Across The Frontline
14 Capítulo 14 - O bilhete
Notas iniciais

Conforme o avanço do mês de junho sugeria, os dias de primavera aos poucos foram tornando-se mais quentes, com certa umidade pairando no ar, lembrando a vinda do verão. Assim, passados poucos dias desde a então conversa no jardim, na presente manhã, este mesmo estava tomado pelo cheiro de grama e pela luz do Sol refletindo-se no verde e nas janelas da cozinha, dos quartos e da garagem com um alaranjado bonito.
Contemplando justamente essa paisagem estava Emmett, recostado ao próprio carro que estacionara ao meio-fio em frente à mansão e de minuto em minuto checando o relógio em seu pulso. Sua mente trabalhava tão rapidamente quanto os olhos nos ponteiros, mas não, de fato, nunca pelo mesmo motivo. Era assim que estivera desde a última conversa com Rosalie: sustentando uma atmosfera menos densa entre os dois — o que lhe agradava e fazia com que não estivesse tão pesaroso quanto normalmente — mas, ao mesmo tempo, lembrando-se de todas as coisas que haviam marcado a relação dos dois até cada dia que passava — e isso deixava-o muito mais quieto em alguns momentos, mesmo quando não estava sozinho.
Da porta da frente, ainda sem distraí-lo, vinha Rosalie, atenta a algo em seu caminho ao deslizar com insistência uma das mãos pela pele entre pescoço e colo — onde o recorte do vestido que trajava não cobria -, embora seus olhos não estivessem em nenhum lugar próximo de seu corpo. Parecia nervosa. Ansiosa, talvez descrevesse melhor o modo não só como parecia agora, mas como vinha estando nos últimos dias. Estivera quase do mesmo modo que Emmett: oscilando entre um bem-estar agradável e a possibilidade de uma queda brusca. O grande diferencial em sua situação era que, além dos pensamentos que, por mais que nunca admitisse, estivessem de alguma forma relacionados ao ex-soldado, haviam ainda aqueles que, com acidez, lembravam-na de Royce e sua situação.
O acidente que havia deixado marcas não só em seu pescoço — agora novamente branco — e o acaso, se assim podiam imaginar, de quem era o único a estar na porta naquele momento. O choro e o abraço de socorro com o impacto da notícia do coma de Royce. O beijo e o toque das mãos na escada, tão memorável e confidencial desde então. Os olhares depois disso, indo e vindo a cada novo dia e estagnando a cada pequeno momento. Os sorrisos, nos instantes oportunos ou não, mas nunca despercebidos.
Depois, o episódio do trauma, criando um novo segredo entre os dois. A ajuda espontânea e, dos dois lados, inexplicada, apesar de bem vinda. Os curativos que agora já não estavam mais na mão direita dele ainda eram lembrados pelos dois como um símbolo de algo, assim como as palavras da conversa no jardim. As coisas expostas naquela noite, mais do que em qualquer outra, ditas ou não.
E a partir daí, desde então, o ciclo vicioso se completava e voltava às reações e lembranças muito repetidas em silêncio. Quando não eram imagens, os relances de momentos em que os olhos haviam se capturado — ou aos lábios sorridentes -, eram as falas, a memória das vozes marcantes nos mais recentes instantes, daqueles que se lembravam mais.
"Você planejou esse almoço para que eu tivesse que lidar com ele, não foi?"
"Tire as mãos dela! "
"Eu não sabia o que estava fazendo."
"Eu acredito em você. "
"Eu gosto de azul. "
"E bem, eu vi você vindo, mas quando fiz menção de dar o último passo você continuou andando, então só tive tempo de assegurar que você não caísse. "
"Eu quem estava distraída, me desculpe, eu realmente não vi você vindo. Obrigada por isso."
As vozes um do outro ecoavam nas cabeças dos dois, não só com o tom que se lembravam, mas também com aquele que a repetição constante havia atribuído a elas. Em meio ao caos das lembranças, só um momento muito lembrado não era traduzido em uma das vozes familiares demais — só aquele instante não formava um eco. Mas, não fazia diferença: era como se estivesse preenchido de alguma maneira, porque os outros detalhes da memória eram presentes demais, até mesmo decorados, para a falta de palavras ser importante. As pontas dos dedos e o topo das colunas pareciam eletrizados com a reminiscência quando os dois se moveram para voltar à realidade.
