Across The Frontline
10 Capítulo 10 - Veredicto

Uma semana havia se passado desde o almoço que decretara uma comemoração pelo futuro divórcio de Rosalie e Royce. Consequentemente, o prazo previsto para a declaração final sobre o então acidente envolvendo ambos já havia sido completo, o que havia sido lembrado no dia anterior, quando um telefonema da delegacia convocou a presença da loira no tribunal para um simplório julgamento final no dia seguinte, onde cada um dos demais Cullen poderia depor a favor da mesma, ou se não houvesse necessidade, apenas assistir à deliberação.
Na sala de estar, esperando por Rosalie, Emmett e Edward, estavam Jasper, Alice, Carlisle e Esme. O primeiro casal encontrava-se sentado em um dos sofás, com as mãos enlaçadas, conversando a respeito do que viria a ocorrer naquele fim de manhã. O segundo, por sua vez, estava de pé próximo à porta de entrada. A mulher de cabelos escuros concentrava-se em ajeitar a gravata do marido, alinhando-a da forma correta, enquanto o mesmo sorria com gratidão e ternura, depositando um beijo na testa da esposa ao fim de seu singelo afazer.
Atraindo a atenção para si com os sons de seus passos apressados ecoando pelo ambiente, Rosalie, Emmett e Edward chegavam ao mesmo, após a descida ágil da longa escadaria. Os dois irmãos, assim como o terceiro, trajavam ternos sem gravatas, diferindo-se do pai, que fazia uso de tal por dever apresentar-se também na condição de advogado da filha, dali a alguns minutos. Esta usava um vestido um tanto formal, de mangas longas e ombros retilíneos, que estendia-se até metade das panturrilhas, colorido em lavanda, com um cinto de mesmo tom escondendo-se um pouco abaixo de suas costelas. Nos pés, saltos altos em tom de bege discreto.
—Então, vamos? — a loira sugeriu, exibindo um sorriso ansioso, enquanto encarava um a um os presentes, com o mesmo ar.
—Vamos! — Esme concordou, deixando escapar um suspiro pesado por entre os lábios rosados.
No segundo seguinte, todos encaminhavam-se para o lado de fora da casa, cada qual concentrado em um pequeno detalhe ou conversa. Alice ainda falava com Jasper, agora sobre qualquer assunto que não dizia respeito aos demais; Edward concentrava-se em ajustar a gola de sua camisa social, por baixo do terno escuro, enquanto dava passos lentos na direção do carro; Rosalie caminhava quase completamente ao lado do irmão, em silêncio, fitando as próprias mãos enluvadas, devaneando sobre consequências felizes provenientes daquele julgamento; Emmett, o último da sequência desordenada, perdia o olhar pela figura à sua frente, sem importar-se que parecesse evidente para qualquer um dos presentes — e da forma que fazia, até à própria, que poderia facilmente sentir os olhos atentos sobre si -, perguntando-se, ao mesmo tempo, se mesmo depois de toda a frieza que Hale parecia ter perdido ao dirigir-se a ele, a mesma ainda colocaria qualquer impecilho no caminho que ele desejava completar até ela, de uma forma ou de outra. Respondendo à sua pergunta, agora tão inevitavelmente retórica, sua mente lembrou-o, dentre muitos fatores que imediatamente tornavam-se impecilhos, de Royce King e sua família, e do quanto os mesmos certamente dificultariam o processo de divórcio e a serenidade da família Cullen, como um todo.
(...)
Mais tarde, após aproximadamente uma hora de espera em uma pequena sala, reservando-os dos olhares curiosos daqueles que também encontravam-se no tribunal e que conheciam-nos de longe, todos os Cullen encontravam-se na grande sala principal do tribunal, já há alguns minutos, acompanhando o julgamento. Carlisle, sentado ao lado da filha, tinha os olhos fixos no outro advogado, que de pé, exibia seus argumentos à favor de Royce King II. O juíz, após tantos minutos de julgamento, embora parecesse convencido dos argumentos de Carlisle a cada vez que o mesmo pronunciava-se, parecia dividido, deixando-se levar um tanto pela fala do advogado de King, quando este a fazia. Rosalie, impaciente, à beira de um choro compulsivo e nervoso, procurava acalmar-se ficando em silêncio, embora perguntasse a si mesma a cada segundo, atiçando sua raiva, como raios alguém poderia defender um perturbado como Royce.
