Adão e Eva, numa galáxia distante
8 Cap. 8. O planeta em guerra
Notas iniciais
Dentro da sala de comandos, Carlão instalou-se na parte mais alta desse lugar para visualizar o túnel por onde atravessaria as Dimensões. Acionou um telescópio que saiu para o vazio como uma agulha, e girou-o em busca dos sinais. Visualizou a Constelação do Dragão, depois a Constelação da Aranha, e finalmente viu uma estrela negra do tamanho de uma ervilha. Acionou os controles naquela direção e ficou olhando para ela, que ficava cada vez maior. Procurou por um assento de respaldo alto e sentou-se com Joana no colo. Acionou um botão, e ambos ficaram imobilizados com correias em redor.
Assim que a escuridão os envolveu, a nave parou os motores e todos os comandos se apagaram. Os robôs ficaram paralisados, e Carlão e Joana sonolentos. Deitaram as cabeças, dormiram longamente, e as luzes os acordaram quando o túnel terminou. Em tempo recorde, haviam atravessado até a 6º Dimensão. Novamente Carlão olhou pelo telescópio, em busca do primeiro mundo selvagem assinalado por Caim. Calculou a distância, a velocidade e o tempo que duraria esse percurso. Em seguida aprontou a primeira cápsula para lançamento, e ficou esperando pelo momento oportuno. Abriu as comportas e a cápsula saiu como uma bala de um mundo inferior. Ela desceu numa Lua com um guarda-chuva vermelho, pousou suavemente, e os robôs iniciaram o trabalho de colocá-la a funcionar. Depois Carlão ficou a esperar pelo próximo planeta, que apareceria em mais 3 horas estelares.
Enquanto Carlão lançava as cápsulas, Joana preferiu deixá-lo a sós, para ele se concentrar melhor no serviço. Fechou-se numa cabine de descanso e dormiu, enquanto uma suave luz a envolvia. Sonhou com sua família em Atalanta, depois com sua passagem por “E”, sonhou com os amigos de “L”, altos, orgulhosos, divertidos e perguntou-se se ela e Carlão teriam filhos perdidos como Caim, em algum lugar do Universo. Pior. Se haviam filhos ameaçados com uma guerra nuclear.
Antes de eles chegarem ao planeta “V de BETA”, todas as Estações de telecomunicação funcionavam na perfeição, “00” e os Espias em “V” já conversavam frente ao Espelho, e a nave preta de Carlão era procurada tanto desde “A de BETA” como desde “E de BETA”. Carlão, que entrou nessa câmara ao lado de Joana para dormir um pouco, foi acordado pelos robôs quando o “Mundo V” estava nas janelas do tamanho de uma bola de pingue-pongue.
Ele arrastou sua mulher para a suíte a um reencontro passional e percebeu que o amor em tempo integral terminara. Casos intermináveis de paixão só teriam novamente na viagem de regresso. Entre beijos e suspiros, Carlão perguntou:
—Querida, o que sabe dos homens inferiores?
—Que são feios, peludos, dentes podres, vestem peles de animais, ainda que tenha aqueles que já perderam a aparência de bestas...
—Estes homens de “V” são mais belos que os soldados de “L”. E têm mulheres mais lindas que você...
—Ótimo! Achei que tinha que me disfarçar com pele artificial, dentes podres e peruca preta...
—Não! Mas, vai usar óculos escuros, cortar o cabelo, e vestir como homem com calças, botas, casacos de pele negra, boné, e nada de joias, nada de perfumes, nada de batom, nada de nada... Eu até gostaria colocar algumas verrugas, alongar seu nariz, deixá-la bem feia...
—Não se atreva... Ao seu lado nada vai me acontecer... Aliás, sabia que ganhei 50 medalhas de ouro em lutas de boxe?
—Jura? Sabe bater mesmo com força?
—Sei! Ao primeiro estuprador, eu o arrebento. Pode apostar...
—Ainda assim vai ser perigoso. Vou destinar um Espião só para cuidar de você...
— Obrigada! Sabia que cuidaria muito bem de mim...
O advento deles foi numa Base Lunar, construída pelos Espiões, com ajuda de 100 robôs engenheiros. Essa estação era subterrânea e dava a sensação de estar dentro de uma nave interespacial. Havia suítes individuais, salas para jantarem todos juntos, hortas alimentadas com água vitaminada aos cuidados de 10 robôs agricultores. E no centro de tudo isso, tinha uma sala para reuniões periódicas, onde se analisava a situação mundial do planeta.
