Admirável Terra dos Deuses
6 Lefrich
Notas iniciais
Em Carfell, tudo estava pronto para a partida. Rumariam primeiro, em direção às Grandes Ilhas das Pedras, ao encontro dos Lordes que comandavam cada uma das três ilhas.
O Porto das Renas estava agitado, com a multidão de soldados com suas famílias se despedindo, e o amontoado de navios ancorados no Porto. Via-se por todos os lados, a bandeira roxa com o alce negro ao centro, o estandarte dos Seeutenfell. A multidão cantava empolgada e ao mesmo tempo tristemente, Lefrich, o Justiceiro, canção que ganhou o apreço do povo nas últimas semanas.
O Rei dos Longínquos estava no palácio se despedindo de sua família, mas ainda estava pensando sobre a notícia que Varathan lhe deu dias antes. Lefrich se lembrou de um famoso poema e decidiu, antes de partir, dar uma passada na biblioteca do reino.
O Seeutenfell passou por vários corredores e salões até chegar à grandiosa biblioteca. O Lorde de Carfell é amante da literatura apreciando as várias artes, tendo amplo conhecimento sobre os livros e poemas das épocas passadas.
Passando pelas estantes lembrou-se dos ensinamentos de sua ama e de seus pais de que existem três fases na literatura e na música, tanto do Distante Reino, tanto na literatura dos demais lugares.
Com a unificação dos povos e a origem dos reinos, os poetas, cantores, escritores e trovadores, passaram a dar ênfase à vida dos camponeses e aldeões, assim como também o cotidiano dos Lordes das Casas Maiores. Esse período ficou conhecido como Campesinismo ou Campestrismo. Dentre os livros dessa época destacam-se O Mercador do Ocidente, do escritor Pann, que conta sobre a vida de um homem das Terras do Ocidente que viaja por Terra Maior, Intermédia e Menor, vivenciando grandes momentos de apreensão e de aventuras. Também ganhando destaque, tem-se O Andarilho, de Haus Barell, que tem como enredo, a história de um cavaleiro montado em seu cavalo, que viaja pelos quatro reinos das estações, vivenciando várias situações inusitadas e de tensão. Já no Distante Reino, destaca-se a obra Jadezz, o Aldeão, do escritor Walrys, que conta a história de um sábio aldeão, Mestre da Aldeia de Harst’yun, que precisa urgentemente salvar a aldeia de uma praga.
Com o início da guerra entre os reinos de Verão, Inverno, Primavera e Outono pelas ricas terras das Campanhas, os poetas, escritores, trovadores e cantores passaram a falar sobre esse acontecimento que durou 56 anos sem sequer nenhum vencedor. Dessa época, chamada Conflitismo, é que pertence a maioria das obras e canções devido à grande influência que exerceu na história do mundo. Esse período iniciou com o poema Guerra das Estações, do poeta e escritor Maekys, considerado um dos maiores escritores de todos os tempos e um dos preferidos de Lefrich. Essa obra foi escrita cinco anos após o início da guerra, e de tão influente, deu nome ao conflito, a Guerra das Estações, termo que passou a ser usado também pelos demais escritores e poetas, assim como os cantores. Esse poema retrata as diversas batalhas ocorridas nos quatro reinos, e ao mesmo tempo, conta o sofrimento das famílias fugindo de suas casas, mas também faz uso da valorização dos reinos e de seus cavaleiros. Além desse poema, tem-se o livro Ventos Estacionais, também de Maekys, que na primeira parte, narra uma história amorosa, porém proibida, entre uma jovem do Reino da Primavera e um jovem do Reino do Outono. Na segunda parte, os dois tentam sobreviver em uma cidade que está cercada por um exército inimigo que acaba invadindo-a, e os jovens tentam se esconder, e se fosse necessário, até matar para sobreviverem. Lefrich achara o final dessa obra surpreendente. Os Filhos do Verão, de Euro Visegon também pode ser considerada uma obra prima desse período, que tem como enredo, a história de uma família do Reino do Verão que tenta fugir de uma cidade em plena guerra e sobreviver em meio a mesma, sem nenhum lugar para se esconderem. Na música, destaca-se a canção O Fogo de Inverno, muitíssimo conhecida e cantada por todas as gerações assim como a trova, A Rosa de Lynn.
Lefrich se lembrou de que o Distante Reino não viveu esse período do Conflitismo, mas sim, o chamado Morbidismo, que relata sobre as temidas criaturas da noite e o medo dos aldeões para com as mesmas. O poema que iniciou esse período foi A Dança da Noite, de Horyn, que relata sobre essas horrendas criaturas e sobre o medo da população para com elas. Horyn também escreveu um livro sobre o mesmo assunto, A Menina e a Noite, que tem como enredo, a história de uma garotinha que se perde na Floresta Escura, em meio às temidas Criaturas da Noite, e tenta sobreviver e escapar dessa floresta. As Grandes Ilhas das Pedras, também vivenciaram o Morbidismo, principalmente com a obra O Castelo de Melkisedor, de Loksenys. A obra conta a história de um vilarejo de uma das Ilhas das Pedras que é dominado por um Lorde que acaba se revelando um verdadeiro louco e assassino, matando pessoas da vila publicamente, com degolações e esquartejamentos, e mergulhando o vilarejo nas trevas.
