Notas iniciais
Jerry foi transferido de escola sem muitos problemas, ninguém ficara sabendo, nenhum de seus colegas, nem Tom. Apenas a família.
Contou para seus pais a verdade e o porquê de ter estado daquele jeito. Teve alguns problemas, mas no fim tudo ficou bem.
Ignorava ligações que recebia e implorou para seus pais não atenderem as pessoas de sua escola. Não sabia o que fazer depois do "show" que dera na escola.
Tentava esquecer Tom, mas não conseguia, martelava sobre ele em sua cabeça, não sabia que fim tinha levado, poderia ter sido expulso de casa, poderia ter se safado, muitas opções. Tinha medo de descobrir.
Passaram-se 2 meses, seus novos amigos eram legais,mesmo que não substituíssem os antigos. Descobrira ser realmente popular, pois outras escolas também o conheciam.
Alguns colegas ainda tentavam encontrá-lo, mas fugia deles, prometera para si mesmo ser uma nova pessoa, parou de procurar brigas, ir para festas, ficar com as pessoas. Se dedicaria em ir para uma boa faculdade com bolsa esportiva.
Se tornaria um jogador profissional de futebol americano.
Chegou em seu novo apartamento, por acaso, seus pais alugaram-lhe um. Sabe, para evitar certas visitas.
Sua mãe e seu pai sempre vinham lhe visitar, sua convivência não tinha sido nem um pouco alterada. Estava até melhor agora que era um garoto mais comportado.
Parecia até algum tipo de drogado que tentava largar o vício. Sentia falta de Tomas e seus beijos, brigas... só que sabia que estava melhor sem ele.
Até parecia irreal sua atual vida, porém realmente estava acontecendo, estava se acostumando.
Jogou seu material escolar em qualquer lugar e foi na direção da geladeira, estava com fome. Treinar fazia isso com ele.
Já ia pegar alguma coisa quando o telefone fixo tocou. Estranhou,pois já havia falado com a mãe quando estava a caminho de sua nova moradia.
Será que havia acontecido algo? Talvez estivesse em uma cena de terror ou suspense, afinal, ninguém sabia aquele número.
Correu para atender, e o fez.
— Alô?
— Oi, Jerry.
Congelou ao telefone, teve uma súbita vontade de desligar no exato momento em que reconheceu a voz de Tomas, mas não o fez, não sabia o porquê.
— Me dê UM motivo que seja pra não desligar agora mesmo. — respondeu com um tom de voz rígido. Apertava com força o objeto.
— Me desculpa, Jerry... não era pra eu ter feito aquilo. Me sinto um ser nojento toda vez que penso sobre o que fiz com Toodles, e eu sempre penso nisso. Pode-se dizer que emagreci um tanto nesses últimos meses.
Mordeu o lábio inferior com indignação, seu coração poderia ter uma parada cardíaca a qualquer momento.
— Por que deveria te perdoar?
— Não estou bem comigo mesmo, fico pensando em você, no quanto deve ter se sentido mal. Eu estou tão arrependido de tudo o que fiz. — parou um pouco, sua voz estava rouca. — Fico pensando no quanto quero te ver de novo. Queria te beijar, te abraçar....
— Você me deixa enjoado, Tomas. — queria falar logo seu endereço, ficar com ele, deixar tudo pra lá, mas ainda era movido pela mágoa que o moreno havia lhe trago. — Se é tudo o que tem a dizer, adeus.
Ia desligar quando ouviu um grito do outro lado da linha, pareceu profundamente desesperado.
— Me dá uma segunda chance, Jerry!
Queria uma segunda chance?! Para quê? Só para destruí-lo de novo? Não conseguia acreditar.
— Tomas...
— Por favor, por favor... deixa eu te apresentar um novo Tom. Vamos começar tudo de novo, desde o zero.
— Pra quê? — sua voz falhou.
— Pra você se apaixonar por uma pessoa melhor, uma que preste. Pra eu poder dizer o quanto eu te amo, só que dessa vez sem qualquer tipo de medo!
— Não sei se ainda consigo olhar na sua cara.
— Não precisa! Nem ouvir minha voz. Podemos conversar até mesmo por carta. Deixa eu te mostrar o melhor de mim.
Sua determinação era assim tão grande? Tom não era do tipo que suplicava. Deveria dar-lhe mesmo aquela chance? Tentar se apaixonar por uma nova pessoa, diferente da que era apaixonado por 10 anos? Não sabia se conseguiria.
Passados alguns segundos, respondeu.
— Tudo bem. Espero nunca mais ver ou ouvir esse ser asqueroso que você é atualmente.
Foram palavras duras, entretanto extremamente sinceras.
Lhe passou seu endereço dos correios, pois nunca daria o novo endereço. Se arrependeu em seguida.
— Tchau, antigo Tomas.
— Tchau, Jerry, muito obrigado por ter deixado eu te amar duas vezes.
— Eu te amei muito.
——— / / ———
Com uma certa má vontade, 3 dias depois foi em busca de suas correspondências, tinha 100% de certeza que haveria nada lá.
