Notas iniciais
Ainda não terminei o primeiro capítulo e espero que vocês não se aborreçam por eu ter manía de fazer capítulos extremamente grandes.

Adolescência, um período no qual todo adulto já passou. Alguns a tratam com certa distinção, outros a consideram um período entre a infância e a fase adulta, mas nunca devemos ignorá-la. E ela sempre aparece lentamente, transformando uma linda e inocente criança em um grotesco monstro espinhento e malicioso. Crueldade até, transformar tal coisa a extremos. E não para até aí; a perversidade da adolescência é tão elevada que modifica não só o físico, mas o mental, emocional e social da antiga pequena criaturinha.

“Não sou um adulto, mas também não sou uma criança”, “Não tenho tantas responsabilidades como os adultos, mas tenho mais obrigações do que quando era criança” são exemplos de frases que caracterizam esse período de transição. Hormônios. Ah, malditos hormônios! Alteram tão exageradamente o corpo dos adolescentes. Como uma borboleta que sofre sua metamorfose, o jovem também passa por ela. Não com tanta magnitude, mas são tantos aspectos que dá até para comparar a esse nível.

Crescimento. Crescer é natural e amadurecer é inevitável. Amadurecer, em todos os sentidos. Os adolescentes possuem mais percepção e inteligência do que crianças, portanto é imprescindível que cada vez mais haja responsabilidades, obrigações e conhecimento. Não apenas o conhecimento aprendido na escola, mas o adquirido na vida.

Mas ao lado de toda essa parte ruim, há a parte boa: liberdade. Os adolescentes, por terem mais percepção e inteligência, ganham uma liberdade maior. Sair com amigos, sem os pais, para diversos lugares, sair sozinho (para os que preferem), sair com a pessoa que gosta... E chegamos ao ponto principal (ou só principal porque é o meu preferido), sexualidade. Retornamos aos terríveis hormônios (eles que motivam a sexualidade nos jovens). Relembrando também do conhecimento infanto-juvenil, é nessa época em que descobrimos que nós não viemos no biquinho de uma cegonha, encomendado pelos pais. Descobrimos também novos sentimentos, como o amor e a amizade e encontramos nossos estilos (gostos pessoais). Somos influenciados por desejos e tentados (lá vem o hormônio de novo) a experimentar novas sensações. E com esses desejos surge o primeiro beijo, o primeiro amor, o primeiro namorado, a primeira vez...

“Adolescência, sem dúvidas a melhor fase da vida. É uma lástima que os jovens apenas percebam isso tarde demais”. Lourdes pensava, fitando a pequena porta de madeira da frente de sua casa. Ela aguardava ansiosamente a chegada dos seus pensionistas adolescentes. Não que a casa dela fosse uma pensão, mas agora se tornaria uma república. Estava apenas esperando os jovens interessados aparecerem.

Ela e sua filha mais velha, Heloísa, que também mora na casa, decidiram abrir uma república para arrecadar mais dinheiro. Heloísa apenas concordou em dividir sua casa com outras pessoas para não passar mais dificuldades financeiras. Já Lourdes, mesmo afirmando para sua filha que os fins eram apenas lucrativos, não podia negar que sua prioridade era os jovens. Ela não aguentava mais tanta monotonia e infelicidade em sua vida e desejava levantar o astral com a alegria e perspicácia emitida pelos adolescentes.

Um zumbido vindo de dentro da casa e novamente Heloísa reclamava. Sentada no sofá-cama com um pode de sorvete de napolitano no colo e assistindo pela milésima vez Titanic, ela relembrava com angústia e rancor do seu ex-marido. As lágrimas brotavam de seus olhos castanhos e a dor contorcia seu coração. Para evitar que a depressão a consumisse, ela levantou, desligou a televisão, enxugou as modestas lágrimas e caminhou até aproximar-se da mãe, onde sentou ao seu lado, na varanda.

- Esquece ele e pense nas novas pessoas que irá conhecer – instruiu Lourdes. – Elas precisarão de uma boa recepção. Não quero cara feia e nem implicâncias. Quero que os trate como irmãos e, principalmente hoje, sorria.

