Acordos Imprudentes
11 ALEX
Às seis e quarenta e três da sexta-feira, descobri que ter uma noite livre era consideravelmente mais interessante na teoria.
Fechei o último relatório do dia, empurrei o notebook alguns centímetros para longe e olhei para o relógio no canto da tela.
A perspectiva de ter a noite inteira livre perdeu todo o encanto.
Eu deveria ter pelo menos quinze opções de coisas interessantes para fazer.
Peguei o celular.
Eva estava em um jantar com algumas pessoas que conhecera durante os preparativos para Nova York. Sebastian tinha respondido minha mensagem com uma fotografia de uma taça de champanhe e nenhuma informação sobre onde estava. Ben provavelmente estava em casa com meu sobrinho, porque, diferente do restante dos Greystone, ele tinha adquirido hábitos respeitáveis depois da paternidade.
Poderia ligar para alguma amiga. Poderia ir jantar. Poderia encontrar uma exposição, um bar, uma festa. Poderia fazer absolutamente qualquer coisa.
O problema era que nenhuma delas me pareceu particularmente atraente. Meu apartamento pareceu menos ainda.
Apoiei a cabeça no encosto da cadeira e encarei o nada.
Eu gostava do meu apartamento.
Tinha escolhido cada móvel, brigado com minha mãe para que ela não mandasse um decorador "apenas para ajudar" e passado meses convencendo minha família de que uma mulher adulta era perfeitamente capaz de morar sozinha em Londres sem entrar espontaneamente em combustão.
Aquele lugar significava independência.
Até Robert Pond começar a transformar independência em isolamento.
Agora, algumas noites, o silêncio me fazia prestar atenção demais nos ruídos do corredor. Faróis atravessando as cortinas me levavam até a janela. Números desconhecidos faziam meu estômago contrair antes mesmo que eu atendesse.
Eu sabia que Raul estaria por perto. Nunca o tinha visto. O que, segundo Lucian, significava que ele era excelente no próprio trabalho.
Também sabia que Robert não tinha conseguido se aproximar desde que Lucian colocara segurança ao meu redor.
Ainda assim, passar uma sexta-feira inteira verificando janelas e tentando me convencer de que cada carro parado do outro lado da rua não pertencia a um homem obcecado por mim não parecia exatamente divertido.
Peguei o celular outra vez. Seis e cinquenta e um. Merda. Talvez eu estivesse apenas cansada.
Guardei algumas coisas na bolsa, desliguei o computador e saí. Poderia decidir o que fazer no caminho.
O elevador me levou até o térreo. Atravessei o lobby cumprimentando dois funcionários, parei por alguns minutos para resolver um problema com uma reserva e finalmente atravessei as portas giratórias.
O ar frio da noite atingiu meu rosto. Parei ao notar o carro que estava estacionado exatamente onde costumava estar.
Meu coração fez uma coisa ridícula dentro do peito.
Harry já saía do carro.
— Boa noite, Lady Alexandra.
Cumprimentei Harry rapidamente. Quando entrei e me acomodei no banco de couro, Lucian estava lá.
Terno preto. Camisa preta. Sem gravata. Um notebook aberto sobre as pernas e o celular preso entre o ombro e a orelha enquanto dizia alguma coisa sobre números do trimestre.
Ele ergueu um dedo para mim pedindo um minuto. Cruzei os braços. Ele terminou a ligação em menos de trinta segundos.
— O que vocês estão fazendo aqui?
— Boa noite, Alexandra. — Lucian fechou o notebook. — Levando você para casa.
Fiquei olhando para ele.
— Por quê?
Uma sobrancelha escura subiu.
— Você precisa mesmo que eu explique?
— Considerando que nosso compromisso foi cancelado, sim.
— O compromisso com Kali foi cancelado. Meu compromisso de garantir que Pond não chegue perto de você continua existindo.
Ahh, claro. Isso era perfeitamente lógico. Não havia motivo algum para aquilo me agradar.
Lucian tornou a abrir o notebook. Observei o perfil dele por alguns segundos.
— Você não vai perguntar por que ainda estou no hotel?
— Você trabalha lá.
— São quase sete numa sexta-feira.
