Admiração
1 Capítulo único
Jean não sabia há quanto tempo estava ali sentada no canto da Taverna bebericando alguns goles pequenos do melhor vinho que Mondstadt tinha a oferecer.
Apesar do jeito rigoroso, algumas vezes ela se permitia passar o tempo ali. Jean apreciava ouvir a música dos bardos andarilhos e sobre suas aventuras distantes, amores e lugares diferentes de Teyvat. Ela gostava de ouvir as conversas e sussurros dos bêbados ao redor, da dança e das risadas que o ambiente proporcionava. Mas o que a deixava feliz mesmo era quando tinha a sorte de estar lá nas mesmas noites em que Diluc resolvia sair da Adega do Alvorecer para simplesmente trabalhar no bar como um funcionário comum.
Jean suspirou, rodando a taça na mão e olhando através do vidro: O dono de tudo aquilo, limpando um copo insistentemente e atendendo quem quer que fosse para o bar com algo que Jean sabia ser simpatia, ou o mais próximo disso que Diluc conseguia chegar.
A admiração que a cavaleira tinha por ele vinha de muitos anos antes. Desde que crianças, de quando eles decidiram ser cavaleiros e desde antes de Diluc ser o mais jovem mestre dos Cavaleiros Favonius. Claro que este era um fator, a admiração dela por ele só cresceu quando ele a trouxe para sua equipe pessoal e ela pode ver ele trabalhando de perto. Ela via com os próprios olhos o quanto Diluc era habilidoso, forte e apaixonado pelo seu povo e sua cidade. Em alguns momentos, enquanto sozinhos na sala da superintendência ou treinando juntos, ela via o quão entregue ele estava aquele trabalho de proteger Mondstadt.
Jean teve seu coração quebrado quando ele deixou o cargo.
É claro que ela conseguia entender que ele havia perdido o pai, mas ver ele desistindo de tudo pelo qual ele lutou e mostrou tanto talento ao decorrer de anos talvez fosse a única decepção que ela tinha sobre ele.
E mesmo assim, ela conseguiu engolir o ressentimento no dia em que um único dente-de-leão amarrado a uma fita azul apareceu em sua mesa acompanhado de um bilhete assinado por ele, parabenizando-a pelo cargo que ela havia acabado de conquistar.
Como o tempo e o vento que levava as sementes dos dentes-de-leão para longe o ressentimento simplesmente sumira e ela não conseguia simplesmente deixar de admirá-lo. Era preciso muita força para recuperar a vida depois de um baque tão grande, afinal.
— Dia difícil? — Kaeya se aproximou, e sentou na cadeira a frente, assustando-a.
— Capitão Kaeya! — Jean se atrapalhou, quase engasgando com o vinho que estava em sua boca.
— Desculpe, não quis assustar — ele deu de ombros e Jean se perguntou se ele estava mesmo ressentido ou fazendo a linha debochada de sempre.
— Não foi na… — Ela tossia, tentando recuperar o fôlego — nada! Eu estava distraída.
— Entendo, até mesmo a Mestra Jean tem suas distrações às vezes — Kaeya sorriu colocando a cabeça apoiada sobre o queixo e olhou em direção ao balcão. Jean sabia que o tom que ele usava queria dizer muito mais, mas ela preferiu ignorar.
— Eu só estava pensando em quando as coisas eram mais simples, só isso — deu de ombros, ainda pigarreando de leve por causa do engasgamento recente.
— Bom, não dá pra pedir simplicidade sendo Grande Mestra dos Cavaleiros, não é?
— É… Eu sei — Jean olhou para Diluc, ainda insistentemente limpando um copo sem se importar com o resto à sua volta. Ele a entenderia.
— Sabe, ao invés de remoer o passado, você deveria ir até lá falar com ele.
— Hein?
— Eu sei que minha presença é magnética e é extremamente difícil deixar minha companhia, mas você está encarando ele há algum tempo — Kaeya sorriu, claramente se divertindo com a situação.
— O quê? Não! — Jean se atrapalhou e roboticamente virou o rosto para o outro lado da sala.
Estava assim tão evidente que ela não conseguia desviar o olhar?
