Adeus, Viajante
6 Capítulo Cinco
Notas iniciais
Denver, Colorado, 2015 – Lottie.
Meu celular tocou, indicando que eu recebera uma mensagem. O tirei do bolso e li rapidamente a mensagem que Ruby me mandara.
“Lottie, isso... é.... Você está vendo pela TV? O atentado à Casa Branca? ”
A respondi rapidamente:
“Sim, Ruby. Acho que ele falava a verdade. ”
Cerca de segundos depois, ela escreveu:
“Isso é loucura. ”
Olhei para Jonny, que ainda parecia muito satisfeito consigo mesmo. Com um olhar zombeteiro, ele perguntou:
— É ela, não é?
— Sim. Ela acha que isso tudo é uma loucura. — Respondi, guardando o celular no bolso.
— Pena que ninguém perguntou nada a ela. Não é minha culpa se vocês do passado têm tão pouca fé na tecnologia. — Ele deu de ombros.
— Deixe de ser cretino. — Eu disse, ligeiramente enjoada.
— Cretino é seu presidente. — Ele disse. — Aliás, como todos falamos o mesmo idioma, temos a mesma moeda e etc., só existe um presidente no futuro.
— Para o mundo inteiro? — Perguntei.
— Sim. Não é bem um presidente, mas o dono do mundo, praticamente. Funciona como uma monarquia hereditária. Ele e a família moram em Royal Revolve. — Ele disse. — Seria sua Oceania.
— Um continente inteiro só para ele? — Perguntei. — Ou será que para vocês, os continentes são apenas países?
— Nem isso. São distritos. — Ele disse.
— E esses distritos são divididos?
— Não exatamente. Damos nome a alguns lugares, mas não todos. Por exemplo, eu moro no Distrito Northern Union. Em um tipo de cidade, chamada New Humphrey.
— Como vocês sabem onde estão, se nem todos os lugares tem nome? — Perguntei, confusa. Ele riu da minha expressão.
— Não precisamos saber. Isso não importa para a maioria das pessoas. — Ele deu de ombros. — Nascemos muito depois da Abolição dos Países.
— Abolição dos Países? Que nome tosco. — Eu disse. — E o que isso significa?
— Que, a partir do ano de 2480, não existiriam mais países. Todos seriam o que denomina o continente. Americanos, asiáticos, europeus... — Ele disse.
Assenti, mostrando que entendia.
— É claro que depois os nomes foram trocados. — Ele continuou. — Mas isso foi depois da Grande Guerra, e é uma longa história.
— Você decorou a história? — Perguntei.
— Meu pai me obrigou. — Ele deu de ombros. — Mas eu só me lembro da história a partir do ano de 2200, e algumas coisas da sua história.
— Entendo. — Eu disse.
Então, permanecemos em silêncio por alguns segundos. Quando a atmosfera estava começando a passar do nível suportável, eu disse, à contragosto:
— Eu posso te ajudar.
— Eu sei que pode. Você só não quer.
— Ok, deixe eu reformular minha frase: eu vou te ajudar. Não que eu queira, mas acho que não posso recusar ajuda para alguém com uma máquina do tempo. — Eu disse, e brinquei: — Sei lá, vai que ela decide ir para o passado e impedir meu nascimento?
Jonny franziu as sobrancelhas, parecendo pensar.
Acho que ele está considerando se isso é ou não uma boa ideia, pensei.
— Bem... eu realmente poderia fazer isso. — Ele disse. — Mas só se eu quisesse e soubesse para quando ir, e quem são seus pais.
— Eram. — Eu o corrigi. — Meu pai morreu num incêndio quando eu ainda era uma recém-nascida, e minha mãe morreu de câncer há cinco anos.
— Bem... — Ele disse. — Mas eu não perguntei.
— Todos do futuro são grossos e impertinentes como você? — Eu perguntei, irritada.
— Bem, todos dizem que eu sou um grosso impertinente, então eu suponho que a resposta para sua pergunta seja não. — Ele deu um sorriso torto, e então se levantou. — Acho melhor irmos para algum outro lugar. Espero que tenha dinheiro, porque eu estou quebrado.
— Que bom que eu não vou viver o suficiente para te ver de novo. — Resmunguei enquanto me levantava e deixava o dinheiro na mesa, junto com a gorjeta de Clarie.
Nós saímos da cafeteria em silêncio. Eu não sabia se estava satisfeita ou decepcionada por ele não ter escutado minha última frase.
— Não se preocupe. — Ele disse, e instantaneamente percebi que ele realmente me escutara. — Você ainda terá o prazer de olhar para mim. Pelo menos até acharmos esse Gabriel Smith e eu voltar para minha época.
Suspirei.
Minha intuição me diz que isso vai acabar mal, pensei. Mas como eu nunca acreditei nela, não vai fazer a menor diferença.
— E então, garoto do futuro, para onde vamos agora? — Eu perguntei.
Estávamos andando sem rumo na rua. Ou melhor, eu estava sem rumo, pois Jonny parecia saber exatamente para onde estava indo.
— Não faço ideia. Pensei que você soubesse. — Ele disse.
Mas como assim?, perguntei, mentalmente.
— Eu não sou adivinha. — Eu disse. — Só estava te seguindo.
— Eu sou do futuro, como você esperava que eu soubesse para onde eu estava indo? — Ele perguntou.
— E como você esperava que eu soubesse disso?
— Você não é lá muito inteligente, não é? Estamos fazendo tempestade à toa, então vamos acabar com esse assunto e decidir logo para onde vamos. — Ele disse, cruzando os braços.
— Eu vou para minha casa. — Eu disse. — Você, aí eu já não sei.
