Across The Frontline

17 Capítulo 17 - Terapia


Notas iniciais
Oioi, amores! Espero que estejam bem! Pra começar, esse capítulo é inteiramente sobre o Emmett e suas memórias, traumas que ficaram inexplicados. Ainda tem bastante por vir, mas aqui fica uma perspectiva importante pra entender o nosso ex-soldado. Nos últimos capítulos estive tentando manter a frequência das postagens em uma semana, mas têm ficado realmente estreito pra conciliar com as coisas da rotina, por isso demorei um pouco mais com esse. Possivelmente com os próximos será parecido, mas vou tentar manter as atualizações dentro desse prazo de no máximo duas semanas. A motivação às vezes têm sido um fator, então quero agradecer muito à maravilhosa Nanda Reed, que têm me inspirado muito pra continuar escrevendo e publicando essa história! Muito obrigada, flor! Pessoas como você fazem toda a diferença! À Nanda e a todos que estiverem por aqui, uma boa leitura! ♥

Cinco dias haviam se passado desde a ida de Rosalie e Emmett ao abrigo. Depois daquela tarde, eles haviam voltado à mansão dos Cullen com uma Rosalie um tanto mais tensa do que aquela que havia deixado o abrigo na companhia do ex-soldado, e isso porque o "encontro" com a sogra — para entregar-lhe uma caixa com os pertences do falecido filho — fora, como sempre, estressante.

Afinal, a recepção não fora nada calorosa e ela havia relutado em aceitar a ideia da doação do restante das coisas, até que com algumas palavras ilusórias do marido, cedera. A essa altura, porém, já havia dito à Rosalie muitas coisas que a fizeram segurar o ar para não responder, e fora ali que Emmett interferira — surpreendendo-a também.

—Sra. King, eu sinto muito pela perda do seu filho, mas não posso deixar que a senhora fale assim com Rosalie. Eu estive lá bem no momento em que Royce se acidentou e posso garantir que se há uma vítima nessa história, ela está bem aqui na sua frente.

E indicou Rosalie com a cabeça, muito sério. Ela piscava exageradamente e parecia prestes a interferir, quando ele continuou.

—Eu entendo que seja doloroso aceitar isso e que a senhora prefira ter a imagem que criou de seu filho na memória. Isso não é problema meu, mas já basta de tratar Rosalie assim. Se nos dá licença, acho que já fizemos o que estava planejado aqui.

E com isso, Emmett guiara a loira para a porta da frente, por onde voltaram ao carro e à casa dos Cullen, por fim. Ela insistira contra ele que não precisava daquilo — que ele a tivesse defendido — e por isso parecia ainda mais estressada quando regressou à casa dos pais. Apesar disso, dessa vez, o moreno não recuara nem um pouco e dissera que aquilo era o certo e já estava feito, gostasse ela ou não.

Com o passar dos dias, o estresse foi esquecido e naquela tarde de quinta-feira, como havia feito desde a anterior, Emmett saíra mais cedo do trabalho na Cullen's para ir à sessão de psicoterapia. O lugar não era muito longe, mas a duração de uma hora faria com que coincidisse com seu horário real de saída do trabalho, então ele fora de carro para que, uma vez saindo de lá, fosse direto para a casa — além do fato de que estava chovendo bastante e ele não tinha um guarda-chuva naquele dia.

Já faziam dez minutos que ele estava sentado numa sala de espera de tamanho razoável, acomodado numa poltrona acolchoada, observando as folhas de uma planta à sua frente se moverem com o vento úmido da chuva, quando a porta à sua direita se abriu.

De lá, a figura conhecida de um homem de meia idade espreitou pela porta antes de abri-la por completo e sorrir brevemente na direção do ex-soldado. Não demorou para que Emmett reconhecesse o terapeuta, Mr. Philips — ou como haviam estabelecido, apenas Dominic, para que se tratassem pelo primeiro nome.

—Emmett! — ele chamou e cumprimentou ao mesmo tempo, quando o moreno avançou para apertar sua mão — Entre, por favor. — e deu espaço para que ele fizesse — Havia muito tempo que estava esperando?