— Algumas pessoas trabalham depois das cinco, Alexandra.
— Eu sei. Sou uma delas.
— Então acabamos de solucionar o mistério.
Revirei os olhos.
— Você é péssimo em conversa fiada.
— Não vejo utilidade nela.
— Pessoas normais usam para socializar.
— Tenho outras qualidades.
— Estou fazendo uma lista. Até agora está curta.
Ele finalmente olhou para mim.
— Curioso. Ontem você parecia bastante satisfeita com o café.
— Harry comprou.
— A pedido de quem?
Sorri.
— Está cobrando reconhecimento por um café agora?
— Apenas corrigindo os fatos.
O carro entrou no trânsito. Recostei-me no banco.
— E você?
— Eu o quê?
— Vai fazer o quê hoje?
— Trabalhar.
Soltei um suspiro dramático.
— É sexta-feira.
— Parabéns por identificar corretamente o dia da semana.
— Engraçadinho. Onde?
— Voss & Co.
Meu interesse despertou imediatamente. Todo mundo que circulava minimamente pela noite londrina conhecia.
Voss & Co. era uma daquelas casas noturnas sobre as quais as pessoas falavam mais do que frequentavam. Lista de espera absurda, acesso restrito, camarotes disputados e uma clientela que misturava dinheiro antigo, dinheiro novo, celebridades e pessoas que provavelmente preferiam não ter o nome publicado em lugar nenhum.
Eu nunca tinha ido, e não por falta de oportunidade. Simplesmente nunca acontecera.
Virei o corpo um pouco na direção dele.
— Você vai para lá agora?
— Depois de deixar você em casa.
— Para trabalhar?
— Foi exatamente o que eu disse.
— O que você faz trabalhando numa casa noturna às oito da noite?
Lucian fechou o notebook lentamente.
— Você administra hotéis e está me perguntando por que o proprietário de uma casa noturna trabalha quando ela está funcionando?
Ponto para ele.
— Quero ir.
Lucian me encarou. No banco da frente, vi pelo retrovisor o momento exato em que Harry congelou as mãos no volante. Lucian franziu a testa, me analisando com uma mistura de divertimento e pura desconfiança.
— É sexta-feira à noite e recuso-me a ficar trancada no meu apartamento remoendo os dilemas da minha vida. Você vai me levar para a sua casa noturna. — Completei após o silêncio dele.
— Não.
Revirei os olhos.
— Você percebe que todos os meus convites começam assim?
Ele soltou uma respiração pelo nariz.
— Porque todos os seus convites são péssimas ideias.
— É a mais exclusiva de Mayfair, não é? E é sua. É um lugar seguro, onde você manda e desmanda. Me leve até lá. Quero ver como o grande Lucian Voss opera no próprio território.
— Vou trabalhar.
— Ótimo. Eu sei me entreter sozinha.
Um sorriso lento e perigoso começou a se desenhar nos lábios dele.
— Você é inacreditável.
— É um elogio?
— É um diagnóstico — Lucian retruquei, inclinando-se para a frente. — Harry, vá para o clube.
⸻
Eu estava parada no mezanino privativo do Voss & Co., encarando o espetáculo abaixo.
O lugar era impressionante. Iluminação cênica meia-luz, arquitetura industrial combinada com veludo escuro e mármore, uma lista de convidados impecável e uma energia pulsante. Mas o mais fascinante ali não era a decoração. Era Lucian.
Acompanhar Lucian Voss no domínio dele era uma experiência quase hipnótica. Ele não precisava erguer a voz; bastava um aceno discreto de cabeça para que os gerentes se aproximassem, os seguranças mantivessem a postura e a elite que frequentava o lugar soubesse exatamente quem era o dono do império. Ele exalava uma autoridade natural que parecia ainda mais evidente do que no nosso ambiente de hotéis corporativos.
— Surpresa? — a voz dele soou perto do meu ouvido, a respiração quente roçando meu pescoço. — Você esperava drogas e armas?
Girei o corpo para encará-lo, segurando minha taça de champanhe.
— Considerando nosso primeiro encontro, minhas expectativas eram variadas.
— Continuo ofendido que tenha me confundido com um mafioso.