Heloísa assentiu, mas Lourdes sabia era quase impossível para a filha sorrir. Seu coração ainda machucado sangrava e guardaria machucados irreparáveis durante toda a vida. Ser a última das três filhas de Lourdes a se casar, sendo ela a mais velha, e ainda ser traída pelo marido era demais. E ela não carregava nem a vã esperança de arrumar alguém novamente, não depois de completar quarenta e cinco anos. Ela simplesmente desistiu da vida. Parou de se cuidar, não frequenta lugares do seu agrado, trancafiou-se em casa e fechou-se para o mundo, se tornando uma pessoa rabugenta, velha e insossa.

Tão diferente da filha, Lourdes tinha a idade mental de cinquenta anos mais jovem do que sua idade atual, que beirava pelos setenta. Seus cabelos podiam ser brancos, mas o espírito jovem jamais abandonou sua alma. Sua vontade de viver e seu entusiasmo são proporcionais ao de um jovem que acaba de descobrir sua liberdade.

Ela sorria esbaforida para o portão enquanto aguardava. Heloísa bufava e reclamava pela demora e pelo fato de alguma hora eles chegarem. Nada para ela estava bom, portanto nunca se dava por satisfeita.

O primeiro a chegar foi um menino de estatura média, cabelos castanhos claros lisos no estilo “tijolinho”, olhos castanhos acompanhados por óculos e pele clara. Ele carregava desastrosamente uma mala de rodinhas azul-marinho, uma mochila preta e um nintendo branco. Lourdes apressou-se em ajudar o primeiro jovem a chegar.

- Olá meu jovem, seja bem vindo. Sinta-se à vontade. – Lourdes pegou a mala de rodinhas e carregou para o interior da casa. – Essa daqui será sua nova casa daqui para frente e espero que goste.

- Obrigada! – Ele agradeceu endireitando seus óculos e a pesada mochila em suas costas. – Onde fica meu quarto?

- Fica no segundo andar. Vem que te levo lá.

O menino seguiu Lourdes, deslumbrado com o tamanho da casa. Realmente ela era grande. Grande o suficiente para acomodar dez pessoas com muito conforto. A única coisa que faltava eram mais móveis ou enfeites para ocupar os locais vazios. Nesse aspecto a casa de Lourdes era carente e precisaria de mais investimentos para melhorar. Mas era isso que mais faltava, dinheiro para investimentos.

Silenciosamente Heloísa seguiu os dois enquanto subiam as escadas. Ninguém reparou na sua presença, exceto após seu ataque de risos. O desafortunado garoto subia tranquilamente as escadas quando tropeçou em seu próprio pé e quase caiu de cara nelas, causando uma explosão de gargalhadas por parte de Heloísa. Pobre garoto, tão desastrado!

- Desculpe, mas seu tombo foi engraçado. – Heloísa comentou quando conseguiu falar. Estendeu a mão para o menino e o ajudou a levantar.

Foi um susto para Lourdes ver sua filha agir dessa forma. Havia anos que ela não a via rir dessa maneira. Apesar de ser uma atitude um tanto grosseira, ela não pode deixar de se sentir satisfeita por ouvir novamente a gargalhada de sua primogênita.

- Desculpe! – Lourdes falou assim que chegou ao segundo andar, levando as mãos na cabeça. – Esqueci do mais importante: as apresentações. Me chamo Lourdes e aquela dali é minha filha Heloísa.

- Sou o João Victor. – ele cumprimentou educadamente as duas.

- Seja bem vindo JV. Este é o seu quarto. – Lourdes abriu a porta de um cômodo e revelou um grande quarto azul, com duas camas e um beliche.

Ele sorriu, correndo até a primeira cama e despejando suas bagagens nela. Aproveitou para pular, em comemoração, mas depois aquiesceu, como se tentasse reprimir aquele tipo de comportamento.

- Do que a senhora me chamou? – ele perguntou se aproximando de Lourdes.

- De JV. Não pode?

- Pode, claro, só queria saber como a senhora descobriu meu apelido.

- Não é tão difícil de deduzir, acredite – ela dava tapinhas leves em seu ombro, enquanto ria internamente da lerdeza dele. – E a propósito, nunca me chame de senhora. Se quiser me chame de tia, menos de senhora, por favor.

- Como quiser. – ele deu de ombros. Andou até a cama escolhida e encostou-se a sua cabeceira, sacando o nintendo do seu bolso e prendendo sua atenção ao objeto.

Percebendo que sua missão estava cumprida, Lourdes encostou a porta do quarto e desceu as escadas. No penúltimo degrau, ela ouviu o som da campainha. Mais alguém havia chegado. Animada, ela cantarolou até se aproximar da porta. Sua feliz marcha de carnaval foi interrompida por uma briga interna.

