Across The Frontline

21 Capítulo 21 - Inquietações


Passado o momento, o bufê foi liberado e, com isso, os garçons também começaram a passar pelas mesas servindo bebidas e outros aperitivos, o que fez as pessoas se organizarem nas mesas de suas respectivas famílias por bons minutos. Entrementes, a sala da frente foi aberta e a decoração igualmente harmônica, junto a um palco que levava uma banda orquestrada e o espaço para danças puderam ser vistos do outro lado do corredor — e depois da sobremesa, as pessoas começaram a se locomover para lá.

Haviam passado alguns minutos: Esme e Carlisle já haviam ido, assim como Rosalie, acompanhando os noivos e outros convidados, enquanto Edward ainda estava na mesa dos Swan e Emmett estava envolvido novamente entre Garrett e Peter, ainda no salão do bufê, ouvindo este último falar da Aeronáutica como se fosse seu próprio filho — tamanho o orgulho e adoração com que mencionava os detalhes da base e suas atividades por lá.

Para dizer a verdade, se vendo sorrir enquanto assemelhava a empolgação das histórias às próprias lembranças do exército, Emmett começava a pensar que talvez sentisse falta daquele tipo de rotina. A que se parecia com muito antes da guerra, quando era apenas um garoto no quartel, cumprindo os treinamentos, vigílias e todo o resto, sem a perspectiva assustadora e traumática de uma linha de frente decisiva, de dedicar seu condicionamento para um massacre. Era só toda a ação de que gostava no seu dia, o comprometimento, uma dose segura de aventura, treinado para servir ao seu país pelos motivos certos e atacar pontualmente, apenas se necessário, sem toda a chacina e crueldade da guerra.

Mas, ele não tinha certeza se era apenas o efeito de estar ouvindo aquelas boas histórias, ainda mais do jeito como Peter as fazia soar incríveis. Então, ele afastou o pensamento, com a ideia de que poderia tirar alguma coisa disso na terapia, dizendo para Dominic como se sentira, e permaneceu quieto, apreciando o passar do tempo com aquela espécie de diversão.

E assim aconteceu até que um toque leve no braço direito de Emmett chamou sua atenção, tirando seu foco da conversa — e de todos os outros, quando interrompeu com a voz familiar:

—Com licença, rapazes. — Rosalie sorriu, ocupando o espaço que Emmett e Garrett deram ao se distanciar um do outro — Sinto muito por interromper a conversa, mas achei que gostariam de saber que em alguns minutos vai acontecer a dança dos noivos na sala do outro lado do corredor e as pessoas já estão começando a tomar seus lugares lá.

E enquanto eles se entreolhavam, assentindo e mencionando se mover, a loira virou-se para o de olhos claros.

—E você pode me dar um minuto? — ela pediu simplesmente, olhando-o com um ar que ele achou questionável, mas respondeu sem hesitar, feliz pela hipótese da companhia dela e também pela fuga do assunto com Peter, que estava tornando-o realmente confuso.

—É claro. — ele sorriu discretamente, e se virou para os outros dois em seguida, com o mesmo sorriso nos lábios — Com licença.

Peter e Garrett assentiram quase que prontamente, e assim Rosalie e Emmett se afastaram na direção da outra sala, cruzando o corredor no que parecera um silêncio de entendimento mútuo, até que ela alcançara a mão dele e o puxara para uma outra sala, empurrando as portas com pressa, até que estivessem do lado de dentro.

Emmett franziu o cenho, uma expressão genuinamente confusa no rosto, sem saber se deveria achar graça do comportamento súbito da loira que, ele sabia, realmente não era de se dar a esses privilégios, ou se era o momento de começar a se preocupar que algo que outras pessoas não podiam saber estivesse acontecendo — de uma forma ou de outra, mesmo em ocasiões festivas plenamente alegres como essa, esse pensamento sempre lhe ocorria.

—O que foi isso? — o moreno arriscou, entrelaçando mais a mão à dela conforme pararam no meio daquela sala amadeirada e quase vazia, não fosse pelas cortinas nas janelas e a lareira apagada ao fundo.

—Oh, nada demais. — Rosalie sorriu com graça, olhando-o de forma cúmplice sob os cílios, e riu com a forma como o cenho de Emmett se franziu mais, sem entender — Nós dois estamos ocupados hoje, pelo visto, mas eu não queria perder pelo menos um momento com você. Foi isso. — ela deu de ombros, parecendo querer dizer que não era nada demais, apesar do que as palavras haviam acabado de afirmar, e fitou distraidamente as mãos entrelaçadas dos dois.

