Across The Frontline

22 Capítulo 22 - Faca de Dois Gumes


Notas iniciais
Olá, amores! Espero que estejam bem! Esse capítulo ficou um pouco longo, mas tá cheio de interações entre o nosso casal, então espero que gostem! Boa leitura! ♥

Na quarta-feira, quatro dias depois do casamento, a casa dos Cullen amanhecera diferente: não só porque as coisas de Jasper estavam definitivamente em sua nova casa e ele estava longe dali, em lua-de-mel com Alice, mas porque Rosalie havia tido a conversa sobre um novo trabalho com os pais no começo da semana e, com a ajuda de Emmett, ela os convencera de que precisaria ao menos sair para comprar algumas coisas para seu novo "escritório" — o que aconteceria naquele dia.

A proposta que surgira com a conversa — e que havia levado àquela "necessidade" — fora que, se quisesse, ela se juntasse a Carlisle e os irmãos no negócio da família, aproveitando para aprender e assumir algumas coisas da função de Jasper enquanto ele estivesse fora. Embora não tivesse certeza do quanto gostaria do que quer que fosse fazer lá, havia também uma parte sua que já estava há muito animada com a ideia de trabalhar com o que quer que fosse, então Rosalie aceitara de bom grado, pensando — e tendo dito também — que se aquilo acabasse sendo algo que não gostasse de fazer, ela ainda poderia procurar outras coisas pela cidade — com o que Emmett se comprometera a ajudá-la também, se precisasse.

Assim, em uma questão de minutos depois do horário em que Emmett costumava sair da terapia — o único motivo pelo qual ele saía mais cedo do trabalho uma vez por semana -, Rosalie o encontrara esperando por ela, conforme o combinado, com o carro estacionado ao meio-fio em frente à casa.

—Boa tarde. — Rosalie disse ao entrar no carro, e sorriu com um olhar de relance para o ex-soldado enquanto se acomodava.

Emmett a olhou com um ar de riso.

—Boa tarde. — ele respondeu, sem conseguir evitar de curvar os lábios e olhá-la com curiosidade.

—O que? — ela retrucou, segurando um sorriso.

—Nada. Só não estava esperando as formalidades de volta. — ele deu de ombros, olhando dela de volta para a estrada com um sorriso reprimido.

—E o que você estava esperando, exatamente? — ela arqueou uma sobrancelha, e se aproximou só o suficiente para falar em voz baixa — Um beijo que todas as pessoas da rua e depois da cidade pudessem ver e comentar? — ela desafiou com incredulidade.

—Bem, não posso dizer que eu reclamaria. — Emmett respondeu, fingindo displicência até sentir o olhar acusador dela sobre seu rosto — Estou brincando. — ele riu então, olhando-a de relance com um sorriso divertido e longo.

Rosalie o encarou contrariada, mas logo não podendo evitar de sorrir enquanto sua memória se esforçava para, através dos olhos, gravar cada parte da expressão alegre que ficava tão bem no rosto dele. Ela estava certa de que uma centena de rostos sorridentes no mundo inteiro perderiam o significado e a honestidade em vista daquele.

E, sentindo o olhar dela sobre seu rosto outra vez, Emmett a encarou de volta com um sorriso breve, os olhos pairando nos seus com um tom de segurança, quando acrescentou.

—De toda forma, as formalidades meio que ficam bem em você. — ele assentiu, e Rosalie riu com gosto, negando com a cabeça, quando ele acrescentou num tom de cautela — Exceto quando fica brava de verdade. Aí se torna um pouco intimidante.

Com isso, Rosalie riu, jogando a cabeça para trás por um instante.

—Que ótimo. — ela se vangloriou com graça, sorrindo satisfeita.

—Exceto pra mim, é claro. Eu acho adorável. — o ex-soldado esclareceu, dando de ombros outra vez, mas agora com um sorriso divertido de satisfação nos lábios.