-... E você manda em mim o tempo todo. Parece nossos pais.

- Se você parasse de fazer besteiras e se comportasse adequadamente.

- O que é se comportar adequadamente para você? Ser uma santa?

- Não, ser uma pessoa normal.

- Pessoas normais erram e eu sou uma delas.

Aquilo já bastava. Lourdes se enfezou e abriu a porta. Sorriu graciosamente, como se não tivesse escutado nada. Uma das meninas sorriu constrangida e a outra revirou os olhos.

- Olá, a senhora é Lourdes Lopez?

- Sim, sou eu. Entrem, sejam bem vindas a minha republica.

As duas garotas entraram. Uma delas, a mais alta, tinha cabelos castanhos lisos, olhos azuis e um sorriso encantador. Carregava uma mala grande de rodinhas caramelo e uma pequena bolsa de mão. A outra menina tinha os cabelos com a mesma textura, mas a cor era bem mais escura, quase num preto. Os olhos eram azuis escuros, quase no mesmo tom do lápis-lazúli. Além de também carregar uma mala de rodinhas ela segurava uma mala de mão e uma mochila nas costas.

Lourdes e depois Heloísa auxiliaram as meninas com as malas. Lourdes simpatizou-se com a menina mais alta e fez questão em ajudá-la. Queria muito conversar com ela, mas a menina não puxava nenhum assunto. Ela resolveu, então, comentar qualquer coisa.

- Nossa que malinha mais pesada – ela levantou a mala a fez uma expressão séria. Depois riu, acompanhada pelo riso tímido da menina. – Qual seu nome menina?

- Sou Cristal. Cristal Furtado – ela levantou a mão e apertou as de Lourdes. – E aquela dali é minha irmã mais nova Ágatha.

Ágatha bufou.

- Você sempre tem que destacar MINHA IRMÃ MAIS NOVA.

Cristal revirou os olhos e ignorou o comentário da irmã.

- Onde eu coloco essas malas Dona Lourdes?

- Dona, eu? Não te comprei para ser sua dona. Prefiro que me chame de tia, mas de dona não.

Cristal assentiu.

- Em troca te chamarei de Cris, se não se importar.

- Gosto de Cris.

- Ótimo! – Lourdes lançou uma piscadela e pegou uma das malas. – Agora me ajude a levar isso para o quarto de vocês.

As duas levaram as malas até um quarto grande rosa. Havia a mesma quantidade de camas do que o dos meninos e distribuídas quase da mesma forma. O tamanho do quarto era tão grande quanto o outro, mas esse era um pouco maior.

Cristal colocou as malas no canto e admirou o quarto. Andou nele, sorrindo. Seus olhos brilhavam de felicidade, principalmente quando ela olhou a vista da janela.

- Como aqui é grande!

O comentário foi baixo, mas suficiente para Lourdes ouvir. Ela se aproximou da menina enquanto analisava o quarto.

- Tão grande e tão vazio! – O tom de sua voz era sério.

- Mas logo isso aqui vai encher de adolescentes.

- Na verdade já tem até um. Vou chamá-lo para que vocês se interajam. – ela pensou e depois andou até o outro quarto.

A porta estava fechada. Lourdes bateu nela seis vezes, mas ninguém atendeu. Percebendo que estava aberta ela abriu calmamente, para apenas verificar o que acontecia primeiro. JV estava de costas e se remexia estranhamente. Ela ignorou esse fato e resolveu falar.

- JV, tenho amigas novas para você. Elas são tão bonitas. Vão morar aqui conosco.

O menino nem se deu ao trabalho de olhar. Escutava um heavy metal pesado e não escutava absolutamente nada do que Lourdes dizia, mas ela não percebeu isso. Achou que ele era muito tímido e não queria se expor ou que era qualquer outra esquisitice de adolescentes modernos, mas que não ele queria nem lhe dar atenção.

- Venha conhecê-las, não tenha vergonha. Eu te ajudo.

JV balançou a cabeça freneticamente, o que assustou Lourdes. Seus cabelos lisos balançavam, acompanhando o movimento da cabeça e ele soltava uns gritinhos bizarros. Ela se aproximou para averiguar o que havia acontecido com ele. Tocou em suas costas mansamente, mas ele assustou-se e gritou, virando-se para trás. Ela também gritou com o susto que sua reação lhe provocou e por instinto bateu em suas costas.