—Não, não realmente. — Emmett negou sorrindo leve e acomodando-se na poltrona de costume, vendo o terapeuta caminhar calmamente até seu lugar — Só havia alguns minutos, mas de toda forma, eu gosto de chegar com antecedência.

—Eu notei. — Dominic respondeu simplesmente, os olhos baixos numa prancheta com muitas folhas que ele acabara de pegar. Emmett esfregou as mãos nas coxas ao silêncio.

—Bem, hoje vamos dar início de fato ao que conversamos no primeiro dia. — ele explicou, erguendo os olhos do papel e dispensando-os do lado — Mas, primeiro quero saber dos eventos dessa semana, brevemente. O que você tem sentido, os pesadelos, relapsos...?

—Certo. — Emmett assentiu, repassando na cabeça a semana até ali, e pigarreou antes de falar. Ainda achava estranho, apesar de até então boa, a ideia de sentar ali e contar a vida a uma pessoa que acabara de conhecer, mesmo sabendo que era muito mais do que isso.

—Bem, sem pesadelos, pra começar. — ele suspirou, pensando — No entanto, houveram alguns pensamentos aqui e ali, lembranças, mais do que de costume. E tem sido assim desde que visitei o abrigo em que costumava ficar, há alguns dias atrás, o que foi um misto de coisas bem estranho também. — ele pensou um pouco, umedecendo os lábios distraidamente.

—Mas, de toda forma, tenho tentado me manter distraído dessas coisas, apesar de estarem passando mais do que acho possível na cabeça, então no tempo livre e sozinho, retomei as corridas pelo bairro. Às vezes me exercito no jardim também e até tenho feito reparos pela casa. Não é como se resolvesse, mas ajuda um pouco. — Emmett deu de ombros, concordando consigo mesmo.

—Certo, certo. — Mr. Phillips assentiu devagar, tendo voltado a anotar, e parando para encarar o paciente de novo, juntando as mãos — Sim, eu imaginei que fôssemos chegar nesse ponto. Sobre o que eram os pensamentos exatamente, você se lembra?

—Sim, me lembro. Eles têm estado particularmente entrelaçados e confusos ultimamente, mas sei que haviam cenas com o mar, onde nos estávamos desembarcando... Acho que era a Operação Neptuno, na Normandia. — ele pensou, recordando rápido com os olhos na parede clara.

—E haviam outras; a mais longa de que me lembro ainda foi a mesma dos pesadelos. — ele pigarreou, enrijecendo o maxilar sem perceber, antes de falar — Do dia em que Andrew foi atingido.

Houve algum silêncio enquanto Dominic fitava McCarty, depois as próprias mãos, e enfim ajeitou os óculos, pegando os papéis e a caneta devagar.

—Certo, sim, faz bastante sentido. — ele deixou de arrastar a caneta, acrescentando algo breve ao que já estava escrito e tirou os óculos do rosto — Ao fim da sessão eu te explicarei o por quê. — garantiu, se levantando para pegar um copo de água noutro canto, processo em que houve algum silêncio, Emmett o observando cautelosamente, até que voltasse a se sentar.

—Agora, se estiver à vontade com isso, nos acomodaremos como na semana anterior para iniciar de fato mais uma sessão da nossa terapia regressiva. — ele sugeriu e Emmett assentiu, ajeitando a postura na cadeira — Dessa vez iremos mais longe do que na primeira, quando fizemos só uma ambientação do cenário, você se lembra?

—Sim, perfeitamente. — ele concordou na mesma hora, vagando com os olhos claros por outro canto — Eu recordei o lugar, algumas pessoas, alguns sons, mas sem "reviver". Só "observando", foi como pareceu.

—Precisamente. Muito bem, Emmett. — Dominic assentiu com veemência, cruzando as pernas na poltrona — Lembre-se, você sempre vai estar consciente, com os pés aqui, como disse na sessão anterior. Mas, dessa vez você vai estar no seu lugar nessa memória, agindo também. Certo?

