Adormecer

1 Capítulo Único


Adormecer

O vestido negro agitava-se conforme a figura feminina, magricela e tímida, andava pela rua calçada de paralelepípedos. O céu nublado não trazia alento à paisagem cinzenta e melancólica do fim de tarde. Casas sombrias, janelas escuras, crianças assustadas com algo que nem entendiam.

A brisa suave era mortiça, um arquejo moribundo, dando adeus aquela terra. Os postes de metal sujo começavam a acender lentamente. O silêncio imperioso calava os velhos que conversavam na varanda, e os cães estavam mudos e tristonhos, entre as esquálidas casas espremidas.

Haydée.

Um nome grego. Coisa de gente culta. Nome de musa esbelta.

Haydée era culta e talvez fosse bela. Mas estava, naquele momento, magra, triste e pálida – longe de qualquer conceito de beleza. Os lábios descorados e os olhos inexpressivos enquanto caminhava. A mão entrou na bolsa, também negra, e voltou com uma chave. O metal era frio. E escuro.

A jovem estava cansada. Voltava da estação de trem. Voltava de viagem. Voltava de uma cidadezinha. Voltava de um lugar que levara muito tempo para ter o tamanho que tinha, o foi reduzido à metade deste em poucos segundos.

Passou pela cozinha. Ninguém.

A cozinha apertada, lúgubre, imersa na meia luz mortiça que vinha da sala.

O único reconhecimento que obteve foi um reluzir frio da faca afiada, ao lado de meio pão seco. Seco, murcho. Sem vida. Morto.

Chegou ao cômodo que com muita ousadia chamava de quarto. A cama apertada num canto, a escrivaninha encostada no outro. Sentou-se nesta ultima.

Frio.

O tampo da mesa de madeira estava frio. O assento da cadeira estava frio. O quarto... o próprio ar tinha uma frigidez inquebrável. Uma atmosfera opressora tomava o ambiente. A escuridão envolvia a moça. Ela própria, pálida como estava, era o único lastro de alvura em seus olhos. Puxou a manga do vestido para esconder a pele sob o pano negro.

Frio.

Será que era mesmo o quarto que estava frio...? ou era ela que já não tinha mais calor?

Levantou-se.

A cadeira arrastou no chão com um som amargo.

Haydée foi até a sala. Olhou para a mesa de centro. Um móvel tosco. Alguns objetos em cima. Ela desviou o olhar. Não precisava ouvir o rádio – uma caixa rústica de madeira com metal escuro –, ou ler o jornal. Deste ultimo já sabia a foto da manchete sem nem precisar mais olhar.

Fuzis reluzentes, com baionetas nas pontas, botas lustrosas e fardas engomadas. E dentro desse aparato soldados. Não eram pessoas. Eram soldados.

E na pagina seguinte uma pilha de corpos.

Não eram pessoas. Eram soldados. Não pais, tios, filhos, amigos ou primos. Soldados.

Do primeiro sabia o que poderia ouvir, e não precisava nem de música nem da eloqüente retórica dos loucos que desencadearam todo o mal.

Voltou para o quarto.

A luminária.

Olhou para a armação de metal – parafusos a imitar articulações. Um coração pulsante na ponta. O coração era um filamento enroscado. Talvez estivesse assim por sentir dor. Um toque, e a vida fluía. Acendeu a lâmpada de mesa.

A luz. Mas era amarela, ígnea, o filamento retorcido, tão sédulo, incandescente. Não era uma luz alva que lhe expurgasse as trevas, não era uma luz cálida que lhe envolvesse, que lhe protegesse do frio. Uma luz impassível e indiferente. Mas ainda assim, luz.

Debaixo do olhar insidioso da lâmpada havia papeis de carta, meia dúzia de selos ainda por usar, uma caneta tinteiro e um vidrinho de tinta.

Sentindo a frialdade hostil, Haydée sentou-se à escrivaninha. Separou um dos papeis. Com um suspiro, abriu a gaveta. Ela não fez ruído. Mortos não falam, ela pensou. Estaria a gaveta morta?

