Adeus

1 1947


Notas iniciais
eu gosto de fazer metáforas de batata com o Prússia. ajuda com o sofrimento. boa sorte com os feels!

Adeus

Prússia já fizera muitas coisas estranhas e injustificáveis durante os séculos que Hungria o conhecia. Algumas invasões. Adotar aquele monte de penas amarelas e nomeá-lo em homenagem ao seu nome humano. Continuar amigo do França e do Espanha como se depois da sua aliança não tivessem tentado se matar mais de uma vez. A lista era longa. Mas agora com certeza ganhava o prêmio.

Prússia estava chorando.

Sentado oposto a ela na mesa quadrada de dois lugares, comendo um kenyér, com uma xícara de café à sua frente. Ele mastigava e chorava.

Se ao menos seu choro fosse discreto, mas nem isso. Prússia soluçava, seu nariz escorria e seu rosto pálido estava tingido de vermelho. A parte branca dos olhos estava rosada pelas lágrimas. E ele continuava comendo. Comia e chorava.

Por mais que o kenyér estivesse bom, Hungria suspeitava que não fora sua comida típica a causar aquela reação.

Tomou um gole de café e continuou fingindo que não havia uma nação adulta se debulhando em lágrimas do outro lado da mesa. Costumava ser boa em ignorar Prússia, mas a choradeira tornava mais desafiador.

Tentou pensar se fora ela a responsável sem perceber. Fazia tempo que os dois não se falavam. Durante a Guerra, encontravam-se nos conselhos e discutiam estratégia (mas mesmo quando perderam, Prússia não chorara...). E depois ela estivera muito ocupada reconstruindo, assim como o resto da Europa. Só saía do seu território para as reuniões mundiais, e voltava com pressa. Fazia anos que os dois não conversavam.

Claro, Hungria sabia que a situação para ele e seu irmão não era boa. Ouvira as decisões serem votadas e vira a expressão séria de Prússia, sem nenhum resquício do sorriso debochado e confiante que era sua assinatura. Recebera suas próprias punições, mas as condenações para eles haviam sido muito piores. Prússia estava, com toda certeza, passando por um momento horrível.

Mas, ao longo dos séculos, ele já passara por outros momentos horríveis. A própria Hungria causara alguns. Prússia sempre se fazia de forte, sorria e exclamava que, incrível como era, se recuperaria em um piscar de olhos. Era seu modo de ser, resquício do orgulho dos cavaleiros teutônicos. E, no final, ele sempre se reerguia, tão estável e irritante como sempre.

O que era diferente agora? Por que ele chorava?

E por que chorar com ela?

Eles não eram amigos. Eram velhos inimigos, tão acostumados um com o outro que haviam se transformado em um estranho agregado de família. Mas ainda inimigos. Se Hungria quisesse chorar (o que nunca aconteceria), ou o faria com Áustria, ou sozinha. Mais provavelmente sozinha. Prússia podia escolher Alemanha, França, Espanha, o túmulo do seu imperador mais amado, uma cerveja, uma plantação de batatas. Mas ele escolhera vir chorar ali.

Na mesa da cozinha dela.

Quando Hungria abrira a porta e vira o albino, levara um sobressalto. Agarrara sua frigideira, mas Prússia dispensara sua agressividade com uma risada.

—Kesesese! Nada de pânico, Hungria! Eu vim para fazer uma pergunta, não pra brigar! Não tema tanto o incrível eu!

Hungria revirara os olhos e guardara a frigideira de volta no avental. Estava pronta para mandá-lo perguntar rápido e ir embora mais rápido ainda, então olhou melhor para seu velho adversário.

Prússia parecia velho e cansado, algo que seu sorriso arrogante não conseguia esconder. As bolsas pretas embaixo dos seus olhos eram acentuadas pelo contraste com a pele pobre em melanina, os olhos vermelhos não brilhavam com energia. Seu cabelo prateado mais parecia branco. Sua postura era caída, sem energia, e seu uniforme militar estava remendado.

Algum desses detalhes, Hungria não sabia qual, a fez dizer:

—Entre. Eu estava fazendo café. – o que era mentira.

Prússia abriu mais o sorriso e entrou.

Ele não sentou na cadeira, ele se depositou. Como um saco de batatas. E pareceu tão frágil (uma palavra que Hungria jamais associara a Prússia antes, pelo menos não sem deboche) que ela não o fez levantar para ajudá-la a arrumar a mesa.

Não conversaram. Entre eles, o silêncio era confortável. O silêncio das eras era um velho conhecido, outro estranho membro da estranha família que formavam.