Pois bem, errou.
Ao abrir o pequeno armário, viu uma carta sozinha, no meio de algumas pequenas teias de aranha.
Pegou e visualizou calmamente, era a sua letra, havia ficado por acaso mais bonita. Abriria em outro lugar.
Seguiu em direção à um parque, pois lá haviam muitas pessoas. Não gostava de ficar sozinho. Lá também havia bancos em meio às árvores, pássaros, era tranquilizante.
Avistou um banco sem ninguém e apressou-se para obtê-lo.
Tirou o papel do bolso, destacou e desdobrou para finalmente ler o seu conteúdo. Ansiava por aquilo secretamente.
Deslizou os dedos sobre os papéis, desanimado. Ele tocara naqueles pápeis, escrevera neles, depositara seus sentimentos. Agora ele, Jerry, absorveria tudo.
" Olá,
Existe um tempo em que vinha lhe observando, mas nunca tive coragem para falar com você. Achei que você talvez fosse demais pra mim.
Prazer, meu nome é Tomas.
Igual ao antigo, mas sou a parte escondida, que tinha medo de se mostrar, sempre oprimida pelo medo.
Estranho, me sinto um grande babaca escrevendo isso aqui, estou até mesmo rindo nesse momento. Tudo estaria melhor se eu tivesse feito isso desde o início.
Como vai você, J? Tom falou muito de você para mim, sabe, ele estava sempre pensando em você, fosse com propósitos bons ou ruins.
Eu tentava fazê-lo pedir desculpas, entretanto, caramba! Que menino teimoso e difícil. Só peço pra não colocar tanta carga em cima dele, pobre garoto, vivendo com um pai daqueles. Ele batia, Jerry, com muita força, sabe?
Estou chorando agora, peço perdão pelo fato da carta chegar um tanto enrugada, estou até fazendo isso com bastante cautela, ele pegou a primeira que escrevi. Sou fraco, não pude me defender, enquanto ele me batia e xingava coisas horríveis, me chutava sempre que eu tentava chegar perto dos destroços do que ele havia rasgado e pretendia queimar.
Tenho medo de não conseguir te encontrar quando você estiver preparado, tenho medo de, sei lá, me matar ou algo parecido.
O problema, Jerry"
A carta parou ali, o resto estava todo rabiscado e enrugado. Se encontrou desamparado durante alguns segundos, limpou os olhos encharcados e repassou todas as folhas, não havia mais nada.
Procurou no chão e em volta, poderia ter voado e ele não vira, não queria acreditar que terminara daquela maneira. Até que olhou dentro do envelope novamente, estava lá. Exclamou um agradecimento ao Senhor antes de voltar à leitura.
"Minha mão tremia muito na hora de escrever, não queria te assustar ou algo parecido.
O problema, Jerry, é que tive que prometer que nunca mais sairia com os meus amigos ou qualquer garoto,tive que jurar que era hétero, foi deplorável.
Quero ir embora daqui, mas não posso. Obrigado por ter lido. Significa muito pra mim, acredite.
Se quiser me responder, vou esperar por 3 dias, o endereço vai estar no fim de tudo. Estarei aguardando."
Descongestionou suas narinas, gostaria de não ter lido aquilo, não deveria ter aceitado. Estava se sentindo simplesmente tão mal por ele, extremamente mal. Levara uma surra por ele. Não podia fazer isso só por uma paixão adolescente!
Deveria denunciar?
Não sabia o que fazer. Estava muito apavorado para fazer qualquer coisa, gostaria de lhe responder, porém, no momento não conseguiria, nem se tentasse.
Resolveu voltar pra casa e tomar um banho para se acalmar um pouco.
Pensou muito no que faria e no que responderia no pedaço de papel, e se o pai dele pegasse? Bom, Tomas deveria ter um mínimo de inteligência, já que sabia o que o pai faria.
Esperou algumas horas e fez a sua resposta, parou algumas vezes pois pensava no quanto era ridículo fazer aquilo. Esperou até o dia seguinte para mandar.
Contou poucas coisas, não ia contar seus sonhos e segredos assim de cara, nem sabia se continuariam conversando por mais muito tempo.
Mal demorou um dia para receber uma resposta, que por acaso, não queria admitir para si mesmo, esperou ansiosamente.
De novo não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo, será que Tomas poderia estar apenas brincando com ele, e aquele momento no telefone foi apenas uma piada na qual se acabou de rir após desligar.
Estava confuso sobre o que aconteceria se continuassem assim, trocando palavras à moda antiga. Resolveu continuar com isso até decidir o que fazer.
O moreno foi aberto desde o início, mas levou até o loiro fazer o mesmo. Logo já conversavam sobre seus gostos e coisas cotidianas, mesmo não tendo o que falar, inventavam, finalmente abriram o papo de carreira e coisas mais íntimas, isso meses depois.
O tempo passava tão rápido, os trabalhadores dos correios sempre lhes peguntava o porquê de gastar dinheiro nisso se podem se encontrar, a resposta : "Segredo."