Haydée deu uma breve olhada no conteúdo da gaveta: abarrotada de cartas. Todas com a mesma caligrafia bonita e cuidadosa. Todos os “as” redondos, os “tês” cortados perpendicularmente e os “jotas” com os pingos meticulosos em cima. Todas à tinta azul – talvez tivesse sido um dia a cor do céu, mas agora já não a era. Todas assinadas por Amelie.

Uma insinuação de sorriso passou o rosto pálido de Haydée, por apenas um momento. Mas o sorriso não veio. Será que ela esquecera como sorrir? Melhor assim, talvez. Também não se esforçou para descobrir.

Então começou a escrever.

“...

28 de novembro de ...,

Amelie,

Começamos a trocar cartas há tanto tempo. Já nem lembro mais como nos conhecemos. Será que houve um tempo em que éramos estranha uma a outra? Não creio. Não lembro como começamos a trocar cartas. Será quem houve um tempo em que não o fazíamos? Uma mesma coisa pode começar de diversas formas, será que não foi assim?

Fomos amigas. E não uso ‘amiga’ com a leviandade que se usa hoje em dia. Você foi o bálsamo para todas as minhas dores, contigo pude abrir meu coração, contar minhas tristezas, e lá estava você, oferecendo-me um ombro para chorar. Contei tudo. As pequenas felicidades, as pequenas descobertas, as pequenas aventuras. Compartilhei com você. As grandes tristezas, as grandes perdas, as grandes decepções. E lá estava você, para mim.

E você sempre me contou tudo. Era recíproco. Estávamos uma para outra. Sempre.

Mesmo sem que eu visse teu rosto, em meu espírito eu sempre soube de tuas faces coradas, de teus cabelos cacheados, os olhos brilhantes. Imaginava o teu sorriso, tão belo, talvez um pouco torto. Teu rosto tão harmônico, compreensivo, solidário.”

Os olhos de Haydée estavam sem brilho. Sentiu cada emoção possível, a cada letra que a caneta riscava, delicada, no papel, consumando a união da tinta e do papel, laivando a casta alvura da folha.

“Falamo-nos de flores, das músicas. Dos pássaros no verão, do gosto mel. Da singeleza das margaridas, da doçura dos lírios. Das melodias que embalavam teu sono, que atiçavam minha imaginação. Da beleza suave das formas da arte, da sonoridade dos poemas.

Algumas vezes eu vivia apenas para o momento em que abriria a tua próxima carta, e logo, eufórica, escreveria uma resposta, contando o que pensava, sentia, gostava.

E então esperava aflita tua resposta.

Em outros tempos, estava alegre, e tuas linhas eram o clímax que coroava a minha felicidade.

Você foi a pessoa mais próxima que eu já tive.

Amiga.

E mesmo sem nunca ver teu rosto, sem ouvir a tua voz, percebi que minha vida tinha sentido por sua causa.

Percebi que você era a melhor parte de minha existência.

Percebi, e nunca lhe contei – tive vergonha – que gostava de ti mais do que como amiga. A amizade virou algo maior.

Eu te amava.”

Os olhos de Haydée brilharam. Ela confessara. Dissera, mesmo que para o papel, ela dissera. E por que o fazia era mais real. Não era apenas abstrato. Uma idéia. Um sentimento.

Amava. Era uma palavra tão linda.

E, apenas por um momento, ela sentiu a frigidez se quebrar, a escuridão se afastar. Ela sentiu os pulmões se encherem com um pouco mais de ar, o coração inundar as veias com um pouco mais de vida.

Os olhos de Haydée brilhavam, mas eram as lágrimas que refulgiam à luz da lâmpada incandescente.

“E junto do amor, nasceu o temor.

Imaginei, planejei, fantasiei. Em meu espírito lhe contei mil vezes. E em todas você me deixava, me abandonava, me desprezava e até me odiava.

E agora eu percebo que você não faria isso.