— Você se recuperou rapidamente quando percebeu que poderia usar a mafiosa imaginária para conseguir aulas para Kali.
— Empresário. Não mafioso.
— Admito que é um belo clube, Voss. Você sabe o que faz.
— Eu sempre sei o que faço, Alexandra.
O espaço era enorme sem parecer vazio. Dois níveis cercavam uma pista central ainda pouco ocupada, com mesas e áreas reservadas posicionadas de forma que cada uma parecesse privada sem estar isolada.
Nada excessivamente chamativo. Luxo sem precisar gritar que era luxo. Entendi imediatamente por que funcionava.
— Qual a capacidade máxima?
— Oitocentas e quarenta.
Olhei em volta.
— Não parece.
— Esse é o objetivo.
— Distribuição inteligente.
Ele me lançou um olhar lateral.
— Obrigado.
O segui enquanto ele me apresentava o ambiente. Passamos pelo bar e uma mulher de cabelos curtos levantou a mão para chamar sua atenção. Ela se aproximou com um tablet nas mãos e só então pareceu perceber minha presença. Seus olhos passaram de mim para Lucian e depois voltaram para mim.
Ela estendeu a mão.
— Nora Whitmore. Diretora de operações.
Apertei.
— Alexandra Greystone.
Nora olhou novamente para Lucian.
— Então os jornais estavam certos.
— Não — respondemos ao mesmo tempo.
Ela sorriu com um olhar curioso, apenas concordando com a cabeça.
— Eu preciso dele apenas por um minuto — me explicou.
Nora virou o tablet para ele e começou a falar sobre reservas, uma alteração na escala e alguma inconsistência na margem de bebidas premium.
Lucian fez algumas perguntas, nenhuma delas pareceu superficial, enquanto Nora respondia todas sem hesitar. Ele não conferiu cada número como alguém tentando provar que mandava. Apenas escutou, corrigiu uma projeção e autorizou uma mudança. Eles seguiram conversando sobre o clube por mais alguns minutos, e eu segui observando Lucian em seu habitat natural. Ele conduzia a conversa de maneira fluida, orgânica e eficiente.
Era sensual vê-lo trabalhar, ele ocupava muito bem o posto de chefe.
— Segunda-feira quero os números fechados. — Ele finalizou o assunto.
— Vai ter.
Nora guardou o tablet.
— Aproveite a noite, Lady Alexandra.
— Obrigada.
Ela saiu, e eu continuei olhando para Lucian.
— Você está me encarando.
— Você realmente trabalha. — falei em um tom divertido.
Ele ficou imóvel.
— O que exatamente achava que eu fazia?
— Mandava pessoas trabalharem enquanto ficava sentado em algum escritório parecendo ameaçador.
Ele levou a mão ao peito.
— Estou profundamente tocado.
— Não se acostume.
E foi ali que a frase de Kali voltou à minha cabeça. Ele passou parte da adolescência convencido de que morreria de fome. Olhei novamente para o salão, que a cada instante se enchia mais de clientes e para os funcionários.
Para as mesas que provavelmente renderiam milhares de libras antes do fim da noite. Para o homem caminhando ao meu lado como se tudo aquilo fosse apenas mais uma sexta-feira.
Eu conhecia a história pública. Sobre seu pai, havia rumores demais: dinheiro suspeito, negócios obscuros, ligações que ninguém jamais conseguira provar completamente. E havia também a herança que Lucian recebera e passara anos tentando limpar.
O processo de transformar negócios manchados em empresas legítimas.
Existia uma diferença enorme entre ler que Lucian Voss era um empresário bem-sucedido e vê-lo dentro de algo que carregava seu nome.
A frase de Kali adquiriu outro peso ali.
Lucian não precisava daquele lugar para provar que havia vencido alguma coisa. Ainda assim, era impossível olhar ao redor sem pensar que, em algum momento, um garoto que temera não ter o suficiente construíra uma vida em que nunca mais precisaria sentir aquele medo. E, pela primeira vez desde que o conhecera, senti uma curiosidade que não tinha absolutamente nada a ver com seu corpo.
