Adorável e Tediosa Rotina
2 Em defesa de Romeu e Julieta
Aqueles que me conhecem devem estar surpresos com relação ao título desse texto, afinal eu tenho o hábito de expressar o meu desgosto com relação a essa peça e sua trama em qualquer oportunidade disponível.
Eu li essa peça pela primeira vez quando eu tinha treze anos,a idade de Julieta, e nessa primeira leitura conclui que a peça poderia ser resumida como a história de dois adolescentes estúpidos demais para conhecer a diferente entre amor e luxuria que tiveram um relacionamento de três dias que acabou resultando em seis mortes, uma tragédia sim, mas não um romance.
Eu li a peça pela segunda vez quando tinha dezesseis anos, aproximadamente a idade de Romeu, e o meu desgosto pela obra aumentou ainda mais, posteriormente em algumas ocasiões vindo a dizer que a peça era o Crepúsculo da era Elisabetana.
Recentemente eu li a peça pela terceira vez, pouco antes do meu aniversário de vinte e um anos, idade que nenhum dos protagonistas titulares da peça chegou a ter, e para minha surpresa dessa vez acabei encontrando alguma simpatia pelos trágicos amantes de Verona, embora eu ache provável que talvez eu já dividisse essa opinião se eu tivesse resolvido ler a peça aos dezessete anos. Eu ainda considero os protagonistas dois idiotas, mas nessa última releitura me ocorreu que talvez isso não seja algo necessariamente ruim, e definitivamente não tão irrealista quanto julguei no passado.
Pense em um dia de verão, não um daqueles idílicos que Shakespeare descreveu em um de seus sonetos, mas um daqueles que estamos tendo ultimamente na nossa era de aquecimento global. Em que até o ar parece pesado de tão quente, e aí subitamente você vê uma piscina, sobe circunstancias normais você tiraria suas roupas e as guardaria com cuidado, entraria aos poucos, um pé de cada vez, descendo devagar para deixar seu corpo de acostumar com a água. Mas não em um dia como esse, nesse você corre de roupa e tudo e da um grande pulo bomba na água, você até está ciente que a água pode estar fria demais e que você potencialmente vai parecer muito ridículo, tudo isso parece pequeno e irrelevante em comparação a água na sua frente. Se apaixonar pra valer pela primeira vez por alguém é assim, com os adoráveis idiotas de Verona esse desenvolvimento aconteceu em três dias, para outros em três meses, ou três anos, mas a essência não muda tanto assim. Por observação e experiência eu creio que amor desse tipo não tende a durar.
Muito barulho por nada, outra peça de William Shakespeare, eu amei desde a primeira leitura, e ainda me deleito toda vez que releio o texto ou assisto uma de suas adaptações, e isso em grande parte se deve pelo seu casal principal, mostrando sua compatibilidade ao longo da peça de um jeito que nem para os naturalmente cínicos como esta que vos escreve resta dúvida que eles vão se fazer felizes e continuarem a trazer a tona os melhores aspectos um do outro continuamente, em minha opinião um dos melhores romances da ficção e um verdadeiro final feliz.
Com Romeu e Julieta mesmo se eles tivessem sobrevivido a possibilidade de um final feliz parece tão improvável, talvez se eles não tivessem tomado o veneno eles acordariam no quarto dia meio cansados percebendo que tinham deixado toda a sua vida para trás por alguém que mal conheciam. Talvez eles teriam alguns meses felizes mas em um outro baile os olhos de Romeu se cruzariam com os de outra bela jovem, e tudo iria por água a baixo. Talvez eles ficassem anos juntos, e começassem a machucar um ao outro, primeiro de maneiras pequenas, depois de maneiras grandes, continuando juntos até o ponto que não conseguissem se lembrar do que sentiram naqueles primeiros três dias. Mas isso não aconteceu, eles morreram naquele terceiro dia, um amor jovem em seu ápice para sempre.
Romeu e Julieta é uma tragédia e um romance. Um romance melodramático e estúpido, exatamente do jeito que o seu primeiro grande amor deve ser.
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