A verdade é que Jerry não saberia como tratar o mais novo amigo pessoalmente, depois de tantas brigas, xingamentos e tristeza, tinha medo de ficar sem falas ou gestos. Encontrar-se com Tomas poderia ainda machucá-lo.
E assim continuou durante muito tempo. Até o menor ser chamado para uma ótima faculdade por conta de seu esporte.
Mudaram-se — ambos — para seguirem seus sonhos e viverem suas vidas, ficavam sem se contatar as vezes, entretanto nunca muito tempo.
O que Tom queria ser? Entrou pra Marinha Mercante. Durante seu tempo de estudo, poderia ficar bem longe de sua família, e visitá-los só quando era realmente necessário.
Seis anos são muitos anos para conversar apenas por cartas, mas aqueles dois pareciam não se importar. Nem com a quantidade de papéis, tinham medo de jogar fora e se arrependerem depois.
"Olá, Jerry!
Já falei que estou super feliz por ter conseguido entrar na liga, né? Preciso ressaltar.
Você não imagino o que aconteceu à algumas semanas. Não contei antes porque disseste na última carta que estaria meio ocupado.
Contei para a minha família/ Admiti que sou gay, e que sou loucamente, perdidamente apaixonado por você. Desde criança. Fui expulso de casa e meu pai não quer me ver nunca mais, mamãe chorou muito, quem sabe eles não "fazem" do meu mais novo irmãozinho um hétero?
Desculpa por ser covarde e só ter tido coragem de fazer isso agora, que tenho emprego fixo ( fui bem sortudo) e um lugar para morar.
Me pergunto todos os dias se você esteve esperando por mim, ou se achou uma pessoa e só não tem coragem de me contar.
Nunca falei isso aqui por achar um pouco desconfortável, e não queria que me entendesse mal. Mas eu sinto muita falta do seu corpo, de te tocar e beijar. Penso também todos os dias em como eu quero transar com você, sóbrio, de preferência, e aí seria 1000 vezes melhor, te faria aproveitar muito mais.
Já fazem algumas horas desde que escrevi o parágrafo anterior, pensei se deveria ou não apagar, enfim, resolvi deixar.
Estava vendo umas coisas, o seu time vai jogar logo, não é? Vou te ver na TV de novo!
P.S: Me mudei.
Tomas."
Levou os papéis até o peito, a carta chegou inesperadamente, como tinham se separado de cidade, demorava mais para suas correspondências chegarem.
Como lhe responderia?! O idiota não deixou endereço.
Leu e re-leu muitas vezes, queria que fosse maior, muito maior. Também queria vê-lo, também queria senti-lo, agora admitia isso. Ninguém com quem dormira tinha sido tão mágico. Mesmo que com Butch tenha sido extremamente bom, cada toque de Tom lhe proporcionara mais felicidade, porque queria tê-lo a muito tempo.
Masturbou-se pensando nele pouco tempo depois.
Precisava estar sempre treinando, por isso as cartas tornaram-se menos frequentes. Tentava se convencer de que estava tudo bem, quando não estava.
Também já tinha sua casa própria, cuja pagava as contas, e era solitário como sempre.
——— / / ————
Era hoje, mais um jogo, já estava a um ano e meio jogando naquele time, estava ganhando sua fama, as pessoas esperavam muito dele, mesmo bem pequeno comparado aos outros jogadores.
Respirava profundamente, estava nervoso, estava feliz, estava amando, e finalmente, seguindo seu sonho. O treinador falava com eles sobre as estratégias, ouviam atentamente. Jogaria para Tom, mostraria para ele o quanto era bom.
Chegou a hora. Entraram no campo.
E ganharam. Uma linda vitória, onde ninguém esperava menos, a torcida gritava e vibrava, falando o nome de seu time.
Olhava para a platéia e agradecia em meio ao suor e novas roxuras pelo corpo todo, o time começou a ir para os vestiários, continuava a olhar para todos e acenar, sendo carismático como sempre.
Mas de repente parou, vira algo inesperado, algo que não estava preparado psicologicamente pra ver, uma pessoa, aqueles cabelos pretos, os olhos tão verdes, e a pele, antes bronzeada, branca.
Era Tomas.
Sorria sentado na platéia, não fazia mais nada, apenas o observava, feliz. Os seus colegam tiveram que força-lo a entrar, pois havia ficado parado de frente a entrada.
Estava eufórico, gritava alto junto aos outros homens, entretanto por um motivo diferente agora.
Queria sair dali, tinha que sair dali, tinha que ver Tom de novo, estaria ele ainda na platéia, ou teria ido embora como muitos outros?
Não o viu de novo, ele e o time foram comemorar com um jantar, mais uma vitória, e esperavam muitas mais.
Como seu apartamento era na mesma cidade do jogo, não teve qualquer problema em voltar para casa. Por acaso o ônibus do time se disponibilizou para levá-lo de volta, para evitar gastar dinheiro.
Assim que desceu, decepcionou-se ao ver o portão, esperava que Tom estivesse lá, esperava de todo o coração. O que ele não imaginava, era que este lhe esperava
na porta de seu apartamento.
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