—Certo. — ele concordou devagar, assimilando.

—Muito bem, então. Se acomode como preferir, fique confortável e quando estiver pronto começaremos a contar as respirações. — o terapeuta anunciou, a voz muito calma, sem sair do lugar onde sentava-se.

Emmett se acomodou melhor na poltrona reclinável, os pés calçados fora do estofado e os braços seguros no apoio. Quando o corpo descansou numa posição confortável, de peito para cima, ele deitou a cabeça no alto da cadeira e fechou os olhos, preparado para prosseguir à voz do terapeuta, ocupando enfim toda a poltrona com seu corpo alto, grande e aos poucos em estado de descanso.

Muito perto dali havia um divã, mas Emmett ainda se sentia... Vulnerável, talvez fosse a palavra, demais nele. E além do mais, a cadeira ganhara sua confiança com o conforto comedido e o balanço leve que fazia quando ele se inclinava, o que ajudava-o a relaxar mais facilmente — como começava a fazer agora, acompanhando a contagem calma e cada vez mais distante de Dominic. Os olhos fechados encarando espaço em branco em sua mente, começando a render-se àquela linha tênue...

E de repente, lá estava ele outra vez.

O chão firme sob seus pés, numa espécie de areia mais consistente do que a da beira do mar e levemente coberta por uma grama fina. O cheiro de sal se misturando ao de pólvora e à umidade quente. O mar estava longe o bastante, mais do que os destroços ao seu redor, mas era um bom e quase único ponto de referência à vista — se Emmett já não soubesse onde estava.

—Onde você está? — a voz de Dominic ressoou ao redor dele, como se viesse do céu claro sobre sua cabeça.

—Eu estou na... Na Península de Cotentin. — o Emmett imerso na memória estreitou os olhos, observando os detalhes ao redor, lentamente — Uma praia.

—E que ano é esse, você sabe?

—É 1944. Junho de 1944. — ele acrescentou, conforme se lembrava da data pra que fora planejada aquela missão, passada para eles pelo comandante — Nós estamos fazendo o bloqueio da península, mais uma fase da Operação.

—Você se lembra como chegou aí? — a voz continuou, calma e distante.

—Nós desembarcamos em Utah há dias, conquistamos o lugar e... — ele hesitou, sem saber por quê, e logo continuou — Devíamos ter feito o bloqueio no primeiro dia, mas não conseguimos. E depois daqui, devemos ir para Cherbourg... — ele começou a ansiar, vendo o caos ao redor, mas a voz o interrompeu.

—Muito bem, concentre-se no momento. O que você está vendo?

—Eu estou vendo... — o corpo de Emmett, deitado no consultório, se moveu com um suspiro pesado, observado por Dominic — A praia, os destroços. Têm coisas por todo lado, arame farpado destruído, munição pelo chão, armas.

—Há corpos em alguns lugares, mas longe de onde eu estou. E eu... — na memória, ele se viu recostado em algo metálico e identificou, se apercebendo do próprio corpo — Eu estou sentado atrás do que restou de um barco da Operação Anfíbia.

—O que você está ouvindo? E há algum cheiro?

—Sim, tem o cheiro... — no consultório, Mr. Phillips o viu puxar o ar profundamente, como se tentasse sentir — Muitos cheiros, mas se confundem. O cheiro de praia, sobrecarregado pelo da pólvora. — ele franziu o cenho — E eu estou ouvindo, sim, os tiros e os gritos. Muitos, aqui e lá, se confundem também.

—Há alguém perto de você?

—Bem, há soldados... — ele hesitou, e na memória, constatou o que dizia olhando ao redor -Soldados como eu, em todo o lado.

Com a pausa de alguns segundos, Dominic observou o corpo e rosto muito quietos de Emmett, imóvel na cadeira, e na memória o ex-soldado se viu olhando para o lado esquerdo instintivamente. O calor do corpo surgiu na mesma hora que a imagem, e sem perceber, seus traços suavizaram no rosto de repente. Ele estava lá.

—E o Andrew. Andrew está comigo.