- Que susto menino! – Ela pos suas mãos no coração enquanto arfava. – Quer matar essa velha do coração?

Ele tirou o fone dos ouvidos, ainda confuso.

- Perdoe-me, não ouvi você entrar.

- Isso eu percebi.

- Algum problema?

- Chegaram pessoas novas. Vim chamá-lo para conhecer.

- Sim, claro, me leve até elas – ele concordou, rindo da situação e acompanhou a velhinha.

Havia duas pessoas na sala, mas elas não se interagiam. Ágatha sentou no primeiro degrau da escada e ali permaneceu emburrada. Ela e Heloísa trocavam alguns olhares, mas, orgulhosas, nenhuma delas começava algum assunto. Nem o básico, o “oi” ou as apresentações, elas haviam feito. Encaravam-se, vez ou outra, e disfarçavam quando os olhares se encontravam.

Cansada daquilo, Ágatha pegou suas malas e subiu. Encontrou algumas dificuldades no caminho, já que eram pesadas. Heloísa, percebendo a dificuldade da menina, resolveu ajudar.

- Quer que eu leve a mala de rodinhas? – ela perguntou prestativa.

Ágatha a observou e jogou a mala de rodinhas para seu lado. Continuou subindo, ignorando a presença de Heloísa e a sua ajuda.

Assim que chegou ao segundo andar, Ágatha avistou sua irmã sentada numa cama. Andou até lá e despejou a mala e a mochila de qualquer jeito no chão. Heloísa chegou ao quarto oscilando e colocou a mala de rodinhas num canto, analisando a reação de Ágatha quando ela terminou o “serviço”. A menina não deu sinal de se importar com aquilo e sentou na cama, ao lado da irmã, sem nem olhar para ela.

- Um obrigado seria muito bom – disse Heloísa, ao passar ao lado da menina.

- Não vou agradecer. Não pedi favor nenhum. – Ágatha deu de ombros.

Heloísa mudou de cor, assumindo um vermelho vivo. Suas mãos se fecharam em punhos e ela respirou profundamente três vezes.

- Isso são modos Ágatha? – repreendeu Cris – Peça desculpas e agradeça a essa moça pela a ajuda.

- Não sou obrigada a te obedecer. Você não é minha mãe.

- Você tem que me respeitar assim como eu te respeito. Não quero você falando dessa maneira nem comigo, nem com ninguém. Melhore agora o seu humor e o seu comportamento, ou eu ligo para o papai e peço para você morar com ele. Você quis vir para cá, agora vai ter que se comportar. Principalmente com as pessoas que nos dão abrigo.

- Dão abrigo porque pagamos.

- Não interessa. Você nunca vai morar em um lugar confortável que não seja mediante a qualquer tipo de pagamento.

Ágatha engoliu seco, sabia que estava errada. Heloísa, de tão impressionada com as palavras de Cris, sorriu para a menina, que retribuiu timidamente. Sua irmã só a vazia passar vergonha.

- Acho que você deve desculpas a alguém, Agatinha.

A menina olhou para baixo, sendo dominada por seu orgulho. Bufou.

- Desculpa. – A desculpa saiu baixa e de má vontade.

Heloísa assentiu, mas por dentro ria da derrota da menina.

- Desculpe o transtorno – Cris se desculpou.

- Tudo bem, ér... Qual o seu nome mesmo?

- Cristal, e o seu?

- Sou Heloísa. – ela estendeu o braço e cumprimentou Cris.

Um barulho despertou a atenção delas. Olharam e avistaram Lourdes e JV entrando no quarto.

- Com licença meninas – ela bateu na porta. – Vim apresentá-las a um colega que também morará aqui.

O menino olhou timidamente para cima e se deslumbrou com a beleza de Cris e Ágatha. Arrumou os óculos em sua face para verificar se tudo aquilo era verdade, mas a imagem não se modificou. Sorriu da melhor forma possível, mas sua timidez impediu que ele pudesse falar.

Percebendo que havia algo de esquisito naquele menino, Ágatha fez questão em não falar nada. Ela já o julgava pela aparência e o rotulava de nerd. Óculos, cara de retardado e roupas que entravam em conflito entre si (não combinavam) já era um forte motivo para não se aproximar dele.