— Bem, eu não tenho para onde ir. — Ele disse. — Não tenho dinheiro para pagar um hotel. Acho que deveria ficar com você.
— Onde? Na minha casa? — Perguntei, sem entender.
— Bem... você mora na sua casa? — Ele disse, visivelmente zombando de mim. — É claro que é na sua casa.
— Não! Absolutamente não! — Eu disse. — Meus tutores e os filhos deles estão em casa, e não vão gostar da ideia de um completo estranho dormindo sob o mesmo teto que eles!
Naquele exato momento, recebi uma mensagem.
“Lottie, eu, Kile e Oliver vamos ao hospital com Maggie, ela está passando muito mal. Não sei quanto tempo demoraremos, mas não precisa vir com a gente. Tem pizza e macarrão na geladeira. ”
Eu não acredito nisso, pensei. Que mal-estar mais inconveniente, Maggie!
Bem, de qualquer maneira, eu não podia culpa-la sobre seu estado de saúde. Maggie, que tinha apenas oito anos, tinha poliomielite. Não sabemos ao certo como ela desenvolveu a doença, pois Kile, seu pai, jura que ela tomou todas as vacinas. Maggie agora perdeu o movimento de um de seus braços, e às vezes sente alguns espasmos pelo corpo. Os médicos dizem que, provavelmente, a doença não irá fazê-la perder mais movimentos.
Jonny puxou o celular de minhas mãos, percebendo minha expressão aborrecida pela doença de Maggie, e culpada, por estar aborrecida com Maggie, sendo que ela não tinha culpa de nada.
— Olha só, que ótima notícia! — Ele sorriu vitorioso para mim. — Agora podemos ir para sua casa. Quer dizer, à não ser que você me dê a resposta da charada.
— Mesmo se eu te der a resposta, você não vai conseguir chegar até lá. — Eu disse. — Eu vou com você até esse Gabriel Smith. Quero saber como ele me conhece.
Jonny deu de ombros, mas percebi como estava aborrecido com a minha recusa de falar a resposta da charada para ele. Oras, a culpa não é minha se ele não sabe nada sobre a geografia do passado! Eu, hein...
— Vamos logo, seu chato. — Eu resmunguei, tomando o caminho para minha casa. Jonny seguia ao meu lado, sem dizer nada.
Como eu fui me meter nisso?, perguntei a mim mesma. Nada disso faz sentido...
Pensei em minha mãe, e como ela reagiria se conhecesse alguém vindo do futuro.
Ela provavelmente o acolheria de braços abertos, dizendo que não importa de quando ou onde ele veio, ele ainda é um ser humano e precisa de ajuda, pensei.
Minha mãe sempre fora uma pessoa com um coração enorme, e, infelizmente, eu não herdara isso dela. Eu queria ser uma pessoa que sempre enxerga o melhor das pessoas, que acolhe a todos sem pensar duas vezes, que dá ajuda sem querer nada em troca, como ela.
Meus olhos lacrimejaram ao me lembrar dela, e eu os limpei com as costas da mão, disfarçadamente. Eu só tinha dez anos quando ela se fora, e eu fiquei sozinha no mundo. Saber que meu pai tinha morrido não teve um impacto tão grande quanto a morte de minha mãe, já que eu não o conheci. Mas, às vezes, meu peito doía ao saber que nenhum de meus progenitores estavam vivos.
— Vou fingir que não percebi que você está quase chorando. — Jonny me tirou de meus pensamentos.
— Você não pode me deixar sofrendo em paz? — Eu quase gritei, irritada coma inconveniência desse cara.
— Wow, calma aí, Lottie. — Ele disse, zombeteiro. — Garotas crescidas como você não choram por coisas bobas.
— Garotas crescidas como eu choram sim. — Eu disse, secando as lágrimas antes que elas rolassem pelo meu rosto. — E não é uma coisa boba, eu estava pensando em minha mãe.
— Achei que estivesse pensando sobre nós dois juntos sobre o mesmo teto. — Ele disse, e por um segundo, pensei ter ouvido sua voz tremer.
— Pode até ser que, de onde você vem, você consiga adivinhar os pensamentos das pessoas. Mas isso não vai funcionar aqui no passado. — Eu disse. — Nós escondemos as emoções melhores que vocês, já que não têm muito com o que se preocuparem.
— Nós temos preocupações, sim. — Ele protestou.
— Ah, é mesmo? Quais? Vocês vivem por quase quinhentos anos, vocês não precisam se preocupar com a camada de ozônio, vocês não precisam se preocupar com nada! Vocês não precisam se preocupar com a segurança, porque depois da Terceira Guerra, todos ficaram mais pacíficos! Vocês têm preocupações? Quais? Me diz, porque eu não consigo encontrar nenhuma nesse seu mundinho perfeito! — Cuspi tudo isso na cara dele, que escutou calado, com a expressão indiferente.
Ele deve estar irritado, pensei. Ou ele realmente não dá a mínima. É muito complicado entender como ele se sente, sendo que ele tem a mesma cara para tudo.
Virei-me e segui o caminho até minha casa, sabendo que Jonny seguia atrás de mim. Eu não queria papo, não queria olhar para a cara dele, nem sequer pensar em sua existência. Ah, por que aquilo estava acontecendo justo comigo? O que foi que eu fiz?
Como alguém consegue irritar tanto as pessoas?, perguntei-me. No futuro, todos são assim? Todos querem te irritar e zombar da sua cara à primeira chance que aparece?
Amaldiçoei a tecnologia futura por permitir um adolescente tão arrogante criar uma máquina do tempo, e amaldiçoei mais ainda o destino por prendê-lo no Colorado comigo.
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