—...Conforme a Senhora King, mãe de meu cliente impossibilitado de apresentar-se, disse há pouco, Royce jamais apresentara sinais de desequilíbrio mental e dentro de sua vista, onde até mesmo depois de casado passara a maior parte do tempo, jamais colocara uma gota de álcool em excesso na boca, ao contrário do que afirma sua então esposa, cliente do Doutor Cullen. — o homem de cabelos escuros caminhava calmamente pelo vasto espaço em frente ao juiz, gesticulando para o mesmo e para aqueles que assistiam ao processo — Se me permite concluir, Excelência, isso nos leva a crer que a mesma estaria difamando o Senhor King II para culpá-lo e consequentemente, inocentar-se do ocorrido com o mesmo no então acidente.
Ao término da fala do mesmo, as vozes que assistiam à deliberação aumentaram seus tons gradativamente, num burburinho de conversas em torno da afirmação feita. Jasper, Alice, Esme e Edward, que assistiam da primeira fileira, fitaram uns aos outros discretamente, com as expressões desacreditadas do que acabavam de ouvir. A mais velha procurava manter-se calma, como costumava ser, embora fosse difícil lutar contra seu instinto materno protetor, que lhe gritava para atirar as palavras contra aquele advogado, defendendo a filha com todas as suas forças. Como agora, seu coração apertava-se no peito diante da impossibilidade de fazer o que tanto desejava, sentindo o mesmo contorcer-se em raiva e dor pelas injustiças que eram ditas e, consequentemente, pelo sofrimento que via estampado no rosto de Rosalie.
—Eu protesto, Excelência. — Carlisle interrompeu com calma, levantando-se de seu assento ao assentir do juiz — Antes que eu possa dar continuidade aos fatos que temos contra essa afirmação absurda e totalmente falsa — a voz imponente do mais velho parecia áspera agora, com os olhos claros fitando de forma cortante os do homem de cabelos escuros do outro lado da sala -, gostaria de solicitar a entrada de Emmett McCarty Cullen, a testemunha mais direta do caso.
—Concedido. — respondeu, gesticulando para os seguranças na grande porta de madeira no fundo da sala — Deixem-no entrar. — ordenou, recebendo maneios de cabeça positivo daqueles que, em seguida, abriram as portas para a entrada do ex-soldado.
O moreno adentrou o ambiente em sua postura publicamente comum: coluna ereta, passos firmes, expressão impassível. O maxilar perfeitamente delimitado encontrava-se visivelmente rígido, acompanhado pelo olhar oceânico firme, que erguia-se do chão para um ponto fixo distante à sua frente, mantendo as íris estonteantes em linha reta. Os passos calmos foram admirados por alguns dos desconhecidos que sentavam-se por perto, no entanto sem criar qualquer murmúrio perceptível. Rosalie virou-se levemente para alcançar a figura que aproximava-se, agradecendo mentalmente por sua presença — não só agora, mas principalmente no dia do discutido acidente.
—Está autorizado a iniciar, Doutor. — o juíz dirigiu-se a Carlisle, assim que certificou-se de que McCarty ocupava o assento comumente reservado para as testemunhas.
—Senhor McCarty, você estava presente no momento em que o Senhor King agrediu Rosalie, certo? — o olhar paciente e confiante encarou o moreno, esperando pela resposta que já conhecia.
—Sim, eu estava. — assentiu, soando igualmente confiante.
—Muito bem, então. — prosseguiu, caminhando calmamente na direção do outro — Diante disso, será que poderia esclarecer para nós o que exatamente presenciou, ouvindo antes de abrir a porta e vendo após fazê-lo?
