Acquarius
1 Prólogo
Um trovão ecoou ao longe e as portas da casa estremeceram, a tempestade caía fortemente no telhado e fazia um barulho estrondoso — quase tão alto quanto ao som dos raios que brilhavam no céu.
Ricardo desligou todos os aparelhos domésticos da tomada e refugiou-se no sofá com o cobertor mais quente que encontrou no guarda-roupa dos pais, e começou a rezar para que as águas fossem bondosas com o pai e o irmão que aquela altura se encontravam em um barco no meio do oceano com toda aquela tempestade agitando as ondas.
Sem se desembrulhar do cobertor foi até a janela observar como estava o mar. Como era de se esperar estava agitado. As ondas enormes e violentas atingiam a praia com ferocidade e arrastava de volta para o mar tudo o que tinha trago de lá e tudo o que estava jogado na areia.
A cada instante ele esperava que o barco do pai chegasse ao píer e vê-lo sã e salvo, junto ao irmão, mas enquanto aquilo não acontecia ele continuava a rezar.
A mãe também estava na rua, mas ela não era sua maior preocupação. Estava em terra firme e por isso em segurança, só que ele não podia dizer o mesmo do pai e do irmão... Certamente aquele dia não fora o melhor para ir pescar, mas quem diria que a manhã ensolarada se transformaria em uma tarde chuvosa¿
A luz da casa oscilou e Ricardo foi buscar uma vela antes que a energia acabasse por completo. Encontrou um maço dentro do armário da cozinha e as acendeu antes que não conseguisse enxergar mais nada a sua frente.
Voltou à sala e encolheu-se novamente no sofá, ainda com esperanças de que o pai chegasse a cada instante. O relógio na parede marcava 18:00, o que era ainda mais estranho já que o pai sempre retornava da pesca em alto mar antes de o sol se pôr, e embora estivesse nublado e não desse para ver o sol se pondo sabia que o pai voltaria a qualquer indicio de chuva.
Mais um trovão ecoou no lado de fora e os pelos de seu corpo eriçaram-se, pegou o celular em cima da mesinha de centro e tentou ligar para a mãe, mas estava sem rede e ele percebeu que ela tinha esquecido o seu aparelho ali.
Ainda agoniado tentou dormir, e até conseguiu por alguns minutos, mas acordou ainda mais assustado depois de ter um pesadelo com seu pai se afogando. Começou então a andar pela casa e só parou quando a luz oscilou mais uma vez.
Foi até à janela novamente e ficou observando por mais alguns instantes as ondas do mar trazerem e arrastar para ele, e só parou quando ouviu alguém bater na porta. Imaginando ser sua mãe correu para abri-la.
Sua decepção ao ver Bob, o cachorro vira-lata da família, choramingando com medo, fez-se perceber pelo longo suspirou que deu, percebendo então que prendia a respiração antes de abrir a porta.
Deixou o cachorro entrar e o secou com uma toalha suja. O cão fedia e Ricardo o levou para o porão, que felizmente a casa antiga tinha para guardar coisas velhas. Bob parou de chorar e ele livrou-se do fedor.
Mas, enquanto subia as escadas de volta para a sala a luz oscilou mais algumas vezes e por fim apagou-se de vez. Ele sentou-se no chão e foi engatinhando até a sala, tateando para não esbarrar com nenhum móvel da cozinha, onde estava naquele momento.
Somente quando chegou à sala e as velas iluminaram parcialmente o caminho pôde levantar-se e ir para o sofá. Pelos minutos seguintes ficou apenas fitando as chamas das velas dançarem sombriamente produzindo a única fonte de luz na sala, só parou quando seus olhos começaram a lacrimejar e sua visão ficou turva.
Seu corpo estava frio novamente e ele apertou o cobertor em seu corpo. Entediado começou a tamborilar os dedos na perna e só então passou pela sua cabeça que a porta estava destrancada e qualquer um poderia entrar ali.