Mas nunca lhe contei isso, por medo de te perder.

Agora eu lamento.

Nunca ter olhado nos teus olhos. Nunca ter ouvido a tua voz. Nunca ter tocado a tua pele. Nunca ter sentido o teu perfume. Nunca ter passado a mão no teu cabelo. Nunca ter tido a tua mão entre as minhas. Nunca te ver adormecer, pacificada, em meus braços. Nunca, quem sabe, dar-te um beijo furtivo nas faces.

E quando começou toda essa loucura...

Você foi o meu lastro de sanidade, meu porto seguro. E meu amor, um amor platônico, fadado às lagrimas, ficou escondido no meu peito. Mas estava satisfeita, e me sentia viva, apenas por ver-te pelas palavras das tuas cartas. Estava conformada em amar-te à distancia, em segredo.

Minha inocência acabou. Vi homens matando uns aos outros. Vi toda a maldade que há dentro de nós.

E você foi o meu farol nesse mar de escuridão. Me fez acreditar que tudo acabaria bem, que tudo daria certo, que as coisas iam melhorar, que o bem pode vencer o mal, que a luz sempre acaba com a escuridão.

E eu rezava para você estar bem, para nada lhe acontecer. Temia muita mais por ti que por mim mesma. Da mesma forma que temia por meus irmãos, parentes e amigos.

Mas vi toda a maldade, a crueldade do mundo. E como a beleza, a felicidade, a vida, podem sobreviver a isso?

Perdi amigos, parentes. Um irmão.

E parei de querer que tudo desse certo. Parei de querer que tudo acabassem bem, que o bem vencesse. Que meus amigos, parentes e meu outro irmão vivessem. Parei de querer você vivesse. O mundo não merecia uma pessoa como você. Você era boa demais para esse mundo.

E eu sempre quis te escrever isso.

Mas agora não adianta mais nada.

Mesmo que eu tivesse coragem de te enviar esta carta, você não poderia mais lê-la.

Pois eu fui no seu funeral hoje.

O caixão estava fechado, junto de pelo menos uma centena de outros.

Feito de madeira negra.

Talvez seja bom que eu nunca tenha visto seu rosto, quanto mais desfigurado pela morte.

Ele permanecerá para sempre no meu espírito como eu o via.

Imaculado.

E puro.

Como meu amor.

Com carinho,

Haydée”

O quarto estava mais frio que nunca. Talvez ela congelasse se ficasse parada. O coração pararia de bater. E morreria ali mesmo. Sua tristezas seriam expiadas então.

Seus dedos estavam frios. Sua face estava pálida. Os lábios secos. Os olhos úmidos.

A escuridão era impenetrável. Até sua tez pálida estava escura aos olhos dela. A luz mortiça da lâmpada à mesa criava um halo, a única ilha no meio do oceano de trevas.

Ela se virou. Desviou o olhar da luz. A escuridão a tomou. Ela, em seu vestido preto se fundia perfeitamente com o resto do universo.

O coração já quase não pulsava, sabia que a luta estava perdida – a vida dela se esvairia de suas veias, de uma forma ou outra. A respiração rasa mal encha os pulmões com o frígido.

Ela se levantou. O rosto de Haydée era uma mascara de cera.

Ligou o rádio. O piano soava lúgubre, cortando o silêncio da escuridão, aliviando, talvez a força que lhe oprimia a garganta, que lhe comprimia o coração. Mas seu espírito continuava imerso no mar escuro. Só mais alguns segundos e se afogaria.

Haydée foi à cozinha.

Quando jovem voltou para o quarto a faca não estava mais ao lado do pão sobre a mesa.

Notas finais
Pessoalmente gostei do resultado final. Talvez ficou mais pesado do que eu imaginava... O tema dela, o amor platônico da protagonista, é algo bastante discutivel: será que o amor dela, não seria o "filelus" grego, o amor de amigo - amizade? perceba que ela não tem desejos sensuais, para com a Amélie. Amizade, o que é isso? Pare para pensar.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!