E assim, ele estendeu uma mão discretamente, ao nível do banco acolchoado, para ela — que, sorrindo contrariada, entrelaçou os dedos aos dele.

Dali em diante, foram poucos minutos até que Emmett estacionasse o carro nos arredores de uma loja de artigos de decoração e papelaria, e um pouco mais até que os dois — ele e Rosalie — estivessem saindo pela mesma porta com os braços ocupados por caixas.

—Bem, isso foi divertido! — Rosalie sorriu largo, ajeitando o que carregava e caminhando com entusiasmo.

—É, até que foi. — Emmett deu de ombros, segurando um sorriso que libertou quando a loira o olhou em cobrança. Tendo o que esperava, ele se corrigiu, rindo — Certo, realmente foi. Principalmente a parte daquela moça com o jornal, nos reconhecendo. Eu nunca vou me acostumar com isso. — ele arregalou um pouco os olhos, surpreso e ainda se divertindo.

—Ela foi realmente engraçada, mas a sua surpresa só tornou tudo ainda melhor. — a loira riu, se divertindo também — Fazia algum tempo que nada importante acontecia pra um de nós aparecer lá, mas era de se esperar que o casamento de Jasper e Alice fosse suficiente. É melhor você se acostumar com isso. — ela olhou-o de relance, ainda sorridente, e alongou o sorriso conforme Emmett arqueou as sobrancelhas numa espécie de "quem sabe".

Conforme os dois se aproximaram do Jeep, o ex-soldado ajudou Rosalie a abrir a porta do lado do passageiro e depois foi para o do motorista fazer o mesmo, se esticando para o banco de trás.

—Eu nunca vou entender pra que tantos quadros. — Emmett disse então, pousando a caixa que carregava no banco de trás do carro.

—Eu já disse, aquele escritório precisa de uma decoração decente, e quadros tornam os lugares mais decentes. — Rosalie disse como se fosse óbvio, batendo as mãos na roupa depois de pousar sua caixa no banco também — O que eu nunca vou entender é você ter cismado com esse tapete. Se tivessem outros mais sérios e bonitos que não fossem tão pequenos, eu teria deixado ele lá.

—Ah, pare com isso. Esse é perfeito, é confortável o suficiente, mas também sóbrio pro seu escritório... — ele começou a dizer, num tom satisfeito, deslizando os dedos pelo tapete enrolado que acabava de pôr sobre as caixas.

—Confortável? — Rosalie arqueou uma das sobrancelhas — E quem é que vai sentar nesse tapete no meio da minha sala? — ela o encarou e viu sua expressão pensativa, o que a fez rir genuinamente, jogando a cabeça para trás. Emmett a encarou com um sorriso contrariado, quase rindo.

—Eu vou, está bem? Não seja por isso. — ele riu também, vendo a loira se recompor, assentindo com um sorriso divertido.

Fechando as portas do carro, os dois ficaram de frente um pro outro atrás do veículo: Rosalie na mira do Sol morno da tarde, os olhos se estreitando para ver a figura alta melhor diante de toda a luz, e os cabelos reluzindo numa espécie de tom de ouro conforme o Sol tocava os fios loiros, que eram jogados pra mais longe com a brisa leve. Emmett, assumindo o espaço à sua frente, fez uma sombra parcial que atenuou o calor em seu rosto, e sorriu ao passar os olhos por sua figura, levando as mãos aos bolsos conforme uma ideia surgiu.

—Nós podíamos ir àquela sorveteria que vimos no caminho. Está bem calor, e acho que merecemos. — ele inclinou a cabeça em sugestão, dando de ombros.

—Parece uma boa ideia. — Rosalie assentiu, sorrindo leve enquanto fitava os olhos muito azuis acima de sua altura. E, quando o fez, ao passo que Emmett continuou a encarando de volta com um sorriso longo, pareceu haver um momento de concessão, um lapso de irrealidade em que seus rostos estavam quase perto demais, mesmo em meio a todas as pessoas e carros que os viam.