Rosalie fechara a mão em punho sobre o colo vazio e Emmett desencostara-se de onde estava. Ela só desviara o olhar de sua tarefa anterior ao ouvir um espalmar leve na lataria do carro mais próximo e ele com um leve sobressalto ao perceber os passos atrás de si.
—Desculpe, eu não queria... — ela saiu do silêncio com um tom baixo, incerta se ele havia se assustado, parando a certa distância dele com um sorriso contido. Com os olhos na figura alta dele, viu-o sorrir e descansar as mãos nos bolsos do paletó — Eu não havia visto você.
—Tudo bem. — disse simplesmente, forçando-se a desprender dos olhos dela para concentrar-se no que dizia — Eu também estava... — começou, sem saber exatamente o que queria dizer.
"Eu também estava... Pensando em você"? ou seria melhor "Pensando no beijo de dias atrás sobre o qual nunca pudemos falar"?
Ele nunca saberia, porque não arriscara e Rosalie fizera o gratificante favor de interromper o silêncio.
—Esperando Edward e Jasper? — ela arriscou, desviando o olhar por alguns segundos para o chão sob os próprios pés, vasculhando alguns pontos ao redor ansiosamente.
—Sim. — sorriu ele, assentindo com simplicidade. Não deixara de notar os trejeitos ansiosos dela — Eu estava indo, mas eles pediram que esperasse. Confesso que não sei por quê. — riu consigo mesmo, admitindo a falta de justificativa que via naquilo.
—Acho que os ouvi falando algo sobre o casamento de Jasper e Alice. — ela respondeu depois de certa hesitação, como se procurasse ter certeza — Não devem demorar muito mais, mas talvez você devesse chamá-los, se estiver preocupado.
—Não estou realmente, não com isso. Posso esperar. — assentiu, deixando de olhar o relógio ao pulso e esboçando um sorriso leve para reforçar o que dizia. Ela apenas sorriu e confirmou com a cabeça um instante, embora tivesse parecido atenta a alguma parte da frase dele e depois olhara por cima do ombro — Está procurando alguma coisa?
—Meu colar. — confessou ela, vendo que ele havia notado sua ansiedade — Um que eu quase sempre uso, tem um cristal no meio. — explicou, mais brevemente do que pretendia, agora que pensava ter visto o objeto noutro lugar próximo da porta. Pensava com tanta veemência no item cor de ouro que qualquer cintilar ao chão parecia chamar sua atenção.
—Você o perdeu hoje? — ele perguntou, movendo-se para onde ela olhava, procurando pelo objeto depois de mentalizá-lo num breve instante. Com o foco no gramado, ele quase não percebera a proximidade a que estavam um do outro.
—Ontem, talvez. Ainda estava com ele aqui em casa. — ela voltou a justificar, balançando a cabeça num movimento leve para se livrar das mechas perfeitamente loiras e reluzentes ao Sol que caíam-lhe sobre o rosto. Quando o fizera, deixara de pensar na sua esperança de achar o objeto e encarara de perto os olhos azuis, combinados a um sorriso leve que os fazia estreitar.
—Com certeza está por aqui, você irá encontrar. — afirmou, confiante, perdendo-se por um momento no brilho que o rosto dela ganhara no último minuto, e por isso, demorando-se em notar a atenção que ela lhe dedicava — Posso ficar atento também. — ofereceu, dando de ombros.
—Obrigada, isso seria realmente ótimo. — agradeceu, detendo uma das mãos numa parte do tecido do vestido que usava, num sinal da consequência ansiosa de ter deixado-se perder demais no olhar que ele lhe retribuía — Então, tem dormido melhor? — sorriu, de repente precisando distrair ambos para não voltar ao mesmo ato. Não poderia dizer se era aquele de segundos ou dias atrás.
—Ah, sim. — ele concordou, tão subitamente descontraído quanto ela, ou esforçando-se para parecer, agora que a percepção da proximidade a que estiveram passava em sua cabeça, enquanto aqui e ali na rua passavam pessoas atentas, outras olhavam pela janela, mas talvez não precisamente para eles: outra vez não saberiam dizer — Tanto quanto é possível, mas obrigado por se preocupar. — sorriu sinceramente, deixando o som dos passos e folhas farfalhando ao redor preencherem o silêncio enquanto pensava — Eu segui o seu conselho. — disse, enfim, a cabeça ainda inclinada para baixo quando procurara olhá-la.
