Notas iniciais
O fim é efêmero.

—Muito bem, pessoal. Agora que vocês todos leram Um conto de duas cidades podemos discutir sobre ele. O que acharam do final? –Olivia pergunta sorridente. Seus alunos em sua frente, sentados em suas mesas com as cabeças repletas de ideais e reflexões a serem desvendadas.

—O autor, Charles Dickens, tentou transparecer a culpa, fazendo com que... –uma das alunas começa a falar.

—Não. Você não entendeu, ele... –Outro a interrompe.

—Ei, todos teremos uma visão diferente relacionada ao final do enredo. E teremos tempo para discuti-las, por favor, se acalmem... –Olivia para de falar ao ver a sombra de pés sobre a porta da sala. Logo Amanda começa a passar sua peça por baixo da porta, para não atrapalhar a aula, mas seu plano é cancelado quando as folhas não passam e ela precisa usar um pouco mais de força.

Todos na sala olham para a porta.

—Olá, Amanda. –Olivia abre a porta, surpreendendo a loira.

—Oi. –diz a loira sem jeito, erguendo-se do chão.

—Você veio. –Olivia sorri. Se abaixa, com cuidado para não causar danos a sua saia, e pega as folhas onde a peça de Amanda se esconde.

—Sim. Bom, eu já vou. –Amanda vira-se, mas Olivia segura seu braço.

—Pessoal, esta é Amanda Rollins, a dramaturga da escola. –Olivia leva Amanda para dentro da sala. –Tenho certeza que todos vocês já leram o conto dela “Cidade vazia”.

Os alunos aplaudem a loira, de fato o conto é muito conhecido.

—Obrigada, galera. –diz Amanda fazendo as palmas cessarem. –Eu realmente tenho que ir. Ah, prestem atenção na aula. A senhorita Benson é... A melhor professora que já tive. De verdade, tive centenas e nenhuma foi tão boa. Ela merece o título que recebe. Então, aproveitem. –a loira cora ao olhar para a professora.

—Obrigada, Amanda. –Olivia agradece baixinho.

—Tchau. –Amanda acena com a cabeça e sai da sala aplaudida.

—Ok, ok. Agora se acalmem. E gostaria de confirmar que, sim, eu a subornei para dizer isso. –a morena dá um pequeno riso e a turma cai na gargalhada.

Após a aula, assim que termina seus deveres fora da sala, Olivia senta no sofá para apreciar a escrita de Amanda.

E as luzes se apagam novamente, agora para sempre.

Com uma caixa de lenços de papel no colo e diversas lágrimas escorrendo por seu rosto, Olivia se sente desesperada. O fim esclareceu tudo. O fim foi o recomeço de uma vida, a vida de Violet. A professora chora desesperadamente com direito a soluços e gemidos, seria resultado apenas da peça? Ou algo a mais? Talvez as duas coisas. Por breves horas ela teve sua vida misturada com a protagonista da trama, do drama, do romance mal sucedido.

Sem presa para se recompor ela permanece chorando. Aos poucos os soluços diminuem e que as lágrimas cessam. Ela liga para Amanda, que atende de imediato.

—Senhorita Benson? –pergunta surpresa com a ligação à tal hora.

—Amanda? Minha querida, por favor, não pense em cursar Direito. Seu talento é a escrita. –diz Olivia sorridente.

—Leu minha peça? –pergunta Amanda.

—Sim, eu acabo de ler. Foi maravilhoso. Comecei e não parei. E o final? Que belo final. Eu fiquei emocionada... Eu chorei, Amanda. –diz a mulher orgulhosa da loira, sua ex-aluna e futura dramaturga.

—A senhora chorou? Chorou? –pergunta Amanda, não consegue evitar sua animação. Fora completamente extasiante saber que Olivia chorara ao ler algo que ela escreveu.

—Sim. Sim! –a morena também está animada com isso.

—Meu Deus. –Amanda ri alegre.

—Você não pode deixar ela “guardada”. Precisa compartilhar com o mundo. Precisa.

—Eu sei. Sinto isso, mas irei cursar Direito...

—Deixe-me levar até o professor Barba. Ele irá adorar produzir essa maravilha. –implora Olivia.

—Mas... Ele irá gostar? Não é algo que o vejo produzindo. Não vejo como uma peça para a escola...

—Ele irá amar. Há anos ele reclama de produzir sempre a mesma porcaria. Vamos, por favor. –Olivia continua.

A loira cede logo e deixa a professora mostrar sua obra prima para o professor.

—Mulher, que peça é essa? –pergunta Barba ao encontrar Olivia na manhã seguinte.

—Não é? –pergunta Olivia animada.

—Eu a vivi. Eu a senti. Preciso produzi-la. –diz segurando o braço de Olivia.

—Mas e Don? –pergunta Olivia.

—Vamos falar com ele.

Após os horários das aulas os dois são chamados na direção.

—Não podemos produzir. –diz o diretor Cragen.

—O que? –pergunta Barba irritado.

—Não podemos. O enredo é dramático demais, palavrões demais, e o final? Ela se mata? Quer mesmo passar essa imagem ao ensino médio, professora Olivia? –pergunta John ao lado de Don.

—Ora, é a realidade. –diz Barba.

—É uma peça maravilhosa. Merece ser...

—Por favor, não podemos. –diz Don.

—Por quê? –pergunta Olivia.

—O final. –diz John.

—E os custos. Esses efeitos de luz sairão o olho da cara. Não temos dinheiro. –diz Don.

—Podemos cobrar um pouco mais pelos ingressos. –diz Barba como se fosse óbvio.

—Os pais irão reclamar. –John dá mais uma desculpa.

—Ok, escute, que tal se o que for além do que temos de verba eu pague? Hum? Tudo bem? –pergunta Olivia sorridente usando seu tom manipulador.

—Sério? –pergunta Barba e Don em uníssono.

—Sim. –responde ela.

—Você realmente adorou essa peça, não é? –pergunta John rindo.

—Olhe, querida, o final... –diz Don movendo as mãos no ar.

—Não precisamos do final. –diz Barba.

—Mas... É onde tudo é esclarecido. –diz Olivia tensa.

—Não precisamos dele, querida.

—Eu quero isso por escrito. –diz John.

Sorridentes com o resultado da visita à sala do diretor e seu vice os professores saem pela porta.

—Precisamos do final, Rafael. –diz Olivia séria encarando os olhos do homem.

—E nós o teremos. –responde ele com um sorriso galanteador nos lábios.

Notas finais
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