Across The Ice Line.
4 Norte.
Notas iniciais
As coisas começaram a dar errado antes mesmo de saírem do acampamento. Piper tentava desajeitadamente se livrar da maquiagem, mas toda vez que se olhava no reflexo da adaga estava novamente igual. Seus cabelos penteados e brilhantes e mesmo que tenha tirado o vestido e colocado suas roupas surradas ainda parecia uma princesa de conto de fadas e aquilo a estava irritando terrivelmente. A pouco descobrira que sua mãe era na verdade uma deusa, Afrodite a deusa do amor e coisa e tal e até que entendia que uma deusa pudesse se apaixonar por seu pai, afinal todas as mulheres do país eram loucas por ele por ser bonito e famoso e toda aquela coisa que ela preferiria esconder das pessoas, mas não entendia o porque de nunca ter tido noticias dela.
Ainda estavam na casa grande quando a primeira discussão começou.
– Você esta louca? Demoraríamos um mês pra chegar lá se formos por terra. – Clarisse gritou impaciente.
– Eu não vou subir em uma carruagem com você de novo. – Thalia rebateu. – Bóreas é o deus do vento norte, não custaria nada pra ele nos derrubar lá de cima, é o território dele.
– Você é a maldita filha do deus do céu. Qual é o seu problema? – Clarisse já havia colocado a mão na espada.
Annabeth colocou a mão na cabeça, estava visivelmente esgotada da rixa entre as duas. Uma era filha de Ares o deus da guerra e da estratégia em batalha. Estavam indo pra uma batalha, certo? Então é óbvio que ela queria liderar. A outra era uma filha de Zeus, o rei dos deuses e deus dos céus e dos trovões, Thalia era filha de um líder e era esperado que ela fosse uma líder também. Piper não entendia como uma filha de Zeus podia não gostar de voar, mas também não queria alguém que parecia se descontrolar a cada segundo no comando.
– Se falar assim comigo novamente eu...
Antes que Thalia pudesse concluir Annabeth entrou no meio das duas.
– O que é isso? Vocês estão querendo se matar antes de começarmos? – Ela estava furiosa. – Estamos nessa missão para encontrar Percy não para descobrir qual das duas idiotas tem razão. Deixem de ser egoístas ou eu e Piper iremos sozinhas.
As duas a olhavam, quietas. Piper também não disse nada. Annabeth pôs a mão na cintura e se acalmou.
– Agora, escutem vocês todas. As duas estão certas. – As duas se entreolharam, mas não disseram nada. – Acho que ir por terra seria um atraso, mas os espíritos da tempestade podem nos rastrear se formos pelo céu.
Piper pigarreou meio tímida, não queria atiçar a fúria de nenhuma das três.
– Desculpe, mas acho que não existe um meio termo.
– Existe sim. Iremos pelo céu agora até estarmos em uma distancia segura aonde os espíritos não possam nos rastrear, quero chegar de surpresa, e então depois seguiremos por terra. Alguma objeção?
Ninguém falou nada então elas saíram para arrumar suas coisas.
Piper não entendia direito como funcionava, mas ambas as garotas respeitavam Annabeth, Clarisse era namorada dela e Thalia era sua melhor amiga que parecia mais namorada dela do que a Clarisse. As garotas achavam que eram lideres, mas quem comandava aquela missão mesmo era a loira, ela tinha um jeito que incomodava Piper, estava sempre pensando e nunca ficava sem uma resposta, sem contar que ameaçou cortar sua garganta na primeira vez que se falaram, mas tentaria não pensar muito naquilo.
Piper ficou esperando já que não tinha muito o que pegar, Quiron lhe deu uma mochila com roupas e alguns mantimentos.
Quando as meninas voltaram o clima parecia estar mais ameno.
***
Annabeth tomou a frente enquanto Thalia e Clarisse guardavam as armas, Piper já estava sentada quieta na carruagem girando a adaga nos dedos. Estava visivelmente preocupada e Annabeth não a julgava por isso, pois ela também tinha perdido alguém especial.
– Sinto muito por ter te ameaçado antes, eu estava meio nervosa. – Disse se virando para encarar a menina, sabia que precisava fazer as pazes com ela já era bastante desagradável ter Thalia e Clarisse brigando o tempo todo.
– Tudo bem, você só esta preocupada com seu amigo. – Ela sorriu, tentava esconder as marcas da benção de Afrodite, mas estava falhando miseravelmente, pois a cada segundo parecia mais bonita.
