Notas iniciais

Jerry corou tanto quanto Tom, que observou calado o que aconteceu. Empurrou o maior, completamente sem jeito.
— V- Você não deveria fazer essas coisas no meio da escola! — brigou esfregando a mão no pescoço.
— Aah, mas ninguém viu. — protestou injustiçado, naquele momento olhou para um outro lugar, onde estava uma certa pessoa, o louro seguiu a direção, não viu nada.
— O que foi?
— Haha, nada não, é que tinha uma barata ali, mas saiu correndo. — sorriu. — Vamos logo para sala?
E — sem uma resposta — foram andando. Butch cumprimentou uma garota, porém o menor não conseguiu ver quem era, deixou para lá porque quem era pouco o importava.
Chegaram e se sentaram, outras pessoas já estavam na sala, Tom não era uma delas. O principal procurou pelo outro, desistiu depois de um tempo de busca.
Ainda tinha muitas dúvidas sobre se deveria contar ou não, pretendia fazê-lo, só que Butch conturbara seus pensamentos. Estava um tanto quanto sem rumo.
Fazer aquilo significaria quebrar o coração de seu melhor amigo, entretanto, e o seu? Como ficava? Gostava do outro, já se tocara sobre isso.
Uma grande pedra chamada Pressão repousava sobre suas costas, não sabia se ia aguentar. Fisicamente até poderia estar bem, mas de resto...
Minutos se passaram, o sinal estava preste a tocar, todos começaram a chegar e achar seus respectivos lugares.
Lá estava ele, Tomas, com aquela sua tão comum expressão de raiva e tédio, um garoto bem mal humorado. Deveria agir como sempre? O coração batia forte, não sabia o que fazer.
Seus olhares encontraram-se, se encararam durante um tempo. Parecia mudado de alguma forma, mas o moreno desviou o olhar com indiferença, prestando atenção em seu material, procurando ignorar ao máximo a existência do outro.
Gelou. O que acontecera? Sentiu-se mal.
Ele não lembrava, o odiava, nunca lembraria, se lembrasse, teria nojo. Começou a martelar aquilo em sua cabeça. Queria machucar Tom, ou deixa-lo com muita raiva.
Tinha que se recompor, voltar a ser quem era, só que pior, ia ferrar com aquele garoto. Arquitetava planos quando ouviu uma voz lhe chamar, seu professor Franklin.
— Não queria estragar a aula, mas, posso pegar Jerry emprestado?
Não havia feito nada ainda, por que estava sendo chamado? Será que o professor de alguma forma mirabolante havia lhe descoberto?
Foi liberado para conversar com o adulto, colocara um pouco de dinheiro no bolso da bermuda antes de sair.
Foram para a sala dos professores que por hora estava vazia. O jovem estava confuso, porém não comentou nada.
— Jerry, tem uma coisa que gostaria de lhe perguntar. — admitiu. — Já falei com Tomas antes das aulas, e, bom... ele saiu daqui gritando e até xingou um pouco, mas tudo bem.
Então era por isso que estava puto? Bom saber.
— Pode falar, amo perguntas. — recostou-se em uma cadeira, curioso.
— Bem... como já perguntei para o mais temperamental dos dois, agora ficou mais fácil. — aproximou-se então com o intuito de falar mais baixo. — Você e Tom, por acaso... dormiram juntos?
Parou um pouco.
Parou para raciocinar o que ele acabara de dizer, tentando digerir um pouco.
— O-O-O QUE?! — seu rosto avermelhou-se como nunca e se levantou. — P-Por quê está perguntando isso
.
— Bem como imaginei... — resmungou para si mesmo. — Sabe, foi só juntar algumas peças e PAM! Vocês dormiram juntos. Não é?
Não respondeu, não sabia ainda o que falar.
— Parece que é isso mesmo. Agora, por quê?
Silêncio.
— Jerry...
— Ele estava bêbado... foi pra cima de mim. — resmungou — Eu queria, eu gostei. Mas agora ele não lembra de nada, ele... ele me odeia. — seus olhos encheram de lágrimas de repente, como se quisesse dize-las à alguém, choramingou. As mãos cobrindo a face.
— Gosta dele, J?
— Não sei. — respondeu com um tom de voz diferente. — Mas, eu queria tanto que ele lembrasse.
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O louro voltou para a sala com um sorriso malicioso na face, completamente diferente de minutos atrás, segurava na mão uma caixinha de suco de pêssego.
— Desculpa, professooor, não perdi muita coisa não, né? — andou olhando para o adulto, e por conta disso tropeçou em uma mochila.
