Notas iniciais
Eis uma crônica!

Foi isso mesmo, entrei no ônibus, atrasada para variar. Estava a caminho da sala de aula para fazer uma prova. A última do semestre. O ônibus estava lento. Muita gente, não estava cheio, não era horário de pico, mas tinha sim muita gente.

Entrou um rapaz, não muito alto, cabelo meio escuro e enrolado, mas não encaracolado e nem tinha comprimento o suficiente para ser ondulado. Ele não era muito bonito ou tinha o físico muito atraente, mas chamou a minha atenção.

Nem notei que estava o encarado ao que pareceram ser 40 segundos até que ele, discretamente, perguntou:

—Algum problema?

—Problema nenhum. — Respondi sem nem mudar de posição.

—Então por que está me encarando?

—Não estou te encarando, estou apenas admirando a beleza desse seu par de olhos tão bonitos.

Ele nem tinha olhos bonitos, mas pareceu desconfortável com a minha ‘declaração de amor incondicional’. Continuei o jogo:

—Achei na verdade, tão bonitos que faço questão. — Me levantei para ceder o assento em que estava sentada a ele. — Por favor...

—Não não, eu estou bem.

Fui mais longe! Fiz uma reverência, peguei sua mão, dei um beijo e olhei-o de baixo para cima:

—Eu insisto.

Parabéns. Consegui chamar a atenção de todo o ônibus.

—Obrigado. Sabe... Eu já tenho namorada.

—Eu acredito.

—Mas isso não me impede de pegar o seu número. — E ele me estendeu o celular.

—Sabe... Eu já tenho namorada. — Respondi algo que não era mentira.

E ele me olhou de baixo para cima, sem nem mudar de posição. Era estranho o olhar de quem ainda acompanhava nossa conversa no ônibus, a lésbia está dando em cima do hétero compromissado que está pedido seu telefone?

E com o celular ainda estendido em minha direção, ele disse:

—Eu acredito.

Desci imediatamente na parada de ônibus seguinte, corri até o local de prova, mas o professor não me deixou entrar.

Acabei perdendo a prova.

Era minha última chance. Reprovei naquela matéria.

Enquanto ando pelas ruas da universidade meu celular toca e a voz do outro lado da linha fala:

—Não acreditei que você me daria mesmo o seu número. Não ia te ligar, mas você deixou sua mochila no ônibus.

—Não acredito!

Notas finais
Um dia já foi, agora só resta mais um ano.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!