JV era mesmo um nerd, mas do tipo tolerável. É inteligente, tira boas notas, sabe lidar muito bem com a informática e a tecnologia, ama jogar vídeo game e ouvir música alta. Seus únicos defeitos é a timidez, um pouco de lerdeza e a falta de senso para se arrumar (no estilo jeca), mas é um ótimo amigo e companheiro, leal até o fim.

O silêncio permaneceu no quarto feminino até que Lourdes ficasse ciente do que estava acontecendo. Ao ver Cris e JV enrubescidos e Ágatha revirando os olhos impaciente, lembrou-se que havia esquecido um detalhe importantíssimo.

- Meu Deus, me perdoem crianças! – ela ria da própria falha – Esqueci das apresentações. Oh, como sou esquecida!

- Esquecida nada, esclerosada mesmo. – implicou Heloísa.

- Calada. Um dia você chegará nessa idade e verá como é – ela lançou um olhar meio ameaçador, meio brincalhão. – Meninas, esse daqui é o João Victor, JV, e aquelas ali são a Cristal, Cris, e Ágatha.

- Cristal, Cris, e Ágatha, gata?

- Não, para você é Ágatha mesmo.

Todos no quarto riram, exceto Ágatha, que levou a brincadeira à sério demais e achou que JV dava mole para ela.

As risadas cessaram quando a campainha tocou. Lourdes fez uma expressão de preguiça e quase pediu que Heloísa fosse atender, mas seria uma má ideia. Ela não costumava a ser uma pessoa agradável com desconhecidos.

- Já volto galera.

Preguiçosamente ela andou o mais rápido que pode quando o apressado apertou diversas vezes a campainha, fazendo-a quase correr. Ela abriu a porta esbaforida, ofegando constantemente e com uma gota de suor escorrendo na lateral de sua face.

O menino que aguardava impaciente encostado na própria mala analisou o estado da senhora, bagunçando seus cabelos ruivos brilhantes. Levantou uma sobrancelha ao falar.

- Aqui mora alguma atleta?

- Não.

- Aqui mora poucas pessoas e normais?

- Também não.

- Ótimo, então estou no lugar certo – ele sorriu satisfeito.

- Certamente... – Lourdes fez um gesto para que ele de apresentasse.

- Betinho.

- Certamente Betinho – ela corrigiu. – Sou Lourdes.

Ela já ia estender o braço para cumprimentá-lo, quando ele fez um gesto descolado com as mãos.

- Qual é tia, beleza? Toca aí!

Ela, o observou confusa. Não compreendia aqueles gestos.

- Tocar o que?

- Punheta que não vai ser. Na minha mão – ele pegou a mão dela e encostou-se à dele – É só encostar ou dar um soco.

Abismada, Lourdes arregalou os olhos. Ela poderia xingá-lo, chamá-lo de audacioso ou lhe pedir mais respeito, mas não faria isso. Ela era bem diferente das senhoras de sua idade. Ao contrário do que qualquer um pensaria que ela fizesse, ela sorriu maliciosamente e apontou para Betinho.

- Há, gostei de você, garoto. Foi o primeiro que não me chamou de senhora ou dona e ainda falou abertamente comigo. Danadinho. Quero que me mantenha a par de todas as novidades, principalmente das gírias, ou dessa língua que vocês falam ai. Parece uma espécie de adolescentês.

Betinho riu, divertindo-se com a diferente senhora.

- Pode deixar, vou te informar de todas as paradas novas. Novidades é comigo mesmo.

- Agora venha, vou te mostrar a casa, seu quarto e seus novos colegas.

Assim que Lourdes deu às costas para a porta, a campainha tocou. Ela parou, respirou e se deu por satisfeita por não estar no segundo andar.

- Não vai atender? – perguntou Betinho, observando a estranha reação de Lourdes.

- Vou. – ela respondeu, dando um giro de 180° e abrindo a porta com um enorme sorriso no rosto.

Uma linda menina, que mais parecia uma modelo encarava Lourdes. Seus cabelos escuros cacheados combinavam com seus olhos da mesma cor, um castanho chocolate. Sua pele, bronzeada, lhe dava uma aparência indígena. Seu corpo, magro como um caniço, parecia que iria partir-se a qualquer instante.

- Olá minha jovem. Entre.

A garota entrou com suas duas malas e uma bolsinha de mão. Lourdes a ajudou no que pode e elas andaram até o lado de Betinho, que admirava a colega de casa.