Flashback on

Tudo ao redor era um caos no terreno praiano de Cotentin. Haviam destroços por toda a areia e para onde a grama começava a se estender, e outros boiando na parte rasa da água muito azul à pouca distância. Ora barcos, revirados ou desmantelados mais perto de onde o mar ressoava indiferente à guerra, ora munições e armas perdidas pelo caminho, junto aos pedaços de arame farpado cortados e corpos sem vida, que tingiam a areia branca e a grama verde de vermelho sangue, mais ou menos perceptíveis entre a correria e os gritos de lá pra cá.

De alguma forma, o caos era familiar o suficiente pra que não fizesse real diferença para nenhum dos seus componentes vivos, sem tempo pra pensar em qualquer coisa que não fosse a mira no alvo seguinte, a munição da arma que levava, e no máximo, o companheiro ao lado — como era o caso de Emmett, atrás de um barco metálico resistente e revirado, recarregando sua arma com os olhos alternando entre os arredores, o que fazia e o melhor amigo ajoelhado ao seu lado.

—Seu maldito nazista imortal. — Andrew Collins esbravejou consigo mesmo, abaixando-se de novo naquela espécie de barreira enquanto os tiros ressoavam naquela direção sem acertá-los — Vai ficar recarregando essa aí até quando? O dia inteiro? — ele arqueou uma sobrancelha, apressando Emmett com um tom de zombaria, mas se levantando de novo para atirar no mesmo alvo antes que ele respondesse.

—Acabei de me abaixar, seu idiota. — Emmett respondeu, reprimindo o ímpeto inapropriado de rir, que entendia tão pouco quanto a forma como Andrew ainda conseguia fazer aquelas brincadeiras disfarçadas no meio de tanto horror — Não deixe que eles cheguem nos seus nervos. Vamos acabar com eles. — ele garantiu, retomando a expressão séria e engatilhando a arma conforme se levantara rápido, voltando a atirar nos muitos alvos adiante, um de cada vez, muito concentrado.

O recuo da submetralhadora americana que tinha em suas mãos fazia seu corpo chacoalhar um pouco toda vez que apertava o gatilho, segurando-a firme nos dedos e contra os braços fardados. Um de seus olhos estava sempre onde podia mirar com maior precisão, o outro ora fechado ajudando no foco, ora só seguindo a visão do outro para não arriscar pontos cegos perigosos. O som dos tiros era grave, mas estridente e característico. Enchia seus ouvidos e de todos os outros, assim como os muito altos das bombas e os gritos de comando ou horror que se confundiam no fogo cruzado.

—Abaixe! — Collins gritou, fazendo-o obedecer rápido e confuso, atirando por cima de onde ele estava e para a esquerda. Emmett voltou a ficar de pé e atirar à toda volta quando o amigo recuou, abaixando-se atrás do barco.

Nos momentos que se seguiram, como na maioria, quase não houve conversa ou troca de palavras alguma entre os dois amigos. Emmett se restringiu a atirar à frente e à esquerda, cobrindo os lados do outro quando ele se esgueirava para baixo para recarregar o mais rápido que podia, e a dinâmica se invertia quando necessário. Os dois praguejavam concentrados em meio aos sons de tiros que encobriam suas vozes, e às vezes alertavam um ao outro gritando palavras curtas sobre as direções de onde vinham mais soldados inimigos.

Quando parecera seguro — e necessário — o suficiente, os dois correram para outro canto mais recuado, onde se protegeram atrás do que restara de uma pequena barreira de concreto improvisada e escorada em outros destroços, enquanto alternavam entre se levantar e esconder o corpos dos tiros de raspão.

—De onde diabos estão vindo tantos desses porcos? — Emmett reclamou, irritado, empunhando a arma com violência para fechar um olho e mirar de novo, atirando com ímpeto enquanto franzia o rosto para os corpos que recuavam ou cambaleavam, e caíam sem vida.