Depois desse período, veio o Patriotismo, que nas Campanhas, retratava sobre a família Barenzha e suas conquistas, com a valorização do Império. Pode-se ver isso na obra O Mestre dos Cavalos, de Elmer Baelenys, que conta a história de um nobre Lorde de uma cidade das Campanhas, dono de dezenas e dezenas de cavalos, e que luta ao lado dos Barenzha na Guerra da Conquista. E claro, a obra O Sol das Campinas, escrita pelo próprio Imperador Meistrell I, chamado O Poeta, que no livro fala sobre a sua família Barenzha, suas glórias e vitórias em guerras e os nobres cavaleiros de sua Casa. Enquanto que os Reinos das Estações, dominados, valorizavam sua própria cultura, como em O Lorde de Valarys, de Helddor Malerion, na qual um nobre senhor, Lorde da cidade de Valarys, no Oeste, viaja por todo o Reino mostrando as maravilhas de Primavera e criticando o Império, e claro, criticando a Guerra da Conquista. No Distante Reino, esse período começou mais tarde, a partir do desacato de Loverick III a não obedecer ao Imperador. A obra de grande destaque é Um Sonho Real, de Hikkon, um livro de fantasia que relata sobre o mundo fantástico do Bosque Negro no Reino Distante, entre Carfell e suas aldeias, exaltando a beleza desse lugar. Uma grande canção desse período é Loverick, o Lorde dos Lordes. Nas Terras do Ocidente, a obra de destaque é Myrillion de Rhenys Meddario, que narra a história de um jovem, que a partir de trapaças e até assassinatos, consegue chegar ao Conselho de Terra Intermédia, viajando também por Terra Maior e Terra Menor, com grandes reviravoltas e que ao mesmo tempo enaltece essas terras e seu povo.
Lefrich pegou da estante Guerra das Estações, de Maekys, um de seus preferidos e abriu em uma página dentre as 100 do poema.
Invasão! Invasão!
Gritava o homem, enquanto que soldados,
à porta da cidade chegavam.
Guerra, Morte, Arte, Honra.
Mães por seus filhos choram,
Espadas trespassando a carne.
Um garoto seu pai chama,
O pai o vê, mas a flecha seu filho mata,
Então, o pai à sua criança corre, mas ao chão cai morto pela espada.
A donzela, o Nobre Cavaleiro de Aço resgata,
Enquanto que outro, ao idoso salva.
Ouvem-se os gritos: Pelo Sul! Pelo Norte! Pelo Leste! Pelo Oeste
Inverno, Verão, Primavera, Outono.
Na Guerra das Estações, pelas espadas se ferem, sem vencedor,
Reinos enaltecidos! Tristeza e Glória entre os referidos!
Lefrich sempre adorou esse trecho, mostrando as faces da guerra: a dor de um pai e de uma mãe, o prestígio de um cavaleiro, e a glória do reino. Achou então outra obra de Maekys, o livro Ventos Estacionais, abriu o grosso livro em uma parte e leu.
“... os dois haviam conseguido fugir de seus pais, suas famílias, vivendo esse amor proibido. Agora, estavam ali, juntos, Primavera e Outono, Mirry e Hon, em uma cidade cercada por um exército e prestes a ser invadida. Hon olhou a face de Mirry e viu o medo e as lágrimas a escorrerem pelo seu rosto. Os dois sabiam, a morte estava próxima, não tinha como evitar, morreriam enfim pela espada de um guerreiro. Não se despediram de seus pais, não os viram pela última vez, mas ficariam em suas memórias para sempre. Os dois se abraçaram, esperando o fim. Chegou a hora, os cavaleiros invadiram a cidade...”
Esse volume de quase 800 páginas fez por muitas vezes Lefrich chorar e agora, prestes a se despedir de sua família, o fez novamente. Mais adiante achou um livro que o fez morrer de medo na infância, A Menina e a Noite, de Horyn. Decidiu dar uma olhadela em uma página dentre as 700.
“... Elina, a pequena garotinha, não sabia para onde corria. Por todos os lugares que olhava só via escuridão, e mais escuridão, e mais, e mais. Escutou sussurros a sua volta, queria correr, mas não podia. Sentiu algo atrás de si. Olhou rapidamente para trás, mas nada viu. Continuou olhando por sobre os ombros, até que sentiu uma respiração pesada em seu pescoço. Voltou-se cautelosamente para frente. E viu. Deu um grito com todas as suas forças, fechando os olhos. Abriu-os e nada viu mais. Correu para qualquer direção, chorando desesperadamente, até que começou a ouvir risos estridentes e depois gritos, e gritos...”
O medo tomou conta de Lefrich, decidiu procurar outro livro. O Rei Distante passou por várias estantes com muitos volumes conhecidos, até chegar ao que ele queria, A Dança da Noite, de Horyn, um poema de quase 100 páginas, um pouco menos que Guerra das Estações. Lefrich começou a divagar sobre tudo o que acontecia. Abriu em uma página qualquer de A Dança da Noite e leu:
“A Noite está chegando!
Vozes e sons demoníacos,
Um som sem fim, como a morte.
Olhe bem aquela Floresta,
E veja os escuros como o carvão,
criaturas horrendas a dançar.
Ouvem-se gritos!
Logo, se transformam em risos, e risos, e mais risos,
Risos de uma marcha fúnebre.
A morte se aproxima,
a escuridão trará os tempos obscuros,
os tempos de terror.
Há algo estranho a dançar naquela Floresta,
o que será aquilo ali?
É a Noite que se aproxima”.
Lefrich estremeceu e fechou o livro.
_ Não, isso só pode ser alucinação daquele velho aldeão, assim espero – disse o Rei-Distante consigo mesmo saindo da biblioteca.
Fale com o autor