Adrenaline Void
5 Solidão - Naruto's POV
Notas iniciais
Não conseguia esquecer...
Tinha passado mais de um mês desde aquela madrugada. A minha vida tinha mudado desde aí. Talvez eu não estivesse bem a ver as coisas como elas eram, talvez fosse até mesmo eu quem estava errado no meio de tudo aquilo. Era uma hipótese. E, de momento, se havia coisa que eu não podia fazer era descartar nenhuma ínfima, por muito estúpida e inútil que esta me pudesse parecer. Talvez... Eu estivesse a confundir as coisas. Não fazia ideia, apenas... Precisava de parar com aquelas ideias de merda.
Saí da janela, voltando a pegar no maço, tirando um dos cigarros quase automaticamente e ficando a olhá-lo, com um ar exteriormente mais pacífico do que o meu interior se mostrava, naquela altura. Tentei lembrar-me do gosto dos lábios dela... Sentia-o como se fosse hoje, como se nem há segundos eles se tivessem separado dos meus. Mas essa lembrança nunca durava muito. Por mais que tentasse, o ar gelado daquela noite vinha sempre recordar-me que eu estava sozinho naquele quarto, enquanto ela estava sabe-se lá onde, a fazer sabe-se lá o quê e sabe-se lá com quem. Ahh, como se me interessasse, querem saber?! Só queria que ela pegasse naquele pedido estúpido e o metesse no...!
O estrondo da cadeira a ir direita contra o roupeiro foi a única coisa que irrompeu o silêncio da divisão solitária onde me encontrava, antes de os meus joelhos acharem o chão e os meus punhos se cerrarem. Não sei precisar exatamente quanto tempo passou... Na verdade, ter a noção do tempo que já tinha passado depois daquela madrugada era a única coisa que eu não queria. Porque... Talvez eu achasse que isso... Faria as coisas serem menos reais. E eu não queria que elas não o fossem. Eu queria apenas garantir que tinha acontecido. Algum dia. Algures... Mesmo que, a todo o momento, dissesse aos quatro ventos que queria apenas esquecer.
Peguei no cigarro que deixara cair no chão, apoiando me no joelho para me levantar depois. Procurei o isqueiro em cima da cama. Acendi-o. Aquele único vestígio de luz quase me feriu os olhos quando o fiz, uma vez que exceptuando os da lua eram poucos os raios que eu vislumbrava já há varias horas, naquele quarto escuro. Deixei cair o isqueiro novamente sobre a colcha. E voltei a avançar até à janela nos minutos seguintes.
Era tão estúpido pensar que ela poderia sequer estar a lembrar-se de mim, onde estivesse. Porque... Ela não iria fazê-lo. Ninguém, no seu perfeito juízo ía fazê-lo. Desde que me lembrava, sempre tinha sido assim. E como se eu me importasse. Estava demasiado bem sozinho, se é que alguém queria saber. Perfeitamente. Suspirei encarando o céu, as estrelas lá fora pareciam convidar-me a desfrutar da noite no exterior do quarto. Não permiti que o fizessem novamente. Abri a janela e subi as escadas para o terraço. Lá, deitei-me sobre a zona mais direita do telhado e encarei o mesmo ponto durante imenso tempo. Não demorei muito a tentar que os meus olhos cedessem à vontade que tinha de os fechar. Era mais forte do que eu porque... A minha cabeça latejava como um fusível prestes a rebentar de tanto pensar no mesmo assunto. Merda...
Alguém me podia dizer porque é que aquelas malditas palavras dela me martelavam na ideia de cada vez que eu conseguia, finalmente, fechar os olhos?
– Naruto... Não quero obrigar ninguém a ter coisas sérias comigo.
Sim, claro... Como se me fosses obrigar... Ahh, Ino, às vezes és mesmo tão burra como pareces. E eu é que sou o lento? Haja paciência.
Voltei a sentar-me, abraçando os joelhos, a tentar pensar em algo que me ajudasse a descansar um bocado daquele estado de pré-dormência em que me encontrava. Se, ao menos, toda aquela nuvem de aborrecimento e solidão me fizesse cair no sono de uma vez e parar de conjurar hipóteses estúpidas... Se, ao menos, no meio daquela história toda, eu soubesse perfeitamente que era eu quem estava errado... Só que não era. Eu sabia-o. E fazia-me pirraça ter de ser obrigado a lidar com isso, porque eu não conseguia fazê-la mudar de ideias por mais que lhe explicasse o que sentia. Isso incomodava-me. Terminantemente, para ser franco.
Cocei a cabeça um bocado após outro bafo, olhando para o cigarro por uns momentos, uma vez mais. Tirando o meu carro, devia estar ali entre os meus dedos a única coisa naquele mundo que eu podia dizer que nunca me deixava absolutamente só. Mas, tal como todas as coisas, também ele se achava prestes a terminar. Tal como tudo o resto, ele também iria desaparecer em breve da minha vida. Vendo bem... O que nos acontecia na vida era tal e qual. Cada acontecimento, de todos os dias, era levado como cinzas à medida que o tempo passava. Mais cedo ou mais tarde, todas as alegrias, todas as tristezas, acabavam por terminar. Por dar lugar a outros momentos. Mais tristes, mais alegres, mas outros momentos diferentes. E nós continuávamos apenas ali. No mesmo lugar, parados, apenas à espera que outro momento viesse e pudéssemos vivê-lo com derradeira ou menor intensidade. Era dessa forma que a vida funcionava para os seres humanos, verdade? Cabia-nos a nós aproveitar ou desperdiçar cada oportunidade, cada experiência que nos era oferecida. Da melhor ou da pior maneira, acabávamos sempre por ter de atravessar todas as metas, então... Por que raio estava eu ali, parado, à espera que a noite passasse? Por que raio estava eu preso a um cigarro quando tinha um maço inteiro sobre a minha cama, pronto a desaparecer entre o fumo e as cinzas na minha boca. Por que raio é que... Eu continuava preso a alguém que me só estava interessada em brincar comigo, para começar?
– Peço desculpa... – Disse apenas, encarando o a beata do cigarro com um meio sorriso que até eu mesmo podia considerar um bocado trocista. – Mas agora que acabaste... Vou ter de me livrar de ti...
Deitei-a cá para baixo com um movimento, depois de apagá-la. No fundo... Quando as pessoas já não serviam para mais nada era isso que se lhes fazia, não era? Eram deitadas fora com a mesma facilidade com que haviam sido usadas... Claro que sim... Não havia por que ficar a remoer no passado. Não havia razões para não se avançar. Se eu cobrava isso a qualquer pessoa, bastava-me apenas fazer o mesmo, verdade?
Desci novamente as escadas e voltei a entrar pela janela do meu quarto, ainda imerso na escuridão. Peguei no maço de cigarros e no isqueiro, levando-os ao bolso. Procurei depois as chaves na mesinha-de-cabeceira. Estava na hora de deixar a adernalina voltar a correr-me nas veias. Estava na hora de correr até à meta e sagrar-me vencedor da única coisa em que era sempre eu a triunfar, mesmo que não existisse mais nada a dar-me essa chance. Porque, para preencher o vazio que trazia no peito, todos os dias, aquilo era tudo o que eu precisava: O pico de adernalina familiar de quando me lançava para a morte a cada corrida.
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