Com uma vela iluminando o caminho trancou-a e voltou à janela. O mar estava cada vez mais agitado, mas agora ele podia ver um tumulto de pessoas, que antes não estava ali, perto do pequeno porto construído pelos pescadores da região onde as embarcações ancoravam. Só pode ser eles, pensou.
Destrancou a porta novamente e escancarou-a. Saiu correndo na chuva sem se preocupar com o frio que fazia e com a ferocidade da chuva que caía molhando-o por completo. Ele só conseguia se preocupar em ajudar seu pai e o irmão a descerem logo do barco e ver se eles estavam bem.
Contornou os pequenos coqueiros que separavam a praia de sua casa e chegou à areia, com os pés descalços sentiu-a fazer cócegas onde pisava. Correu mais um pouco e então estava perto da espécie de porto construído pelos pescadores da região. Seus olhos focaram a pequena multidão alvoroçada. Olhou para os rostos ali e todos lhe eram conhecidos e lá no canto estava sua mãe chorando abraçada com seu tio.
Percebeu também que ele tentava segurar sua mãe que resistia ao seu abraço e parecia querer correr para o mar, ela chorava muito e gritava. Ricardo se desesperou, alguma coisa tinha acontecido, e só podia ser com um dos seus familiares.
Correu para perto da mãe e tentou gritar para perguntar o que estava acontecendo, mas água da chuva encheu sua boca e abafou a sua voz, ele tentou por mais algumas vezes, mas a água parecia querer afogá-lo.
Só quando sua mãe o viu e veio correndo abraçá-lo ele teve certeza de que algo tinha mesmo acontecido a seu pai ou seu irmão.
_O que aconteceu? — ele conseguiu sussurrar.
_Ele vai ficar bem! – foi à única resposta que obteve.
_Ele quem? — perguntou, mas a mãe já corria para perto de aonde o barco, que vinha na direção da praia, iria parar.
Ricardo se juntou a ela e ajudou seu pai tirar o irmão desmaiado do barco. Ele parecia morto,imóvel e pálido daquele jeito, seu corpo também era frio e Ricardo se desesperou, enquanto seu tio fazia os primeiros socorros, sua mãe era socorrida por alguns amigos e seu pai chorava apreensivo.
Logo se ouviu um barulho de sirene de ambulância e os bombeiros apareceram para levar o garoto ao hospital. Os paramédicos levaram seu irmão para dentro da ambulância e a mãe os acompanhou na ida para a emergência.
Seu pai ficara para vestir uma roupa seca e ele aproveitou para fazer o mesmo, depois disso iriam para o hospital procurar saber como estava seu irmão.
Em casa, tudo parecia acontecer muito rápido, quando entrou o pai já estava vestido e o esperava na sala, ele correu para o seu quarto e logo se vestiu também. O pai não falava nada e ele ficava a cada minuto mais apreensivo.
Na pista atrás da casa o vizinho já os esperava com seu carro para levá-los, eles entraram na caminhonete velha e seguiram para o hospital, que ficava perto dali.
No carro prevalecia à tensão, todos os três homens ali estavam agoniados e nervosos, querendo que o tempo passasse mais rápido e eles chegassem logo no hospital. Em menos de vinte minutos sua vontade fora atendida, o letreiro luminoso indicou que eles chegaram a seu destino.
O pai foi o primeiro a saltar do carro e a entrar no hospital, seguido por Ricardo, enquanto o vizinho procurava onde estacionar. Lá dentro o pai já gritava com uma enfermeira, pedindo noticias de seu filho, e Ricardo o sentou em um banco da recepção, assumindo o controle da situação.
A enfermeira lhe indicou o caminho onde deveriam seguir para falar com o médico e eles correram até lá. De longe era possível ver a mãe, desamparada, chorando como nunca havia chorado antes. Em seu rosto dor e muita tristeza.
Ricardo receou que as notícias não fossem boas, e estava certo, quando os viu a mãe gritou:
_Ele está morto! – E correu para os braços do marido.
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