Addiction
5 A Amizade
Notas iniciais

Ah! Que droga! Edward já estava cansado de sua rotina em Hogwarts, já fazia dois dias que o menino treinava e tentava sem parar, tudo com o objetivo de conseguir realizar a transfiguração que McGonagall tinha proposto em aula. Sentia-se frustrado, pois Nicholas seu irmão mais novo tinha conseguido na própria aula.
Nesses dois dias, ele tentou de tudo. Estudou, leu, praticou, tentou centenas de vezes, mas o máximo que tinha chegado era a ter um fósforo prateado! E, mesmo assim parecia que cada vez ficava mais difícil!
— Dessa vez eu vou conseguir! — murmurou ele, para si mesmo.
Com sua varinha em mãos, ele começou o seu mantra.
Pequena, pontuda, prateada. Vamos lá se transforme em uma agulha... Por favor, por favor...
— Poxa! — Era o mesmo resultado. O fósforo praticamente ria da cara dele, continuando teimosamente apenas prateado. — Dessa vez, irei conseguir!
Fechou os olhos com força, e tentou fazer como Nicholas havia dito. Passo a passo. Um pedaço de cada vez... Apenas para abrir os olhos desanimados, como nada aconteceu.
— POR QUÊ?! — choramingou.
Edward passou à tarde interino no salão comunal, porém seu esforço era em vão. Sua varinha não fazia à mágica, e o fósforo continuava teimosamente como um fósforo.
— Droga... O que há com essa varinha?
Ele ouviu umas risadas de umas garotas num canto. Olhou e ficou levemente vermelho ao notar que elas o observavam.
— Obrigado pela torcida — ironizou o moreno, incomodado.
As garotas rapidamente desviaram o olhar, parecendo envergonhadas. No entanto, uma continuava observando Edward com um sorriso no rosto. Ela se aproximou de Edward, parecendo interessada.
A garota parecia ser bem mais velha que ele, tinha cabelos num tom estranho de castanho-bronze, pele negra e olhos azuis gélidos, mais claros até que os de Nicholas.
— Ei primeiranista, você não vai conseguir fazer isso virar uma agulha desse jeito. Não é como se fosse funcionar com você forçando desse jeito. — Ela falou apoiando os braços no sofá encarando-o. — E achar que a varinha está errada, é seu pior erro possível. Você esta a culpando por seu fracasso. — Ela disse com um sorriso um tanto debochado, mas não tinha maldade em seu olhar.
— Culpando? Varinhas não tem sentimentos. Ela é apenas uma ferramenta para me ajudar a ser um herói. — disse o garoto inocentemente. — E não está ajudando muito, existe algum truque para conseguir fazer essa transfiguração?
A garota fez uma careta. Claramente não era uma boa resposta.
— Antes de tudo, quais as características de sua varinha?
O moreno olhou para a varinha e tentou se lembrar do que Olivaras havia dito, antes de acenar com a cabeça;
— Pereira, pelo de cauda de unicórnio, doze polegadas ¾... Por que me perguntou?
A garota suspirou e olhou pra ele seriamente.
— Não é a toa que ela não reage. Sua varinha, para sua informação, tem sim sentimentos niño. Ela te escolheu, e você tem um dos tipos de varinha mais sensível e puro de todos. Se você simplesmente a tratar como se fosse um objeto qualquer... Pode apostar que vai ter de trocar de varinha. Porque, se ela se sentir maltratada o pêlo de unicórnio pode morrer. — Ela apontou para a varinha, firmando seu ponto. — E não acho que é fácil achar outra varinha assim tão pura e boa. Sua varinha, não é uma ferramenta para você ser um herói, e sim para ser sua grande companheira para você e ela serem heróis juntos.
— Eu não sabia... — disse Edward assustado com a informação — Então a varinha está triste? O que faço para ela me perdoar? Tenho agido como um péssimo amigo. — Ele encara a varinha — Me desculpa!