Por brincadeira do destino ou não, foi direto pra cima de Tom, que o encarava a um tempo. Tentou se apoiar em algum lugar. Os escolhidos foram: a mesa e, bem, a coxa do moreno.
E essa não foi a pior parte, o suco que estava na mão do menor tinha que ir parar em algum lugar. Fôra completamente esmagado entre a mesa e a mão esquerda do garoto. Explodira, não em Jerry, não na pessoa da frente, mas em Tomas. Todo o líquido escorria pelo corpo do maior, e apenas umas poucas no dono do suco.
— Ops, foi sem querer. — um largo sorriso apareceu em sua face, durou apenas alguns segundos, já que tecnicamente ele tinha caído sem querer.
O adolescente sentado ficou travado, o seu nível de raiva subiu tanto que não sabia o que fazer, dizer, nada.
— E-Ei, alguém tira o Jerry de perto do Tomas. — falou um aluno qualquer.
O garoto risonho levantou-se lentamente, não pretendia evitar qualquer briga que pudesse ocorrer. Mas o que aconteceu chocou todos, o mais alto levantou — pingando — e pediu ao professor:
— Permissão para sair.
Foram aquelas exatas e formais palavras, nenhuma a mais, nenhuma a menos.
Alguns segundos depois, abandonou a sala, e todos tentaram voltar à normalidade, J limpava-se com alguns lenços umedecidos que uma amiga o emprestara. Agora sorria abertamente, prestando atenção na aula.
O intervalo chegou e nem sinal do acidentado, todos saíram da sala de aula, o principal cantarolando e assobiando também. Cumprimentava cada umas das pessoas que conhecia.
Butch fôra para a cantina. Resolveu ver no banheiro como estava o cabelo. Era um rapaz vaidoso para a sua idade.
Estava morto de fomo, entretanto continuou a seguir seu caminho para o outro cômodo. Ninguém do sexo masculino ia ao banheiro nos intervalos, estavam ocupado demais fazendo seus esportes.
Chegou lá bem rápido, abriu a porta antes entreaberta.
No momento seguinte, sequer entendeu o que acontecera.
Era a mesma cena de antes, sua cabeça começara a latejar, prensado contra a porta que ouvira ser trancada. Seus cabelos eram segurados com uma força brutal, parecia que iria arranca-los.
— Como sabia que era eu...?
— Senti cheiro de carne podre. — respondeu Tomas, usava novas roupas. — Cansei, sabia? — segurava o outro com rigidez. — Cansei desse joguinho CHATO.
Quando terminou de falar a palavra, deu-lhe um soco bem na boca do estomago, fazendo o menor tossir e se inclinar levemente para frente, não se mexeu mais do que isso, pois o maior o impedia.
Aproximou-se e sussurrou em seu ouvido.
— Quer o que? Chamar a minha ATENÇÃO? — lhe deu outro soco, fazendo-o gemer de dor. — Pois CONSEGUIU. — dessa vez foi ainda mais forte que os últimos. — Na próxima, vou te fazer cuspir sangue.
Jerry estava um tanto tonto, odiava levar soco, qualquer que fosse o lugar. Não ia vacilar por tão pouco, ia atuar até o ponto que achasse necessário.
— Continua, Tonzinho, desconta toda a raiva em mim. — sorriu entre dentes para ele. — Você me odeia, não é mesmo? — anunciou então: — Mas se realmente quer me fazer gritar com suas próprias mãos, sugiro que tente outro lugar. Quem sabe mais para baixo?
Ele descobrira. Como ele havia descoberto que tinha lembrado da noite em que passaram juntos?
E foi diante daquelas palavras que a coragem do moreno caiu, achou que sua reação fosse ser diferente. Merda. Vacilou um pouco. Escapou para o lado, abriu a porta e se foi.
J passou a segui-o, furioso.
— Vai fugir de novo?! Como fugiu na sala de aula?!
Não era sua culpa. Não conseguia lidar com o amor, tinha medo dele. O medo de se machucar o corroía, sabia que machucaria o outro, ainda mais do que já estava machucando.
Tinha sido um erro dizer “sim” aos seus sentimentos naquela noite, só que não conseguira se conter, o álcool gritava para ele fazer aquilo, e o pouco que lhe restava de consciência lhe dizia pra parar.
Como pôde não ter parado?
Já haviam chegado em um local repleto de pessoas, o pátio da escola.
— Dá pra olhar pra mim?! — sua voz, por incrível que pareça, era de choro, agarrou o pulso de Tom.
Virou-se no mesmo instante.
Jerry chorava, sua face estava coberta de lágrimas, avermelhada de vergonha e raiva.
