Across The Frontline
1 Capítulo 1 - Passado Recente
Notas iniciais

Seattle (WA), 23 de maio de 1948
Terno preto, camisa branca e gravata vinho. Nos pés, um par de sapatos sociais pretos. Os cabelos úmidos e escuros dispostos da forma habitual. Um relógio valioso no pulso direito e, em uma das mãos, uma maleta de couro sendo carregada.
Emmett andava pelo corredor do terceiro andar do edifício Cullen's em direção à sua sala, como fazia todos os dias, de segunda à sexta, desde janeiro de 1947. Eram exatamente sete horas e vinte e três minutos: ele estava sete minutos adiantado. Ser pontual, para ele, significava chegar adiantado, mais do que seguir o horário à risca. Era um costume que levava consigo desde o quartel.
Chegando à sala na qual passava a maior parte do dia, Emmett fechou a porta atrás de si e caminhou até sua mesa, onde depositou a maleta que antes carregava. Acomodou-se na grande cadeira estofada, feita de couro preto, e antes que pudesse abrir a pasta cheia de papeladas à sua frente, uma batida na porta atraiu sua atenção.
—Entre. — pediu, imaginando quem veria em seguida. -
—Bom dia, senhor McCarty. — Joanne, sua secretária, pediu licença com um maneio de cabeça. -
—Bom dia, Joanne. Entre. — sorriu gentilmente. -
A moça de cabelos ruivos e aparência jovial adentrou a sala com uma bandeja prateada, servida de uma xícara e um bule de porcelana com café.
—Trouxe seu café. — ela deixou a bandeja sob a pequena mesa ao lado da porta e serviu a xícara com o conteúdo do bule. A passos curtos, entregou a xícara ao patrão, com a atenção voltada para o líquido quente que balançava. -
—Muito obrigado, Joanne. — Emmett agradeceu com um maneio de cabeça e um sorriso suave, e bebericou o café enquanto a moça retirava-se. -
Ao bater leve da porta, permitiu-se relaxar o corpo na cadeira e levar mais alguns goles de café à boca, antes de começar a analisar todos os papéis que o esperavam. Admirou a vista enquanto aproveitava-se da boa sensação que o café quente lhe provocava, percorrendo sua garganta com um gosto amargo o suficiente e transmitindo a cafeína de que tanto precisava, para o cérebro.
Emmett agora provava da combinação perfeita entre observar a cidade e tomar seu tradicional café: tudo parecia estar no seu devido lugar. No mesmo instante em que atingiu esse pensamento, porém, enquanto olhar sereno ainda vagava pelas ruas ao longe, sua mente o fez hesitar: as mesmas esquinas distantes que alcançara com os olhos, arrastaram-no de volta às memórias evitadas. Antes que pudesse mergulhar em qualquer uma delas, apertou os olhos em piscares descompassados e pôs-se de frente para sua mesa, forçando-se a limitar sua atenção à pasta de documentos que o esperava desde o breve início daquela manhã. Deixando a xícara, agora vazia, de lado, colocou-se de coluna ereta na cadeira e finalmente dispôs-se a abrir a pasta branca e tomar providências diante dos documentos que eram de sua responsabilidade. Sabia que seria outro dia longo, como a grande maioria havia sido nos últimos anos; mas, preferia pensar que aquele era dos menores desafios que já havia enfrentado entre curtos períodos de tempo.
Hoje, sentado na cadeira do couro mais fino, usando as roupas mais caras, e exercendo a postura mais convincente que podia, tentava não transparecer todo o passado que ainda corria pela sua mente 24 horas por dia. Sua vida nem sempre fora assim e lembrava-se com clareza disso a todo minuto. Apegava-se às pequenas coisas e hábitos, na tentativa de substituir detalhes do passado, um a um. Tomava café em momentos aleatórios, na esperança de que a cafeína o mantesse focado nas tarefas, longe das memórias mais longas que sua mente podia gravar. As lembranças que ainda tinha da guerra, do quartel e da vida que vivia antes de todas essas coisas, o aturdiam a todo momento vago – e “vago” era a palavra mais assustadora com a qual podia conviver. –. No fundo da sua alma, mais do que em sua mente ou coração, sabia que o vazio era, porém, a melhor forma de preencher as dores que mascarava. Lá, nos vazios tão mal preenchidos, estavam muitas das cicatrizes que ainda o feriam, e essas transpassavam a linha de costura em seu braço direito. A certeza de que não seria capaz de lembrar de um só fato sem descosturar outra vez a ferida que ainda coagulava, o fazia evitar até as memórias mais felizes, e assim, acabava por viver seu dia-a-dia público como se essa fosse a única vida à longo prazo que já havia vivido.