Sem pensar muito, ela se levantou, jogou algumas moedas de mora na mesa e virou o copo de vinho nervosamente, alguns goles de uma vez, sem nem mesmo apreciar o sabor. Assim que tomou a última gota, ela deixou o copo de lado e bateu uma das palmas das mãos na mesa de madeira. Kaeya havia tocado em um ponto muito fraco e até um pouco dolorido, por vários motivos que ela não precisava — e nem ia — contar ao capitão da cavalaria.
— Com licença, eu preciso ir — Disse séria, antes de deixar Kaeya, que não havia se movido nem um centímetro de onde estava e permanecia com aquele sorriso de lado perturbador, sozinho na mesa.
Mondstadt já mostrava os primeiros sinais de uma cidade que logo se encontraria no completo silêncio da madrugada, algumas lojas já fechadas indicaram a Jean que logo os patrulheiros da noite passariam conversando e fazendo guarda por aí como de costume. Ela andava a passos largos, abraçando o próprio corpo. Jean só conseguiu relaxar quando chegou perto da fonte na praça, se sentou na borda e ficou ali olhando a água caindo, ouvindo, ao longe, o barulho de conversas e músicas que vinham do Cauda de Gato.
Por um segundo, Jean sentiu-se tola por guardar sentimentos tão infantis dentro de si que faziam ela agir como uma adolescente olhando alguém como uma perseguidora. Riu para si, era muito mais fácil quando eram adolescentes.
— Jean?
Jean tomou um susto quando viu Diluc de pé ali, na frente dela de braços cruzados e aquela expressão vazia de sempre.
— Mestre… Diluc? — Apertou as mãos nas bordas da fonte, ainda bem que estava sentada, pois sentiu os joelhos falharem.
— Você está bem? — Diluc ficava muito desconfortável com ela o chamando de mestre, mas tentou relevar daquela vez, ela parecia perturbada demais naquele momento.
— Sim… Eu… Eu… — Jean respirou fundo, e retomou sua postura, ainda sentada. — Estou bem, mas o que você faz aqui?
— Digamos que você saiu da taverna fazendo um pouco de barulho e quando vi que Kaeya estava com você, imaginei que ele a estivesse incomodando — Diluc olhava para todos os lados, menos diretamente para ela.
— Kaeya… Ele…. Só estava me dando um conselho.
— Aparentemente era um conselho muito ruim para você sair daquele jeito.
Jean revirou os olhos, era típico de Diluc negar qualquer coisa boa que viesse do irmão dele desde que eles pararam de se dar bem.
— Não é isso, o Capitão Kaeya não fez nada, — mentiu, ela não queria explicar o motivo da saída repentina — eu só estou um pouco estressada com o trabalho.
— Ser Grande Mestre não é fácil, disso eu entendo — Diluc olhou para ela pela primeira vez, esbanjando um ar de compreensão.
— É… — Jean ficou desconfortável ao ouvir aquela afirmação, ainda incomodava saber que ele havia desistido de tudo.
Ficaram em silêncio, Jean evitando olhar para ele — ainda mais depois das afirmações de Kaeya — e tentando se concentrar nos reflexos das luzes da cidade na água que caía da fonte. Ela quase caiu dentro da água quando percebeu que Diluc havia se sentado ao seu lado.
— Lembra quando a gente costumava trazer as tartarugas para nadar aqui? — Diluc se apoiou nas duas mãos e arqueou o corpo para trás, olhando as estrelas.
Jean não entendeu muito bem aquela atitude repentina, Diluc não costumava jogar conversa fora, ainda mais quando não era sobre Mondstadt ou a Ordem do Abismo, mas de alguma forma, aquela pergunta boba a havia feito relaxar.
— Corrida de tartarugas, a que conseguisse dar uma volta na fonte primeiro ganhava — Jean sorriu ao resgatar aquela lembrança.
— O perdedor tinha que comprar Gelatina de Menta no Caçador de Cervos.
— Mestre Cretus ficava furioso e sempre dizia que a fonte não era lugar para brincar — Jean, que ria, mordeu o lábio inferior nervosamente, como se quisesse calar a própria boca, quando percebeu que acabara de citar o nome do pai de Diluc.
— É, — Diluc não havia mudado a expressão séria com que ainda olhava para cima — ele dizia também que temia que deixássemos as tartarugas engolirem moedas.