— Você lembra, não é?! Seu merda! — xingou-o no meio de todos os alunos. — Seu babaca, escroto! Por que não veio na hora falar pra mim? Resolveu esperar o nosso PROFESSOR DE EDUCAÇÃO FÍSICA ME CONTAR?
— Jerry, fale mais baixo. — mandou, soltando-se.
O baixinho olhou em volta e deixou escapar uma risada afetada.
— Bom dia, pessoal! Espero que o de vocês esteja ótimo, porque o meu, bom, ele tá uma grande MERDA. — gritou para todas as pessoas que olhavam prestassem bastante atenção. — Todos vocês conhecem o Tomas e eu, Jerry. E esse filho da puta aqui e eu... — apontou o adolescente — transamos na porra da festa do Spike.
Todos chocaram-se, o loiro continuava a chorar.
— Feliz agora? Todos sabem, vamos continuar a merda da briga.
Desistira, estava destruído, seria expulso de casa e sabe lá o que faria de sua vida, não tinha sequer um trabalho de meio período. Acalmara-se um pouco, o suficiente para fazer um sinal de desistência e dar-lhe as costas. Um ar de superioridade o rodeava. Não queria mais conflitos do que os que teria ao chegar em casa. O karatê valeria a pena.
— É isso mesmo que vai fazer? Igual fez naquele dia, ir embora como se tivesse dormido com uma porra de uma puta? — gaguejou as frases.
A raiva voltou. E Tom também.
— Você disse que ia me lembrar! Ia me lembrar, Jerry!! — gritou com o outro — O que queria que eu pensasse depois de lembrar? Que tinha que te avisar? Eu te pedi de coração pra falar. Se não falou, era porque algo tinha de errado, não queria as minhas lembranças de volta. Em vez de tentar recupera-las, o que você fez? Ficou dando uns amassos com esse seu gigante de estimação!
Todos presenciavam boquiabertos a situação, nem conseguiam pegar seus dispositivos para gravar o momento chocante, só eram permitidos de assistirem.
Inclusive o barulhento tapa que Tomas levou na face.
Nada de socos, tapa.
— E eu com certeza ia lembrar você, com essa personalidade nojenta e abominável, que tínhamos ficado juntos à noite passada?! Pra quê?! Para ser exposto e ridicularizado por ninguém menos que você?!Não sou burro, Tom, não te conheço há 10 anos à toa. — retrucou odioso — Eu te amo. E não estou mais aguentando isso. — limpou as lágrimas. — Não gosto de Butch. É você que quero!
Naquele momento o alto rapaz á estava no meio da multidão, seu coração doera.
— Jerry, eu—
Seu plano não havia dado certo. E quando pensou — e desistiu ao perceber — que ficariam juntos, suas esperanças se esvaíram, até ver sua parceira abrir caminho dizendo:
— Desculpa, Jerry, mas Tomas já gosta de outra pessoa. E esse pessoa sou eu. — disse a garota de cabelos platinados. — Pouco importa se ficaram. Ele ME escolheu no dia em que o querido Butch foi em sua casa. Pensou em Tom naquele dia? Acho que não. Posso dizer o mesmo pra ele, já que agora somos namorados.
O moreno tentou solta-la de seu braço, sem sucesso. O loiro parou até de chorar depois de tal informação. Afastou-se um pouco dos dois. Começou a bater palmas.
— Nós dois fizemos merda depois daquele dia. — admitiu. — Mas, você, Tom... parabéns! Você me dá nojo. — enfatizou a última frase. — Tem tanto medo assim de admitir o que é de verdade? Tanto medo de dizer que gosta de mim tanto quanto eu gosto de você? Ah, perdão, você gosta de Toodles, né? Me desculpa por ser tão metido por ter achado que poderíamos ter ficado juntos. Pois bem, vou embora.
Todos observaram chocados o adolescente deixar o local correndo. O silêncio reinou durante os próximos 5 segundos, depois disso, uma horda de comentários exaltados começou.
— Tom, você gosta de mim, não é? — perguntou a garota, olhando-o nos olhos. Seus olhos odiosos.
Empurrou ela com força, desprendendo-a finalmente de si, a encarou com desgosto, pareceu assustada.
— Se quer mesmo saber, só de pensar em você, eu tenho vontade de vomitar. — aquelas foram suas últimas palavras antes de ir procurar o garoto.
E lá ela ficou, parada, passaram a lhe observar, cochichar, difamando-a mais a cada segundo. Observou seu amado se afastar, procurando outra pessoa que não ela. Seu coração psicológico tinha sido arrancado de seu pobre corpo.