- Sou Lourdes – ela estendeu a mão – e esse aqui é Betinho.

- Oi, sou Lívia. – ela cumprimentou Lourdes e acenou para Betinho.

Jogando o seu charme para a garota, Betinho pegou uma das mãos dela e levou delicadamente até sua boca. Deu um breve beijo e sorriu, com seus olhos castanho mel vidrados nos delas.

- Encantado, Lívia.

A garota riu, envergonhada. Seu rosto enrubesceu.

- Pode me chamar de Lia – ela corrigiu.

- Você que manda. – ele fez uma mesura.

Houve um silêncio na sala enquanto Betinho tentava flertar com Lia, que olhava para Lourdes fingindo não ver as piscadelas nem outras “manobras”. Só restava para Lourdes olhar para o teto e fingir que não enxergava mais nada. Ela fez isso, mas não por muito tempo. Arrependeu-se cinco minutos depois.

- Vamos subir meninos? Ainda têm várias pessoas para conhecer.

Lia foi a primeira a concordar e apressou-se em subir as escadas com suas malas. Atordoada com o peso, ela subia devagar e com dificuldades.

- Deixa que eu te ajude. – Betinho chegou por trás e tirou as malas das mãos dela. – Peso é para homem, não para menininhas delicadas como você.

Ela observou, sem ter o que fazer. Não sabia se pegava as malas de volta, se agradecia ou se pedia para ele parar de dar mole para ela. Aquilo já a irritava.

Lourdes percebeu a intenção de Betinho e lembrou da sua época de ouro, dos seus anos dourados. Ah, se ela pudesse revelar a verdade a todos... Mas ela podia ajudar o menino, e tentou da maneira que pode.

- Lia você precisa ver como Betinho é engraçado. Ri muito com ele aqui agora pouco, antes de você chegar. Sem contar que meninos tão bonzinhos como ele é difícil de se achar.

A velha senhora foi até o menino gorducho e acariciou seus cabelos, bagunçando de um lado para o outro. E sorrindo, de modo tão forçado que até um imbecil notaria que era falso.

Não compreendendo Lourdes, Betinho se desviou e a encarou confuso.

- Qual foi tia? Vai ficar bagunçando meu cabelo igual cachorro?

Na primeira reação, Lourdes o olharia com cara feia, mas ela levou aquilo na brincadeira.

- Ta vendo Lia, esse garoto é um brincalhão. – Ela riu e bateu na cabeça dele. O que era para ser tapinhas de “bom menino” transformou-se em tapas fortes de “para de zoar com a minha cara”.

- É, percebi. – a garota deu de ombros. Só não deixou a senhora no vácuo para não passar a imagem de mal educada.

Os três chegaram ao segundo andar e entraram no quarto feminino. Lourdes apontou o quarto masculino para Betinho, que deixou as malas de Lia lá e desceu para buscar as dele.

Todos os olhares se voltaram para Lia, que não conseguiu conter seu nervosismo. Ela não percebeu que só olhavam para ela por ser a recém chegada e achou que o problema era sua aparência. Cuidadosamente ela tocou em seus cabelos, em seu rosto, em seu corpo, olhou sua barriga.

Para piorar a situação, Lia percebeu quando Ágatha soltou um risinho. Ela olhou meticulosamente para a garota e percebeu o quanto ela era bonita. Ela e uma garota ao seu lado, a Cris. Sentiu uma pontada de inveja por não ter aquela beleza toda, por seus cabelos não serem lisos e por seus olhos não serem em nenhum tom de azul. Como ela desejava ter aquela beleza, como ela faria de tudo para ser daquela forma. Mas o jeito era contentar-se com o que tem. Ela até tentaria, se todas aquelas pessoas parassem e encará-la. Isso a amedrontava, a paralisava.

- Essa daqui é a mais nova colega de quarto de vocês, – anunciou Lourdes. – Lívia. Querida Lia, aquela senhora sentada é minha filha mais velha, Heloísa...

- Senhora é uma ova – protestou Heloísa.

- Que seja. Aquele garoto ali é o João Vitor ou JV, aquela garota deitada é a Ágatha e a outra sentada é a Cris.

- Oi gente – Lia acenou. – Há algum problema comigo? – ela não conseguiu conter a última pergunta.

- Você me parece ótima. – JV foi o primeiro a responder. – Tá gatinha.

- Obrigada!

