Notas iniciais
E eles se deixaram amar. Entraram num elevador, que desceu entre luzes lilases, até atingir a cidade subterrânea maravilhosa, construída nas entranhas dessa Lua. Caminharam pelas ruas, em meio da descontração. Mirim passava a mão nos braços das mulheres e lhes falava que uma vez no passado fora igual a elas. Olhando bem, nem eram tão feias como no passado. Apenas a cor da pele era verde manchada e os olhos levemente protuberantes. No demais, tinham cabelos sedosos caindo em cascatas pelas costas, corpos bem torneados, busto firme, e caminhar cadenciosos. As cobras, então, eram divinas. As mais belas fêmeas da criação, com peles de suaves manchas.

Ênio recebeu um aviso através de um robô alucinado, que bateu na porta de sua suíte com palavras entrecortadas, pois havia naves interestelares que os rodeavam em meio do espaço como formigas. Ele saiu de roupão, seguido de Madalena, gritando para Mirim e Viktor que tinham sido descobertos por um mundo civilizado.

E de chinelos no pé, os quatro ficaram nas janelas acenando para homens verdes, olhos vermelhos, ao lado de outros homens com a pele manchada como as cobras. Como a telepatia estava difícil, pois reconheceram esses dois povos em instantes de pura adrenalina, os tripulantes verdes começaram a fazer sinais, para que os seguissem e se alinhassem atrás deles. Viktor foi o primeiro a falar com a voz entrecortada:

— Como será que está meu reino no Mundo dos iguanas? Lembra-se de nosso palácio cheio de ouro, querida?

Ênio gargalhou alto:

— Eu só relembro que desci nesse planeta disfarçado de iguana. Agora, que tu eras rei, não me recordo, não...

E ainda rindo, se recuperando da emoção do reencontro com o passado, entraram nas suítes para vestir seus uniformes. Ênio de preto, Mirim de branco, como os médicos de seu mundo, Madalena e Viktor de macacão verde esmeralda. Depois ficaram sentados na cabine de pilotagem, com Madalena dirigindo o timão. Viajaram rumo a uma Lua, que girava em redor de um mundo selvagem, sem vida de humanoide, em cujo lugar os iguanas mantinham um posto avançado de pesquisas.

Uma cúpula transparente abriu uma cavidade, o suficiente para entrar.

Calmamente, Madalena se encostou ao lado da frota iguana, que foi se posicionando no chão lunar, uma ao lado da outra. Quando a cúpula fechou-se, e o oxigênio foi recuperado, só então os astronautas começaram a abandonar as naves, uma a uma. Os últimos a descer foram Ênio, e Viktor, de mãos dadas com as esposas. E foram rodeados com admiração.

Quando os homens-iguanas viram Ênio vestido de preto, com a capa arrastando pelo chão, gritaram um : — ooooiiiiiii, pois um Espião intergaláctico era figura famosa entre os mundos evoluídos. Invitaram-nos a conhecer a urbe subterrânea, em cujo lugar havia um lago artificial e um mato que gerava o oxigênio indispensável para a sobrevivência de humanos e de bichinhos.

E eles se deixaram amar. Entraram num elevador, que desceu entre luzes lilases, até atingir a cidade subterrânea maravilhosa, construída nas entranhas dessa Lua. Caminharam pelas ruas, em meio da descontração. Mirim passava a mão nos braços das mulheres e lhes falava que uma vez no passado fora igual a elas. Olhando bem, nem eram tão feias como no passado. Apenas a cor da pele era verde manchada e os olhos levemente protuberantes. No demais, tinham cabelos sedosos caindo em cascatas pelas costas, corpos bem torneados, busto firme, e caminhar cadenciosos. As cobras, então, eram divinas. As mais belas fêmeas da criação, com peles de suaves manchas.