Emmett sorriu longamente, as covinhas aparecendo nas bochechas e os olhos se deixando levar na expressão tímida de Rose, que quase o fez rir. Não porque estava se divertindo, ou porque era engraçada, mas porque ouvi-la admitir uma coisa como aquela e sair de toda a postura usual apenas para estar ali, com ele, era o tipo de coisa que fazia seu peito estremecer com um riso abafado de alegria sincera e desavisada, aquela que tão logo era captada e expressa, involuntariamente.

E apesar da qual ele apenas manteve o sorriso indisfarçável e ergueu a outra mão até o rosto dela, acariciando sua bochecha levemente antes de apoiar os dedos sob seu queixo, fazendo-a erguer o rosto.

—Você é realmente genial, Rose. — ele elogiou, afagando sua bochecha com leveza, e sorriu quando viu-a rolar os olhos, mas corar levemente. Então acrescentou, com um tom divertido — E uma heroína, me salvando das conversas de Garrett e Pete.

Dessa vez Rosalie riu, se divertindo também, e fitou as mãos ainda entrelaçadas deles antes de erguer o rosto pra olhá-lo propriamente.

—Sobre o que vocês estavam conversando, afinal? — ela quis saber, acarinhando o dorso da mão dele com um dos dedos, e se aproximando timidamente. Emmett levou a mão que estava no rosto dela para detrás de sua cabeça, onde afagou seus cabelos e a trouxe para perto devagar.

—Ah, só algumas histórias de Peter na Aeronáutica. — ele deu de ombros, continuando o carinho despretensioso nos cabelos loiros, e explicou com um suspiro impaciente — Garrett realmente queria que eu as ouvisse, certo de que isso me convenceria a voltar pra algum tipo de serviço militar. Ele diz que é "um desperdício" que eu fique de fora, tendo sobrevivido e todo o resto. — e com isso ele franziu o cenho, deixando o olhar vagar pelo ambiente por alguns instantes, mas concluiu com um ar descontraído, quase de riso — Você sabe como Garrett é, com todo aquele patriotismo.

—É, eu sei bem, ele é mesmo peculiar. — Rosalie riu um pouco, os dedos distraídos num botão do terno de Emmett e os olhos em piscares muito leves e lentos, conforme se deixava confortar e tranquilizar no acalento morno do abraço dele. Mas, uma coisa veio à cabeça — E você, o que acha? — ela ergueu um pouco a cabeça para olhá-lo, sem querer mover-se demais — Quero dizer, acha um desperdício também?

—Não, é claro que não! Eu nem era tão bom assim. — ele quase riu, olhando-a por um momento, mas logo voltando às paredes do cômodo. Rosalie achou que, para quem quisera dizer a primeira frase com tanta veemência, ele na verdade parecia bem incerto — Não foi um desperdício, foi uma escolha minha.

—Uma escolha boa? — ela instigou outra vez, querendo entender o pensamento dele acerca do assunto, sobretudo agora que ele lhe parecera minimamente inseguro.

—É claro que foi boa. — ele respondeu de imediato outra vez — Eu realmente não voltaria ao Exército, depois de tudo o que estar lá acabou significando, e por isso trabalhar com Carlisle e os garotos foi um grande alívio, para o que eu estava acostumado. — explicou, fazendo uma pausa que fez Rosalie aguçar os ouvidos, esperando o contraponto que um suspiro discreto delatou.

—Mas, não posso mentir, Rose, eu sinto falta de estar em ação. Não o tipo de ação que pode matar você e as pessoas em volta, mas de toda a atividade que eu tinha quando era só o quartel, as missões e os treinamentos, e fazer algo que realmente coopere com o mundo. — ele sorriu fraco, quase se empolgando com a memória, mas se deteve para esclarecer.

—E não me entenda mal, eu sei da utilidade do que eu e os rapazes fazemos no trabalho com seu pai. Mas também sei que foi, mais do que tudo, mais uma generosidade dele me incluir nisso quando me juntei a vocês. Então, isso tudo junto me faz ficar pensando... — e suspirou outra vez, agora pousando o rosto no topo da cabeça dela com suavidade, embora os pensamentos fizessem parecer um ato de pesar — E eu nem queria estar pensando nisso agora.

Com isso, houve silêncio e Rosalie inspirou discretamente, ponderando um pouco a respeito enquanto movia um braço para envolta dele, descansando uma mão em suas costas, num meio abraço de reconforto. Ela sabia que nunca conseguiria imaginar a dúvida daquele tipo de decisão, até porque a realidade das experiências que plantavam a dúvida lhe era distante demais, então não haveria um bom conselho para dar sobre o que fazer. Aquela, de toda forma, era uma escolha unicamente de Emmett e, conhecendo-o minimamente que fosse, Rose sabia qual era a única coisa que poderia dizer que o faria algum bem.