—Seguiu? — perguntou ela, entre a hesitação de acreditar no que ele estava dizendo e a incerteza se estava entendendo o que ele queria dizer. O sorriso travesso nos lábios dele a fez entender no mesmo momento — Por isso não veio para o almoço ontem? — lembrou-se de repente, lembrando-se do dia anterior. Num segundo, agradecera por como a mesma mecha insistente voltara a cair pelo rosto, escondendo o corar das bochechas com a percepção do que havia feito.
—Exatamente. — ele assentiu imediatamente, sorrindo ainda mais abrangentemente, principalmente pelo que ela havia demonstrado com a última frase, e se perguntou se ela sabia que ele havia visto-a corar, ou se havia sido imaginação demais — Eu procurei pela terapia e a primeira sessão foi naquele dia. Não quis falar para todos ainda porque não tive certeza de como ia ser, me adaptar, entende? Mas, pra falar a verdade, foi bom, me saí bem. — admitiu, sorrindo satisfeito. Ele a vira sorrir, sem saber que era porque achara graça de como podia soar graciosamente convencido quando queria.
—Não posso dizer que não estou surpresa. — confessou, deixando um riso suave escapar pelos lábios, e ele fizera o mesmo, parecendo se divertir ainda mais — Quero dizer, eu sabia que iria se sair bem, mas você sabe como pareceu relutante antes. — ela corrigiu rapidamente, cautelosa com as palavras, embora já tivesse percebido que ele provavelmente entenderia e se divertia com o que quer que dissesse.
E acertara, porque o silêncio de um único segundo fora quebrado pelo tom espontâneo da risada dele entre os dois, de encontro ao riso leve que ela também emanara. Mesmo com a mínima proximidade e sutileza dos últimos dias, não se lembravam de ter sentido tão à vontade e próximos um do outro, ainda que não fisicamente, até aquele momento. Era curioso pensar nisso. E trabalhoso também, por isso continuaram a deixar o pensamento de lado por agora.
—É, eu sei. Dei trabalho, não foi? — concordou e logo fez questão de soar retórico, divertindo-se com o semblante leve e quase brincalhão que ela tinha no rosto ao ouvir sua pergunta. Parecia conter um sorriso maior do que o que mostrava no momento.
—Um pouco, mas nada que não tenha valido a pena. — sorriu, de fato contendo o ímpeto de estender os lábios à vista do rosto dele. Parte sua sabia porque estava fazendo isso, enquanto a outra insistia para o contrário, dizendo que não fazia diferença. Entregara um buquê inteiro, mas queria apontar para o espaço de uma rosa faltando?
Sabia o motivo pelo qual fazia aquilo e, na verdade, eram muitos juntos. Um deles era por que era bom, de uma maneira quase perigosa, talvez, como ele podia fazê-la sorrir com tanta facilidade. Algo engraçado parecia ficar preso à sua garganta quando via a expressão travessa que ele desenhava sem querer às vezes, junto às palavras das conversas mais bobas como aquela estava sendo até aquele momento, quando decidira retomar o assunto.
— De qualquer forma, vai contar a eles então? — Rosalie voltou a dizer, perguntando com certa curiosidade proposital, mostrando-se interessada, embora pouco mais contida.
—Vou. Hoje no almoço ou jantar, quem sabe. — McCarty afirmou com a cabeça, girando as chaves de casa entre os dedos despretensiosamente, talvez pela breve ansiedade, muito menor do que de dias antes, em pensar no momento de que falavam. Relances de imaginação passaram na cabeça sobre como seria aquilo.
—Eu deveria fingir que não sei de nada? — sugeriu ela, cruzando os braços em frente ao corpo com certa serenidade, não podendo evitar de fazer um sorriso dançar em seus lábios ao ver que ele entendia o tom de sua brincadeira, embora realmente quisesse que ele se sentisse à vontade com a possibilidade.
—Eu diria pra escolher o que te faça sentir mais confortável, mas acho que não seria justo pensar em omitir todo o crédito que você tem nesse processo. — disse honestamente, depois de rir num instante e no outro contemplar como pudera o sorriso dela.
