Adhara
5 Capítulo 5
–Como funciona? – Ele pergunta. – Você ainda consegue fazer?
–Não tentei.
–Quer tentar agora?
–Você quer ser enfeitiçado? – Estou surpresa.
–Estou curioso para saber como é.
–Me de um bom motivo para enfeitiçar você.
–Você vai poder saber se virou completamente humana ou se ainda é sereia.
–Você sabe que não lembrará que foi enfeitiçado, né?
–Continuo curioso.
Pensando bem, não tenho nada a perder.
–Ok, você que pediu.
Ele me olha nos olhos esperando e eu começo a cantar um feitiço em língua antiga. Uso o tom de voz mais suave que possuo e o ordeno a me falar a verdade sempre que eu perguntar. Isso vai ser interessante. Digo que ele não se lembrará do feitiço em si, apenas da melodia que canto em uma língua que somente eu compreendo. Sorrio, sabendo que mesmo sem a cauda, não sou completamente humana. Não sou um deles. Não sou um monstro.
Quando termino a canção ele fica um tempo parado, recobrando a consciência.
–Agora, me diga, por que não me jogam no mar? –Pergunto olhando nos seus olhos.
–Jason quer ganhar algum dinheiro as suas custas, ele acha que pode trazer sua cauda de volta e a mídia certamente iria adorar. –Ele fala em transe.
Ainda não conheci o tal Jason, mas certamente não gosto dele. Só permaneço tranquila por que sei que ele não vai conseguir trazer minha cauda de volta, se houvesse um jeito, eu saberia.
–Por que está acordado há essa hora? – Pergunto a Nicholas.
–Evan, Jason, o capitão e eu estávamos tirando uma folga.
–Uma folga?
–Nós e as cervejas.
Não tenho ideia do que seja e acho que por hoje está bom.
–Boa noite, Nicholas.
–Boa noite. – Ele diz saindo do feitiço.
Eu vou para o meu quarto e ele para o dele. Meu quarto está tão escuro que so enxergo a sombra dos móveis. Fico meia hora encarando o teto escuro sem conseguir dormir.
E então eu escuto passos na escada. Eu congelo. Fico olhando atentamente para a porta, esperando.
Ela se abre e eu vejo o vulto de alguém, parado na porta. Quem será? Não sinto mais o meu coração batendo nas costelas.
–O que você esta fazendo na minha cama, sereia? – Diz a voz enrolada e lenta de Evan.
Ele cambaleia até a cama e eu não tenho ideia do que esta acontecendo. Esse nunca foi o quarto dele. Ok, Adhara, você sabe que ele não bate bem, saia da cama, deixe para ele antes que ele faça algo idiota.
Vou saindo da cama sem fazer movimentos bruscos desejando, do fundo do coração que eu pudesse me misturar às sombras.
–Não precisa ficar com vergonha sereia, eu sei que você quer alguma coisa. Por que outro motivo estaria na minha cama? – A voz dele esta muito enrolada, não consigo entender o que ele diz a seguir.
Ok, vou sair daqui e vai ser agora.
Levanto-me e vou em direção da porta o mais rápido que posso.
–Calminha ai — Ele me segura pelo braço. –Não precisa ir embora.
–Me solta. – Digo com a voz firme.
Mas ele não solta.
Em vez disso ele me joga na cama que ele pensa que é dele. Mas a situação piora.
Ele deita junto.
–Me larg- Ele me interrompe.
O beijo é selvagem. O hálito dele está com gosto amargo. Eu tento chutar, mas o corpo em cima do meu bloqueia qualquer movimento. Ele tem gosto amargo e eu estou com náuseas.
Tenho que sair daqui, tenho que sair daqui.
As mãos dele entram por baixo da minha camisa duas vezes maior que eu, (que na verdade não é minha) e cada vez eu fico com mais medo. A língua amarga dele entra na minha boca e vasculha procurando a minha.
Essa é a minha deixa.
Mordo a língua dele e sinto o gosto de sangue invadir minha boca, ele para e desgruda de mim, concentrado em conferir se a língua esta intacta. Eu não fico ali para conferir.
Saio correndo porta a fora e entro em corredores pelo quais nunca passei. Eu sabia que o barco era grande, mas não sabia que tantos corredores poderiam caber em um só. O dia não chega nunca, os corredores estão escuros e acho que estou andando em círculos. Não tem ninguém aqui para me ajudar, como Caleb disse.
Estou perdida dentro do barco. Merda, calma Adhara, pare de correr nos corredores, vai acordar todo mundo. Paro de correr. Procure uma janela, descubra que lado do barco você está e pelo amor de Poseidon pare de chorar como uma garotinha!
Não sei em que corredores tem janela, mas vago na escuridão até encontrar uma, devo estar na parte esquerda do barco.
–Ei. – Diz alguém colocando a mão no meu ombro.
Viro-me pronta para bater em seja la quem me deu esse susto, mas paro. É o Nicholas.
–Sereia, por que diabos você esta correndo pelos corredores essa hora da noite?! Sorte sua que Jack tem sono pesado se não ele arrancaria seus cabelos! Espera, você esta chorando? O que aconteceu?
Olho para ele sem saber o que dizer.
–Quer que eu te ajude a achar o seu quarto? –Ele pergunta.
–Não! Não posso ir pro meu quarto.
–Por quê?
–Evan esta la, não sei o que deu nele, ele praticamente me atacou.
–Ele bebeu. – Concluiu Nicholas. – Droga, desculpe sereia.
–Você tem culpa nisso?
–Não, mas ele não vai se lembrar do que aconteceu amanha, então estou pedindo desculpas por ele.
Não digo nada.
–Venha, temos que voltar a dormir antes que alguém perceba que estamos acordados.
Ele vai seguindo pelo corredor e entra em uma das portas. A cabine é igual a minha, tirando a mala jogada em um canto com as roupas ao redor.
–Mi cabine, su cabine.
–Eu vou dormir aqui?!
–Claro. –Ele diz como se fosse obvio. –Você dorme na cama e eu no chão.
Ele pega uma parte das cobertas e estende no chão, usando uma almofada de travesseiro. Eu deito devagar na cama, sem saber como reagir ao ato de gentileza dele. A luz é apagada.
–Boa noite Nicholas e... obrigada.
–De nada sereia.
–Adhara.
–O que?
–Meu nome. Adhara. –Digo constrangida.
–Ta brincando que seu nome é Adhara. – Ele diz, sentando, atônito.
–Por quê? Algum problema?
–Quando chegarmos ao continente eu explico. –Ele diz, deitando de novo.
Posso sentir seu sorriso na escuridão,
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