Mas, que acabou no mesmo compasso em que fora percebido:

—Emmett? — uma voz feminina estranha aos ouvidos de Rosalie disse de mais ou menos perto, fazendo os dois se virarem naquela direção.

No mesmo momento, os dois pares de olhos diferentes pousaram na mesma figura: uma mulher pouco mais alta que Rosalie, os cabelos castanhos encaracolados caindo por sobre seus ombros, a pele negra reluzindo à luz do Sol, que deixava o sorriso em seu rosto e a expressão de dúvida ainda mais evidentes. Os olhos de Emmett se arregalaram conforme seu cenho franzido se desfez, e Rosalie mal pôde registrar o momento até que, depois de uma hesitação sem jeito de Emmett, os dois estivessem se abraçando fortemente.

—Anna! — o ex-soldado exclamou com um sorriso, as mãos nas costas da moça que o abraçava empolgadamente e com um enorme tom de alívio, erguendo-se nos próprios pés para colocar a cabeça em seu ombro. Rosalie notou, havia um sorriso longo em seus lábios e um riso à toa enquanto seus olhos estavam fechados e os braços ao redor de Emmett, que ria também e a levantara um pouco do chão com a empolgação do abraço.

—Meu Deus, há quanto tempo! — Anna disse com satisfação, analisando o rosto do ex-soldado e sorrindo conforme se afastaram: um sorriso sincero e perfeito.

—Há muito tempo mesmo! — ele respondeu com o mesmo tom, ainda sorrindo — Achei que não ia mais te ver por aqui!

—E eu, então! — ela disse como se fosse óbvio, sem poder conter o riso feliz que veio ao olhá-lo de novo, e Emmett entendeu o que ela quis dizer. — Onde é que você esteve? — ela pigarreou, a voz trêmula num misto de emoção positiva e negativa.

—Ah, aconteceram muitas coisas depois da guerra. — ele disse simplesmente, dando de ombros com um sorriso menos largo do que antes, e mesmo assim brincou — Mas, estou bem vivo. É o que importa, não é?

—É claro! — Anna assentiu na hora, sorrindo e suspirando com alívio — Você não imagina o quanto eu fiquei pensando sobre isso, sobre como você estava. Fico feliz de ver que está bem. — ela disse sinceramente.

—E eu por você. — ele sorriu de volta, assentindo, e com um momento de silêncio que de repente pareceu incerto, a presença de Rosalie na lateral do seu campo de visão se tornou mais notória — Ah, Rose, essa é a Anna, minha amiga de muito tempo atrás. — ele disse, olhando de relance para Anna, que assentiu e estendeu a mão para a loira, que aceitou com um sorriso fraco — E Anna, essa é a Rosalie... — ele disse num tom que fez parecer que acrescentaria algo, mas logo recuou, deixando aquele fim e um sorriso discreto para a sentença indefinida.

—Rosalie... — Anna sorriu, o cenho franzido em dúvida enquanto apertava a mão da loira, pensando — Rosalie Cullen?

—É, isso mesmo. — Rosalie afirmou simplesmente, um sorriso fraco nos lábios, e recolheu a mão de volta para si — E você é Anna... — ela sugeriu, em dúvida também.

—Anna Elizabeth Davis. É um prazer. — a outra sorriu, recolhendo a própria mão também, enquanto Rosalie apenas assentiu, querendo dizer "igualmente", mesmo sem ter certeza se era verdade.

Então, houve algum silêncio, até que Anna se virou de novo para Emmett, que recomeçou a falar.

—E então, você voltou da França antes da guerra?

—Ah, sim, pouco antes. Mas, você já estava no quartel. — ela explicou, e as sobrancelhas do ex-soldado se arquearam, esclarecendo certas coisas inexplicadas em sua cabeça — Visitei sua mãe algumas vezes, então tive notícias de que a infantaria em que você estava seria mandada para reforçar o pelotão na guerra... — e então, sua expressão suavizou numa de lamento — Sinto muito por ela, inclusive. Era uma pessoa ótima.