Queria saber como ele tinha chegado até ali
— Foi você? — Ele olhou para mim. Apontei discretamente ao redor. — O clube. Foi você quem criou?
— Sim.
— Do zero?
— Praticamente.
Uau, aquilo era impressionante.
— E os outros?
— Alguns comprei. Outros abri.
— Quantos?
— Casas noturnas?
— Tudo.
Ele continuou andando.
— Não sei.
Parei de supetão. Lucian deu mais alguns passos antes de perceber e se virou.
— Você não sabe quantas empresas tem? — perguntei intrigada.
— Sei. — Ele deu de ombros — Só não vejo motivo para fazer uma lista para impressionar você.
Aquilo me calou por um instante.
— Talvez eu já esteja impressionada.
A frase escapou por entre meus lábios. Merda. E eu notei que algo em seus olhos dele mudaram.
— Cuidado, Alexandra. Está começando a parecer que gosta de mim.
Ergui o queixo.
— Eu disse que estou impressionada com o empresário. O homem continua em avaliação.
— E como está meu desempenho?
Em resposta, torci o nariz e balancei uma das mãos em um claro sinal de "mais ou menos". Aquilo fez Lucian achar graça, ele claramente estava se divertindo com as minhas provocações. Mas então seu olhar mudou. O sorriso permaneceu por mais um segundo antes de desaparecer lentamente, e ele começou a se aproximar.
O ritmo da minha respiração se alterou com a proximidade. Lucian parou diante de mim, perto o suficiente para me obrigar a inclinar a cabeça para encará-lo. Seus olhos verdes pareciam mais escuros sob a iluminação baixa do clube.
Sua mão encontrou minha cintura. Não havia absolutamente nenhuma necessidade de estar ali. Ainda assim, não me afastei.
— Seu corpo costuma dar avaliações melhores.
Meu estômago apertou.
— Meu corpo não participa dessa conversa.
— Participou bastante na segunda-feira.
— Você pretende usar aquele beijo contra mim pelo resto da vida?
— Enquanto continuar funcionando.
A mão em minha cintura apertou levemente.
Meu corpo traiçoeiro respondeu antes que eu pudesse impedi-lo. Minha respiração ficou mais curta e meus olhos desceram por um segundo até a boca dele. Quando voltei a encará-lo, Lucian estava olhando para a minha.
Nenhum dos dois disse nada.
O barulho do clube continuava ao nosso redor, música, conversas, copos se chocando, mas tudo pareceu estranhamente distante quando ele inclinou o rosto.
Ficamos naquele espaço ridículo entre fazer uma coisa e ainda poder fingir que nunca tivemos intenção de fazê-la.
Os dedos dele deslizaram alguns centímetros pela lateral da minha cintura, e senti meu corpo se inclinar na direção do dele antes que meu cérebro pudesse emitir qualquer ordem contrária.
A boca de Lucian estava perto demais. Eu conseguia sentir sua respiração. E não haveria mal-entendido daquela vez.
Ele sabia exatamente por que eu estava ali. Eu sabia exatamente quem ele era. Não existia desculpa. Talvez por isso nenhum de nós tenha terminado o movimento.
Uma voz chamou:
— Senhor Voss?
Nós nos afastamos como se alguém tivesse acendido as luzes.
Lucian virou o rosto na direção do funcionário que se aproximava. Eu dei um passo para trás e passei a mão pelo cabelo, tentando recuperar uma dignidade que provavelmente tinha ficado em algum lugar entre o primeiro e o segundo passo dele.
— Desculpe interromper — o homem disse, olhando rapidamente entre nós. — Nora pediu que avisasse sobre o problema com a reserva do mezanino.
— Já vou.
A voz de Lucian estava perfeitamente normal. Filho da puta. Eu ainda tentava lembrar como respirar. Ele voltou os olhos para mim e havia um brilho satisfeito neles que me irritou imediatamente.
— Pare de olhar para mim assim. — comecei — Como se tivesse provado alguma coisa.
Um canto de sua boca se ergueu.
— Eu não precisei provar nada, Alexandra.
— Arrogante.
Passei por ele antes que pudesse piorar a situação. Ouvi sua risada atrás de mim. O pior era que eu estava sorrindo.
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