- Para mim você tem um problema, – disse Ágatha – neurótica demais com a aparência. Carregue sempre um espelhinho, já que se preocupa tanto. Perguntar essas coisas fica feio para você.

- Ágatha! – repreendeu Cris.

- Sou sincera Cris. E estou tentando ser legal, alertando a menina a não passar vergonha, com uma pergunta esquisita dessas.

- Tudo bem, Ágatha. Obrigada pelo conselho, vou segui-lo.

Lia sorriu na tentativa de não transpassar seu desconforto.

- Fico feliz que a tenha ajudado.

Um curto período silencioso se passou, entre fortes olhadas interessadas de Betinho para Lia, sorrisos simpáticos de Lia para Cris, que a analisava com cuidado e se entristecia por confirmar a falta de imperfeições dela e olhos cautelosos de Ágatha, que observava cada ação esquisita de Lia.

Percebendo que aquilo era tedioso demais, Heloísa se levantou e saiu do quarto, sem pedir licença e revirando os olhos. Lourdes repreendeu a filha, mas ela ignorou e fingiu que não ouviu. Desceu as escadas e ligou a TV, no canal onde só se passa reprise de novelas.

Envergonhada, Lourdes desculpou-se com todos os presentes no quarto, mas a maioria nem se importou. Com o pouco tempo que passaram com Heloísa, já se adaptaram a sua maneira grosseira de agir.

- Hum... Já é tarde. – Lourdes olhou a janela e analisou o tempo. – Acho que não chegará mais ninguém hoje. Vocês estão com fome? Preparei lasanha à bolonhesa para o jantar.

- OBA! – Exclamou Betinho, deslizando até o lado de Lourdes. – Mandou bem tia, eu amo lasanha.

- Já estava na hora de se oferecer comida nessa casa. – Ágatha lançou um comentário venenoso.

Lourdes percebeu o veneno implícito no comentário da menina e resolveu devolvê-lo de uma forma superior, dando um “tapa de luva” nela.

- A casa também é sua a partir do momento que entrou aqui, portanto tem a liberdade de comer no momento que desejar, sem que eu precise lhe oferecer.

Um silêncio se formou, enquanto Ágatha digeria as palavras ásperas de Lourdes, boquiaberta. Poucas pessoas se atreviam a falar com ela da mesma forma com que ela fala.

- Ih, ih – Betinho quebrou o silencio, apontando risonho para Ágatha. – Levou fora da coroa.

Ágatha mudou de cor, assumindo um vermelho vivo. Ela andou furiosamente até Betinho e lhe deu um tapa na cabeça, no estilo “pedala Robinho”.

— CALADO! – ela berrou ao lhe dar o tapa.

Ele a olhou e cima a baixo e revirou os olhos.

- Você se acha, não é garota?

- Não! – ela protestou. – Só não sou idiota como você.

- Ei! – gritou Cris. Ela levantou e andou até Betinho e Ágatha. – Parem com isso. Vocês serão parceiros de casa, precisam se respeitar. Não é um bom início começar com brigas.

- Ela que começou, me batendo. – acusou Betinho.

- Dela, deixa que eu cuido. – Cris bagunçou o cabelo de Ágatha, finalizando com um beijo em sua cabeça.

- Você não é minha mãe Cris, não se esqueça.

- Mas enquanto você não tiver idade mental para se defender sozinha, eu cuido de você.

Ágatha abriu a boca para protestar, mas nenhum som saiu. Mesmo ela sabendo se defender sozinha, não podia negar a ajuda que sua irmã lhe dava. Mas não falava isso para ela. Nunca falaria; seu orgulho não permitiria.

- Ih a lá! – Betinho caiu na gargalhada. – Levou fora de novo, otária. Mas não vou discutir com você, estou com fome demais para isso – ele andou até a porta do quarto e acenou, batendo-a com força. – Beijos.

Todos riram, o que deixou Ágatha vermelha. Até Cris tentou segurar o riso, mas foi incapaz após olhar para sua irmã. Sua cara de “raivinha” estava realmente hilária.

- Vamos crianças. – Lourdes instou que todos a seguissem. Puxou Lia pela mão e tocou no braço de Cris. – Antes que a fome da Ágatha aumente e ela piore da TPM. – ela riu baixinho do seu comentário sarcástico.
Notas finais
Os personagens serão descritos na própria história, conforme forem aparecendo.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.