Felizes, os iguanas levaram a Mirim e Viktor até as Bibliotecas para olhar revistas, bisbilhotar como estavam os homens, falando atropeladamente aos seus visitantes minudencias dessa civilização. Já Ênio, mais sério, solicitou ir aos laboratórios, pois traziam com eles uma amostra de veneno, e lhes solicitavam encontrar um antídoto. Fez uma breve explanação de sua missão estelar, esclarecendo que sem uma cura, o mar estaria amaldiçoado, pois esse veneno radioativo duraria milhões de anos na ativa.

Os gênios colocaram o pequeno vidro numa cabine isolada, e ficaram abismados com as ondas de radioatividade. Imediatamente desintegraram tudo, computadores, vidros, até janelas, pois essa pequena amostra possuía o poder de matar essa cidade, e a todos os homens. Era como um buraco negro no espaço, de tão perigoso. Depois examinaram Ênio e Madalena até a ponta dos cabelos, em busca de radiação. Felizmente estava bem, graças ao uniforme que usaram nesse planeta de horrores.

Um cientista gritou:

— Poxa! Você quase nos mata, cara! De onde saiu essa bomba de micro-organismos assassinos?

— Sistema Ômega! É tão terrível, assim?

— Mortal! Tudo indica que há bilhões de bactérias se alimentando dessa mancha, ou seja, ela está crescendo, e um dia vai tomar conta de todo o mar. Vai ser um mar de petróleo.

Enquanto Madalena perdia a voz, pensando em Eva, Ênio diz com dificuldades:

— Mas, tem que existir um parasita que os combata! Que se alimente dessa sujeira radiativa!

— Pode ser que sim, mas, não aqui. Sugiro viajar até Sindromax! Um mundo cheio de venenos. Ele é tão fétido, que só um robô sobrevive nesse ar contaminado. Mas, não fique assustado. Vamos os acompanhar. Conte conosco.

— Obrigado, amigos, muito obrigado! Nossa! Temos um casal de amigos que ficou nesse mundo! Se não voltarmos antes de 300 anos, vamos encontrá-los mortos...

— Tá brincando! Uns 30 anos de sobrevivência, já são até demais para eles... aliás, já devem ter morrido, amigo...

Madalena desmaiou. Ênio achou mais conveniente congelá-la e fazê-la dormir. Depois programou essa viagem em todos seus detalhes, ao lado de um piloto. Como a nave de Ênio era mais veloz, os cientistas instalaram nele um laboratório de analise completo, e invitaram oito casais de médicos para trabalhar nessa pesquisa.

E cheios de fé, continuaram a caminhada, numa viagem cada vez mais distante de Eva e Adão.

Como no espaço o tempo fica perdido, Ênio nunca soube quantos anos demoraram nesse roteiro intergaláctico. Nem tampouco quantos robôs perderam em Sindromax, cada vez que afundavam no lodo desse planeta. Esse chão era preto desde longe, e marrom de perto, pois só havia lama, musgos, arbustos menores, e bichos tão negros quanto o barro. Morcegos, mosquitos, pernilongos, até as borboletas eram pretas naquele mundo. E cada vez que um robô trazia lodo, ele era interceptado, pois essas amostras eram agarradas por mãos metálicas desde o exterior dessa nave. Em vidros fechados iam até os laboratórios. Imediatamente os cientistas olhavam nos microscópios para fazer analise de componentes. Separavam germes desconhecidos, e em seguida eram colocados nas amostras com radioatividade, pois Mirim trouxera 50 tubos, cada um dentro de uma caixa isolante.

E um dia, finalmente, a mancha negra desapareceu.

Em seu lugar havia uma flor minúscula, microscópica, boiando num liquido translucido. Um milagre da natureza, ou, um presente divino. Ninguém sabia como é que microrganismos viravam flor, em contato com um negrume radioativo. E como todos os métodos científicos requerem de muitas experiências, Ênio via os dias se alastrarem, com os nervos a flor da pele. Mirim terminou por congelá-lo junto a Madalena, para deixar de incomodar e terminar as pesquisas na tranquilidade.

A viagem de retorno foi como uma viagem de férias. Ênio e Madalena foram acordados, para que soubessem do sucesso dessa missão. Todos riam sem parar. Carregaram com material suficiente para devolver a saúde a um mar, aos rios, aos lagos, enfim. Também as cobras lhes deram caixas com ovos congelados, onde nasceriam criaturas marinhas muito lindas.

