Across The Frontline

15 Capítulo 15 - Adeus


(...)

Na sala de espera do então hospital — à qual Emmett juntaria-se em passos rápidos em poucos segundos -, os cinco Cullen eram deixados sozinhos pelo médico que acabara de proferir as palavras que os traziam ali. Com um ar silenciosamente cortês, ele há pouco recolhera as mãos para detrás do corpo e depois de dizer que chamaria quando "a esposa" pudesse ver "o corpo", saiu com um aceno de cabeça e um "sinto muito" que fora respondido por um sorriso breve de Carlisle. Rosalie estava parada em frente à cadeira em que sentava-se há pouco, completamente estagnada e o rosto angelical desenhado num choque aparentemente estático, entre os irmãos também quietos e sob o olhar dos pais.

Ela sentia-se levada de volta à sensação que tivera ao receber a notícia do coma daquele mesmo homem, seu então marido, há o que parecia tanto tempo atrás. A única exceção àquela descrição, que a fazia sentir como se ardesse por dentro e cada vez mais conforme os minutos passavam, era que sentia na mesma medida como se sua cabeça desprendesse daquela realidade e o peito afundasse para dentro da cavidade onde seu coração batia com o compasso errado. Apesar da confusão, sentia-se em branco por dentro. Não sabia o que sentir ou pensar, ou o motivo pelo qual no topo de seu nariz e debaixo dos olhos a ardência aumentava.

Até que, num instante, a notícia realmente recaiu sobre ela. Royce estava morto.

Ainda não sabia o que sentir, mas agora definitivamente sentia, e muitas coisas. Não lutara contra o choro que viera, porque embora reconhecesse que ele não significava qualquer tristeza, sabia que senti-lo e deixá-lo ir era necessário. Não era o momento de conter-se ou isolar-se por algum tempo, como sempre fazia. E por isso, num instante em que deixara de perceber as próprias ações, vira-se envolvida pelos braços do irmão mais velho, o rosto escondido em sua camisa preta enquanto soluçava e recebia afagos da mãe nas costas, remontando às tantas cenas como aquela na infância, contudo por motivos completamente distintos daquele.

—O que aconteceu? — a voz grave de Emmett preencheu o ambiente, chamando a atenção da família enquanto recuperava o fôlego, detendo-se ao alcançar o espaço entre Carlisle e Edward, que permaneciam em silêncio com os rostos sérios.

Antes que pudesse ouvir o primeiro explicar num tom baixo, antes que as palavras chegassem aos seus ouvidos, o que viu fizera-o compreender. Viu os cabelos loiros, que identificavam Rosalie, serem o único sinal dela no cômodo e depois a forma como era acalentada pelo irmão de mesma característica e como o corpo dela tremulava entre seus braços, de segundos em segundos.

O olhar sereno como sempre, mas com um resquício de preocupação que Jasper lhe direcionara enquanto afagava as costas dela e Edward ao lado com os olhos esverdeados fixos ao chão e a boca numa linha reta. Também notara Esme, que tinha um olhar condoído na direção onde deveria estar o rosto da filha e afastava os fios semelhantes aos do marido e filho numa tentativa de vê-la, murmurando palavras de consolo em seu tom maternal acolhedor.

Emmett sempre pensara, por pior que soasse esse pensamento, que se sentiria satisfeito ao ouvir aquela notícia, ou ao menos que não sentiria a mínima diferença em seu âmago, senão pelo alívio. Alívio por não mais ter ao seu redor uma pessoa amarga e dissimulada como Royce, ainda mais se aquilo viesse da forma como ele certamente merecia. E não precisara conviver anos com ele, como os outros infelizmente haviam precisado, para ter certeza das tantas coisas que ele fizera por merecer o fim que imaginava.

Sabia que tudo aquilo era muito mais motivado pelo contentamento de ver a família livre do incômodo que Royce era e causava, do que por si mesmo. Por ver Rosalie livre dele e de todas as limitações e perigos que trazia — e que, aliás, trouxera até o seu último momento de consciência — para a vida dela. Agora não havia mais perigo, era claro. Mas, sabia que ainda haveriam certas limitações — e esse pensamento o fizera duvidar do que deveria fazer em seguida, tanto quanto ver Rosalie naquele estado mudara completamente o rumo do que pensava que sentiria naquele instante.

—Como isso...? — voltou a perguntar, perdendo-se nas palavras porque ainda tinha os olhos em Rosalie.