A garota mais velha sorriu a reação do menor. Ele não era um caso perdido pelo menos.
— Bem, não vá tratá-la mal viu? — Ela disse numa risada — Acho que depois disso você fique mais à vontade para fazer feitiços.
Edward sorriu alegremente.
— Muito obrigado, o meu nome é Edward Wolff. Você é uma pessoa muito legal sabia? Me ajudou a perceber o meu grande erro. Prometo que agora cuidarei muito bem da minha varinha!
A garota retribuiu com um sorriso caloroso.
— Prazer niño, meu nome é Jasmine Collins. Mas você pode me chamar de Jazz — Ela esticou a mão para um cumprimento.
— Sim niño. —repetiu o menino sem entender o significado. — Vou chamá-la de Jazz então. — E apertou a mão da recém-nomeada Jazz.
Ela riu apertando de leve a mão do garoto.
— Se quiser eu posso tentar ensinar a fazer o feitiço primeiranista. Mas depende do horário já que logo vou ter que sair — ela apontou para o pulso demonstrando um relógio imaginário.
— Ei! — Ele sorriu animado — Então você vai ser minha mestra? Sabe, todo herói tem um! Eu sabia que você não iria vim falar comigo por nada, você viu que eu tenho talento para ser herói não é mesmo?
A garota parou olhando um pouco ele e depois soltou uma risada mexendo a cabeça risonha.
— Se quiser chamar assim então pequeno herói, se quiser chamar assim. Mestre. Gostei. — Ela falou colocando a mão no queixo pensativa com um sorriso e rindo novamente.
— Beleza! Então esse é o nosso trato, não vai se esquecer tudo bem? Espere só até o Nicholas ficar sabendo disso, eu tenho certeza que ele vai ficar muito feliz!
— Quem é Nicholas?
— É meu irmão! Ele é muito legal, um dia vou te apresentar a ele!
— Ah... Por acaso é um garoto loiro da Grifinória? — perguntou ela, parecendo um pouco hesitante.
— Vocês já se conhecem? Nossa melhor ainda!
— Ah não. Só o conheço de vista. — Ela explicou apressadamente. Parou por um segundo, pensando, antes de continuar. — Hey Edward, vamos fazer um trato? Entre mestre e aprendiz certo?
— Ok! — Ele assentiu
— Não vamos contar isso para seu irmão, não ainda ok? Vamos deixar como surpresa isso, afinal um mestre um aprendiz e não dois, não é mesmo? — Ela disse sugerindo que Nicholas poderia roubá-la de Edward.
— Tudo bem! Se você prefere assim! — Disse Edward sem entender muito o motivo daquele pedido — Jazz, eu acho que vou dormir, estou cansado depois de tanto tempo praticando... Podemos treinar amanhã?
— Claro, eu tenho um lugar especial para isso — sorriu levantando-se. — Nos encontramos amanhã, durma bem pequeno herói.
Com isso dito ela dá uma mexida no cabelo dele sorrindo travessa e depois sobe junto algumas garotas para o quarto das meninas.
— Ganhei uma mestra — Comemorou Edward, animado
Ei parceira, Edward digeriu-se a varinha em pensamentos. Cada vez mais estamos ficando mais fortes, a partir de hoje a nossa jornada começa... Mas, se você é minha parceira, precisa de um nome, não posso simplesmente te chamar de varinha... Ele fez uma pausa, considerando. Já sei, vou te chamar de Luana. Afinal, a lua me transforma em um monstro e a Luana em um herói!
Um mês depois, Nicholas já se sentia bastante relaxado quanto a Hogwarts. Claro, ele sempre recebia notas baixas em relatórios escritos e coisas assim, mas ele acreditava que estava escondendo bem dos outros primeiros anos o fato que ele não conseguia ler e escrever. Já que ele nunca fazia lição de casa com Vivi ou Pablo, algo que ele achava que tinha começado a incomodar os dois, embora. No domingo antes do Halloween, ambos tinham finalmente perdido a paciência e emboscado o loiro para fazer a tarefa de casa na biblioteca.