– Os encontraremos você vai ver. Percy, Jason e Leo. Salvaremos todos eles. – Annabeth tentou ser otimista, mas a verdade era que estava assustada. Tanta coisa estava acontecendo na sua vida naquele momento.
– Hey... Annabeth? – Piper olhava assustada para a adaga em suas mãos. – Tem alguma coisa acontecendo aqui. – Annabeth se inclinou a fim de entender o que ela estava falando, mas não viu nada. – Ah meus deuses.
– Piper?
A filha de Afrodite ficou ofegante e encarava a adaga com os olhos arregalados, mas Annabeth não via nada além de uma lâmina afiada. Quando Piper voltou a encará-la tinha os olhos vermelhos.
– Eu os vi. – Lágrimas começaram a escorrer de seu rosto.
Clarisse e Thalia se juntaram a elas quando Piper começou a contar o que viu.
– Tinha uma fogueira muito grande feita de árvores. Um gigante, eu não consegui vê-lo direito, mas vi sua sombra refletida pelo fogo e... – As três meninas a encaravam ansiosas, mas ela gaguejava, o que quer que tenha visto tinha sido forte. – Jason... e os outros... Leo, Percy... – O coração de Annabeth deu um salto quando ela escutou o nome dele. – Eles estavam... Amarrados em um tipo de poste... Perto da fogueira e o gigante dizia... – Ela fungou. – Ele dizia que os assaria e os comeria quando chegasse hora, ele disse que estava chegando a hora.
Annabeth tentou manter a calma, mas sentiu que não podia mais pilotar. Seu melhor amigo, o cara que ela considerava mais que um irmão estava a um passo de se tornar refeição de gigante, mas ela não deixaria que isso acontecesse, ela precisava salvá-lo. Piper chorava segurando a adaga nas mãos, mas Annabeth não podia se permitir chorar também precisava ser forte. Clarisse sentou ao seu lado e segurou a sua mão.
– Vamos encontrá-lo. – Ela disse com a expressão séria.
– Eu sei.
Clarisse assumiu o controle da carruagem e elas seguiram em direção ao norte, sem turbulência dessa vez.
***
Thalia tentava não vomitar, mas se fosse pra fazer se esforçaria para que fosse em cima de Clarisse. Como ela podia ser tão estúpida? Annabeth estava ali visivelmente abalada e só o que ela fez foi segurar a mão dela e dizer umas palavras vazias, Thalia a teria abraçado, teria feito ela perceber que tudo ficaria bem e se esforçaria para que ficasse. No momento o seu desprezo pela filha de Ares era tão grande que ela preferiria que aquela carruagem caísse.
Tentou mudar seus pensamentos de canal, pensar no casal obviamente não fazia bem pra ela. Começou a se preocupar com a visão que Piper teve na adaga. Primeiro ela disse ver Percy, Jason e Leo juntos então isso queria dizer que Percy também tinha sido levado por espíritos da tempestade e que estavam na pista certa, ela viu uma fogueira o que também era bom, pois significava que não pretendiam congelá-los como Quiron havia sugerido. Ela disse ver a sombra de um gigante, mas aquele bem que poderia ser o próprio Bóreas, pois os deuses podiam assumir formas gigantescas quando quisessem e Thalia duvidava que Piper soubesse a diferença entre um gigante e um homem muito grande. O que ficava martelando na cabeça de Thalia era que Piper tinha dito que a fogueira era feita de árvores e se Thalia bem se lembrava das histórias o castelo de Bóreas flutuava no céu assim como o Monte Olimpo, não tinha árvores por lá. Começou a se questionar se talvez não estivessem caminhando para uma armadilha, mais deixou que esse pensamento se perdesse em sua cabeça, pois naquele momento não achou que conseguiria dizer alguma coisa.
***
A viajem já durava quase cinco horas e Piper tinha caído no sono no ombro de Thalia, ela sentiu um desconforto, mas não quis acordar a morena. Não era do feitio de Thalia fazer coisas desse tipo, mas Piper era uma das meninas mais bonitas que ela já viu na vida e talvez aquilo deixasse Annabeth com um pouquinho de ciúmes. Os dois cavalos alados que carregavam a carruagem já reclamavam de cansaço e Annabeth começou a descer em uma colina, havia uma cidade pequena próxima dali que era possível se chegar a pé em poucos minutos. Quando ela pousou a carruagem fez um baque violento e Piper acordou assustada achando que estavam sendo atacadas.