—Ele teve uma parada cardíaca e não resistiu. — Edward explicou simplesmente, num tom naturalmente moderado, levando as mãos aos bolsos da calça social no momento em que olhava firmemente para os olhos azuis do outro, e dali para o pai.

—O corpo estava debilitado demais, mas sabemos que isso não teve realmente a ver com a queda. Os hábitos dele eram péssimos, já estava sujeito a isso, apesar da circunstância exigir atenção redobrada. — justificou melhor, arqueando as sobrancelhas conforme fizera uma pausa para inspirar profundamente.

Emmett prestava muita atenção em cada palavra, embora a cada uma achasse fascinante o modo como o mais velho parecia sequer esforçar-se para atrelar todo aquele conhecimento. Ainda não entendia por quê não dedicava-se total e unicamente àquela área — a medicina — ao invés de revezá-la com a advocacia, assim como não entendera por que estava perdendo-se nesse tipo de pensamento num momento como aquele.

— De toda forma, naturalmente, nós sabíamos que havia uma chance de que ele não acordasse do coma, a atividade cerebral tinha estado muito baixa desde o primeiro dia. — disse enfim, voltando um olhar dos dois rapazes para a filha, como se quisesse reforçar a frase inclusive para ela, que parecia não ouvir. Antes que os pensamentos de Emmett pudessem ser completos, a voz doce de Esme interrompeu, e embora soasse baixa, foi suficiente para chamar a atenção dos outros.

—Carlisle, é melhor vocês irem cuidar de todos os papéis e providências. — disse, e depois de receber um assentir positivo calmo do marido, desviou o olhar para os outros três, que estavam incluídos em sua fala. Jasper enrijecera o maxilar e engolira a seco ao olhar da mãe, como se sentisse a dor da irmã ao pensar em deixar o abrigo que lhe estava sendo agora — Rose, querida, seu irmão precisa ir também. — enfatizara, passando a tentar trazer a filha para perto de si, tirando-a lentamente dos braços do loiro com afagos leves em suas costas.

—Tudo bem. — disse Rosalie, num murmúrio que por pouco não soara ininteligível, levantando o rosto antes cabisbaixo para limpar, com um lenço que a mãe lhe entregava, as lágrimas que haviam feito suas bochechas umedecerem. Sorrira para o irmão mais velho quando ele lhe lançara um olhar sereno, para depois sair de seu alcance.

Num instante, enquanto tocava a pele com o tecido claro, balançara os cabelos loiros para trás, clareando a visão que os outros tinham de seu rosto e vice versa. Quando parara de piscar os olhos para o teto para livrá-los da névoa em que estavam imersos, percebera a figura alta de Emmett parada pouco mais à frente de onde estava e quase se surpreendera — se não fosse pela certeza de que perdera aquilo por como estava também perdida nos próprios pensamentos, sensações e no choro copioso de segundos atrás.

Parecia contraditório admitir que estivera chorando e não falar em sentimentos, mas sensações e pensamentos. Reconhecia o quão estranho aquilo poderia soar em voz alta, mas era a mais pura verdade. Não sentia tristeza pela morte de Royce, assim como entendia que isso não era sua culpa — apesar da hipótese ter lhe ocorrido inconscientemente algumas vezes até concluir isso. A situação toda estava privando-a da sensação de liberdade que pensava que teria sentido ao ver-se livre daquele homem. Mas, havia uma sensação em especial, de pesar, rodeando sua cabeça e afundando a cavidade em seu peito, como se estivesse subitamente mais cheia de ar — vazia, cheia de nada — do que da carne que pulsava ali.

Era a lembrança de que não haveria paz, ao menos por algum tempo, para si mesma e para a família agora que aquilo havia acontecido. Afinal, em 1947 não haviam muitas coisas que pudessem prevenir uma mulher de ser julgada pelos demais como se sua vida pertencesse à sociedade e não a ela — principalmente quando falava-se em divórcio ou viuvez. Ainda que estivesse numa posição privilegiada por um lado, primeiro porque não tivera de recorrer ao divórcio, e segundo porque os Cullen levavam um nome que estivera sempre envolvido em uma espécie de nobreza, sabia que isso não anularia nada. Inclusive, ali envolvia-se uma de suas maiores preocupações.

Rosalie sabia que poderia aguentar a pressão daquilo consigo mesma, por mais difícil que fosse, porque tinha força o suficiente para isso. Mas quando pensava na família, tornava-se mais difícil. Sabia que eles diriam para que não se preocupasse e, inclusive, que aquilo eventualmente passaria — o que era verdade, mas enfrentar o que todos diriam àqueles que amava, e sobre eles também, enquanto permaneciam ao seu lado, alegando que ela havia sido culpada, de alguma forma, pela morte do nobre e importante homem que Royce King II lhes parecera ser até ali, perturbava-a demais.