— Quem dera se, hoje em dia, nossas únicas preocupações fossem esconder as tartarugas nos arbustos quando Kaeya gritava que seu pai estava por perto.
— Nunca funcionava, nossas roupas estavam sempre muito molhadas.
— Pelo menos, Mestre Cretus fingia muito bem e não nos dava tantos puxões de orelha assim.
— Ele apreciava o esforço — Diluc lambeu os lábios e apoiou-se sobre os cotovelos, finalmente, ele e Jean tomaram coragem de olhar um para o outro.
Ele havia esquecido como gostava de olhar para os olhos dela. Diluc sempre ficava admirado de como aqueles olhos mostravam o quanto ela era determinada e gentil ao mesmo tempo e de como aquele olhar o fazia lembrar de um momento da vida em que ele era muito feliz.
A presença de Jean não era apenas sobre as corridas de tartarugas ou das brincadeiras da praça, mas sobre um passado que ele estava tentando evitar por muito tempo e tê-la ali, talvez fosse uma oportunidade de colocar algumas coisas nos seus devidos lugares.
— As coisas mudaram muito, não é? — Ela mexia nervosamente nos próprios dedos.
— Mudaram — Diluc olhou Jean de um jeito enigmático para ela. Para ele, era apenas a constatação de como ela havia crescido.
— Mas era divertido, não era? — Jean perguntou esperançosa, nem ela sabia se ela estava perguntando sobre a infância ou sobre a época em que eles treinavam juntos nos Cavaleiros de Favonius.
— Era muito divertido, sim — Diluc deu um sorriso, o que era muito raro de se ver desde de muito tempo.
— Você podia… Tentar de novo — A água voltou a ser muito interessante novamente quando Jean começou a passar os dedos pela superfície, enxarcando as luvas sem nem mesmo se importar.
— Eu temo que isso, eu não possa fazer — Diluc retomou aquela expressão enigmática e estóica de todos os dias.
— Eu sinto muito por tudo que aconteceu — Jean parou de se mover, deixando a mão ainda dentro da água. — sobre seu pai e Kaeya e a omissão dos cavaleiros. Eu entendo que isso tenha lhe machucado muito mas… Mas eu…. Não era minha culpa também — Jean engoliu seco, não sabia se realmente era hora de falar sobre isso.
— Eu sei que não era — Disse depois de soltar um longo suspiro.
— Então…. Por que você me afastou? — As palavras se formaram tão rápido que Jean não sabia se havia sido compreendida. O longo silêncio e a falta de reação de Diluc, diante da pergunta, não deixaram ela menos nervosa e, ela se perguntou, se ele podia escutar seu coração batendo tão alto quanto os tambores de uma orquestra.
Por alguns segundos, que pareceram horas, tudo parecia em câmera lenta até Diluc soltar um longo suspiro que a deixou alerta.
— Você lembra quando começamos a treinar? — Diluc permanecia imperturbável, ou pelo menos, ele escondia o que sentia muito bem. — Nós íamos todos os dias para o campo atrás da Catedral tentar derrubar vários espantalhos com um golpe só.
Jean continuou calada, tentando entender a conexão da pergunta dela com aquela conversa cheia de nostalgia.
— Era impossível sem uma visão, mas nós continuamos insistindo muito. Afinal, nós éramos cavaleiros e estávamos determinados a conseguir uma visão um dia e isso viria com treino e disciplina. Era o que costumávamos repetir para nós mesmos, dia após dia.
— Mestre Diluc eu não entendo… — Jean estava cansada de ser ignorada, essa era a verdade.
— Já falei que não precisa me chamar de “mestre” — Ele interrompeu e logo retomou seu raciocínio: — eu consegui derrubar aqueles bonecos primeiro, você lembra?
Jean lembrava, e por mais que tentasse esquecer, aquela noite talvez tenha sido a responsável por toda aquela sensação de abandono que ela tinha.
Diluc já era Grande Mestre na época e ela sua imediata, a primeira em comando e seu braço direito. Na época, parecia que todo aquele treinamento tinha valido a pena, eles tinham se esforçado tanto e chegado tão alto em tempo recorde. Diluc era o orgulho do seu pai e Jean era uma estrela em ascensão para o nome de sua nobre família.