****
Aproximadamente três horas depois de finalmente sair de seu transe particular, o telefone preto no canto da mesa chamou a atenção de Emmett, com seu som insistentemente alto ecoando pela sala. Ainda com a caneta entre os dedos, ergueu a mão livre e levou o telefone ao ouvido.
—Emmett Cullen; quem gostaria? — imaginando que se tratasse de assuntos profissionais, atendeu da forma mais formal de que lembrou-se. -
—Sou eu, filho. — a voz de Carlisle soou tranquila do outro lado da linha. — Como estão as coisas? — Emmett descansou a expressão tensa do rosto e pigarreou, antes de entoar a voz outra vez. -
—Tudo bem por aqui. — tentou parecer tranquilo e falhou miseravelmente com o resquício de cansaço na voz. — Como está tudo por aí? Aconteceu alguma coisa? — desviou o assunto, tentando parecer preocupado, ainda que esperasse pela resposta rotineiramente negativa à última pergunta. -
—Ah, não se preocupe. — Carlisle sorriu, do outro lado. — As coisas estão normais por aqui. Apenas liguei para chamar-te para almoçar conosco hoje. Saia mais cedo, colocaremos à mesa ao meio-dia.
—Certo, estarei em casa por volta das 11h30min. — Emmett respondeu, pensativo. — Antes, preciso terminar os relatórios e, na saída, entregar os documentos assinados para Joanne. — esquivou os dedos ocupados da caneta na mão direita, e deixou-se apoiar a cabeça na mesma, fechada em punho. -
—Ótimo, ficaremos esperando. — Carlisle fez uma pausa. — Avisarei Edward e Jasper para que venham também mas, caso os veja, avise-os por mim.
—Claro, sem problemas. Até mais tarde, pai.
Ao bater leve do telefone soar do outro lado da linha, Emmett afastou o gancho do ouvido e fez o mesmo que acabara de ouvir. Antes que pudesse voltar à concentração em que estava inserido antes do toque do telefone, respirou profundamente e relaxou o corpo tenso na cadeira estofada. Os ombros largos estavam cheios de tensão, as costas forçavam-se a manter a postura ereta e os pés latejavam dentro dos sapatos formais. Ao menos uma coisa estava certa: sua mente o tinha deixado em paz. Esse era o ponto alto daquele momento.
Por assim pensar, Emmett permitiu-se aproveitar do momento e levantou-se da cadeira, finalmente compondo-se numa posição mais agradável. Atentou os olhos para os envelopes amarelos, endereçados com os respectivos nomes de seus destinatários, e antes que pudesse esquecer, tomou-os em uma das mãos para entregar à secretária. Antes de sair pela porta, organizou os documentos avulsos na mesma pasta branca aberta pela manhã, e trancou-a na gaveta principal da mesa. Agarrou a maleta de couro na outra mão, ainda livre, e saiu pela porta, deixando-a sem tranca atrás de si.
Depois de breves passos até o centro do andar, Emmett encontrou Joanne sentada na mesma cadeira de sempre, atrás do grande balcão de madeira polida.