Não desceram nessa Lua de pesquisas desta vez. Os amigos que os acompanharam abandonaram a nave preta num carro aéreo minúsculo, e entraram nessa cúpula acenando um adeus.

Enquanto viajavam na velocidade máxima, Ênio contou pausadamente a todos que era possível que Adão e Eva não estivessem mais lá. Madalena começou a chorar abraçada a Mirim. E Viktor, abraçava e consolava Mirim, pois Adão era como seu único irmão. Haviam se conhecido engatinhando nessa aldeia, pois ela sempre fora filha única.

Quando essa viagem terminou, Madalena não queria sequer descer.

Ficou com Mirim, choramingando, enquanto os homens subiam numa mini nave, e se adiantavam ao planeta dando um giro pelo mundo. Nossa! Estava verde. Verde com manchas coloridas de muitas árvores com flores exuberantes. Também havia rios com correntezas enlouquecidas e quedas de águas maravilhosas. E lá, no lugar onde Eva e Adão ficaram, existia uma cidade branca, com ruas de pedrinhas miudinhas, carroças puxadas por lobos adestrados, trazidos das neves eternas, e uma população sadia que havia se multiplicado com felicidade.

Quando a voz telepática de Adão lhes chegou desde longe, Ênio deu um suspiro de alivio. Chamou Madalena, gritando: — Estão vivos! Mas, assim que os viu frente a frente ficou paralisado. Adão tinha rugas, estava magro, curvado, pois o câncer o estava matando. Pior foi olhar para Eva. Magra, seios murchos e caídos, cabelos curtos e brancos, e com câncer no sangue e nos ossos.

Adão gritou-lhe:

— O que foi, cara! Não estamos lindos?

— Nossa! Nunca vi ninguém tão horripilante!

Depois se abraçou nele chorando como um guri. Em pouco tempo Madalena chegava correndo e repetia a cena olhando para Eva. Não adiantava Mirim lhes pedir por calma, que ela ia os ressuscitar. Mas ela e Viktor terminaram nas lágrimas junto. Em pouco tempo, Adão ficava emocionado. Nunca pensou que um dia todos eles se amassem tanto assim. Essa missão os havia unido com irmãos de uma mesma família. E ele estava mesmo horroroso. Assustador.

Mirim eliminou de Eva e Adão as células cancerígenas com o raio vermelho, e limpou-lhes o sangue de venenos. Durante dias uma sonda ligada ao baço extraía o sangue sujo enquanto outras sondas devolviam-no, desta vez através das artérias das pernas. Uma máquina fazia a purificação com glóbulos vermelhos fortes. Células troncos extraídas da coluna preencheram as cavidades socavadas no corpo. Eva ficara praticamente oca no peito, e seu coração batia muito devagar. Mais um ano e ela teria morrido de enfarte. Adão teve os testículos removidos, e metade do intestino. Mirim foi introduzindo tripas, ligou-o a um reto artificial, e costurou ao ânus. Para produzir espermatozoides foi-lhe inserido um sistema reprodutor completo.

E para finalizar, Mirim lhes fez cirurgia plástica. Colocou silicone nos peitos e nádegas de ambos, cortou pele flácida, e fez implante de novos dentes. Depois fez maquiagem definitiva em Eva nas sobrancelhas, na boca, em redor dos olhos, nas bochechas, e Madalena lhe tingiu os cabelos com a cor preta.

Mesmo assim Eva ficou igual às mulheres com 70 anos desse mundo. Como Adão estava careca, e se negou a fazer implante de cabelos, ele aparentava uns 80 anos. Rindo colocava um boné atravessado, como os guris desse mundo, pois Eva não fazia mais questão de um marido cabeludo.