Eles costumavam escolher vários turnos da patrulha da noite. Em uma noite, em especial, eles haviam dado várias voltas pela cidade e estava tão calmo que resolveram parar um tempo para treinar ali, como nos velhos tempos. Dois jovens adolescentes inconsequentes querendo provar que eram melhores do que os outros, Jean compreendia isso hoje.
Diluc havia provado várias vezes que era um prodígio, mas derrubar 7 bonecos de uma vez, com um único golpe, havia sido um grande crítico que eles treinaram muito para alcançar. Jean havia ficado tão feliz com o feito que, sem pensar, havia se jogado em seus braços e, quando deram por si, já estavam agarrados se beijando atrás das sombras de uma das colunas da catedral.
A mera menção da lembrança fez o coração de Jean acelerar muito mais e ela tinha certeza de que seu rosto devia estar tão corado que era possível ver a luz da lua. Ela jurava que ele jamais mencionaria aquele acontecimento novamente.
— No dia seguinte eu fui mandado para aquela missão com meu pai… — Era possível sentir uma pontada de dor e ressentimento na fala dele — e, bem… Você sabe o que aconteceu.
— Eu… Sinto muito — Jean estendeu a mão molhada para tocar o ombro do homem, mas parou no meio do caminho, trazendo a mão ao peito.
— Eu me senti muito traído na época — Jean percebeu o maxilar de Diluc travar, ela sabia que falar sobre qualquer coisa era muito difícil para ele, afinal, ainda era Diluc — por Kaeya, pelos cavaleiros e quando até mesmo você não estava me dando razão sobre caçar a Ordem do Abismo eu só… Decidi fazê-lo sozinho.
— Mest… — Pigarreou antes de corrigir a si mesma — Diluc, eu não sabia que você se sentia assim, eu… — Jean deu um longo suspiro e tomou coragem suficiente para se aproximar a colocar a mão no antebraço dele — Eu não fazia ideia. Eu me senti tão abandonada quando você desistiu dos cavaleiros, de tudo pelo qual a gente lutou tanto tempo junto para conseguir que eu não sei explicar, eu só achei que você não me queria mais por perto.
— Eu sei, mas esse foi meu jeito de lidar com as coisas — Diluc colocou a sua mão sobre a dela, ignorando o fato das luvas encharcadas estarem molhando a manga do seu casaco — e eu admito que não foi o jeito certo.
— Você podia… Tentar de novo — Jean sorriu de leve, mas de uma forma muito significativa, sabendo que não havia chance alguma para os Cavaleiros de Favonius naquela pergunta.
Diluc sentiu os dedos dela se fecharem na manga do seu casaco e, por impulso, ele apenas se virou, segurou o queixo dela entre seus dedos e encontrou aquele olhar, que ele tanto gostava de admirar, brilhando para ele com expectativa.
Não era exatamente como naquela noite em que eles brincavam de derrubar espantalhos e embora Jean não lembrasse bem como tinha acontecido, Diluc guardava na memória que havia sido ele quem lhe havia roubado aquele primeiro beijo sob a luz das estrelas. E, novamente, Diluc não hesitou em inclinar e sentir os lábios de Jean buscando os seus, um beijo com sabor de perdão, ternura e talvez de um novo começo.
Claro que o dono da Adega do Alvorecer sabia que as coisas não mudariam da noite para o dia, ele ainda guardava muito ressentimento de tudo o que havia acontecido, mas aquela pequena parte, talvez, ele pudesse recuperar e estava feliz por isso.
Notas finais
Talvez.
Esse jogo tem tomado meu tempo livre de uns tempos pra cá que nem sei dizer.
Diluc foi meu primeiro 5* e eu criei um amor incondicional pelo meu edge boy e desde que eu vi a interação dele com a Jean na taverna essa fic ficou martelando na minha cabeça ♥
Eu tenho algumas outras ideias do que fazer com meu novo casalzinho, mas ainda em desenvolvimento.
Me perdoem os eventuais erros e se os personagens ficaram meio out-of-character, eu ainda estou pegando a essência desse OTP. ♥
Enfim, espero que gostem!
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