—Joanne, estou saindo mais cedo à pedido de Carlisle. Preciso que entregue esses envelopes às pessoas endereçadas, e, por favor, que tranque minha sala com a chave reserva. Estou com um pouco de pressa, então, acabei esquecendo-me de fazer isso. — Emmett pousou os envelopes sob a mesa e esperou o consentimento da moça, um tanto confusa com tantas ordens. -
—Está bem, Senhor McCarty. Entregarei os documentos antes do fim do expediente e trancarei sua sala agora mesmo. — Joanne anuiu, sorrindo gentilmente. -
—Muito obrigado. — sorriu, dirigindo-se ao elevador, agora sem tanta pressa quanto antes. -
Enquanto os andares passavam lentamente sob seus pés, conforme o balançar da grande máquina alertava pausadamente, de segundos em segundos, Emmett torcia para que ninguém precisasse apertar um dos botões do outro lado das portas, a cada andar que se seguia. Encontrar alguém agora significava, entre milhares de coisas que o tiravam a paciência, ser obrigado a forjar um sorriso e carregar assuntos banais desinteressantes até o andar térreo.
Como se as vontades do universo não condissessem com as suas, a figa feita com os dedos da mão direita, atrás das costas, desfez-se automaticamente à pausa brusca do elevador. O susto afastou seus pensamentos e induziu os músculos por todo seu corpo a se tencionarem numa postura mais ereta. O suspiro de impaciência escapou por sua boca.
Antes que pudesse desviar os olhos da figura prestes a adentrar o pequeno espaço, o riso familiar, vindo da mesma, chamou sua atenção. Como num relance involuntário, seus olhos alcançaram o olhar esverdeado brincalhão do outro lado das portas. Reconheceu imediatamente: os cabelos cor de bronze despojados no alto da cabeça não deixavam dúvida.
—Ora, ora! — um sorriso formou-se nos lábios de Edward, que alcançava o "irmão adotivo" com um cumprimento de mãos, seguido de um abraço breve. — Também está de saída? — Emmett sorriu, dessa vez realmente feliz, enquanto maneava a cabeça positivamente -
—Carlisle pediu que eu saísse mais cedo para almoçar em casa. Aliás, pediu-me que desse o mesmo recado à você. — Edward sorriu, recostando-se à uma das paredes do elevador -
—Claro, imaginei. Ele ligou em minha sala e disse o mesmo. Saindo daqui, irei apenas buscar Isabella e estarei à caminho do nosso tal "almoço". — Edward enfatizou as aspas na fala, deixando Emmett intrigado.
—Acha que Carlisle pode ter algo importante para dizer? — o tom de voz de Emmett abaixou, conforme sua dúvida aumentava. Edward, por sua vez, riu brevemente antes de responder. Gostava de como o irmão podia ser sério em determinados momentos.
—Para mim, está claro que não. Conhece Carlisle e Esme, sabe que fazem de tudo para unir a família e harmonizar nosso convívio. — fez uma breve pausa e continuou — O trabalho não chega a ter metade da importância comparado à família, para eles; tentam nos transmitir esse ideal por meio de encontros como esse. — Edward deu de ombros, enquanto um sorriso de orgulho em relação aos pais alcançava seus lábios.
Emmett, por sua vez, sorriu. Era bom sentir-se tão bem encaixado em um grupo de pessoas — como se aquele lugar estivesse reservado para você, desde sempre -. Sentia-se querido entre os Cullen; sentia-se como um deles. A família que o acolheu e deu-lhe um lugar à mesa na noite em que estava prestes a morrer de fome, frio e melancolia, trouxe muito mais do que roupas limpas, conforto e alimento — que, conforme dizia Jared, seu pai biológico, era o necessário para a vida feliz do homem -. Os Cullen trouxeram-lhe, além do despertar da felicidade e do amor que há muito já acreditava não existir mais dentro de si, um pai de verdade, uma mãe de coração e os irmãos que nunca tivera — e que, no entanto, sempre pedira aos céus -. Não obstante, ainda pôde desfrutar da sensação de sentir-se vivo outra vez. Finalmente haviam bons motivos para levantar-se da cama ao nascer do Sol; e, bem, não eram exatamente aqueles motivos puramente obrigatórios. Era um daqueles motivos de endereço fixo e nome completo, que faz o coração descompassar num relance. Era um motivo específico, de olhos frios em cor de mel.
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