Carlão foi informado de tudo, sentados em círculo, com ele no centro, numa cadeira flutuante, com Joana assentada no colo.
Os Espiões relataram que não existiam mais bombas, nem pesquisadores de energia nuclear nesse orbe. Os homens haviam ficado “amnésicos” do dia para a noite. Todos os laboratórios de pesquisas atômicas haviam desaparecido no ar, e as fórmulas desmancharam-se em todos os registros desse planeta. Com telepatia, hipnoses, e outras técnicas mentais, se havia realizado essa façanha num trabalho árduo e cansativo.
Depois de gargalharem juntos, Carlão pediu relatório da camada de ozônio.
Um Espião, especialista em meio ambiente, falou:
— Existe um buraco no Polo Sul que está derretendo as geleiras, uma abertura no meridiano central que está abrindo um deserto gigantesco, e mais um orifício que está secando 5 lagos e 40 rios. A temperatura está 5 pontos acima do ideal neste mundo, as pessoas estão sofrendo de doenças de pele, e 200 cidades não têm água doce para beber. Não há chuva, seus rios secaram, e os mananciais subterrâneos estão contaminados pelo Chorume. Em mais 50 anos os homens morrerão de sede, de cataclismos, independente do holocausto nuclear. Com uma superpopulação mundial, esta sociedade está definitivamente condenada à extinção completa. É burrice demais...
Foi a vez de perguntar sobre o petróleo.
—Tem 500 poços sem petróleo, cheios de água. Aliás, a falta de água está intimamente relacionada. Falta água para beber por causa disso.
Carlão meditou, repensou, e finalmente falou:
— Vamos tentar então salvar o planeta junto com os homens. Estou falando das camadas de ozônio, e de purificar as águas subterrâneas. Atrairemos chuvas onde houver secas, disseminaremos sementes nos desertos após a chuva, vamos proteger o planeta. E ficar sempre de olho nos gênios da destruição. Se não for atômica, vão inventar outra bomba ainda pior. O que acham?
— Achamos ótimo... Existem animais morrendo de sede e fome em todo canto... Eu sinto mais a morte deles do que a dos homens...
— São tão ruins estas pessoas?
— O que passa é que este mundo está sob o domínio das trevas. Quem manda lá embaixo são demônios encarnados... Todos os governantes são larápios, e torturadores sádicos.
Carlão sentiu novamente o sangue gelar. E falou:
— Infelizmente nossa missão é apenas evitar o holocausto o máximo possível. Hipnotizemos esses ditadores por enquanto. Quem pode fazer a revolução no futuro vai ser o Comandante Nestor, que vai chegar a qualquer momento. E vamos dar de comer aos famintos. Eu trouxe usinas subterrâneas, para serem colocadas nas profundezes do mar. Elas irão puxar o sal, e guiar correntes marinhas de água doce para onde quisermos. Água para os desertos, que vão florir, e dar frutos para homens e bestas...
— Maravilhoso! Existem 30 lugares do mundo praticamente abandonados por causa da seca. Temos que abastecer os mananciais que dão origem aos rios que secaram. Trabalhando com sistema subterrâneo, eles nem vão saber de nossa interferência ambiental. Poderíamos formar novas selvas.
— Então ao trabalho. Metade vai continuar de olhos nas bombas. Metade de nós vai recuperar o planeta. Reunir-nos-emos daqui a um mês. Vou dar uma volta ao mundo com minha esposa. Algum conselho?
—Utilize nosso jato particular. Ele está nos hangares do aeroporto internacional número “50”, e se hospede somente em hotéis cinco estrelas. Temos caixas com dinheiro em todas as cidades deste mundo, e nosso banco se chama “Banco São Carlos”. Os países foram numerados de Leste para Oeste e de Sul para Norte, começando no Polo Sul onde há um laboratório internacional de pesquisa.
—Eles já descobriram os perigos de desgelo?
—Já, mas aos cientistas deste mundo ninguém os ouve. Os homens inteligentes de “V” são ignorados pela mídia, pelo povo, e os Governos os odeiam... Apenas os artistas gostam deles... Têm músicas ecológicas, filmes avisando o “Fim do mundo”, obras de teatro, livros... Aliás, eu nunca vi tanto livro em nenhum mundo inferior. A maioria fala sobre como salvar a vida do planeta, todo mundo os lê, mas não causam efeito...