— Amanha já é dia das Bruxas, hã? — Ele perguntou pensativo.
— Oh, é mesmo. — Vivi sorriu, olhando para ele — Vai ter doces, muitos doces. — Ela parecia exaltada.
Nicholas ergueu uma sobrancelha.
— É, acho que sim. — Não era nisso que ele estava pensando. — Aaah. Acho que vou ficar em recuperação de novo. — reclamou ele, fazendo beicinho.
— Você... Precisa de ajuda, Nicholas?
A expressão dela era um tanto preocupada.
— Nah, eu dou um jeito. — Ele encolheu os ombros. — Acho que eu só sou ruim mesmo em testes. Parece que eu bagunço tudo. — Riu um pouco culpado pela mentira.
— Vamos estudar juntos! Eu estou livre à tarde, então eu posso ajudar com a matéria que você é não entende, na teoria... — Pablo comentou, sem desgrudar os olhos de um livro grosso e empoeirado que fazia o nariz de Nicholas coçar.
O loiro riu.
— Nah, tudo bem. — Encolheu os ombros. — Eu consegui entender isso. — Ele apontou para o livro. — Acho que só fico nervoso em testes. Não é como se isso pudesse ser ajudado.
Amaldiçoou a si mesmo por ter vergonha de admitir que não podia soletrar as palavras corretamente para escrever o que tinha entendido, no entanto.
— É só pensar em algo que gosta, assim pode se acalmar. — Vivi deu um sorriso infantil.
— É incrivelmente simples para a Madame falar, minha senhora. — reclamou. Agradeceu que eles eram crianças, no entanto, ou ele já estaria ferrado. Um mês fora das ruas e da vista do seu guardião e ele já tinha começado a escorregar com suas mentiras.
— Ainda vou estar te esperando à tarde no Salão Comunal, Nicholas. — Pablo não desistiu fácil.
— Ok... — Nicholas murmurou, com um beicinho.
Pablo sorriu alegre e piscou pra ele voltando seus olhos para os livros.
Nicholas tinha parado de fingir ler e estava observando Vivi ver um livro ilustrativo, sobre criaturas mágicas. Ela parecia estar gostando, mesmo. Ele bateu os dedos um pouco nervosamente quando ela passou pela página de lobisomens, mas agradeceu quando ela simplesmente foi para a próxima. Sem realmente nenhuma razão, no entanto a menina levantou os olhos e observou os arredores, no que parecia ser o mais puro instinto. Ela empalideceu levemente, arregalando os olhos.
— Droga, droga. — murmurou, enfiando a cabeça no livro.
Nicholas ficou tenso, olhando brevemente para Vivi antes de virar os olhar para onde ele podia sentir o cheiro mais irritante que ele já tinha sentido na vida dele.
Ah, agora as coisas fazem mais sentido. Pensou ele, com uma face neutra. Eram duas pessoas, uma menina de um menino. A menina era mais velha e tinha cabelos negros... Ela parecia notavelmente com Vivi. O menino tinha a mesma estrutura da garota, embora mais jovem e um tanto mais tenso.
— Oi, Vivi. — o garoto cumprimentou.
— Como está a nossa irmãzinha? — complementou a garota. Ela tinha um sorriso irritantemente alegre, que lembrou muito Nicholas de pessoas que ele odiava. Então, ela parou e olhou para Pablo e ele. — Estes são os seus amigos?
Sim. Somos. Dá pra você sair daqui? Era o que Nicholas queria falar. Mas ele sentiu sua garganta seca. Aquela garota dava-lhe arrepios. Ela como se ela quisesse abrir ele no meio, apenas por diversão.
— A... Ah... Oi... — Vivi cumprimentou, olhando Pablo e Nicholas. — E... Eles... São sim...
