Adeus, Viajante

11 Capítulo Dez


Notas iniciais
Hey! Faltam somente dez capítulos (mais o epílogo) para a história ser finalizada! Espero que gostem!

Denver, Colorado, 2015 – Lottie

— Lottie, há quanto tempo. — Ouvi uma voz familiar. — A última vez que nos vimos foi quando me pediu uma certidão falsa para ir a uma festa.

— Sim, eu sei Patrick. — Disse, aceitando sua mão estendida e a balançando. — Preciso de uma certidão falsa para ele.

— E quem é você? — Patrick perguntou, torcendo o nariz. Não gostava muito de Patrick, mas ele era um contato útil em situações como essa. Patrick era a única pessoa de vinte anos que era mais baixa que eu; ele poderia ser considerado um anão se fosse vinte centímetros mais baixo, mas isso não vem ao caso.

— Sou Jonny Nicholson. — Jonny respondeu. Patrick deu de ombros e se voltou para mim, perguntando:

— Posso saber o motivo da certidão falsa?

— Não, não pode. — Eu respondi. — Sem perguntas.

— Ok. — Ele concordou, contrariado. — Quais serão as informações?

Patrick tirou um bloquinho do bolso e uma caneta, se preparando para anotar.

— Nome dos pais. — Eu pedi a Jonny.

— George e Nana Nicholson.

— Nacionalidade: americana. — Eu continuei. — Naturalidade: Wichita, Kansas. Data de nascimento?

— 27 de março. — Ele disse, esperando que eu falasse o ano.

— De 1997. — Disse.

— Ok. — Patrick disse. — Daqui a alguns minutos eu te ligo e você passa lá em casa para pegar a certidão.

Ele piscou para mim, me fazendo tremer de nojo. Jonny arqueou uma sobrancelha para ele, que se virou e saiu.

— Esse cara parece ser insuportável. — Jonny comentou alguns segundos depois.

— Parece? Ele é com toda a certeza do mundo. — Eu disse. — Só falo com ele porque é útil em algumas situações.

— Você percebeu que ele estava flertando com você? — Jonny perguntou.

— Sim, eu percebi. — Disse. — Não é a primeira vez.

— E você nunca diz nada? — Ele perguntou de novo.

— Não. — Eu respondi. — Apesar de tudo ele é inofensivo. Nunca encostaria um dedo em mim.

— Pelo menos não até você atingir a maioridade, certo? — Jonny bufou. — Seria pedofilia.

— Cala a boca, Jonny. — Resmunguei irritada. Ele simplesmente deu de ombros.

Voltei a olhar as criancinhas brincando e avistei um homem olhando para mim e para Jonny. Parecia estranhamente familiar.

Da última vez que vi alguém me observando, esse alguém passou a me perseguir, pensei. E mais: da última vez, a pessoa que me observava era um viajante do tempo.

— Jonny. — Chamei-o. Apontei para o homem com a cabeça. — Você o conhece?

— Não. Por quê? — Ele disse depois de alguns segundos.

— Ele está nos observando. — Eu disse. — Me parece familiar.

— Então por que está perguntando se eu o conheço? Nunca vi ninguém parecido na vida. — Jonny disse. — E aliás, como eu poderia conhece-lo? Estou aqui há quatro dias.

— Fica quieto. Estou tentando me concentrar. — Eu disse.

O homem não parecia ter mais de cinquenta anos. Tinha cabelos loiros um pouco grisalhos e sua pele era escura.

Eu já o vi antes, pensei. Mas onde?

— Desencana do cara, Lottie. — Jonny resmungou. — Você já deve ter visto ele na rua, no mercado, em qualquer lugar! Deixa isso pra lá e me dá dinheiro.

— Pra que você quer dinheiro? — Me virei para ele, perguntando irritada. — E eu tenho cara de banco, por acaso?

— Respondendo suas perguntas: sim, você tem cara de banco. E eu quero comprar sorvete.

Franzi as sobrancelhas, esperando que a qualquer segundo ele falasse que estava zoando com a minha cara. Mas Jonny permaneceu sério, esperando o dinheiro com a mão estendida.

— Você está falando sério? — Perguntei.

— É claro que estou. — Ele respondeu. — Aqui faz calor pra caramba.

Tirei dinheiro de meu bolso e estendi a ele.

— Compra um pra mim também. Eu quero um sundae de morango. — Eu disse.

