Acredita?
1 Acredita?
Notas iniciais
Foi isso mesmo, entrei no ônibus, atrasada para variar. Estava a caminho da sala de aula para fazer uma prova. A última do semestre. O ônibus estava lento. Muita gente, não estava cheio, não era horário de pico, mas tinha sim muita gente.
Entrou um rapaz, não muito alto, cabelo meio escuro e enrolado, mas não encaracolado e nem tinha comprimento o suficiente para ser ondulado. Ele não era muito bonito ou tinha o físico muito atraente, mas chamou a minha atenção.
Nem notei que estava o encarado ao que pareceram ser 40 segundos até que ele, discretamente, perguntou:
—Algum problema?
—Problema nenhum. — Respondi sem nem mudar de posição.
—Então por que está me encarando?
—Não estou te encarando, estou apenas admirando a beleza desse seu par de olhos tão bonitos.
Ele nem tinha olhos bonitos, mas pareceu desconfortável com a minha ‘declaração de amor incondicional’. Continuei o jogo:
—Achei na verdade, tão bonitos que faço questão. — Me levantei para ceder o assento em que estava sentada a ele. — Por favor...
—Não não, eu estou bem.
Fui mais longe! Fiz uma reverência, peguei sua mão, dei um beijo e olhei-o de baixo para cima:
—Eu insisto.
Parabéns. Consegui chamar a atenção de todo o ônibus.
—Obrigado. Sabe... Eu já tenho namorada.
—Eu acredito.
—Mas isso não me impede de pegar o seu número. — E ele me estendeu o celular.
—Sabe... Eu já tenho namorada. — Respondi algo que não era mentira.
E ele me olhou de baixo para cima, sem nem mudar de posição. Era estranho o olhar de quem ainda acompanhava nossa conversa no ônibus, a lésbia está dando em cima do hétero compromissado que está pedido seu telefone?
E com o celular ainda estendido em minha direção, ele disse:
—Eu acredito.
Desci imediatamente na parada de ônibus seguinte, corri até o local de prova, mas o professor não me deixou entrar.
Acabei perdendo a prova.
Era minha última chance. Reprovei naquela matéria.
Enquanto ando pelas ruas da universidade meu celular toca e a voz do outro lado da linha fala:
—Não acreditei que você me daria mesmo o seu número. Não ia te ligar, mas você deixou sua mochila no ônibus.
—Não acredito!
Fale com o autor