—Bem, eu estava indo até a casa de Rosalie para devolver a ela alguns pertences que ela havia esquecido na casa dos pais, onde eu também moro, na noite anterior. Quando cheguei, toquei a campainha diversas vezes, pausadamente e ninguém atendeu-me. Eu já estava quase indo embora quando ouvi as vozes exaltadas dela e de Royce do lado de dentro, então fui até a janela para tentar ver o que acontecia. — um breve flashback daquela manhã veio com força à sua memória já entorpecida, sendo arduamente afastado pelas palavras que conectava em sua mente, para proferir no segundo seguinte — Eu vi os dois no alto da escada e, com muita clareza, pude ver King com as mãos no pescoço dela, agredindo-a. — sua expressão tornou-se discretamente enraivecida, travando ainda mais o maxilar já rígido — Rosalie estava agonizando em suas mãos, então ele claramente apertava-a com muita força. Eu gritei diversas vezes para que ele a soltasse, mas como não pareceu surtir efeito algum, eu decidi que arrombaria a porta e entraria lá. Quando eu o fiz, Rosalie estava em choque, ainda no alto da escada e Royce estava no chão, quase aos meus pés, desacordado. — um breve silêncio fez-se em todo o tribunal, após sua conclusão.
—Muito obrigado, Senhor McCarty. — o loiro agradeceu com um maneio de cabeça, preparando-se para prosseguir — Diante desse depoimento, podemos concluir, anulando completamente a conclusão anterior, que o lado de King é que está tentando incriminar minha cliente, desviando-se totalmente do foco principal, uma vez que não é necessário que se provem em laudos médicos o que uma única atitude já diz. Um ser humano que agride outro, o qual deveria amar e respeitar, não tem qualquer resquício de sanidade. — concluiu, fitando a mãe de King e o advogado do mesmo, do outro lado do grande cômodo — Ademais, antes que isso seja dito outra vez pela defesa, se King caiu da escada e resultou no quadro atual, foi um ato de legítima defesa de minha cliente, que estava, como a própria já disse e foi confirmado por McCarty, sendo agredida por ele.
—Eu protesto, Excelência! — o outro exaltou-se, levantando-se de onde antes sentava-se — Imagino que não deva ter passado desapercebido, mas gostaria de evidenciar: no depoimento de McCarty há uma falha: ele não afirmou nada sobre uma garrafa de bebida na cena, conforme a cliente do Doutor Cullen fez, alegando que meu cliente estaria bêbado e ainda embebedando-se ao chegar em casa. — fez uma pausa, gesticulando brevemente — Além disso, gostaria de ressaltar a fala um tanto hipócrita do doutor, que ainda que formado em Medicina e Direito, estando portanto, inteirado do quanto um laudo médico pode influenciar num caso como esse, afirmou que o mesmo é desnecessário. Isso não soa um pouco conveniente de se dizer aqui? Digo, o senhor sempre me pareceu acreditar tanto na medicina, e agora vai contra ela? — provocou, encarando os olhos serenos de Carlisle, que embora fervilhasse de raiva interiormente, não demonstrava sequer um traço da mesma em seu rosto tranquilo.
—Se me permite responder à acusação, Excelência... — o mais velho pediu, recebendo autorização do juiz para prosseguir — Primeiramente, Doutor Evans, o senhor deveria saber, já que sabe tanto sobre minhas crenças, sobre a Medicina e, é claro, sobre o papel da mesma num julgamento, — começou, adicionando certo sarcasmo à voz calma — que eu reconheço, como doutor em advocacia e medicina, que esses dois de fato podem acompanhar um ao outro, em casos onde não existem evidências policiais ou depoimentos suficientes para provar uma inocência ou culpa, admitindo-se então a Medicina, com laudos psicológicos e outros recursos. Entretanto, quando existem evidências e depoimentos coerentes, analisados o suficiente para tomar uma decisão, os mesmos anulam a atuação da Medicina, já que providenciar um laudo só atrasaria o processo e, ao fim, provaria o que já sabe-se. — concluiu, ainda tomado pelo ar confiante que lhe acometia ao falar em suas especialidades profissionais, encarando tranquilamente os olhos enraivecidos de Evans.
O silêncio fez-se presente no tribunal por alguns segundos, dado o impacto da fala de Carlisle, que voltava a sentar-se em seu lugar, fazendo menção de anunciar que havia encerrado suas falas, quando foi interrompido pela voz insistente do outro advogado, que parecia nunca se dar por vencido.