—Bem, talvez você tenha que pensar, Emm. — ela se afastou levemente, apenas para olhá-lo nos olhos outra vez, reassegurando o tom de conselho — Nós não podemos fugir pra sempre das coisas que sentimos e passam pela nossa cabeça, uma hora elas vêm a tona. Garrett pode ser inconveniente, de fato, — e inclinou a cabeça para um dos lados, num tom de riso leve — mas talvez ele tenha feito você pensar em algo que acabaria só adiando. E eu acho que você já estava sentindo isso há algum tempo, não é?

—É, talvez estivesse. — o ex-soldado cedeu um pouco com a cabeça, num meio sorriso contrariado, e acarinhou os cabelos dela outra vez, passando uma mecha para detrás de sua orelha distraidamente.

—Eu estava pensando sobre trabalho também, nos últimos dias. — Rosalie disse, chamando a atenção de Emmett, que olhou-a com um misto de dúvida e surpresa — Eu sei que ainda é raro ver mulheres trabalhando em muitos lugares que não sejam as fábricas, mas com a guerra esse número realmente aumentou e há muito mais possibilidades, sabe? — ela começou a dizer, empolgada, e olhou-o com expectativa — E por isso, ainda mais sem Royce no caminho, agora eu finalmente poderia tentar alguma coisa também. Acho que gostaria muito disso. — e deu de ombros, com um meio sorriso.

Emmett sorriu longamente, as covinhas aparecendo nas bochechas outra vez, e ladeou o rosto dela com as mãos para fazê-la olhá-lo, carinhosamente.

—Se quer a minha opinião, eu também acho que você gostaria. — ele assentiu com a cabeça, reassegurando e, distraindo-se com os traços no rosto dela, voltou a dizer — Talvez Carlisle e Esme tenham algumas ideias se você falar com eles sobre isso. Não acredito que eles venham a ser contra isso. — ele franziu o cenho, querendo negar a hipótese, ao que Rosalie arqueou as sobrancelhas em dúvida — Mas, o que quer que eles digam, lembre-se que você pode fazer o que quiser, e vai ser incrível no que quer que faça, certo?

E com isso, a loira assentiu sorrindo largo e Emmett refletiu o gesto com satisfação, beijando sua testa em seguida. Foi quando ele voltou a encará-la, deixando as mãos caírem de seu rosto com um sorriso, que Rose devolveu o gesto e esticou-se nos saltos altos para unir os lábios aos dele afetuosamente.

(...)

Com o passar dos minutos, Emmett e Rosalie se viram obrigados a voltar ao salão de dança, não querendo chamar atenção demais para o fato de estarem ambos faltando por ali.

Foi bem a tempo de se unirem de volta à família nos arredores da pista de dança, onde alguns casais já se aventuravam após a dança de Alice e Jasper, que a música (I Love You) For Sentimental Reasons, de Nat "King" Cole, começou a tocar. Rosalie, que realmente adorava aquela música, se entusiasmou de pronto e não demorou muito até que Emmett estivesse puxando-a para o meio do salão, erguendo suas mãos entrelaçadas para fazê-la girar nos próprios pés, ao que ela sorriu surpresa, sem tirar os olhos dos dele enquanto deslizava de volta para perto.

—Você andou praticando desde a última vez? — ela perguntou com um tom de riso, arqueando uma sobrancelha enquanto embalava-se ao ritmo da dança.

—Talvez. — Emmett estreitou os olhos, deixando algum mistério na resposta, e perguntou com ar de curiosidade e satisfação — Por que? Pareço melhor? — e envolveu a cintura de Rosalie num dos braços, tirando-a do chão num giro que fez sincronia à música e a fez rir em surpresa, olhando-o com um olhar que quis ser de repreensão, mas acabou sorridente demais.

—Bom, parece menos nervoso. — ela respondeu enfim, agora com um tom de obviedade, em sinal do que acabara de acontecer. Emmett riu de volta, segurando uma das mãos dela novamente.

—Eu só fui pego da surpresa da outra vez, se quer saber. — ele brincou, forjando uma expressão convencida, e a loira assentiu com os olhos estreitos, sem acreditar e se divertindo, quando ele emendou — Além do mais, você quem faz isso desde pequena, eu não.

