Adorável Estranha
4 Ao anoitecer
Notas iniciais
“Por que vim aqui?” — Nem eu mesmo sabia. Estacionei meu veiculo no meio-fio. Sai e tive de caminhar um pouco até encontrar a entrada do parque de Tóquio, desativado a seis meses ou mais, não sei. O que uma garota como Yuuki estaria fazendo em um parque abandonado cheio de indigentes? Eu fiz o possível para crer que esta era minha motivação para estar ali. O portão do parque estava aberto, alguém havia rompido a corrente. Entrei e passei a caminhar, estava escuro e frio. Os restos do antigo parque estavam lá, enferrujados. A roda gigante, o carrossel, o trem fantasma, coisas deixadas pelo antigo proprietário que julgava não ter valor algum. Eu a vi sentada em um dos cavalos do carrossel, parecia distraída. Não demorou a me notar ali, sorriu.
Enquanto via Yuuki caminhar em minha direção eu pensei no que diria. Como justificar o porquê de estar lá? Como saber o porquê do convite?
-Fico feliz que tenha vindo, professor.
-Por que está aqui? Este lugar é perigoso!
-Não se preocupe, eu sou a única que freqüenta esse velho parque. Então nós...
-Eu vou levá-la a sua casa, senhorita Yuuki. É para isso que vim aqui. Eu não sei o porquê de seu convite, mas se acha que conseguirá algo comigo, algum favorecimento em troca de... De “favores”, não importa a natureza eu... –Procurei me acalmar. Yuuki olhou-me a principio atônica. Sua expressão facial foi suavizando até seu rosto ser tomado por um ar cômico.
-Acho que meu convite foi interpretado erroneamente. Por que acha que tentaria seduzi-lo?
-Para obter notas boas talvez. –Minha expressão sarcástica.
-Não preciso disso. –Ela disse casualmente.
-Eu até acreditaria em você, mas vi com que freqüência vem às aulas e estou surpreso pelas boas notas e pelo excesso de faltas. Você já deveria estar reprovada pelas faltas. –Yuuki parecia se divertir com o que eu dizia.
-Eu não presto nenhum tipo de favor pelas minhas notas, eu me considero suficiente capacitada para tanto. E quando as minhas faltas... Bem... Tenho motivos para faltar, faltas justificadas.
-Posso saber que motivo seria esse, senhorita Yuuki? –Cruzei os braços e esperei, ela apenas sorriu. Caminhou em minha direção e abruptamente pegou minha mão.
-Não podemos perder tempo. Ela está vindo!
-Ela? Ela quem? –Nós andamos de mãos dadas apressadamente pelo parque vazio. Devido a escuridão era possível ver o céu estrelado. Uma linda noite, pelo menos era isso que muitos diriam, eu não. Paramos em frente a caixa de água que abastecia o parque, havia uma escada para chegar no topo. Yuuki subiu sem hesitar.
-O que está fazendo? Desça daí! –Eu disse.
-Ora! Suba você! –Ela falou com um sorriso, sempre sorrindo! –Ou está com medo? –Desafiou. Eu segurei a escada e subi a passos firmes. Logo estávamos no topo, não era tão alto, mas a visão que aquela altura proporcionava era bela. Só havia algo no topo da escada, dois telescópios.
-O que é tudo isso?
-São meus. Eu ganhei de presente. Vem! –Ela voltou a pegar a minha mão. A caixa de água era plana e feita de concreto, ainda sim éramos cautelosos. Yuuki prontamente posicionou-se em frente ao seu telescópio e fitou o céu escuro. Eu continuei parado atrás dela tentando entende-la. Ela tirou o olho do visor e voltou seu olhar pra mim.
-Coloque o olho no visor e mantenha o olho na direção em que está o telescópio.
-Para que?
-Vai ver. –Ela me guiou até o segundo telescópio e fiz o que disse. Depois se voltou para seu telescópio. Enquanto olhava para o nada parei para pensar na sensação de ser tocado por ela. Suas mãos eram muito macias e frias. E então eu vi, no visor, algo passar lentamente. Era brilhante, belo, poderia ver nitidamente. Era uma estrela cadente. Eu só havia visto uma dessas uma vez, quando minha mãe era viva. Ela adorava admirar o céu e eu fazia isso para agradá-la, oferecer companhia. Sorri. Foi involuntário, nem eu sabia o porquê de sorrir. Nostalgia talvez. E então não consegui mais ver a brilhante que a pouco cortou o céu. Ainda sim mantive meus olhos no visor.
-Lindo, não é? –Eu me afastei do visor e vi Yuuki me fitando com aqueles olhos intensos. Fiquei encabulado.
-Bonito. Por que me trouxe até aqui para ver um...
-Agora o senhor tem que fazer um pedido, professor. E esse pedido se realizará.
-Eu não tenho o que pedir. –E não era mentira. Eu não tinha o que pedir. Yuuki se aproximou e pegou minha mão.
-Então eu peço por nós dois. –Ela fechou os olhos, sorria. Voltou a abri-los depois de poucos segundos. –Pronto!
-O que pediu? –Eu sei! Pergunta idiota! Ela continuou sorrindo.
-Para que fossemos felizes. É um bom pedido, não é?
-Eu já tenho tudo o que quero, não preciso disso.
-Tem certeza, professor?
