Acorrentados
13 O Segredo de Near
– As nuvens estão escuras hoje – Ele abaixou seu dedo longo e fino, que formava uma “arma” apontada para mim um pouco antes – Reparou nelas hoje?
Os murmúrios eram ensurdecedores. Mogi soltou um berro e Matsuda estava caído no chão, olhando a aparição. Eu estava petrificado, meus olhos não se moviam, e minha boca esta ligeiramente aberta. Eu perdera meus sentidos; Estava à deriva no meio de um mar turbulento de frustração, cercado por algo que estava além da ciência. Aquilo não era possível, não era real e nem humano. Era doentio.
– Gostaria de dizer o porquê de ter escolhido este lugar para nosso encontro Yagami-kun. Dizem que aqui é o lar do assombro – Ele caminhou para além das sombras, onde o sol, agora mais radiante, iluminava seus olhos de panda – Você acredita em assombrações?
Ouvi um arfar discreto. Near estava rindo; Talvez da maneira como eu estava petrificado a mais de dez minutos, ou pelo fato de L estar ali. De qualquer forma, eu não poderia me certificar naquele momento.
L sorriu para mim. Seu sorriso era estranho, algo um pouco forçado e desengonçado. Não era um sorriso normal, e naquele momento ele parecia irônico. Não adiantava o quanto eu ficasse ali calculando suas feições, eu nunca as decifraria. Ele era totalmente privado de seus sentimentos. O ódio estava percorrendo minhas entranhas; Eu seria capaz de estrangular seu pescoço, mas havia algo que deveria ser esclarecido.
– C-Como? – A voz de Matsuda saiu como um sussurro – Como é possível?
O sorriso de L se desfez em um segundo, e ele voltou para sua face inexpressível. Seus olhos percorreram todos eles, como uma águia caçando sua presa. Ele caminhou até Near, com as mãos nos bolsos e arrastando os pés.
– “A pessoa cujo nome for escrito neste caderno morrerá” – murmurou ele, com sua voz rouca e incomparável. Um misto melódico e misterioso. – Mas parece que o caderno não mencionou algo importante...
Ele sentou ao lado de Near, de sua peculiar maneira. As mãos segurando os joelhos contra o peito. Seu cabelo negro caiu entre seus olhos cinzentos, e os mesmos se curvaram em uma expressão única.
– “A pessoa cujo nome for escrito incorretamente quatro vezes, se torna imune ao poder do caderno” – Ele murmurou – Analisando o caderno assim que voltou das mãos de Higuchi, percebi que ao tentar matar um chefe de quadrilha ele escreveu seis nomes diferentes, todos eles falsos, usados pelo mesmo criminoso. Por fim ele escreveu o nome correto, mas Higuchi não fez questão de conferir sua morte, e na verdade ele está vivo em uma penitenciaria até hoje.
Near lhe passou uma pequena sacola de papelão, e de dentro dela L retirou uma trufa caramelada.
– Noutra vez, Higuchi tentou matar uma furtadora idosa acusada de assalto à uma joalheria. Seu nome era russo, Pavlova Tereshkoy, e Higuchi errou sua escrita duas vezes. Ele acertou na terceira, e ela morreu de ataque cardíaco. Em sumo, eu lhe dei o total de cinco nomes falsos, incluindo Ryuuzaki. Você escreveu esse, e o Segundo Kira, Misa Amane, escreveu mais três. O que me torna imune ao caderno.
“Eu farei tudo para ser útil a você”. Nunca imaginei que ela faria algo tão estúpido sem ao menos me comunicar. Misa idiota!
– E como você poderia saber? – Perguntei, e meu tom de voz foi além do necessário. Ele sentia o ódio correr em minhas veias.
Olhou por cima de meu ombro, e amassou a trufa com o dedo indicador.
– Pergunte ao seu amigo shinigami, Ryuuku.
Ryuk dissera certa vez que não estava do meu lado e nem do L, e que não tinha a obrigação de me contar todas as regras do Death Note. Ele não fazia nada além de se divertir aqui na terra. L fez as perguntas, e ele respondeu todas. Aquele desgraçado!
– Eu sabia que a qualquer momento tentariam me matar, então, instrui que Watari apagasse todos os dados do QG caso algo inusitado acontecesse. Na verdade, isto era um sinal para que eu forjasse minha morte imediatamente, fazendo com que você pensasse que eu estava morto quando na verdade estava na SPK trabalhando com Near e Mello.
Então era ele! Todo esse tempo L estava por trás de Near, controlando-o como um fantoche! A explicação para aquele enigma tão complexo que Near nunca seria capaz de formular, e aquela dedução fantástica da morte de Beyond. Explicava também o fato dele ter entendido tão rápido meu verdadeiro plano contra ele, e seu contra ataque rápido e preciso logo depois. Meus movimentos estavam sendo extremamente calculados, ou melhor, previstos. De fato, L nunca me libertou de suas algemas.
Ele retirou uma fatia de bolo de dentro da sacola, e me contemplou com seus olhos cinzentos.
Aizawa colocou uma das mãos em meu ombro:
– Sinto muito Raito, mas L venceu. Acabou.
Botou a mão no bolso e ostentou uma de suas algemas.
– NÃO! – desvencilhei-me e corri o mais rápido possível para longe deles.
Eu era o deus do novo mundo! L não ganhou, ele não passava de mais um ser humano que apodrece este mundo. Ele merecia morrer, todos que estavam ali deveriam morrer por ousarem enfrentar a ira de um deus.
Minhas pernas me traíram; Cambaleei para frente e fui obrigado a me apoiar em uma das paredes.
L pôs o polegar na boca, observando-me. Por algum motivo isso me fez perder as estribeiras.
– Sim – murmurei, arqueando minha postura mais uma vez – Eu sou Kira.
L fez um estalo com a língua. Todos me encaravam, e eu podia ver o horror escondido por trás de cada retina, por trás de cada face e por trás de cada alma. Kira estava diante deles, e todos temiam à ele.
– Quem mais pensaria em criar um mundo melhor com o poder deste caderno? Quem mais além de mim? Eu limpei o mundo dos malfeitores, para que pessoas de bem possam viver em paz. Quem mais faria tamanha justiça? – Gritei, meu braços balançavam extasiados no ar.
– Isso não é justiça – murmurou Near – Você não passa de um assassino com ideais infantis.
Senti uma veia latejar em minha testa. Near não passava de um rato de laboratório usado pelo cientista; Ele não tinha o direito de me julgar. Cambaleei para frente, com os punhos fechados e olhos serrados em fendas. Eu não tinha nada a perder, afinal de contas.
Estava fora de controle. Me movi rapidamente, e dois segundos depois eu estava com o punho levantado, pronto para nocauteá-lo. Todos estavam paralisados, sem tempo para sequer reagir. Near percebeu meu movimento, mas não se moveu.
L agarrou meu punho à dois milímetros de distância. Senti sua mão fria impulsioná-la para baixo. Já fizemos isso antes, não é mesmo? “Olho por olho, meu amigo”.
Cinco tiros foram disparados de algum lugar atrás de mim. Inacreditavelmente, L se atirou antes que meu corpo se colidisse ao chão.
Mesmo que tudo não passasse de uma morte forjada, eu não deixara L cair sozinho, e por algum escrúpulo de sua mente brilhante, ele retribuiu o favor.
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