—Muito bem, Doutor. — ele continuou a caminhar, com a expressão falsamente pensativa — Feito todo o discurso, ainda há algo que não me foi respondido. — um sorriso torto, quase vitorioso, formava-se nos lábios finos — O Doutor pode ter toda a razão sobre o laudo, com o que disse há pouco, mas ainda não vejo a coerência citada nos depoimentos, já que os mesmos ainda encontram-se faltantes com a parte da tal bebida alcoólica, citada por sua cliente. Como a Senhora King disse, confirmada por Hale, meu cliente já havia dito e demonstrado não gostar de champanhe, desde jovem. — Rosalie abaixou o olhar, desacreditada de que aquele fator estúpido seria levado em conta. Será que aquilo impedia-o de raciocinar que em compensação, muitos outros tipos de bebida apeteciam King? — Se, também afirmado por Hale, esse era o único tipo de bebida existente na casa, como meu cliente poderia estar embriagado, se sequer provava da mesma?
—Royce pode não gostar de champanhe, mas ele gosta de uísque. — Emmett interrompeu, respondendo em nome de Carlisle, atraindo para si todos os olhares atentos presentes no ambiente — Eu vi a garrafa de uísque quebrada na escada, o líquido característico escorrendo pelos degraus e ainda mais, o cheiro de álcool que King exalava, ainda que desacordado. Se me permite apontar, Excelência, — dirigiu-se ao juiz, recebendo um olhar positivo, para que continuasse — o Doutor Evans me parece um tanto desatento às evidências obtidas na "cena do crime" pela polícia. Citar o laudo médico, como se não tivesse conhecimento da cena que retratou-se no dia, e ainda mais, insistir na inexistência de um objeto que prova ainda mais a veracidade dos depoimentos, que foi reconhecido e levado em perícia pelo próprio departamento policial... Me parece um tanto desatualizado do caso, não? Estranho que ainda apresente-se como apto para defender seu cliente nessas condições. — o de olhos azuis instigou o advogado, que noutro segundo tinha seus olhos ardentes em raiva e o tom de voz descontrolado, atacando a família Cullen como um todo, com palavras dissimuladas, que logo foram interrompidas pelas palavras de ordem do juiz e pelos seguranças, que levaram-no dali antes que houvessem maiores proporções e que a "plateia" agitasse-se demasiadamente.
—Ordem! -o juiz ordenava , após o fechar das grandes portas. Em alguns instantes, tal ordem era acatada pelos presentes. Emmett, agora juntando-se à parte da família que encontrava-se na primeira fileira dos que assistiam à deliberação, tinha um sorriso verdadeiramente feliz nos lábios. Noutro canto do tribunal, Rosalie e Carlisle sorriam um ao outro, aliviados. O clima que abrangia cada um dos Cullen — que tinha como principais componentes a alegria e o alívio pela situação que decretava-se — parecia tomar conta de todo o ambiente, que soava mais sereno, com todos os olhares voltados para o juiz, que daria o veredicto — Eu já tomei minha decisão. Declaro a Senhora Rosalie Hale inocente. Esta sessão está encerrada. — disse, por fim, batendo o martelo no local pontual, antes de retirar-se da grande sala, que agora era preenchida pelas vozes daqueles que antes assistiam ao processo, e por comemorações discretas da família Cullen, que reunia-se no largo corredor até a porta de madeira, distribuindo entre si abraços, sorrisos e palavras breves em festejo ao acontecido.
Em meio ao círculo irregular que formava-se pelas reunião das figuras familiares no corredor, o cruzar dos olhares de Emmett e Rosalie passou desapercebido, dando a deixa para que ambos perdessem-se ali, um na felicidade tão evidente do outro. Com sorrisos que evidenciavam que tal sentimento nos dois corações, resumia-se a um só, a esperança que saltava de ambos diante daquele veredicto, foi acobertada com certa dificuldade, traduzindo o grande desafogo que aquilo simbolizava para os corações tão ávidos por mais proximidade — e que no presente momento, eram tão impedidos pela razão, que alertava-os com insistência para o mantimento da conveniência — que em outras circunstâncias, àquela altura, já teria sido quebrada pela tão desejada aproximação.
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