Nicholas lançou um olhar para os dois, antes de voltar a olhar fixamente para o próprio livro. Enquanto eles não estivessem causando problemas, ele não tinha porque fazer inimigos foi o que ele teve que se lembrar.
Mas o cheiro de Vivi o estava preocupando.
A garota de cabelos pretos, ainda com aquele sorriso irritante, olhou diretamente para a Cobbens mais nova novamente.
— Que bom que fez amigos nessa... Casinha. — O tom de deboche inflamou levemente o temperamento de Nicholas, mas o menino apenas afastou isso, concentrado em decifrar as peças que eram essas pessoas no quebra-cabeça de Vivi. — Faz tempo que nós não brincamos com você, Vivi, estamos com... Saudade. — O sorriso dela era um tanto assustador, e Nicholas podia sentir as ondas de medo e tensão emanando da morena ao seu lado. — Ainda mais que agora você tem amigos, podemos nos divertir com eles também, não é Mike?
O garoto soltou um sorriso rancoroso.
— Claro Sophie.
Nicholas teve que se segurar para não dar uma resposta malcriada. Ele adoraria os ver tentar uma “brincadeira” com ele.
Vivi estremeceu um pouco, levando o livro sobre a face.
— Ah... C... Certo... M... Mas eles não gostam disso... Então... — Ela tremia.
— Isso é bem simpático, embora. — Nicholas disse, tranquilamente, cortando Vivi. — Não se preocupe, Madame. — ele sorriu brevemente, parecendo simplesmente alegre. — Eu adoro brincadeiras.
Pablo olhou estranhando os dois mais velhos, antes de se virar para Nicholas e Vivi.
—Eu vou pegar rapidinho o livro da sessão e volto viu?
Pablo lançou um olhar alarmado para Nicholas. O loiro quase podia ouvir Pablo gritando “Perigo!” em seus pensamentos. A boca do loiro se contorceu num sorriso divertido.
— Ah, é? — A menina mais velha sorriu, olhando para Nicholas, ignorando totalmente a saída de Pablo. — Nossas brincadeiras doem um pouquinho, Senhor Sanders.
Acha que eu tenho o que? Quatro anos? Isso é assustar? Ah, pelo amor de Merlin...
— Perfeito. — ele brincou, demorando na palavra. — Acho que é a única brincadeira que eu sei.
E provavelmente era.
— Pirralho. — Ela disse depois se aproximando de Vivi, arranhando levemente o seu braço. Ela parecia estar se divertindo.
As informações vinham rapidamente para Nicholas e ele as catalogou. Primeiro: Vivi estava com um medo derrotado, como se estivesse acostumada. A menina mais velha sorria loucamente, como uma sádica. O que ela provavelmente era. E o menino moreno estremeceu um pouco, porém não interferiu. Ele não gostava da situação, mas tinha aceitado? Quem eram eles?
Seu raciocínio durou menos de um segundo.
O olhar de Nicholas estremeceu, e embora seu sorriso educado não tenha mudado.
— Ei, ei, tia. — ele chamou, brevemente, abandonando o tom respeitoso que ele usava normalmente. — Aqui não é exatamente o melhor lugar para brincar... Não seria bom se você fosse pega pela Senhora Pince, seria? — ele inclinou a cabeça na direção da bibliotecária que encarava os alunos com desconfiança. — Além do mais, isso não é divertido. — ele riu sombrio, segurando a mão de Vivi. A mão dele tremia. — Quando vocês me excluem da brincadeira. Eu me sinto como se estivesse sofrendo Bullying e isso não é legal.
— Ah, ah, claro. — Ela olhou de relance para a bibliotecária. Depois, suspirou um pouco. — Então, brincamos outra hora, certo? — Olhou para Vivi, com um sorriso assustador. — Estamos indo, crianças.
O moreno suspirou, e foi atrás dela. Um tanto hipnotizado. Era... Assustador, realmente.
