Admirável Terra dos Deuses
1 Parte 1: O Estopim - Capítulo 1: Lefrich
Notas iniciais
É um dia muito especial em Carfell, o Dia de Qhoreno, o Senhor Supremo dos deuses do Distante Reino dos Bosques Negros, localizado no Oriente. Carfell é a capital desse reino que está a uma longa distância dos demais reinos. Seu território é dividido em duas partes pelo largo Rio Nikken: a parte oeste, onde se localiza as aldeias e a cidade de Carfell e, na outra parte, localiza-se a temida Floresta Escura de árvores tão enormes e densas que a luz do sol não consegue passar, deixando a selva totalmente na escuridão. Diz a lenda, que essa floresta é habitada pelas chamadas Horrendas Criaturas da Noite, ou simplesmente, a Noite, e que um dia, essas criaturas irão, enfim, aparecer, destruindo todas as cidades e se alimentando de todos os homens e mulheres do mundo. Porém, a cada dia que passa, essa lenda cai mais no esquecimento.
É Um dia de grandes comemorações na cidade: torneios cavalariços, corrida de cavalos, danças carfellianas e de aldeões e a principal atração do dia: o sacrifício em homenagem ao deus da lua. As ruas estavam lotadas de pessoas com seus filhos e filhas, o palácio real enfeitado com a bandeira roxa com um alce preto ao centro, símbolo da Casa dominante desse Reino, a Casa Seeutenfell, e na região frontal do palácio, em frente à Grande Praça, estava sentado em seu trono, o Rei-Distante Lefrich IV, da Casa Seeutenfell. Nessa família, os homens e mulheres têm cabelos pretos em tons tão escuros como o carvão e olhos cinzentos como a prata. O Rei, de aproximadamente 45 anos, estava com sua armadura negra e sua coroa enfeitada com oito cabeças de alce de ouro, coroa dos reis do Distante Reino. Lefrich estava apreciando as comemorações em homenagem a Qhoreno. Ao seu lado esquerdo, sentava sua família, composta por sua esposa e seus filhos, sendo os primogênitos, dois garotos gêmeos. Ao seu lado direito, sentava o seu Conselho, composto pelos Conselheiros e a Mente do Rei, o cargo mais alto, abaixo apenas do próprio Rei.
O Sacerdote da cidade encaminhou-se até a beira da escadaria, fez com que a multidão se acalmasse e pronunciou:
_ Senhoras e Senhores! Saúdem a Vossa Excelência, O Rei-Distante Lefrich, o Quarto, dos Seeutenfell, o Protetor das terras além-mar, Senhor de Carfell, sangue do sangue dos Seeutenfell, Guardião das Aldeias e o Rei do Distante Reino dos Bosques Negros!
Lefrich se levantou e dirigiu-se em direção à escadaria para fazer seu pronunciamento. Iniciou-se uma onda de comemorações por toda a Grande Praça.
_ Meus queridos Súditos! – começou a dizer o Rei — é com grande prazer que trago para esse dia sagrado de Qhoreno, um tributo vindo das terras inimigas, trazido por nossos espiões para que possa servir de oferenda neste dia, e desse modo, o nosso deus supremo indicará a direção para o nosso triunfo, o triunfo do povo longínquo! — uma grande agitação se formou entre os presentes — trago a vós Halldorf Barenzha, o terceiro filho de Eduuine Barenzha, Imperador de Atalaia, o grande inimigo do povo além-mar! – pronunciou Lefrich com o típico sotaque de Carfell, proferindo as palavras terminadas em –ar, -er e –or encaixando um “i” entre a vogal e o “r” e acrescentando um “e” depois do “r”.
Um jovem foi levado por dois homens da Guarda de Carfell para próximo de Lefrich. O rapaz, alto de cabelos loiros escuros e olhos verdes escuros, tipicamente da Casa Barenzha, a família que governa sobre o Reino das Campanhas e o Império Barenense. O jovem de aparentemente 15 anos, estava com suas mãos atadas e com uma expressão que ia ao mesmo tempo, de medo à ira.