—Algum movimento internacional?
—Milhares! Há mais ONGS do que entidades governamentais cuidando dos homens. Sem elas o povo não sobreviveria... Elas cuidam de crianças desnutridas, tem médico salvando moribundos em 30 países de extrema miséria, têm milionários que dão dinheiro para os pobres, têm outros indivíduos trabalhando como voluntários nos hospitais e escolas. Até nos presídios têm filantropos cuidando da salvação dos condenados. Há também uns malucos que se atravessam no mar, frente aos barcos que matam os peixes... Geralmente são presos, mortos e torturados...
—Então é ali que eu vou começar minha parte, ao lado desses homens. Quero mais 8 casais de Espiões, cuidando-os e enfrentando a polícia. E uma mulher colada à minha esposa. Ela não é Espiã. E sem ela, eu morro...
Todos caíram na gargalhada. Depois, várias Espiãs abraçaram Joana, e ajudaram-na a mudar a fisionomia. Cortaram os cabelos, e mudaram para a cor negra. Depois Joana usou botas de couro, calças, óculos pretos enormes, casaco de gola alta, até ficar outra pessoa.
No “Mundo V” havia uns 300 países pequenos, distribuídos em 4 continentes, 400 Ilhas, e cada um tinha umas 80 cidades superpovoadas. As fronteiras entre cada país eram fortalezas acauteladas com soldados com morteiros, foguetes e granadas, prontas para matar os penetras. As fileiras nas fronteiras eram espantosas, com pessoas dentro de ônibus, carros, apresentando meia dúzia de documentos para poder sair de um país e entrar em outro. Entre cada posto, havia um corredor de 100m, para não perder de vista os imigrantes. Nos aeroportos era a mesma coisa, havia filas frente a guichês com soldados cujo visto de saída e de entrada marcava os dias permitidos para ficar.
Carlão teve que apresentar identidade, certificado de vacinas, tudo falsificado pelos Espiões, e com um visto de 90 dias subiu no jatinho a percorrer o Continente amarelo. Primeiro filmou os encantos naturais, a graça da arquitetura, e as frentes de guerra deixou-as para o final.
Nesse momento exato, havia duas guerras.
Uma entre quatro países por motivo de fronteiras, e a outra era por causa das riquezas subterrâneas cujas jazidas petrolíferas eram a maior ambição dos homens. As armas usadas na batalha eram foguetes de longo alcance, que destruíam edifícios cheios de pessoas. Também havia homens que se infiltravam entre o inimigo cujas bombas carregavam no próprio corpo.
Além das guerras que massacrava o povo civil todos os dias, os homens morriam em acidentes de carro, acidentes aéreos, doenças mortais, fome, desnutrição e miséria. Quem mais sofria eram as crianças. Elas eram massacradas através de abortos, infanticídio, estupros e torturas domésticas. O aborto era permitido por lei. Como as meninas eram abortadas em maioria, havia dois homens para cada mulher naquele mundo. Isso fazia as mulheres serem disputadas desde a infância e eram compradas desde pequenas, para assegurar aos filhos uma esposa na maturidade. Com a carência de mulher os estupradores eram a maior praga desse planeta.
E Carlão registrou com filmadora cada detalhe dessas tragédias humanas.
E para encerrar seu trabalho, Carlão comprou um barco, e saiu para alto mar em busca dos Ecologistas, que defendiam as baleias.
Nos anos que se seguiram, os movimentos Ecológicos conseguiram chamar a atenção da mídia, e do povo, que se simpatizava a cada dia mais com eles. Formou-se uma ONG internacional que arrecadava dinheiro para a compra de mudas e o plantio de árvores centenárias, aumentando o tamanho das florestas. Os bosques plantados pelos Espiões serviram de exemplo, e na televisão não se falava de outra coisa. Iniciaram-se as campanhas para deter a poluição ambiental. Muitas fábricas começaram a implantar sistemas sofisticados para evitar jorrar carbono e recuperar a camada de ozônio. Também a reciclagem de latas, vidro e plástico foi assumida em vários lugares do mundo.
Carlão e os Espiões conseguiram equilibrar também a temperatura ambiental provocando chuvas nos lugares áridos, semiáridos, nas florestas, rios e montanhas.