Estava mal. Era aquilo? Aquilo que tinha causado à Jerry? O coração dele doía daquele jeito? Ela tinha feito aquilo? Não. Ela e Butch tinham feito aquilo, eles e seu plano monstruoso.
Sabia que Tomas não gostava dela, o outro rapaz também. Sabia daquilo, mas não queria aceitar. Queria seu amor, seu carinho.
Achou que se começassem a namorar, ele passaria a gostar dela. Fizera errado e tentar seduzi-lo? Deveria ter tentado se aproximar aos poucos? Daria errado do mesmo jeito.
Não ia chorar na frente de todos aqueles idiotas. Então se retirou como os últimos dois, ia achar algum lugar.
Ouviu Butch chama-la, porém o ignorou completamente. Só que suas pernas eram mil vezes maiores que as dela, alcançou-a rapidamente.
Teve o ombro puxado, automaticamente sua mão pegou impulso e bateu na face do mais velho, que poderia sem problemas tê-la impedido, mas não o fez.
— Eu te odeio! Por que veio com esse plano ridículo se sabia que eles se gostavam?! Por quê me persuadiu? Você é um monstro! — gritou com ele, magoada. — Se gosta mesmo de Jerry, por que não deixou ele ser feliz com Tom?
— Porquê o Tomas é um babaca que nunca ficaria com J! Que eu morra se esses dois saírem juntos daqui hoje. Esse garoto é um merda medroso que morre de medo do pai, nunca ficaria com Jerry, nem mesmo se quisesse.
— E-Eu me sinto tão mal... — choramingou.
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O loiro sumiu, dera um jeito de sair do colégio, voltou para casa, correu e trancou-se em seu quarto, ninguém estava lá.
Gostaria de desaparecer, não queria mais ver qualquer pessoa de sua escola.
Tinha destruído a vida de Tomas, por que falara aquilo? Se seu pai descobrisse, seria colocado para fora de casa.
Não conseguia acreditar que tinha feito aquilo. Nunca mais conseguiria olhar para o amado. Sentia vergonha de ter deitado com seu melhor amigo.
Tomas errou também, mas 100 vezes mais. Sabia que era gay, sabia que não gostava nem um pouco dos corpos das mulheres. Então ter dormido com Toods foi o cúmulo do absurdo. Tinha tanto medo assim?
Já que sabia que não iria dar certo, por que o jogara na cama naquele dia? Por quê?! Por que o seguira? Eram tantas perguntas que queria fazer.
Não confiava mais nem em seu melhor amigo. Sim, ouvira eles falando sobre o plano quando estava saindo.
O jeito como se sentia, nem sequer podia ser descrito. Chorou. E chorou muito. Os sentimentos eram quase como o frio excessivo, você não sente, pois parece já ter pulado para um patamar onde só os seus osso são afetados. É algo simplesmente horrível.
Parecia ter poucos motivos, mas entrou em um tipo de depressão. Sua força de vontade descera de normais 97% para 2%. Enrolou-se em seus cobertores e fechou as cortinas sem sair da cama.
Tudo aquilo por conta de Tom e Butch.
As horas que seguiram podem ser resumidas em seus pensamentos arrependidos sobre tudo o que fizera depois daquele dia que cogitava ter sido um dos melhores de sua vida.
Pensava sobre tudo o que poderia ter evitado. Sabe-se lá o que aconteceria se tivesse evitado, mas não dava para ser pior que a atualidade.
Por mais absurdo o possível, o garoto simplesmente não saiu do quarto pelos próximo três dias; Pelo menos ninguém o vira.
— Jerry, você precisa se alimentar, senão vai morrer de fome! — anunciou sua mãe batendo na porta.
Não haviam arrombado a porta ainda para prezar a privacidade do adolescente, que sequer respondia aos chamados ou ligações.
Chamam de frescura, idiotice, depressão, qualquer coisa, mas não diziam muito sobre o assunto.
— Filho, você precisa estudar, não pode ficar aí pra sempre! O que quer que façamos? Nos deixe te ajudar, querido. Você não quer falar nem com seus amigos!
Realmente o garoto dispensara todos que tentaram falar com ele.
Minutos após a última frase ser dita, a porta foi aberta. O garoto não estava com uma aparência tão penosa quanto imaginaram, apesar de a adulta notar suas cobertas no chão, como se estivesse deitado lá todo esse tempo.
A verdade é que passara a sentir nojo de sua própria cama, não conseguindo mais deitar na mesma.
— Jerry!
— Tem uma coisa que eu quero.
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