Admiro os suicidas
1 Capítulo único
Notas iniciais
Pra variar: mais uma das minhas estranhices com sarcasmo e ironia saindo por todos os lugares possíveis.
Admiro os suicidas. De certo modo, eles não desistem no meio do caminho. Caminho para a morte, digo. Se matam e não amarelam durante o ato ou até que seja tarde demais. Persistência, pelo menos, eles têm.
Admiro os suicidas decididos. Admiro as pessoas que tomam uma decisão difícil rapidamente. Muitos — acredito que a maior parte — só conseguem pegar a lâmina de um apontador velho e ficar brincando de desenhar na própria pele ao invés de dar logo um fim ao tormento. Admiro sua resistência à dor também, mas isso é assunto para outro texto.
Admiro os suicidas religiosos. "Por deus, morro. Porque ele quis assim e um mundo melhor dependerá de mim e blábláblá". As consequências e se o mundo será mesmo melhor depois disso? Bom... Eles não vão estar aqui para presenciar, certo? Admiro sua fé inabalável e incondicional.
Admiro os suicidas altruístas. São aqueles que se matam pelo bem de outra pessoa. Têm em si o valor da solidariedade. Todos nós concordamos que ser solidário é raro nos dias de hoje, então não vamos criticá-los. Não nesse aspecto, pelo menos.
Admiro os suicidas aventureiros. Já tiveram o suficiente deste mundo, já conseguiram tudo o que queriam. Hora de respirar novos ares numa nova encarnação ou no paraíso, talvez. Que seja. Admiro-os por buscar algum motivo para viver. Algo que realmente valha à pena. Por mais estranho e irônico que isso possa parecer.
Admiro os suicidas covardes. Estão cheios de problemas, o dinheiro acabou, tirou nota baixa na prova e por aí vai... Não querem enfrentar o mundo depois do fracasso e tomam a atitude que dá mais certeza de evitá-lo. Um segundo de coragem insana é preciso, admirável e é isso o que eles têm. O último, mas ainda assim é um segundo de coragem insana.
Admiro os suicidas culpados. Aqueles que escrevem uma carta sobre tudo o que não mais suportam e pedem desculpas. Admiro esse tipo de suicida pela confiança que tem em si mesmo ao achar que só uma carta resolve a vida de quem fica chorando em seu túmulo. Queria eu ser autoconfiante assim.
Admiro os suicidas que criam álibis para o próprio suicídio. Talvez tenham medo do tribunal divino... Sei lá. A pessoa se joga na frente de um carro e, talvez, sofrerá menos no inferno dos católicos. Ou de Dante, quem sabe? O motorista — que, com sorte, estará embriagado — será, talvez, o maior culpado.
Admiro os suicidas curiosos, que só querem descobrir o que existe do outro lado da tal ponte pro outro mundo. Passam horas e horas divagando e procuram uma resposta definitiva. Talvez fiquem cansados de tantas explicações de tantas religiões diferentes e de tantas teorias de conspiração que, acreditem, até para isso existem.
Admiro os suicidas declaradamente fracos. Não aguentam as pressões do mundo e se matam. Para mim, pelo menos, faz sentido. Se for fraco, o mundo te esmaga. Aqui não tem espaço para fracos, baby. Esmague a si mesmo que dói menos. Ou não. Nunca pratiquei auto esmagamento, então não sei como é.
Admiro os suicidas oportunistas. "Saio da vida para entrar na história". Quer modo melhor de se promover? São inteligentes, pelo menos por um lado. Mas não me pergunte o que ganham ou se colhem os frutos de ser alguém famoso depois de morto porque eu realmente não sei. Talvez os mais famosos ganhem um camarim para o espetáculo da vida aqui de baixo... Vai saber...
Admiro os suicidas que sentem saudades. "Tal pessoa morreu e eu quero me encontrar com ela". Admiro a coragem e, principalmente, a lealdade para fazer de tudo — tudo mesmo — para se reencontrarem. Lealdade também é um valor raro nos dias atuais.
Admiro os suicidas masoquistas. Ou "quase-suicidas". É daquele tipo que pula do terceiro andar e têm a burra certeza de que vão passar dessa para uma melhor. Todos sabem que não é alto o suficiente para morrer, mas, mesmo assim, insistem em pular. Covardes, talvez. É mais fácil quebrar as duas pernas, então admiro sua coragem (?) de arriscar. Vai que dá certo.
Admiro os suicidas frios. E, de certa forma, todos o são. Admiro quem põe a corda no pescoço e têm a frieza de empurrar a mesa de centro com o pé sabendo o que acontecerá depois.
Admiro os suicidas por sua natureza irônica e controversa. Por sua coragem de desistir, por sua audácia ao escolher o lado teoricamente mais fácil e menos conhecido. Admiro quem fecha os olhos e vai. Simplesmente vai.
Notas finais
Agora sem sarcasmo:
Admiro quem vive, quem se atreve a enfrentar o mundo. É simples e fácil demais simplesmente desistir. E burro. É a minha opinião e não me importo com os motivos.
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