—Você sabe que não foi nada, mas, como quiser. — cedeu, apesar de manter-se firme à ideia de que ele não deveria persistir agradecendo-a por aquilo — Eu estarei lá de qualquer forma, como sempre.
Por um momento, nenhum dos dois soube dizer se ela estava falando sobre o jantar ou sobre o fato de que estaria sempre disposta a ajudá-lo. De toda maneira, algo, provavelmente o contexto, garantira que presumissem a primeira opção.
—Obrigado, mesmo. Será ótimo. — ele acenou veementemente com a cabeça, conferindo sinceridade ao que dizia, sorrindo de volta.
Nenhum dos dois voltara a falar, e então Emmett olhara de relance para a porta, esperando ver um dos membros da família, enquanto Rosalie parecia encarar com firmeza algo nas casas detrás dele.
A grama e as ruas não estavam mais tão alaranjadas ao redor deles, mas continuavam iluminadas e banhadas pelo calor do veraneio, enquanto céu assumia agora um tom de azul pleno e sem nuvens em sua decoração quando Emmett tomara sua decisão silenciosamente.
-Rose, eu tenho pensado... — começou ele, atraindo a atenção dela com algum atraso, e sendo interrompidos antes de qualquer palavra pelas figuras que irromperam da porta de entrada.
Jasper e Edward caminhavam naquela direção, os ternos bem alinhados mexendo-se junto às maletas que carregavam ao lado do corpo conforme andavam. Edward tinha um sorriso de quem estava divertindo-se à beça nos lábios, conferindo-lhe um ar de criança, enquanto Jasper também sorria, mas de seu modo característico, com um canto dos lábios mais graciosamente repuxado.
—Alice realmente pensa em tudo. — o loiro mais velho comentou, acenando a cabeça negativamente enquanto ainda sorria, parecendo achar graça de alguma coisa também. Edward abrangia mais o sorriso, uma leve risada escapando-lhe — Seria impressionante se todos já não desconfiássemos.
—Se todos já não soubéssemos. — o mais novo corrigiu, ainda rindo de forma contida e aveludada, como lhe era natural, lançando um olhar breve para o irmão que arregalara um pouco os olhos esverdeados como os seus em sinal de uma concordância divertida — Só espero que ela tenha tempo de aparecer no próprio casamento, cuidando de tudo como sempre. — brincou, a tempo de serem vistos, sorrindo igualmente descontraídos, pelos outros dois incapazes de distinguir o significado do que diziam.
—Eu também espero. — Jasper assentiu em brincadeira, rindo junto ao irmão, cujos olhos estreitavam-se encantadoramente com o ato antes de voltarem a silenciar-se brevemente à proximidade com a irmã e o ex-soldado — Pronto? — perguntou ao último mencionado quando se aproximara o bastante para isso, tocando um de seus ombros com leveza, alheio, assim como aquele ao seu lado, ao que havia interrompido.
—Só há trinta minutos. — Emmett respondera com tom brincalhão, depois de um átimo vacilante, voltando a colocar no rosto o sorriso que lhe dava covinhas nas bochechas.
Com isso, os três voltaram-se à loira, parada entre o gramado e a calçada com um sorriso breve, apenas para despedir-se e apressarem-se no caminho até o carro estacionado muito perto dali. Ao passo que os irmãos dedicaram sua maior intimidade natural com a irmã, aceitando os beijos no rosto e abraçando-se muito rapidamente, Emmett limitara-se ao apropriado, deixando um beijo simples no dorso da mão direita de pele fria. E aqui, no que ainda pensava enquanto sentia o vento no rosto e as mãos ao volante, as vozes familiares soando incompreendidas em seus ouvidos, sentira-se extremamente estúpido ao pegar-se comparando o toque e a sensação deste com aqueles que pretendera, minutos antes, reviver em palavras. Quem sabe, com sorte, tivesse outra chance mais tarde.
(...)
Horas depois, o céu que se via da grande janela do escritório estava estendido num degradê típico do fim de tarde de veraneio, novamente alaranjado como naquela manhã, mas agora misturado a um azul anil que escurecia aos poucos. Emmett levantava-se da cadeira estofada com uma postura de alívio, quase apressado, tudo pelo pensamento de que poderia finalmente voltar para casa e cumprir o jantar de que falara mais cedo, sobretudo depois de uma quantidade tão grande de trabalho que sequer havia podido sair para o almoço.
