Adeus às Armas
3 O Nascimento de Godfrey
“Através dos passos alternados de perda e ganho, silêncio e atividade, nascimento e morte, eu trilho o caminho da imortalidade.” (Deepak Chopra, Médico e pensador Hindu).
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(60 anos antes)
– Força, você esta quase, só mais um pouco, já esta nascendo, Isabelle! – Estas foram às primeiras palavras que escutei, e sim, Isabelle era o nome de minha mãe. Apreensivo, meu avô estava na sala, em uma caserna ao qual eu nasci e passei a primeira parte de minha infância. Basilan era seu nome, e a ele devo muito do que aprendi para sobreviver.
Com razão Basilan estava preocupado. Quando minha mãe informou a ele que estava grávida, ela tinha apenas 16 anos e isso representava certo risco. Mas o que o deixava mais enfurecido foi o fato de que a paternidade não foi assumida pelo príncipe de Brynhildr, um castelo no feudo das Valquirias, em Prontera. E assim nasci, sem o reconhecimento de meu pai, herdeiro direto do trono, príncipe Henry.
Lysandra, amiga de minha mãe, uma jovem noviça, estava fazendo o parto:
– Veja Isabelle, é um menininho! – Falando isso ao som de meu choro, e apagou parte das preocupações de meu avô.
– Me dê ele nos braços... – Minha mãe, comovida, me viu pela primeira vez – Meu filhinho lindo! Veja o tanto que ele e forte!
Lysandra inocentemente comentou:
– Sim, ele é bem saudável! Estes olhos castanhos e a marca de nascença em sua cabeça lembram a beleza do príncipe Henry...
Escutando isto, minha mãe sentiu um ligeiro mal estar, seguida pelo pedido de desculpas feito pela jovem noviça. Tentou consertar a ligeira gafe que cometeu:
– Desculpe-me. Bem, você precisa descansar, darei o primeiro banho no seu filho...
Seguindo meu primeiro instinto, me alimentei pela primeira vez e a noviça mudou de idéia. Meu avô adentrou no quarto:
– Será um rapaz inteligente, já esta seguindo seus instintos... Como irá chamá-lo?
– Godfrey... Este será seu nome... – Disse minha mãe.
Após minha primeira alimentação, Lysandra me limpou com cuidado e me pôs a dormir no berço. Em seguida, Basilan escutou fortes batidas na porta:
– ABRAM! Deixem-me entrar ou arrombarei a fechadura...
Pela primeira vez, após muitos anos, Basilan desembainhou sua velha lâmina. Já fazia ideia de quem poderia ser...
– ABRA! PELO AMOR DE ODIN! DEIXE-ME ENTRAR!
– O que quer aqui Henry? Já não basta a desgraça que já aprontou com a minha filha?
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E de fato, Henry estava longe de parecer um santo. Tinha acabado de se graduar Cavaleiro, quando conheceu minha mãe. Ele se encantou pela beleza dela, embora fosse uma plebéia que prestava serviços a casamenteira de Prontera. Utilizando-se de palavras doces, cativou minha mãe com seu charme e polidez nas palavras, mesmo tendo um noivado marcado com uma Arruaceira de nome Frenhild, filha de um rico vendedor de jóias em Morroc. A partir daí, passou a se encontrar furtivamente com minha mãe.
Quando veio a noticia de que minha mãe estava grávida de mim, Henry propôs que Isabelle abortasse meu nascimento. Minha mãe se negou e se sentiu ultrajada, informando que aquele em sua barriga seria seu herdeiro, fruto de um amor que inocentemente ela acreditava. Henry não queria que um escândalo destes fosse descoberto pelos seus pais, líderes do clã “Guerreiros de Ibelin”, dinastia ao qual eu faria parte, e passou a enviar uma pequena ajuda financeira a minha mãe, que repudiou o ato. Com a desculpa de que já tinha um casamento marcado, se ausentou de minha mãe quando ela mais precisava dele.
Basilan não entendia naquele momento a tristeza de minha mãe, facilmente notado após a conversa que ela teve as escondidas com meu pai, pois tinha medo de contar tudo ao meu avô.