Ainda havia pensado na família de Royce, sobretudo na Sra. King e nas tantas acusações e ofensas que teria de ouvi-la espalhar aos quatro ventos, tornando tudo ainda pior. Como se precisasse de mais, enquanto via os irmãos afastarem-se ao lado do pai, sem entender as últimas palavras que haviam feito os lábios deles se moverem em sua direção, lembrara-se da efígie à direita de seu campo de visão, que, então sim, rememorava tantos sentimentos confusos, embaraçados e resguardados em seu íntimo, que havia negado até ali. O que faria com isso agora? Se por um lado havia uma deixa — a de ser, então, uma mulher livre de compromissos -, por outro havia o fato de que ser viúva, numa sociedade patriarcal como aquela, que também nunca entenderia quem Royce realmente fora, impedia-a de algo novo quase tanto quanto se continuasse comprometida com alguém.

Em 1947, era uma mulher viúva e com acusações informais de uma espécie de homicídio por isso, cujos esclarecimentos ninguém se daria ao trabalho de ouvir — além de agora, apesar de não admitir completamente, potencialmente interessada em outro, cuja relação com a família Cullen também não compreendiam. Como poderia desfrutar dessa liberdade de que o destino havia encarregado-se, com uma série aparentemente interminável de dedos apontados pra sua vida, impedindo-a de continuar em paz?

Talvez simplesmente não fosse ter paz. Poderia viver com isso — se lhe custasse só a própria -, porque era algo a que estava razoavelmente acostumada depois de desvendar e viver com a verdadeira personalidade do homem agora morto e por quem quase inimaginavelmente havia apaixonado-se um dia. Mas agora, naquele momento, o que acontecia dentro de si era um turbilhão grande demais para sanar com essa única certeza : seria superficial demais fingir que estava lidando bem com aquilo tão cedo, por mais que gostasse de tentar.

Por isso, depois do que não havia sido mais do que dois minutos — apesar de ter soado como muitos mais -, a loira deixara-se voltar a ouvir atentamente o que acontecia ao seu redor, quando vira a mãe chamar seu nome outra vez, passando uma das mechas de seus cabelos para detrás da orelha esquerda. Percebera que havia encarado Emmett por muito mais tempo do que pretendia à princípio, e todas as coisas foram motivos o suficiente para desviar do olhar azul atento que ele lhe dedicava.

—Eu irei ligar para a família dele e.. Bem, ajudar a resolver as coisas sobre o funeral. — disse, hesitante sobre a última parte, que acabara não soando tão mal no modo cauteloso que era tão seu — Fique aqui, tudo bem? — Esme pediu, com o olhar materno e preocupado que havia em seu rosto sempre que deparava-se com algum tipo de sofrimento dos filhos. A filha assentira com um breve curvar dos lábios, quase um sorriso — Quando voltar nós vamos para a casa, assim não teremos que encontrar nenhum deles agora. — explicou, e com isso Rosalie dera um murmúrio de "obrigada" junto ao quase sorriso, a tempo de que a mãe visse, antes de encaminhar um olhar parecido ao ex-soldado e deixar apenas os dois no cômodo.

Num silêncio compreensível, os olhos azuis observaram os amendoados desviarem-se da porta para o lenço nas próprias mãos com alguns piscares incompletos, que denunciavam o quanto ainda estava lutando contra as lágrimas que enchiam-nos sem que percebesse. Por quaisquer que fossem os sentimentos ou consequências que a morte de Royce provocassem nela, podia ver que, ao menos por agora, aquilo estava longe de ser fácil ou libertador, por mais que significasse o fim de algum tipo de prisão. Ali, achou que talvez a entenderia melhor do que pensava — e desejou abraçá-la, tanto quanto desejou poder amenizar seu sofrimento com o gesto imaginado.

—Mais cedo... — ela começara, passando o lenço por debaixo dos olhos para evitar as lágrimas num segundo, e no outro já estava sorrindo com os olhos nele, tentando mostrar que estava bem, mesmo que ele visse, na forma pouco convincente como o olhar não condizia com a curva nos lábios, que aquilo não era verdade — Você ia dizer alguma coisa antes de...