No tempo em que Mirim e Madalena se dedicaram a cuidar da saúde de Eva e Adão, a desintegração das manchas assassinas ficou por conta dos maridos e de todos os robôs, trabalhando lado a lado por tempo infindável. Afinal, esse planeta era grande. Havia quatro continentes, cada um com lagos e rios contaminados, rodeados de marés gigantes. Voando em separado, Ênio e Viktor espalharam esses micro-organismos alienígenas por sobre os oceanos, sempre trajando proteção máxima, enquanto os robôs corriam através das savanas a procura de rios de águas negras.

Com passar dos dias, o mar encheu-se de uma nova vida.

Os ovos de peixes deram crias, o plâncton marinho renasceu com forças, corais abriram as bocas, enquanto Viktor e Ênio mergulhavam periodicamente fazendo gráficos dessa recuperação. Colocavam roupas metálicas, e submergiam nas profundezas. Adão e Eva ficavam na embarcação sobre as águas de roupas mínimas, tomando Sol. Também nadavam, pois nada mais lhes fazia danos. Mirim e Madalena em cambio só desciam para esse navio com macacão, máscaras, luvas, pois perder a beleza as aterrorizava.

Quando o trabalho minguava subiam para nave a desfrutar do conforto.

E nas conversas na beira da piscina, cada casal dizia o que desejava fazer com o tempo que lhes restava de vida. Mirim e Viktor queriam viajar para O mundo dos iguanas, já Ênio e Madalena desejavam ir ainda além. Visitariam as cobras, nos seus dois planetas, e morreriam em meio dessa civilização.

Mas Eva e Adão só queriam ficar por ali mesmo. Mirim lhes calculava uns 60 anos mais de vida, mas Adão ia ficar impotente para namorar em mais uns 30 anos. E gargalhavam com gosto, pois Ênio falava que essa era a única doença que nunca queria conhecer, nem nesta vida, nem em futuras encarnações.

E, um dia, mais uma vez se separaram. Os homens desse planeta estavam fortes, saudáveis, cheios de filhos, e havia uma cidade encostada nas rochas, que iluminada durante a noite era de uma beleza mágica. E um mato verde serpenteava através do rio, nas duas margens, perdendo-se tanto para o Sul quanto para o Norte.

Madalena e Eva choraram por longo tempo, pois nunca pensaram que ficariam tão pouco tempo juntas. Elas eram tão iguais. Idênticas! Aventureiras, destemidas, guerreiras, mas se desmanchavam em lágrimas quando se tratava da família. E Madalena só queria que “00” os juntasse a todos novamente, na próxima reencarnação.

E os quatro partiram. Deixaram para Adão uma nave grande, para morrer no espaço, e quase todos os robôs. Só levaram com eles os pilotos e os destruidores de asteroides.

Sozinhos, Adão e Eva continuaram a fazer o trabalho o que já faziam há muitos anos. Acampavam no mato perto do rio, nadavam, comiam o que os amigos traziam, pois eram amados com ardor. Às vezes se perdiam no meio do mundo, viajando de iate pelo mar, enquanto mediam com instrumentos a morte de todas as manchas radiativas, acompanhados de robôs mergulhadores.

Mas, um dia, Adão marcou também a data da partida e abraçou esses homens num adeus sem cerimonias. Subiram na nave deixando para trás centenas de cachorrinhos peludos, que alegrariam para sempre a vida dos guris.

Todos os robôs ficaram nesse planeta, numa vida de alguns anos. Pois sem os cuidados dos homens, eles também deixariam de funcionar. Um dia qualquer.

Notas finais
Quando a voz telepática de Adão lhes chegou desde longe, Ênio deu um suspiro de alivio. Chamou Madalena, gritando: - Estão vivos! Mas, assim que os viu frente a frente ficou paralisado. Adão tinha rugas, estava magro, curvado, pois o câncer o estava matando. Pior foi olhar para Eva. Magra, seios murchos e caídos, cabelos curtos e brancos, e com câncer no sangue e nos ossos. Adão gritou-lhe: — O que foi, cara! Não estamos lindos? — Nossa! Nunca vi ninguém tão horripilante! Depois se abraçou nele chorando como um guri.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!