-Claro! Eu tenho emprego, logo terei família e...
-O senhor tem felicidade? –Eu fiquei calado. Quis muito dizer que sim, mas soaria falso. –Acho que não. De qualquer forma eu pedi para o senhor. Então... Acho melhor irmos. –Ela passou a caminhar.
-E os telescópios?
-Pode deixar ai. Venho aqui quase toda noite para olhar o céu, não posso ficar levando para cima e para baixo esse negocio. –Ela começou a descer e eu prontamente a segui. Minha cabeça dava voltas e voltas. Garota estranha, incógnita humana... Eu nem sabia como denominá-la, mas sem duvida era fascinante. Nós descemos em silencio. Não falamos até sairmos do parque.
-Aonde você mora? Posso lhe dar uma carona se desenhar. –Yuuki virou-se para mim e, claro, sorriu.
-Eu não moro muito longe, mas como estou um pouco cansada vou aceitar sua carona.
-E seus pais não vão se importar?
-Não se preocupe professor.
Seguimos até meu carro. Eu não iria tentar refletir sobre esta noite, preferiria deixar isso para quando estivesse em casa. Como o bom cavalheiro que sou abri a porta do carro para a garota. Ela murmurou um “obrigado”. Eu a vi relaxar instantaneamente no banco do carro. Liguei o aquecedor do carro e o som colocando uma música bem suave, os noturnos de Chopin. Ela fechou os olhos e cravou aquele bonito sorriso nos lábios. Ficou murmurando a melodia.
-Conhece a música? –Perguntei mantendo os olhos na estrala.
-Minha mãe gostava de música clássica. Chopin era seu favorito. –Ela disse. Fiquei alarmado com a colocação do verbo. Ela disse “gostava”. Ou a mão mudou de gosto, o que eu duvido, ou estava morta. Achei melhor não perguntar. Depois de ir para a avenida percebi que não havia perguntado o endereço da garota.
-Onde você mora? –Nada. Eu olhei para o lado, ela estava calma, parecia dormir. Era só o que faltava! –Hei! Yuuki! –Eu a cutuquei. Nada. Parecia tão serena, estava realmente cansada. Queria entender o porquê de seu cansaço, talvez trabalhasse. Isso justificaria o cansaço e até as faltas. Eu encostei o carro, continuei a sacudi-la, mas ela estava em sono profundo. Suspirei. Eu sei que o que eu faria era errado, eu nem deveria ter saído com a garota, mas eu não poderia largá-la por ai. Eu a levaria para casa.
...
-Boa noite senhor Kiryuu! –Disse o porteiro do meu prédio. Yuuki estava aninhada nos meus braços.
-Boa noite. Pode apertar o botão do elevador pra mim? –Ele veio até mim e fez o que pedi. Olhou especulativamente para a garota nos meus braços. Tentei ignorá-lo, felizmente logo o elevador chegou e segui meu rumo. Shizuka só estaria daqui a cinco dias em casa, não haveria problema. Eu não estava fazendo nada com a garota afinal. Segui pelo apartamento indo diretamente para o meu quarto, só havia um quarto mobiliado na casa. Deitei Yuuki em minha cama, retirei seus sapatos e a cobri com o edredom. Ela parecia tão exausta. Estupidamente me perguntei se alguém cuidava da garota. Durante nossa conversa senti que talvez sua mãe estivesse morta, mas ela deveria ter alguém. Não na escola, ninguém conversava com ela a não ser eu.
Minha mão involuntariamente passeou pela sua pequena franja, eu estaquei vendo-me afagar o rosto. Eu estaquei. Eu estava louco? Senti repulsa de mim, afastei-me. Dormiria no sofá.
...
Sentia um estranho desconforto como se alguém estivesse me observando. Ao abrir os olhos encontrei com um par de olhos castanhos fitando-me.
-YUUKI!
-Bom dia Zero. –Ela disse sorrindo. Afastou-se. –Fiz o café. Vem. –Yuuki foi para minha cozinha.
Eu a segui completamente desnorteado. Pude ver pelo espelho que ficava próximo a entrada da cozinha como estava lastimável. O rosto com olheiras, a cara amassada. Eu deveria tomar um bom banho, mas não me agradava que Yuuki estivesse lá.
-Me desculpe pelo transtorno. –Ela disse enquanto eu me sentava à mesa.
-Tudo bem. Dormiu bem?
-Sim. Você não parece ter dormido muito bem. Sinto-me culpada quanto a isso.
-Não se sinta. Não foi tão ruim de qualquer forma. –Me servi. Yuuki continuou parada. –Não vai comer o café que você preparou?
-Ah! Claro. –Ela se sentou diante de mim e tomamos um café tranqüilo. Eu me policiava a todo instante para não ficar olhando muito para a menina. Ao termino do café Yuuki recolheu a louça suja.
-Não precisa lavar. Eu faço isso. –Eu disse.
-Imagina! Não me importo. É como uma forma de compensar o transtorno.
-Bem eu... Eu preciso me arrumar.
-Tudo bem.
Segui para meu quarto e tão logo fui ao banheiro tomar meu banho. Estava com pressa para me vestir, com pressa para me livrar de Yuuki antes que os visinhos a vissem e começassem a especular. Eu realmente pensei que a encontraria na sala, mas ela não estava lá. Ela havia saído do apartamento.
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