—Ah, deixe de ser bobo. — ela retrucou, aproveitando a mão que estava pousada no ombro dele para dar um leve tapa ali — Edward e Jasper ficam dizendo que eu era boa e exigente, mas isso é mentira. Nem eu mesma sabia o que estava fazendo, só gostava muito de fazer. — e deu de ombros, como se fosse óbvio.

—É difícil acreditar, sabe. — o moreno se divertiu de novo, assentindo pra si mesmo com veemência. Rosalie rolou os olhos e Emmett resistiu ao impulso de beijar seu rosto em meio a tantas pessoas, se permitindo apenas sorrir e olhá-la longamente enquanto ainda dançavam, considerável e confortavelmente próximos, deixando-a saber o quanto estava apreciando aquele momento pelo modo como traçou seu rosto demoradamente com os olhos.

—Você está parecendo um amigo de Jasper que vivia na nossa casa, um garotinho realmente gentil que ficava dizendo que eu era boa nisso. — ela quebrou o silêncio do espaço entre eles, se lembrando subitamente e com um sorriso pela memória. O ex-soldado observou-a sorrindo com expectativa: ele realmente gostava de quando Rose contava coisas de sua infância. Elas o faziam sentir mais próximo dela a cada história, além de que, era sempre divertido imaginá-la quando pequena.

—Ele dizia uma frase engraçada, — Rosalie continuou, parecendo reflexiva, mas ainda sorridente — algo sobre a mãe dele, que me fazia sentir incrivelmente elogiada. — e deixou os olhos vagarem no ambiente por sobre o ombro de Emmett, conforme se esforçava para lembrar -"Ela dança melhor do que a minha mãe com..." — e o silêncio se alongou outra vez, já que Rosalie perdera as palavras da lembrança.

—"Com aqueles sapatos que estalam." — Emmett completou, incerto, subitamente.

Foi então que os dois se encararam, como que congelados no lugar — exceto pelos passos que continuavam a dar com a dança, de repente, automática. Parte de algo na cabeça de Rosalie soou com um estalo, clareando a névoa de segundos atrás, e outra parte se enevoou ainda mais, sem entender o que acabara de acontecer; enquanto Emmett se sentia completamente tomado por uma sensação estranha de pausa, incapaz de pensar além da memória que a fala havia incitado, apesar do incômodo da coincidência bizarríssima.

—Era isso mesmo. — a loira finalmente disse, assentindo devagar, dessa vez pela dúvida da ocasião, e acrescentou com uma dúvida genuína — Como você também sabia?

Mas, por algum motivo, parecera que Rosalie sabia tanto sobre aquela resposta quanto Emmett.

—Eu não sei, eu também achava que... — ele negou com a cabeça, piscando muitas vezes e voltando a olhá-la propriamente — Que só eu dizia isso. — disse, franzindo o cenho, e perdeu-se na memória de novo para explicar — Para mim era porque a minha mãe só tinha um par de sapatos de salto, entre tantos outros "normais", então eu os achava realmente peculiares e dizia que eles eram os tipos de sapato que estalavam, pelo som diferente dos outros. — ele sorriu fraco, lembrando-se com suavidade, mas completou num tom mais sóbrio — E ficava fascinado toda vez que ela conseguia dançar tão bem com eles nos pés, já que pareciam impossíveis.

Rosalie sorriu fraco também, sem saber se aquela memória era de todo positiva para Emmett, e também ainda inebriada pela coincidência inexplicável que acabara de dar-lhes aquele momento inesperado. Agora havia uma sensação estranha, que ela não sabia se fora influenciada pelo que acabara de ocorrer, de que quase podia ouvir aquela frase, idêntica à completude que Emmett lhe dera, na voz do garotinho gentil cujo rosto não se lembrava com exatidão.

—Bom, isso faz sentido. — ela respondeu enfim, suspirando como que para se livrar dos pensamentos questionáveis e, simultaneamente, desatar a estranheza de ambos. Outra música já começara a tocar quando Rosalie percebera que ainda estavam dançando ao ritmo da outra, e os fez parar lentamente, agora tentando sorrir de verdade, embora Emmett parecesse não estar focado nisso agora — E é realmente adorável, "sapatos que estalam". É engraçado que você também dissesse isso, eu...

Mas, antes que ela pudesse completar, um dos fotógrafos da cerimônia os interrompeu, pedindo a gentileza de um instante para uma foto que, felizmente, ambos concordaram em ceder de boa vontade — e que os fez esquecer o assunto pendente, conforme colocaram-se próximos e lado a lado, com sorrisos felizes sob o disparo da câmera.