—Ah, obrigado. Fico feliz de saber que ela esteve com você ao menos algumas vezes. — Emmett sorriu com sinceridade, e depois de assistir ao sorriso de Anna de volta, talvez pelo assunto em que haviam tocado, a noção de que o tempo e pessoas estavam passando ao seu redor o fez dizer num tom de despedida.

—Bem, foi ótimo ver você, Liz. Mas, se não se importa, nós precisamos ir agora. — ele disse e arriscou um olhar de relance para Rosalie, que assentiu com um sorriso fraco e pouco natural.

—Ah, é claro, desculpe por segurar vocês aqui! — disse Anna, com uma expressão sorridente e de desculpas, quando se virou para o ex-soldado, mais suavemente — Foi ótimo te ver também, Emm, de verdade.

Em seguida, ela e Emmett trocaram um novo abraço apertado, e Anna estendeu uma mão para Rosalie depois, logo se afastando para o caminho que fazia antes e os deixando sozinhos de novo.

Uma vez assim, Emmett manteve os olhos por alguns instantes na figura que se afastava, pensamentos diversos lhe ocorrendo, quando o único que incentivou um sorriso de conclusão em seus lábios fizera Rosalie olhar da mesma direção de volta para ele, com o cenho franzido e os olhos estreitos ao levar uma mão à altura das sobrancelhas, fazendo sombra do Sol aos olhos.

Ela ficara alguns segundos assim, o observando, impassível — mesmo que por dentro a adrenalina da reprimida a estivesse corroendo, ainda mais se forçando a ficar parada aonde estava -, até que Emmett demonstrara reação, se virando para ela. Quando o fizera, Rosalie não esperara que a olhasse e caminhou até o carro, se ajeitando no banco do passageiro.

—Bem... — Emmett suspirou ao entrar no carro também, assumindo o volante com um sorriso — Isso foi legal. Uma coincidência incrível.

—Pode apostar. — Rosalie respondeu simplesmente, recostando o cotovelo na janela e o rosto na mão fechada em punho, o olhar na paisagem do lado de fora conforme o veículo começara a se mover. Engolindo a seco, ela completara, ainda sem olhá-lo — Se não se importa, eu queria ir pra casa. Podemos deixar o sorvete pra outro dia.

—Ah, — ele começara a dizer, confuso, e arriscou um olhar rápido para ela, dividido entre a dúvida e a preocupação — tudo bem. — e arriscou de novo, num tom cuidadoso — Aconteceu alguma coisa?

—Só não estou me sentindo bem. — ela concluiu, o que não era inteiramente mentira, e voltou a olhar para o lado de fora, ficando assim durante todo o caminho até a casa dos pais.

Não passou despercebido por Emmett o comportamento súbito de Rosalie, mas havia um "porém" na hipótese em sua cabeça que não o deixara puxar aquele assunto de novo, junto à ideia de que, se fosse a ideia quase impossível que estava passando por sua cabeça, aquilo seria pauta de uma nova conversa em breve. Afinal, ela podia ser habilidosa em muitas coisas, mas esconder o que estava sentindo e pensando, sobretudo por tempo demais, não era uma delas.

(...)

—Edward, você pode abrir a porta, por favor? — Rosalie gritou parada à porta da frente, uma caixa ocupando seus braços. Ouviram-se passos depois de alguns segundos, logo as chaves na fechadura, e então o caçula estava do outro lado da porta, dando espaço para que eles passassem.

—Seria bom gritar mais alto da próxima vez, Rose. Talvez o outro bairro não tenha ouvido você ainda. — Edward disse com um sorriso irônico, fechando a porta assim que Emmett passara por ele com um sorriso contido.