—Do inferno. — Andrew respondeu entredentes, também concentrado na própria tarefa — Para onde eles vão voltar logo, logo. — ele acrescentou, mirando para outro canto antes de se abaixar de novo. Emmett não pôde conter o sorriso curvado, satisfeito com a resposta antes de se abaixar também.

Quando McCarty levantou-se outra vez, sentindo o impacto de tiros romperem pedaços da barreira muito perto dele e do amigo, Andrew apressou-se em engatilhar a arma e fez o mesmo antes dele, que se ajoelhou para atirar de esguelha para o lado contrário.

Havia se passado menos de um segundo quando ele se virou pouco para olhar de relance à falta de movimento atrás de si e viu Collins com a mão pressionada contra algum ponto em seu abdômen, o vermelho se espalhando pela farda enquanto ele despencava de volta à proteção, o semblante de dor ocupando todo o rosto agora contorcido. Emmett perdera completamente o momento em que aquilo acontecera e de repente se vira de olhos arregalados, a arma empunhada sem ação, virando-se para o amigo sem pensar mais que uma fração de segundo.

—Andrew! Andrew, o que aconteceu?! — ele perguntou a primeira coisa à cabeça, sabendo que soaria idiota, e se adiantando para o amigo com as mãos firmes se tornando gélidas e levemente trêmulas, a sensação que repassara com outros colegas o acometendo da forma mais forte do que nunca sentira antes — Aguente firme, mantenha a mão aí, os médicos vão vir pegar você, tudo bem?

—S-sim, tudo. Tudo bem. — Andrew ofegou um pouco, passando os olhos por onde sua mão estava e depois para o chão, fazendo uma nova careta conforme a dor apontou mais forte — Nazista desgraçado. — ele praguejou de novo, engolindo a seco conforme falava, entredentes, e Emmett estava ocupado certificando-se dos arredores, vendo os médicos se aproximarem.

—Não se preocupe com ele. Vai ter o que merece — McCarty colocou uma mão trêmula sobre a mão do amigo, em cima do ferimento que sangrava, ajudando-o a estancar, e olhando de relance para ver os médicos fardados se aproximando no fogo cruzado com uma maca — Mantenha os olhos abertos, está ouvindo, Andrew? Não feche os olhos, fique comigo! — ele chacoalhou o rosto do amigo, largando a arma no chão, para vê-lo revirar e abrir os olhos verde acinzentados de novo.

Emmett sentia a sensação consumi-lo — de novo, porque mergulhado naquela memória, era familiar. O pânico que não podia demonstrar transformando-se em agonia, atravessando seu peito junto à imagem inacreditável — e, dali em diante, inesquecível — de seu melhor amigo caído aos seus joelhos, o sangue escorrendo pela farda, contra a pressão que ele mesmo fazia sobre a mão cansada abaixo da sua.

—Eu levei u-um tiro, não estou surdo, s-soldado. — o outro respondeu com um tom divertido, mesmo que visivelmente se esforçando para proferir as palavras, engolindo ar entre elas. Com o mesmo empenho, ele esboçou um sorriso curvo enquanto piscava lentamente os olhos na direção do melhor amigo, que negou com a cabeça, evitando retribuir o sorriso — Não deixe que eles cheguem nos seus nervos.

Com a menção da frase dita por si mesmo minutos antes, Emmett pressionou os lábios um no outro, se esforçando pra sorrir ao amigo que ainda tinha aquela expressão divertida em meio à dolorida no rosto negro, cada traço tão conhecido e amadurecido com os anos tornando-se uma mistura daquelas duas expressões que o outro ainda tentava entender — assim como todo o resto. Os médicos chegaram correndo em segundos e em meio à urgência, gritaria e o fogo cruzado, ele só tivera tempo de sair do caminho, sem saber se haviam ouvido às explicações dele sobre o tiro que atingira o amigo, agora encaixado na maca improvisada.

—F-Fique vivo, está me ouvindo? — Emmett conseguiu dizer, com uma sensação amarga e sufocante tomando seu peito, fazendo-o sentir incapaz de dizer muito mais que aquilo — Nós fizemos uma promessa! — ele lembrou, tocando seu braço com urgência antes que ele começasse a ser erguido.