Rosalie continuara a falar, mas detivera-se, sem saber exatamente o por quê, quando notara que Emmett aproximava-se. Seus passos eram lentos e a distância não era grande, mas ele pareceu demorar tanto para alcançá-la que ela não soube dizer, por alguns segundos, o que estava fazendo. Ele sabia que ela estaria perguntando-se, porque podia ler aquilo no seu silêncio e no modo como ela havia parado de falar, mas ainda mantinha os lábios entreabertos como se a qualquer momento fosse continuar a falar ou decidir perguntar. Também havia algo sobre a forma como os pares de olhos estiveram o tempo todo flagrando o outro, cada vez mais próximos, e sempre fixamente.

Quando McCarty parou à frente dela, não houve uma só palavra que tentasse explicar o que iria acontecer — porque de alguma forma, parecia que um entendera ao outro antes que aquilo fosse preciso. Os olhos dela ainda estavam nos dele, e enquanto marejavam com tudo o que aquilo trazia à superfície de seu ser, por um instante se esquecera de que havia uma realidade transcorrendo para além daquela maré que os olhos dele eram quando nos seus, singulares demais para se comparar a qualquer outro par azul, tão acolhedoramente desfrutáveis. Ele se perguntara se o castanho claro dos olhos dela sempre haviam sido tão cintilantes ou se aquele era o efeito tão tragicamente apreciável que as lágrimas acrescentavam a eles, apenas um segundo antes de passar os braços ao redor do corpo dela e trazê-la para junto do seu, com a segurança que ela não imaginara ser capaz de encontrar, mas à qual agarrara-se tão logo quanto sentiu, passando os braços pelas costas largas do ex-soldado.

E ele a segurou ali pelos próximos minutos, firme contra seu peito, com uma das mãos em suas costas e a outra atrás de sua cabeça — sobre a qual repousava o maxilar cuidadosamente -, afagando os cabelos loiros com uma lentidão persistente e acalentadora, sempre reafirmando entre murmúrios roucos que tudo ficaria bem. As lágrimas molhavam o terno que ele vestia, e nesse meio tempo, ela tremulava vez ou outra contra os braços fortes dele, que então se estreitavam mais à sua volta. Ela o ouvia enquanto chorava e, naqueles momentos repetidos, sentia-se de volta à uma realidade cada vez menos dolorosa, da qual o abrigo que ele representava agora mantinha-a agradavelmente suspensa. Agradecia mentalmente pelas duas coisas, embora não soubesse explicar como elas, ou talvez seria mais apropriado dizer "ele", tinha aquele efeito sobre seu ser.

—Vai ficar tudo bem. — ele reafirmara mais uma vez , agora recostando a lateral do rosto ao topo dos cabelos loiros, ainda segurando-a consigo e sentindo seus soluços diminuírem gradativamente — Você não está sozinha em nada disso, Rose. Estou aqui com você. — ele voltou a dizer, dessa vez surpreendendo o repertório de palavras que ela repetia na cabeça, e Rosalie sorrira com isso, o mais sinceramente que conseguiu, como se agradecesse, embora ele não pudesse ver.

—Sempre vou estar. — Emmett sussurrou por último, mais como uma promessa, embora sem ter certeza se gostaria que ela ouvisse o que havia dito, porque não sabia como e nem quanto daquilo era justo que ela tivesse de interpretar agora. Ela parecia surpreendentemente ter parado de soluçar, e tudo o que ouvia era o silêncio. Então o tom havia cumprido a função.

E apesar dessa conclusão, poderia jurar, antes que os sons de passos voltassem ao ambiente nos minutos seguintes, que havia sentido as pontas dos dedos dela em suas costas agarrarem-se ao que puderam do tecido de seu terno, como se quisessem dizer alguma coisa que seus lábios não foram capazes de enunciar.

(...)

Mais tarde, quando a noite era quente e inadiável segundo o céu plenamente escuro, o cemitério florido e razoavelmente iluminado onde Royce King II seria enterrado testemunhava o carregar de seu caixão de detalhes em ouro ser carregado por um caminho largo, onde as pedras que faziam o chão cansavam os pés daqueles que seguiam-no sem pausa, todos com rostos cabisbaixos que pouco ousavam desviar-se para as lápides ao redor. Havia uma quantidade considerável de pessoas, o bastante para uma aglomeração que chamasse a atenção, mas Rosalie sabia, não por afeição à memória do falecido, mas por sua reputação.