—Quem sabe eu grite. — a loira disse, pousando num dos degraus da escadaria a caixa que carregava, e se virou para o irmão com uma expressão de petulância e um sorriso falso, antes de se mover para sentar num dos sofás e se livrar dos sapatos de salto que calçava.

—Ah, então o passeio não foi bom? — ele instigou, olhando do ex-soldado para a irmã com um sorriso de quem se divertia nos lábios. Emmett, que estava esfregando as mãos uma na outra depois de colocar a caixa que levava também na escada, mal mencionou responder.

—Ah, não, foi ótimo! — Rosalie exclamou de repente, levantando as sobrancelhas e o olhar para o irmão mais novo, se forçando a sorrir enquanto se levantava — Emmett pode contar a você, mas pra resumir, nós conseguimos tudo o que eu precisava e ainda encontramos uma amiga dele. Um bônus e tanto, você pode imaginar. — ela sorriu forçosamente para o irmão enquanto passava por ele, desaparecendo na cozinha.

—Ouch. — Edward simulou o som num tom baixo, franzindo o cenho para Emmett e, contendo o sorriso que lhe veio, se aproximou — Então quer dizer que já estão nessa parte?

E com a pergunta casual, foi como se uma onda súbita de água muito fria acabasse de tomá-lo por inteiro, desfazendo a apreensão em seu rosto e nos seus gestos tensos: tudo substituído por uma grande inexpressão, algo entre a surpresa e estranheza, que parecera descolorir e congelar coisas demais em si para responder.

—Emmett, por favor, não fique surpreso assim. — Edward sorriu para ele, pousando uma mão em seu ombro, reconfortantemente — É claro que eu já havia percebido algumas coisas entre vocês, mesmo antes de Rosalie ceder. — ele disse como se fosse óbvio, e checou a porta da cozinha para ter certeza da ausência de Rosalie antes de completar. O mais alto recuperara o cenho levemente franzido enquanto o olhava de volta.

—Minha irmã pode ser realmente teimosa e coisas traumatizantes podem ter acontecido a ela, mas ela não sabe evitar o que sabe que quer, e sabe ainda menos esconder o que está sentindo. Por isso, acho melhor você ir falar com ela. — o caçula sugeriu com o mesmo sorriso de antes, e afagou o ombro do ex-soldado antes de se afastar até o sofá, serenamente.

Não levaram muitos segundos até que Emmett seguisse seu conselho e estivesse indo até a cozinha, com passos comedidos e um olhar atento que procurou por Rosalie antes mesmo de chegar ao cômodo — e quando o fez, não demorou para que seus olhos alcançassem a figura familiar inclinada num dos balcões de pedra fria.

Os pés descalços de Rosalie estavam colados ao chão, as mãos à beira do balcão, num apoio que parecia mais firme do que o necessário, e os cabelos loiros caíam por suas costas, pelo vestido de veraneio que usava, livremente. A direção do rosto, fitando os azulejos abaixo da janela, parecia dali fruto de uma perturbação, como Edward havia mesmo sugerido, e no entanto Emmett não pôde evitar de pensar o que teria falado se não fosse a ocasião: que, mais uma vez, ela estava impecável sob a meia luz do Sol que ainda alcançava-os ali.

Não havia um jeito bom de começar essa conversa porque, como lhe ocorrera antes, Emmett não queria arriscar que o estresse de Rosalie era por um ciúmes impossível e inesperado. Afinal, a pergunta que vinha morando em sua cabeça livremente nos últimos dias era a mesma cuja resposta incerta podia negar toda aquele hipótese — e que então, podia estar na cabeça de Rosalie também, onde as coisas podiam ser por motivos totalmente diferentes dos que imaginava.

—O que foi aquilo? — ele disse de repente, parando à meia distância de onde ela se sobressaltou.

—Do que você está falando dessa vez? — a loira retrucou, se virando para encará-lo, e suspirou quietamente enquanto esperava a resposta.