Mas ele acabaria sabendo. Certa vez, em um de seus serviços na Catedral de Prontera, minha mãe estava mal, sentindo enjôo. Nesta data, estava marcado o casamento de Henry e Frenhild. Não agüentando, acabou vomitando perto do altar, quando a família de meu pai estava se reunindo entre as cadeiras. Ao ver aquilo a Arruaceira insultou minha mãe:
– Sua porca imunda, por isso que eu não confio em plebeus! Pra mim não valem mais do que excremento de Peco-peco. Suma da minha frente antes que eu lhe dê uma Apunhalada!
Minha mãe correu aos prantos dando de frente com Henry, que estava sem palavras para o que ocorreu. Basilan assistiu a cena, e sua vontade imediata era de fatiar Frenhild. Conteve sua vontade quando dois Cavaleiros se levantaram ao seu encontro.
Não entendendo o que ocorreu, foi de encontro à filha chamando Lysandra para ajudar-lhe. Do lado de fora da Igreja, Basilan encontrou minha mãe chorando desesperadamente e disse preocupado:
– O que houve minha filhinha. Diz-me o que aconteceu, eu quero ajudá-la...
– Papai você não vai me perdoar pelo que eu fiz... Não vai...
– Diga-me o que aconteceu, eu juro que irei escutá-la...
Isabelle tomou a panacéia que Lysandra deu a ela e se acalmou. Mas ainda com receio, disse:
– Papai, estou... grávida de Henry.
Meu avô quase teve um ataque. Mas conteve sua fúria e escutou o que minha mãe tinha a explicar. Logo após, ele, junto com a minha mãe e Lysandra, voltaram para casa, sem antes jurar pra si que iria cuidar de mim para cumprir a ausência do meu pai, com o intuito de cuidar de minha educação para que eu pudesse fazer justiça com as próprias mãos no futuro.
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– ABRA! EU TENHO O DIREITO SAGRADO DE VER MEU FILHO!
– ENTÃO TENTE ARROMBAR ESTA PORTA, E TERÁ O QUE MERECE!
Lysandra escutou os gritos e se encaminhou a sala:
– Por Odin! Que gritaria e esta Sr. Basilan? – E abriu a porta...
– Deixe-me entrar! Eu quero ver meu filho! – Henry estava desorientado.
– Vai ter que passar pelo fio de minha lâmina, seu irresponsável! – E atacou Henry, ferindo-lhe no braço. Em um contra-ataque, meu pai feriu meu avô na perna. Henry sabia que Balisan havia sido um excelente espadachim e quis amenizar uma situação sem volta:
– Sr. Basilan, por favor, minha intenção não é matá-lo! Deixe-me falar com Isabelle...
– SAIA DAQUI! – E desferiu mais um golpe, quebrando uma pequena mesa após um desvio feito pelo meu pai.
– PAREM JÁ OS DOIS! – Isabelle andava com dificuldade...
– Isabelle, como está nosso filho? Deixe-me ver como ele é...
– Você já o matou não se lembra? – Isabelle olhava com fúria nos olhos de Henry – Não foi você que propôs que eu passasse por cima do nascimento dele? Porque veio aqui? Você não tem direito algum sobre o filho que você nem reconheceu!
A conversa já alcançava ouvidos alheios, e alguns mercadores ambulantes começaram a olhar para o rumo da discussão. Com medo da repercussão deste papo chegar em sua família caso fosse visto, Henry olhou com olhos em lágrimas e disse:
– Deixarei você fazer isso comigo hoje, mas ainda alcançarei seu perdão...
Cobriu-se em sua capa, elegantemente encantada com uma carta Frildora. Com lágrimas nos olhos, gritou – FURTIVIDADE! – E desapareceu sem deixar vestígios.
– Até para brigar este inconveniente é um covarde! – Meu avô riu com desdém.
– Papai, não faça mais isso por favor... – Minha mãe estava apavorada. – Pessoas poderosas são perigosas, e eu só quero paz pra você, pra mim, pra Lysandra e principalmente para o Godfrey...
Meu avô engoliu a seco sua revolta e concordou. Logo após, Lysandra se despediu de seus amigos e receitou algumas ervas medicinal a minha mãe que, ao mesmo tempo via meu avô olhar para mim no berço imaginando sobre o meu futuro...
Continua...
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