Andrew arriscou um sorriso ofegante e segurou o braço do outro antes de se deixar afastar, fazendo-o inclinar-se como se fosse contar um segredo.

—Você faz a parte difícil e deixa o final pra mim, hum? — ele acenou com a cabeça na direção do mais novo, dobrando o braço livre para tocar sua mão e ainda com um tom de tentativa divertida, até apertar os dedos nos seus como pôde.

Um nó apertou-se na garganta de Emmett e ele enrijeceu o maxilar para não ceder à sensação que o fazia vacilar. Sorriu como pôde, a tempo de ver os dedos do amigo afastarem-se com sua imagem e assentiu, prometendo sem querer.

—Nos vemos logo, irmão.

Ele viu a maca desaparecer em campo, tão rápido quanto os dois médicos conseguiam, e seu lado consciente o fez empunhar a arma de novo, voltando com pressa para outra barreira próxima, a primeira que seus olhos acharam. De novo, Emmett se viu com as mãos trêmulas, a cabeça fazendo-o checar a munição de novo, sem necessidade — e sem tempo pra isso.

A sensação se repetiu, consumindo-o, e dessa vez acrescida a um amargor estranho, que dividia-o em outra parte. Outra parte muito aquém daquela que nunca questionara ou duvidara antes das palavras de Andrew William Collins — nunca tivera motivos pra isso. Tão inconveniente e estranha, consumindo-o com a aflição e a cena de poucos minutos atrás renovando-se em sua cabeça, de novo e de novo, um gatilho silencioso disparando sem pausa.

Mas, não havia tempo para ouvir o que sua cabeça, e muito menos seu coração, queriam lhe dizer agora. Não havia motivo pra duvidar que ele veria Andrew logo mais e que tudo ficaria bem, aquela sensação toda não tinha razão de ser. E além do mais, ele estava numa guerra e naquele exato momento, precisava ser o que era: um soldado.

Mas, céus, isso não parecia certo! Seu melhor amigo, o mais próximo que tivera de um irmão, havia sido atingido bem ao lado dele, justamente quando estavam ali pra dar cobertura um ao outro, e agora, além desse pensamento, como ele podia ter certeza se realmente fora só um "até logo"?

Ora, precisava ser! E agora que estava enfiado ali, obrigado a matar aqueles desgraçados que estavam acabando com o mundo, as vidas de milhares de pessoas, atirando em soldados que não teriam escolha, como Andrew, ele iria fazer o que tinha de fazer, e com o melhor que pudesse. Nada podia ter sido à toa e ele havia muito a dar.

Afinal, não há espaço para tristeza na guerra — na linha de frente, no fogo cruzado. Mas, há espaço de sobra para o ódio. E essa foi a última coisa que Emmett concluíra quase sem pensar, determinado a limpar o caminho apertando o gatilho para os soldados do exército alemão, e também varrendo para o abismo no fundo de sua cabeça os sentimentos e memórias que não poderiam ter espaço algum em quem havia de assumir o controle agora.

Flashback off

Era o que havia precisado fazer. Emmett nunca entendera antes daquilo que, quando condenava-se algo a apodrecer num lugar trancafiado, o espaço todo estava condenado a apodrecer também. E ele, naquele urgente momento em junho de 1944, havia feito exatamente isso consigo mesmo.

Notas finais
E aí? Deu pra conhecer um tantinho do Andrew que tanto marcou nosso Emmett, né? E também deu pra ver um pouco do caos que tomou a cabeça dele nesse dia, como se o horror em geral da Guerra já não fosse suficiente. Foi um momento turbulento e, infelizmente, decisivo. Eu não sei vocês, mas eu tenho vontade de pôr o Emmett num potinho e proteger de todo o mal! hahahahaha ♥ Mas, segura aí, né, porque ainda tem muita coisa pra ser mostrada e acontecer também! Como sempre, vou adorar saber o que acharam disso tudo, então espero nos comentários! Se cuidem e até o próximo capítulo! ♥