_ Meus caros súditos! – Lefrich reiniciou seu discurso – por séculos, o mundo era livre sem dominância de ninguém sobre ninguém. Nós, do Distante Reino dos Bosques Negros éramos livres, assim como os Reinos do Inverno, da Primavera, do Verão e do Outono, e também, como as Terras do Ocidente e as Grandes Ilhas das Pedras. Até que então, o Reino das Campanhas, cuja capital é Myrell, liderado pela Casa Barenzha, iniciou o seu imperialismo por todas as regiões começando pelos Reinos das Estações, no mesmo continente do Reino das Campanhas. Logo este último impôs sua força e anexou os demais reinos ao seu domínio, surgindo assim, o temido Império da Atalaia, e sua capital passou a ter o nome de Myrell Imperial. Décadas depois, esse mesmo Império decidiu expandir seu domínio sobre os mares, conquistando as Terras do Ocidente e anos depois, as Grandes Ilhas das Pedras, meus caros súditos! Não satisfeitos com isso, decidiram conquistar-nos. Eles, sob o comando de Sywar I, da Casa Barenzha, chamado O Conquistador, ordenou que nos rendêssemos, mas o nosso bravíssimo Rei Loverick, o Terceiro, da minha amada família Seeutenfell, não acatou essa infâmia ordem, e desde isso, já se passaram 81 anos sem que eles nos dominassem. Há dois anos, o Imperador Eduuine, O Segundo, como um ultimato decidiu isolar-nos do mundo, sem termos comércio com nenhum outro lugar, nem com as ilhas nem com outras terras. Então, entramos nessa crise na qual vivemos, porém isso não irá ficar assim! A partir de agora, declaro guerra ao Império Barenense, sobretudo, à família Barenzha!
A multidão explodiu em alegria, enquanto que Halldorf inconformado começou a gritar. Logo que a multidão se calou, ele se pronunciou:
_ Seu cretino! Você não sabe o que diz! Nosso Reino e minha família passaram séculos sendo disputados, com batalhas sangrentas acontecendo sobre nosso amado solo para ver quem nos dominaria! Agora estamos fazendo o que é mais certo, conquistando esses povos que um dia ousaram tentar impor sua força sobre nós! Meu pai me vingará, tenho certeza!
Ao ouvir essas palavras, Lefrich deixou sair pela sua boca uma poderosa gargalhada que tomou conta do povo.
_ A nossa vitória virá e teu povo irá se ajoelhar perante a mim. O lema de minha Casa é: Distantes, porém, destemidos, e assim somos nós. Hoje a morte é tua, daqui a algumas semanas, será a de teu pai – respondeu o Rei-Distante — Em nome do deus da lua, senhor de Carfell, o deus dos distantes, o nosso guiador da vitória, eu o sentencio à morte! – essas foram as palavras de Lefrich que deu a autorização para o sacrifício.
Então, um Guarda Real se aproximou dos dois. Halldorf foi colocado de joelhos com a cabeça inclinada. O Guarda, então, desceu sua espada em direção ao jovem cortando sua cabeça que saiu rolando pelas escadarias do palácio de Carfell com o rubro sangue se espalhando pelo local, e o corpo ficou caído em frente à Lefrich que olhou com escárnio a cabeça rolando as escadas. Uma grande alegria tomou conta do povo, compartilhando abraços e risos.
_ Esse é o primeiro passo para a nossa gloriosa vitória meu povo! Os deuses de Carfell nos guiarão para o triunfo que há de acontecer, e as terras do Império não nos terão como colônia. A vitória será nossa! Do povo longínquo! — Encerrou seu discurso.
As comemorações continuaram com muita dança e música e o corpo e a cabeça do descendente Barenzha foi levada para o porto onde seria despachado para Myrell Imperial.
Assim que teve fim a cerimônia de sacrifício, o Rei-Distante, O Conselho Carfelliano e a Guarda Real entraram no Palácio em direção à sala de reuniões.
_ Meu querido Rei – disse calmamente o velho Húr Vyses, a Mente do Rei do Distante Reino dos Bosques Negros, proveniente de uma aldeia no norte do reino, sendo assim, fluente tanto no Novo Idioma tanto no idioma xhorys, pronunciado ks-rrorys, falado pelas aldeias– não acha que sua atitude foi rude demais? Receio que entramos em solo perigoso.
O Rei encarou o velho homem de barba branca até o peito e disparou:
_ Eu sei o que faço Vyses... Eu sei o que faço.
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