Clarisse alimentou os cavalos enquanto Annabeth lia os mapas a fim de verificar a distancia que ainda estavam.
– Dois dias se formos de carro. – Annabeth falou voltando a enrolar o mapa e guardá-lo na mochila.
Clarisse deu uma olhada em volta, todas acharam que ela procurava por alguma coisa séria ou que tinha visto algo que ninguém tinha visto, mas ela cruzou os braços com uma expressão sarcástica no rosto.
– Eu não estou vendo nenhum carro, espertinha.
Thalia revirou os olhos, mas Piper sorriu.
– Sério Clarisse? Quer dizer, não me diga. – Annabeth começou a descer a colina a passos duros e Thalia a seguiu.
Piper tentava não rir.
– Tenho a impressão de que você tenta irritá-las de propósito. – Piper falou quando as duas começaram a descer Annabeth e Thalia já estavam bem à frente.
– Eu faço o meu melhor. – O terreno era cheio de buracos e pedras grandes e difíceis de passar, Piper estava tendo dificuldades em descer. Apesar de ter estudado na escola da vida selvagem ela odiava a vida selvagem.
– Sabe, quando eu conheci Jason eu o odiava, achava ele metido e pretensioso, mas acabei me apaixonando por ele. Acho que é isso que você esta tentando fazer, esta tentando irritá-la porque foi assim que ela se apaixonou por você no inicio.
Clarisse a estava ajudando a descer, mas a soltou. Não fazia o tipo dela ajudar donzelas que não conseguiam nem descer uma porra de uma colina simples como aquela e muito menos garotas como Piper que por serem filhas de Afrodite achavam que tinham direto de se meter na vida amorosa das pessoas. Clarisse sempre detestou as filhas de Afrodite, a única de quem chegou a gostar fora Silena, mas essa também já estava muito longe perdida em memórias.
– Ao menos o meu relacionamento, senhorita rainha da beleza, não aconteceu só na minha mente. – Disse.
– Esta tentando me irritar ou fazer com que eu goste de você? Me ajude aqui. – Piper estava tendo dificuldades com as pedras.
– Estou tentando fazer com que cale a boca. – Clarisse respondeu, mas foi ajudá-la mesmo assim, pois sentiu uma vontade enorme de ajudá-la, foi como se realmente precisasse ajudá-la.
– Ótimo. – Piper disse parando de frente pra ela. – Pois a sua namorada já ameaçou me matar essa semana. – Ela tinha um sorriso divertido nos lábio o que fez Clarisse rir também.
Quando alcançaram Thalia e Annabeth elas estavam em silêncio, Piper já havia reparado que elas sempre agiam de maneira constrangedora quando Clarisse estava por perto, apesar de parecerem muito próximas elas mal trocavam uma palavra e Annabeth quase não sorria, podia ser coisa da cabeça dela que tinha ficado meio bagunçada depois da transformação que sofrera, mas tinha a sensação de que alguma coisa estava acontecendo ali e de que Clarisse não estava conseguindo enxergar.
Elas alcançaram a estrada e seguiram rumo à cidade, Annabeth e Clarisse trocavam algumas frases, mas depois as quatro seguiram em silêncio.
Antes de chegarem encontraram um carro encostado. Um homem estava dentro dele falando no celular. Piper hesitou, mas acabou se convencendo de que não era errado o que estava pensando em fazer.
– Eu já volto. – Disse ás meninas e foi até o veiculo. Quando voltou o cara tinha saído de dentro do carro e ela trazia a chave com ela. – Alguma de vocês sabe dirigir?
– O que você fez? – Annabeth perguntou desconfiada.
– Importa? – Clarisse pegou a chave na mão da menina piscando pra ela e seguiu até o carro. Piper não respondeu.
Annabeth desconfiou daquilo, mas no momento qualquer ajuda seria bem vinda e teria tempo de perguntar a respeito depois de salvarem Percy.
Clarisse logo se adaptou ao novo veiculo. Ele era rápido e potente e ela não economizaria velocidade. Piper se sentou ao lado dela na frente o que deixou Annabeth bastante incomodada, afinal lá de trás era difícil dar ordens.
Nada naquela missão estava saindo como planejado pra nenhuma das quatro, mas elas seguiam ao norte mesmo assim, mesmo que muita coisa fosse perdida pelo caminho o importante era chegar lá. Elas não sabiam, mas metade delas não alcançaria o destino.
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