Haviam passado tantos papéis por sua mesa e mãos, girara tão repetidamente a caneta em movimentos decorados, ouvira o telefone em sua mesa tocar tantas vezes e atendera-o tantas outras mais, tediosamente comprometido às longas conversas em que as palavras sobre negócios forçavam espaço contra cada parte de sua mente, que agora que a oportunidade de descanso estava mais real e próxima do que nas horas anteriores, não podia evitar de demonstrar seu ânimo e alívio. Fosse pelo modo, por exemplo, como sequer olhara para trás depois de tomar o último gole de café em sua xícara e deixá-la vazia sobre a mesa, ou simplesmente por como caminhara até a saída sem efetivamente perceber o caminho que havia feito, ou as pessoas com que havia encontrado — e deixado de encontrar.
Talvez, afinal, a perspectiva de um rosto em especial que encontraria naquele jantar e ainda, da conversa que havia reservado para aquele mesmo momento fossem o que mais faziam-no sentir aquela ânsia e desafogo, sentimentos que sempre experimentava em certa dose, mas não àquele nível. O fato de não ter tido sequer um intervalo suficiente para pensar nas coisas que inconvenientemente pediam mais espaço em sua cabeça do que todas aquelas assinaturas e conversas sérias, e também de ter encobrido a essa necessidade com tantas doses de cafeína, provavelmente eram as maiores responsáveis por todo o contexto que o fizera dar a partida ao carro com maior velocidade do que o usual e prudente.
No entanto, ao chegar à casa e estacionar o veículo no lugar habitual, minutos antes do que faria normalmente, o dono dos olhos azuis que patrulhavam de longe, com estranheza, as janelas de onde não via-se qualquer luz ou movimento, percebera que estava sozinho. Por algum motivo, não estava havendo jantar algum e mais do que isso, não havia ninguém ali além dele mesmo. Certas lembranças em sua mente — que àquele momento já estava repleta de perguntas sem resposta — fizeram-no hesitar quando pensara em avançar e adentrar a casa mesmo assim. Instintivamente fechara uma das mãos em punho e enrijecera o maxilar bem demarcado com força, trincando os dentes quando decidira ir pegar as chaves no bolso e abrir a porta da frente.
Não entendia uma única parte do que poderia estar acontecendo e enquanto perguntava a si mesmo, simultaneamente compreendia que só saberia no momento em que entrasse. Minutos antes estava tão disperso que sequer havia percebido se passara por Edward, Jasper ou Carlisle. Sequer havia pensado em passar por suas salas, como às vezes fazia, ou em telefonar. Também não havia tido tempo de estranhar a falta de ligações mais tarde, depois que avisara à Esme, por telefone, que não poderia estar no almoço, mas que sairia cedo o bastante para o jantar. Ou será que não havia ouvido, atendido?
Agora, adentrando o escuro ensurdecedor do ambiente amplo demais, nenhuma das possíveis respostas importava. Ainda à porta, correra os olhos por um canto e outro, certificando-se de que estava realmente sozinho antes de acender as luzes do lustre ao centro da sala de estar e, mais impulsivamente do que com algum objetivo real, encaminhar-se para aquele espaço. O som do contato dos sapatos sociais contra o piso frio era o único que ecoava por ali, ao menos até que detivesse a si mesmo em frente à lareira apagada e jogasse a maleta, sem perceber, sobre um dos sofás.
Sobre o topo de mármore frio da lareira ausente de fogo, um pedaço de papel escrito com uma letra bonita, mas visivelmente apressada, logo fora pego entre seus dedos, como se soubesse antes mesmo de ler que ali estaria a explicação de que precisava para aquela situação atípica. A primeira linha, onde estava escrito seu nome, estava em uma caligrafia pouco diferente da restante, exceto pelo modo excessivamente trêmulo como visivelmente havia sido escrito.
Emmett,
Assim que vir esse bilhete, venha para o hospital onde Royce está internado. Algo aconteceu, mas não sabemos o que é — bom ou ruim. Recebemos uma ligação muito breve pouco depois do almoço e aproveitamos que todos estavam aqui para acompanhar Rosalie. Tentamos ligar, mas seu telefone estava ocupado.
Esperamos você, querido. Se possível, não demore.
Esme.
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