—Açúcar? – oferecera, apenas por educação. Fazia pouco tempo que voltara a ter açúcar em casa, com o fim do racionamento. Não estava disposta a gastar sua pequena porção com ele. Felizmente, Prússia declinara com uma risadinha.

—Kesese! Só o Áustria e o Inglaterra colocam açúcar no café!

—No chá, Prússia, eles tomam chá.

—Que seja! O incrível eu não precisa de açúcar em nada!

Hungria também não colocava açúcar no dela, crise ou não.

Prússia esticara o braço e pegara um kenyér. Deu uma grande mordida, e até aí não havia nada de incomum.

Então Hungria começara a ouvir os soluços.

E lá estava ele, no segundo kenyér. Chorando feito um bebê. Com a boca suja de migalhas.

Hungria não tinha ideia do que dizer, mas sabia que precisava fazer algo. Assim, pegou um guardanapo de pano e ofereceu-o à outra nação.

—Tem pão em toda a sua cara. – informou, objetiva, sem conseguir evitar um sorriso.

Prússia aceitou, ainda chorando. Seus dedos tocaram nos dela quando pegou o guardanapo. Hungria ficou chocada com a frieza da sua pele.

Ele limpou a boca de forma lenta, metódica, muito não-Prússia. Também secou as lágrimas, e para a secreção do nariz usou seu próprio lenço. Conforme passava o tecido pelo rosto, os dois quase da mesma cor, parava de chorar. Quando acabou, só o que restava do acesso de choro era a vermelhidão nas bochechas, os olhos espelhados e os tecidos molhados.

—Obrigado, Hungria. – agradeceu, devolvendo o guardanapo.

Aquela educação não se parecia com Prússia. Nem um pouco.

Hungria pegou o guardanapo, confusa.

—De nada. – deixou-o ao lado do seu, intocado. – O que você queria me perguntar, Prússia?

Ele respirou fundo, pela boca, uma vez.

—Posso te beijar?

Hungria piscou, mais confusa do que antes. Ouvira mal.

—Repita, por favor?

—Posso te beijar? – inquiriu Prússia novamente, pronunciando com clareza, a voz mais segura.

Ele era impossível, metido a engraçadinho. Hungria sentiu que era sua culpa por acreditar que Prússia sabia ser sério, e conteve sua vontade de usar a frigideira nele.

—Claro que não! – respondeu.

Prússia não teve reação por alguns instantes, parecendo mais quebradiço que nunca. Então riu.

—Bem, é claro que não! Kesesese! – levantou-se da cadeira. – Muito obrigado pelo café e pelo pão estranho, Hungria!

—Kenyér. – corrigiu automaticamente. Ele deu de ombros.

—Que seja, que seja. Não, não se levante, eu sei o caminho sozinho! Não subestime o incrível eu! Kesese!

Ele colocou uma mão na maçaneta. Virou-se para ela com um sorriso imenso nos lábios, um sorriso que fazia com que não parecesse consumido pela exaustão. Só o velho Prússia de sempre, com o sorriso luminoso que ela se acostumara a odiar.

—Te vejo por aí, Hungria.

Ela, agindo de modo desnecessário de novo, levantou e devolveu um sorriso mínimo. Hungria não costumava sorrir para Prússia fora do campo de batalha; mas, se ele podia abrir uma exceção e chorar como se não se importasse, ela podia abrir uma exceção e dispensar-lhe um sorriso a mais.

—Sim, Prússia. – concordou.

Prússia sorriu caracteristicamente uma última vez e fechou a porta.

Hungria nunca esqueceu daquele dia. Do choro dele. Seus dedos gelados. A pergunta. O sorriso final.

O dia foi 25 de fevereiro de 1947.

Ela foi a última a ver Prússia antes que seu país fosse abolido e ele desaparecesse para sempre.

Notas finais
Notas históricas (porque é Hetalia) -A Hungria ficou do lado do Eixo na Segunda Guerra Mundial. Por isso, também teve que se submeter aos vencedores. -sobre a dissolução da Prússia: em 30 de fevereiro de 1934, a Prússia foi dissolvida de facto, que significa na realidade, mas não oficialmente pela lei. A independência como Estado foi perdida e a Prússia passou a ser controlada pela Alemanha e pelo Reich. Já em 1947, a dissolução ocorreu de jure, de acordo com a lei. Considerando a teimosia do Prússia e o fato de o Himaruya representá-lo durante a Segunda Guerra Mundial, eu concluí que se ele só desapareceria quando sua dissolução fosse tornada oficial. -kenyér é uma espécie de pão caseiro húngaro. Eles costumam ser bem grandes, mas eu imaginei que também existam versões pequenas para combinar com a capa da fic.
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