— Vadia. — murmurou Nicholas sob sua respiração. A mão dele se fechou em punho, em torno da pena que ele segurava, quebrando-a.
— Tudo bem, Nicholas. — Ela arfou. — Sophie já foi.
Esse é o nome da cadela? Ele rosnou, guardando a informação.
Nicholas continuou encarando onde ela tinha saído. Ele não sorria. Ele podia se sentir muito, muito bravo.
— Fique calmo, está bem? — Vivi tocou no ombro dele.
Ele riu baixo e se recompôs.
— Eu estou calmo. — seu tom era tranqüilo novamente.
Vivi sorriu um pouco.
— Algo me diz que você mente muito.
— Um pouco.
Um monte de livros caiu do lado dos dois assustando-os. Viraram rapidamente vendo Pablo.
— Veja só o que eu trouxe! — Ele sorri orgulhoso vendo aqueles livros
Nicholas suspirou, olhando horrorizado. Palavras e mais palavras. Ele choramingou. Porque vocês gostam tanto de me torturar?
— Está na hora de melhorar as notas do Nicholas. — Vivi brincou um pouco, olhando para ele. — Vamos, não é tão ruim assim.
Nicholas resmungou, pegando um dos livros da pilha e começando a ler.
Ah. Pensou. Eu não sei o que é isso.
— Está entendendo? — Vivi se aproximou dele.
— Claro. — Nicholas sorriu alegremente, tentando soar crível, mas sua voz falhava coma sua frustração.
— Ah, é mesmo? — Ela apontou para um parágrafo. — Então leia para mim, certo?
Nicholas ficou um pouco pálido e forçou-se a olhar para o livro.
— A... Pedra da lua... É... — ele franziu a testa. — É um gradiente de... — Ele travou. Não conseguia ler.
Vivi suspirou.
— Ingrediente estabilizador. — Ela sorriu. — Vamos, nós te ajudamos com isso, aliás, eu também lia gradiente. — Riu.
Ele ficou vermelho, mordendo o lábio.
— Certo. Vamos, continue te ajudaremos. — Ela apontou para a outra linha.
— Eu não preciso de ajuda. — murmurou ele, deitando contra a mesa.
Pablo olhava confuso para Nicholas, no entanto. O loiro mais velho não sabia de onde Nicholas tinha vindo e não era tão rápido para deduzir quanto Vivi.
— Você... Não sabe ler Nicholas? — Pablo falou realmente baixo, envergonhado de perguntar algo assim, mas na esperança que Nicholas realmente ouvisse.
O mais novo ficou tenso, evitando o olhar de Pablo.
— Ah... Ah... — Vivi olhou para Pablo, depois para Nicholas. — Vamos, Nicholas. — Suspirou.
Pablo continuou observando o loiro menor. Agora fazia mais sentido o menino não falar coisas do livro, dizer que ele pode se virar sozinho e tal. E sua tensão apenas confirmou sua teoria.
Nicholas se encolheu, sentindo o cheiro de simpatia e... E pena. Ele odiava esse aroma.
— Eu não preciso de ajuda. — Ele repetiu. — Eu não sou uma criança. — O loiro simplesmente odiava quando as pessoas tentavam ajudar ele. Odiava, odiava.
Por que agora?
Por que não quando eu realmente precisei?
Ele sabia que eles pensamentos não faziam sentido, mas não conseguia controlar sua frustração.
Pablo olhou preocupado.
— Bem, se precisar de ajuda ou quiser praticar, vou esperar no salão comunal. — Ele bocejou levantando. — Vou arrumar algumas coisas no quarto.
E saiu novamente, carregando um livro roxo que Nicholas reconheceu vagamente como o livro de Runas favorito dele.