Ela, por sua vez, caminhava mais à frente do que os outros, mas não tanto quanto a família King — primeiro porque não fazia questão daquilo e segundo porque já havia respondido à mais ofensas infundadas da matriarca deles há minutos atrás, ainda no velório do corpo de seu filho, então não havia motivo para tentarem coexistir mais do que o necessário tão cedo. Os outros Cullen estavam em seu encalço, num silêncio respeitoso, e agora Alice e Isabella também acompanhavam-nos.

A verdade era que, como a maioria das pessoas naquela ocasião, a mãe de Royce jamais acreditaria na parte dele que fora reservada apenas aos amigos mais próximos — e por consequência, iguais a ele — e, mais ainda, à sua então esposa. Nenhum deles nunca havia testemunhado seu gosto por bebidas mais fortes no sentido alcoólico, porque sempre haviam acreditado no que a negação constante daquele homem aos champanhes das festas e reuniões de família sugeria — exatamente como uma jovem Rosalie um dia fizera. Assim como nunca sequer alguém dali havia cogitado acusá-lo de agressividade, embora seu autoritarismo exacerbado no trabalho dissesse bastante sobre isso, nas entrelinhas. E no mesmo raciocínio, quem poderia sequer pensar em confrontá-lo sobre infidelidade? "Ou sobre qualquer coisa, na verdade", Rosalie pensou, entre o som dos próprios passos diminuindo gradativamente.

Quando percebeu que todos haviam parado a alguma distância segura de uma cova larga e funda, ao lado de uma pedra quadrada polida onde estavam lapidados alguns nomes com sobrenomes King ao final, a loira fizera o mesmo, tirando os olhos do chão para fitar automaticamente o caixão que era passado para outros dois homens que estavam de pé no buraco de terra. Enquanto via-o ser encaminhado pelos braços em conjunto, aos choros de alguns da família ao lado da sua, lembrara-se da última visão que guardaria, provavelmente para sempre, do corpo de Royce dentro dele, minutos antes.

Ele vestia um de seus muitos ternos iguais, junto à uma gravata alinhada, sapatos sociais e os cabelos tão ordenados quanto havia sido possível pela circunstância — e não muito diferentemente do que Rosalie, particularmente, se lembrava. Seu rosto ainda conservava a expressão dura e pouco amigável que tivera em vida quando estava sério, mas ao contrário do que os pais dele faziam os demais concordarem de minuto em minuto, não se parecia nada como se estivesse dormindo. Debaixo de seus olhos fechados, as olheiras eram mais visíveis do que jamais haviam sido em vida e haviam assumido um tom arroxeado pouco saudável, assim como os lábios pálidos demais, até mesmo para sua condição inanimada e a cicatriz da cirurgia deixara uma falha entre o desenho de seus cabelos claros e a pele muito mais esbranquiçada do que fora em vida. As mãos estavam entrelaçadas na altura do abdômen, seus dedos de traços naturalmente grosseiros estavam visivelmente inchados e a cicatriz em seu braço não desaparecera com a palidez. O mais alarmante de tudo era sua expressão, porque simplesmente não parecia em paz. Ainda que não fosse realmente capaz de um semblante agora, muitos poderiam jurar que ele parecia assustado, ainda mais com a falta de cor em seus traços.

A lembrança voltara a nublar-se com um toque leve em seu ombro.

—As flores, querida. — Carlisle alertou carinhosamente, chamando à para a realidade, na qual todos ao redor pareciam ter os olhos nela, em expectativa.

Rosalie demorara um instante para perceber o que acontecia, mas instintivamente movera-se até a beira do buraco ao chão, para onde o caixão havia desaparecido, junto às lágrimas da Sra. King e às dezenas de flores que cobriam-no, como ela agora podia ver. Aproveitou o impacto do momento anterior, quando a maioria haveria pensado que ela estaria abalada demais para dar o último passo daquele "ritual" teoricamente doloroso, e deixara-se demorar alguns segundos com os olhos no caixão fechado antes de abrir mão do arranjo de flores silvestres entre seus dedos.

"Eu desejaria que você fosse para o inferno, mas nós dois sabemos que não preciso fazer isso. Adeus, Royce.", disse sem proferir uma palavra, como uma última dedicatória endereçada de sua mente, e então jogara o conjunto de flores ao meio das outras. Assistiu-as cair e só libertara-se para tomar distância dali no momento em que as viu repousar, com um baque surdo, na mesma altura em que imaginara estarem, abaixo da madeira, as mãos do homem que jamais, em qualquer possibilidade ou intenção, tocaria-a com elas — ou de qualquer forma — uma outra vez.