Mas a melhor façanha de Carlão foi acabar com todas as frentes de guerra através de “hipnose” a longa distância. Durante vários anos Carlão e sua equipe hipnotizaram todos os soldados de guerra, todos os governantes, para fazerem acordos de paz em 5 lugares do mundo. E em meio da felicidade do dever cumprido, num dia fatídico, a desgraça lhes chegou com requinte de crueldade.
A mídia desse mundo fez de Carlão e Joana os maiores ídolos da humanidade junto aos seus amigos Ecologistas. Eles apareciam em jornais, revistas de sucesso, TV e rádio, todos os dias. E como Joana era também apontada como a mulher mais linda de “V”, uma gangue de estupradores se infiltrou numa passeata pela paz, onde milhares de pessoas cantavam a os novos tempos. Joana, Carlão e alguns Espiões foram desmaiados com uma pedrada na cabeça, de surpresa, e a briga tomou conta das ruas. Ecologistas e Espiões contra os agressores, policiais dando com cassetetes para todos os lados, com feridos em todo lugar.
Joana foi arrastada para uma camionete estacionada na beira da estrada e estuprada por 10 homens. Depois foi esfaqueada no coração e abandonada no lugar. Carlão, quando abriu esse carro, desmaiou no chão com parada cardíaca fulminante.
Após desse incidente, esse mundo ferveu.
O fato ascendeu à Revolução Feminista, a Revolução Ecologista, e a queda de três governos em “V”. Quatro frentes de guerra começaram a se formar em lugares diferentes, e as “bombas de extermínio em massa”, inventadas em segredo por cinco países ricos, caíram sobre o mundo em lugares estratégicos.
Carlão, ressuscitado na Estação Lunar, com Joana congelada numa cabine translúcida, entrou numa sala escura com “Espelho falante” e ficou esperando que a imagem de “00” chegasse até ele, pois havia perdido completamente o senso crítico e não sabia mais o que fazer. Além do que, sua mente já não era capaz sequer de adivinhar alguma coisa. Seu cérebro estava obsoleto, pois mal conseguia pensar.
E “00” foi curto e grosso:
—O que você está sofrendo já aconteceu com outras pessoas, desde a criação dos tempos. Cada vez que uma civilização quer se suicidar coletivamente, a Justiça Cármica escolhe “Um anjo” e “Um destruidor”. O anjo tenta salvá-los. Mas, esses anjos sempre foram torturados, queimados vivos, crucificados, apedrejados, e se retiram derrotados. Depois é enviado o “flagelo”, o destruidor, aquele que castiga sem piedade e sem dó. E você era nosso anjo. E agora vai ter que partir, e pode escolher dois lugares para continuar sua história. Viajar até o “Mundo D de BETA” onde Joana vai ser ressuscitada e voltar para casa e ter todos seus filhos. Ou, se suicidar, reencarnar no “Mundo dos guerreiros intergalácticos” em ALPHA, se formar como soldado e enfrentar os assassinos de “V” numa outra guerra, em outro planeta. O que você escolhe?
— O Mundo da guerra!
— Então se suicide na altura de “ T de ALPHA”. Vou construir um túnel especial para não perder o caminho. Adeus, meu filho!
— E o flagelo, quem é ele afinal?
— Nestor. Ele desafiou uma Escola Infantil com 5 aninhos... Imagine do que ele é capaz...
Depois a imagem de “00” perdeu-se. Parecia que uma lágrima corria pelo seu rosto. Carlão não pôde ver direito, pois ele chorava sem parar, desde o dia em que Joana fora assassinada.
A morte deles foi assistida desde “E” dentro do templo, onde “00” mostrou o momento da explosão dessa nave. Em Atalanta somente Adão e Nestor presenciaram a explosão, pois as namoradas estavam no hospital, com seus familiares, com tratamento contra depressão profunda.
Depois da morte, Carlão foi abraçado pelo espírito de Joana, que o acompanhara dentro dessa nave sentada ao lado, abraçada nele o tempo todo. Carlão abriu sua capa, beixou-a na boca vermelha com ânsia, pois as lágrimas não existiam mais. Imediatamente, um túnel branco, de poeira translúcida e luminosa os envolveu. Em seguida, um vento empurrou-os para frente numa velocidade fantástica. E Carlão, com sua mulher grudada e formando junto um corpo só, cruzou a imensidão rumo ao “Mundo L de ALPHA”, na primeira Dimensão do Universo. A Dimensão onde todos os homens nasciam Deuses, ou nasciam Anjos.
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