— Sabe... — Vivi sorriu para Nicholas. — Minha mãe, quando estava viva, ficou de cabelos em pé tentando me ensinar a ler... Aprendi algumas coisas básicas com ela... Mas realmente, ler não é fácil. — Riu. — Eu te ensino a entender, certo? Sou uma amiga, afinal.
Nicholas riu baixo.
— Eu não sei ler, porque ninguém nunca se importou o suficiente com órfãos de rua para ensinar. Tudo o que aprendi foi o que se esforçaram pra me ensinar no orfanato. — ele riu novamente, o som era oco e amargo. — Mas eu era horrível nisso. Desde o começo. Ninguém se importava.
— Eu estou me importando. — Ela olhou nos olhos dele. — Vamos, vou, eu te ajudo, já disse, não disse?
— Por que agora? — murmurou ele, baixinho.
— Por que só agora que eu soube que você não sabia? — Vivi estava confusa com isso, então a resposta saiu como uma pergunta.
O loiro balançou a cabeça.
— Por que ninguém se importou antes? — Ele corrigiu-se.
— Por que são idiotas Nicholas. Humanos são idiotas, mas agora... Eu e Pablo estamos nos importando, e queremos te ajudar. Posso te ajudar?
Nicholas levou a mão aos cabelos, puxando-os. Ele se sentia pressionado, demais. Ninguém nunca tinha se importado se ele sabia ler ou escrever. Ninguém, ninguém! Por que agora?
Ele não percebeu quando seus pensamentos viraram palavras.
— E porque eu? Por que nenhum deles? Por que ninguém se importa, com as crianças fantasmas de Londres? Por que somos ratos? — a voz dele se quebrou um pouco.
Não era justo, não era justo. Havia tantos... Tantos melhores que ele... Tantos que mereciam mais e... Por que ele?
A garota suspirou, com o olhar triste.
— Porque... Nem tudo é como a gente quer, não é? — Ela deu um sorriso fraco. — Porque a vida tem altos e baixos, certo? — Ela não sabia o que falar, realmente. — Só porque... Porque eles não sabem ler, que você vai deixar de viver? — disse, com as palavras um tanto atrapalhadas. — Eu quero te ajudar.
Nicholas suspirou, esfregando o rosto. Ele se sentia emocionalmente cansado, o que era raro. Ele sempre era muito insensível aos próprios sentimentos e ignorava tudo em favor de observar ao redor.
— Desculpe. — Ele disse, por fim se recompondo. Colocou seu sorriso no rosto. — Eu só... Eu só não gosto disso. Tantas pessoas melhores precisam de ajuda, e... E as coisas estão indo tão bem... E eu não consigo deixar de pensar que aqueles garotos poderiam merecer mais. —Ele explicou, honestamente.
— Quando crescermos, então, nós vamos ajudar eles juntos, está bem? — Ela olhou para o livro, um tanto corada. — A... Agora... Vamos tentar ler isso?
Os olhos de Nicholas brilharam um pouco e ele sorriu sinceramente. Vamos ajudar eles juntos... Ele queria muito que aquelas palavras se tornassem realidade.
— Okay. — Ele disse um pouco infantil. — Como se pronuncia isso?
— Complexidades. — Ela disse, olhando.
— Com-ple-xi... — murmurou ele, meio que para si mesmo, tentando enxergar a palavra. — Ah!
— Conseguiu?
— Acho que sim. O X é uma letra confusa. — Ele balançou a cabeça, olhando incrédulo.
Vivi riu.
— Sim, é mesmo. — Concordou.
Apesar de ser muito teimoso, Nicholas era um aprendiz rápido, como ele se provou durante a tarde. Desde que estivesse prestando atenção, ele conseguia absorver o que Vivi dizia como uma esponja.
Foi uma tarde divertida para Nicholas. Mesmo que ele sentia vergonha de ter demonstrado tanta emoção. Ele queria, queria, queria ser forte... E conseguir lidar com tudo.
Mas até quando uma criança quebrada pode suportar a pressão?
Fale com o autor