— Você prefere morango à chocolate? — Ele perguntou, e eu assenti. — Qual é o seu problema?

— Sinceramente, eu não sei. Mas sei que o problema que me leva a gostar mais de sundae de morango é o mesmo que me fez te ajudar. — Eu disse, impaciente. — Vai logo, Jonny.

Jonny foi comprar os benditos sorvetes e eu tentei ao máximo ignorar o homem que ainda me observava.

Isso não vai acabar bem, pensei. O que esse homem quer? É outro viajante do tempo?

O homem percebeu que eu também o observava, mas mesmo assim continuou olhando para mim. Quando nossos olhos se encontraram, ele sorriu.

Ai, meu Deus! Porque ele está sorrindo?, pensei.

Jonny voltou com dois sundaes, um em cada mão, parecendo irritado.

— Até os sorvetes do passado são diferentes. — Ele reclamou. Vendo minha expressão de pânico, ele parou e me olhou confuso. — O que houve?

— Aquele homem... Ele sorriu para mim! — Eu disse.

— É... ele continua te observando. — Jonny comentou, desconfiado. — Vamos embora.

Não pude dizer nada pelo pânico. Somente me levantei, peguei meu sundae e algumas sacolas e saí andando, com Jonny a meu lado.

— Por que esse tipo de coisa acontece comigo? — Perguntei a ninguém em particular.

— Eu não faço ideia. — Disse Jonny. — Mas tenho que concordar que aquele homem parecia suspeito.

— Parecia? — Disse, indignada. — Ele com certeza era suspeito!

— Pode ser que ele também te ache familiar. — Ele disse. — Pode ser que se conheçam, e você só não se lembre de onde.

— Se nos conhecêssemos, ele viria falar comigo, não acha? — Disse, colocando fim no assunto.

Eu e Jonny fomos até a cafeteria, não só porque estávamos com fome, mas para ficarmos em algum lugar seguro. Será que o homem era um sequestrador?

— Jonny? Lottie? — Ouvi uma voz familiar. Procurei um rosto conhecido, e encontrei Ruby sentada em nossa mesa de costume.

— Ruby! — Eu exclamei e fui em sua direção. Jonny me seguiu, desanimado.

— O que houve? Por que estão aqui? — Ela perguntou, me abraçando. Me sentei ao seu lado, quase esquecendo do homem que me observava. Jonny permaneceu de pé, com os braços cruzados e expressão impaciente.

— Eu estava mesmo querendo falar com você. — Eu disse. — Precisamos de sua ajuda.

— Minha ajuda? O que eu posso fazer? — Ela disse, surpresa com meu pedido.

— Vou levar Jonny até o homem que pode consertar a máquina do tempo. — Expliquei. — Mas tenho que inventar uma desculpa para meus tutores. Eu pensei em dizer que nós duas viajaremos com um amigo.

— E você quer que eu ajude na mentira. — Ela concluiu.

— Sim. — Eu disse. — Precisamos de um álibi.

— E quanto tempo vai demorar? Não posso faltar na escola, fingindo que estou viajando com você.

— A viagem dura seis horas, mais ou menos. Tentaremos ser rápidos. — Eu disse.

— Bem... eu não concordo em deixar vocês dois sozinhos. — Ela disse, cruzando os braços.

— Mas você não tem que concordar. — Disse Jonny, se sentando do outro lado da mesa. — Você podia ter escolhido acreditar em mim, ouvir minha história, mas perdeu a paciência porque não tem fé na tecnologia. Você não tem mais o direito de decidir nada.

Ruby o olhava de sobrancelhas franzidas.

Isso não vai acabar bem, pensei. Dois egocêntricos discutindo... vai acabar em confusão. Só espero que eu não tenha que escolher entre os dois.

— E você não tem o direito de obriga-la a te ajudar. — Ruby disse.

— Eu não a obriguei. Ela criou esse plano. — Jonny soltou uma risada de escárnio. — Agora, se você não vai nos ajudar, não tem problema. A gente encontra alguém que possa.

Ruby e Jonny se encararam mortalmente durante alguns milhões de segundos. A situação já estava ficando parecida com um jogo de “Quem pisca primeiro” quando meu celular tocou.

— Alô? — Eu disse, aliviada e agradecida por Jonny e Ruby terem desviado o olhar para mim, tornando a atmosfera menos desagradável.

— Lottie, sou eu. — Ouvi a voz de Patrick. — Eu acabei.

Notas finais
Posto os próximos ainda hoje!