—Do jeito como você está agindo desde que encontramos com a Liz. — ele respondeu sem demora, e viu o maxilar de Rosalie enrijecer visivelmente sob a pele quando ela torceu o nariz e se esforçou para suspirar calmamente — Viu só! Está fazendo de novo.

—Ah, Emmett, pelo amor de Deus, você está vendo coisas! — ela quis se esquivar, mencionando sair para a sala de jantar com um rolar de olhos, mas Emmett lhe bloqueou a passagem na mesma hora — O que você está fazendo? Me deixe passar. — ela reclamou, o olhando rápido, mas impassível.

—Rosalie, você não precisa ficar na defensiva comigo, sabia? — ele inclinou a cabeça, tentando fazê-la olhá-lo, e quando ela só suspirou, se movendo hesitantemente, ele decidiu arriscar — Você está com ciúmes?

Com a pergunta, houve um silêncio delicado e incerto, em meio ao qual Emmett procurou o rosto de Rosalie de novo, como num incentivo à resposta, e ela trincou os dentes outra vez, erguendo o rosto para olhá-lo com o queixo bem erguido. Seu olhos eram dois sóis sob a luz alaranjada que entrava pela janela, tão impossivelmente lindos quanto impassíveis, tão inadequadamente desfrutável naquele momento que Emmett, por um instante, quase se esqueceu que as chances de que o que saísse de seus lábios em segundos poderia ter o poder oposto, de arremessá-lo para longe com frieza, eram consideráveis.

—Por que eu estaria? — a loira respondeu simplesmente, dando o seu melhor para soar inabalável, embora a vista doce do rosto acima do seu a fizesse sentir, no mínimo, indesculpavelmente desestruturada. Havia uma parte sua que sempre queria simplesmente ceder, desfazer todos os entraves que havia criado ao seu redor e correr o risco de se deixar vulnerável só pela justificativa de provar por completo, uma vez que fosse, da forma como ele a fazia sentir.

O porém que a impedia era a lembrança que aquela ocasião trazia: ali, inadmissivelmente enciumada de Emmett e sua dita amiga, relutando contra tantas coisas que lhe ocorriam por dentro, era impossível para Rosalie deixar de reconhecer o erro que cometera antes, com Royce, de se deixar sentir demais muito cedo, se deixando vulnerável à impiedosa faca de dois gumes que era o amor.

—É o que eu me perguntei também, e é por isso que quero saber de você. — Emmett devolveu, presumindo que a única maneira de fazê-la responder alguma coisa verdadeira era nivelando-se primeiro à franqueza incondicional dela.

E depois, é claro, à sensibilidade sincera que talvez a fizesse dar um passo de distância do estado defensivo que, ele queria tanto que entendesse, era desnecessário ali.

—Afinal, o que nós estamos fazendo aqui, Rose? — ele perguntou num tom mais baixo, disposto ao risco que dizer o que estava sentindo conferia diante dela — O que é isso entre nós?

Então, houve uma pausa e Rosalie umedeceu os lábios discretamente, antes de finalmente erguer o rosto sem intenção de resistência quando deixou-se amparar os olhos nos azuis graciosamente estreitos dele.

—Olhe, Emmett, eu gosto realmente muito de você e de estar com você, eu não acho que preciso dizer isso. — ela disse honestamente e serenamente, para a surpresa de Emmett, embora ainda houvesse um quê de obviedade a contra gosto -E hoje descobri também que odeio a ideia de você estar com outra pessoa. — Rosalie completou, hesitando com os lábios entreabertos e depois os fechando enquanto baixava o olhar, apenas para voltar com alguma espécie de coragem reunida.

—Mas, é mais complicado do que isso. Eu já disse, não preciso e não quero mais pessoas como a mãe de Royce falando mal e importunando a mim, à minha família, e a você também, — ela disse ansiosamente, as sobrancelhas se unindo ao cenho enquanto gesticulava — e é isso o que vai acontecer se nós sairmos por aí dizendo que somos... — e então a incerteza de novo — Que somos um... — ela desviou os olhos da figura dele, como se procurasse pela palavra.

