimos cavaleiros de ouro que viveram a guerra santa...

—Boa sorte...

E se despediu, não de seu mestre e o amante deste, mas de dois irmãos. Dois amigos. Que, por ironia do destino, nunca mais teve a felicidade de rever e nem mesmo soube noticias, porém, ainda em seu coração e mesmo próximo a sua morte, em uma guerra entre deuses, soube que eles estava felizes... Afinal... Aquele templo ainda era quente...

E seria, enquanto houvesse aquele amor.

Notas finais
Olha quem teve a cara de pau de aparecer?! Sim. Moi. Mas, enfim....Sei nem o que dizer, espero que tenham gostado...

See ya ~

Tia Evye.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!