—Que somos o que? — Emmett instigou, colocando as mãos nos bolsos da calça, sem deixar de fitar os olhos dela, que não estavam nos seus, até que, com alguns segundos de silêncio inquietante, ele resolveu dizer.

—É disso que eu estou falando, Rose. Eu não estou questionando sobre as pessoas de fora, porque já conversamos sobre isso. Só o que estou querendo saber é o que há entre nós, para nós mesmos. — ele esclareceu, dando de ombros, e quando Rosalie suspirou, acrescentou — Até o seu irmão acabou de me dizer que percebeu o que há entre nós, e eu mesmo não soube dizer o que é. E agora nem você, pelo visto.

—Edward sabe? — Rosalie franziu o cenho, numa surpresa inconveniente e impossível de camuflar, e à qual Emmett apenas assentiu.

—E sinceramente, Rose, eu não vejo razão pra não deixarmos que todos eles saibam de uma vez. Assim, pelo menos, podemos ficar confortáveis aqui e entre eles, que é seguro. — ele opinou sinceramente, e deu um olhar para os arredores antes de voltar a ela, descansando a postura e lembrando sabiamente — Mas, primeiro precisamos saber o que estamos fazendo, não é?

—É. — Rosalie quis assentir, mas apenas disse, suspirando discretamente e desviando o olhar enquanto pôde — Você... Você provavelmente tem razão. — ela cedeu num tom baixo, e Emmett quis sorrir, mas não arriscou até que ela o olhasse sem toda a implacabilidade intimidante de antes. Talvez, na melhor tentativa de rendição e a mais doce que ela podia demonstrar.

—Eu acho que, então, estamos juntos, não é? — e encolheu os ombros, quase sorrindo — Quero dizer, juntos de verdade. — Rosalie corrigiu sem jeito, e fitou Emmett com expectativa. Ele, no entanto, só a encarou com a cabeça inclinada, como se esperasse por algo melhor.

—Ah, vamos lá, Emmett, eu estou me esforçando aqui! — Rosalie protestou de imediato, dando as costas para ele até alcançar a bancada aonde estava antes, e se virou de volta gesticulando com impaciência — Eu sei lá do que as pessoas chamam isso quando não são mais adolescentes.

—Namoro? — Emmett sugeriu com tom de obviedade, arqueando uma sobrancelha pra ela com diversão, que subitamente parou de se mover tão abruptamente quanto antes, o rosto quase inexpressivo, como se refletisse. Ele aproveitou o momento para brincar, dando de ombros — Acho que é válido pra todas as idades.

—Certo. Namoro. — a loira acenou com a cabeça lentamente, dando alguns passos na direção do ex-soldado, sem olhá-lo para processar a informação, até parar em sua frente — Eu nunca achei que ainda fosse namorar depois dos quinze anos, mas posso me acostumar com isso. — ela confessou, dessa vez sem poder segurar o sorriso, e esticou a mão timidamente para alcançar a dele, ao lado do corpo.

—Que bom, porque eu definitivamente também posso. — Emmett sorriu longamente, entrelaçando a mão dela à sua, e a outra no rosto de Rosalie, quando ela se ergueu levemente nos próprios pés para alcançar o dele também. Ambos convergindo para o único sentimento possível entre si: um que compensava a possibilidade de se deixar machucar, por todas as outras coisas boas que vinham em contrapartida.

Exatamente como uma faca de dois gumes.

Notas finais
E aí, o que acharam? Uma surpresinha pro nosso casal a Anna, né? Por outro lado, isso fez eles finalmente entrarem em acordo sobre o que são! O que acharam disso? E a Rosalie abaixando a guarda um pouquinho, hein? Nossa garota tá se esforçando! Será que vai dar bom? Me deixem saber o que acharam e palpites nos comentários! Se cuidem e até o próximo capítulo! ♥