Acordo Nupcial
8 Capítulo 8 - Luzes de Natal
Notas iniciais
As coisas estavam estranhas, para dizer o mínimo. Era estranho voltar para aquele apartamento imenso e silencioso depois de um longo dia de trabalho ao lado do meu marido.
Talvez essa fosse a parte mais estranha: estar casada.
Pouco mais de uma semana havia se passado desde o dia em que finalmente assinamos os papéis e selamos o acordo, mas ainda não havia me acostumado com toda aquela mudança que surgira na minha vida.
Para melhorar um pouco a situação, Edward estava em todos os lugares. Em casa, no trabalho, nas pouquíssimas vezes que saímos... Para onde eu ia, o encontrava. E em quinze anos afastada dele, nunca o senti tão distante quanto naquele momento.
Não que eu achasse ruim, só era irônico. E estranho.
—Qual logotipo?
Precisei manear a cabeça para me livrar dos pensamentos compulsivos e voltar a realidade. Alice me encarava fixamente, seus olhos cor de mel eram doces e pacientes
—Desculpe, mas o que você perguntou? – foi impossível não corar diante a minha “ausência”. Contudo, Alice pareceu não se importar.
Sorrindo, ela repetiu os projetos digitais na tela no macbook, enquanto me explicava rapidamente o que cada um passava. Daquela vez tratei de prestar muita atenção, precisava focar no que realmente interessava: a recuperação da Gamovies.
—Particularmente eu prefiro o segundo, mas quando mostrei para o Edward, ele gostou mais do primeiro. – narrou de olhos fixos na tela. —Então você desempata. – me olhou rapidamente e lançou uma piscadela.
Arrumei os óculos de grau a frente do meu rosto para analisar criticamente os dois logotipos criados por Alice. Ela era muito talentosa, tinha visões amplas e genuínas quando se tratava de marketing e Edward acertara em cheio quando a trouxera para trabalhar na Gamovies.
—Acho que concordo com você. – proferi em meio a um suspiro. —Prefiro o segundo também.
—Sabia, Edward é sempre o do contra. – respondeu rolando os olhos.
Três batidas na porta atraíram nossa atenção. Tentei evitar a careta ao ver Tanya caminhar para dentro do cômodo. Ela sempre fora muito educada comigo, prestativa até demais, mas algo fazia com que eu não gostasse dela.
—Desculpe se estou interrompendo, Isabella. – pediu abrindo um meio sorriso. Talvez fosse o fato dela me chamar de Isabella que me deixasse tão incomoda.
—Não se preocupe.
—Depois que terminar com a Alice, você pode dar um “ok” nessa papelada para mim? – ela estendeu a pasta esverdeada em minha direção, a qual peguei no mesmo momento. —É uma nova planilha de gastos, atualizada e limitada dentro do orçamento proposto.
Dei uma rápida averiguada nas páginas olhando as listas e os números colocados.
—Claro, já peço para te devolverem. – respondi deixando a pasta sobre a mesa.
—Certo, com licença.
A observei desfilar para fora da minha sala em um salto agulha lindíssimo, seu corpo esguio se movia com elegância e leveza dentro do terno marinho, a cor intensa deixava o cabelo longo e loiro ainda mais vibrante.
—É impressão minha ou você não gosta muito da Tanya? – a pergunta de Alice me pegou de surpresa.
Boquiaberta me virei para encará-la, estava prontíssima para negar, mas seu semblante me mostrou que ela já estava convicta daquilo.
—Não gostar é uma colocação muito forte. – dei de ombros um tanto quanto envergonhada. —Só não me sinto a vontade perto dela. Não sei exatamente o porquê. É isso!
—É só isso mesmo? – contraiu as sobrancelhas e apoiou a cabeça na mão.
Seus olhos cor de mel eram tão intensos que me deixaram acuada. Tomei fôlego pela boca antes de assentir com a cabeça.
—Entendi... – Alice respondeu após um longo segundo em silêncio. —Tanya não é uma má pessoa. Tenho certeza que em breve vai perceber isso.
Suas palavras me fizeram ponderar. Talvez fosse apenas uma implicância boba e sem sentindo. E esperava mesmo que aquilo passasse logo.
—Agora que decidimos o logo vou começar a criar o slogan. — mudou de assunto ao se levantar. —Assim que tiver alguns projetos prontos venho mostrar para você.
—Tudo bem. Obrigada, Alice.
—Não precisa agradecer. Somos uma família, lembra? – me lançou uma piscadela divertida e soltou o cabelo do coque frouxo que havia feito mais cedo.
—Ainda estou tentando me acostumar com isso. – minha sinceridade a fez rir alto.
—Se apresse então... – ela fez uma pausa dramática para fechar o macbook e guarda-lo na bolsa lateral. —Porque você tem a melhor cunhada do mundo!
Dessa vez fui eu quem gargalhei.
—Que sorte a minha! – espalmei as mãos contra o peito fingindo-me de honrada.
—Não é? – concordei rapidamente a sua pergunta. —Nossa conversa está maravilhosa, mas eu preciso ir almoçar. Meu estômago já está doendo. – fez um careta rápida ao concluir a frase. —Não quer vir também? Emmet, Garret e eu vamos ao restaurante ali da esquina.
—Não, obrigada. Vou comer por aqui mesmo, está muito frio para sair.
—Está. – concordou parando a frente da porta. —Mas eles servem uma sopa de abóbora tão maravilhosa...
—Já ouvi maravilhas sobre essa sopa. – era uma das favoritas de Ângela.
—Você precisa provar. – decretou. —Tem certeza que não quer vir?
—Sim, saboreie a sopa por mim.
—Ah, vou sim, com toda certeza. – sua afirmação me fez rir. Acenando Alice saiu da minha sala e fechou a porta.
Permaneci sorrindo por longos segundos após sua saída. Ela era uma mulher tão doce e gentil, que era impossível não se encantar.
Respirei fundo e prendi meu cabelo em um coque com o auxilio de uma caneta. Analisando a papelada que Tanya me entregou pude perceber o quão organizada ela era. Havia precificado cada custo, até mesmo os que estavam por vir. No fim das planilhas havia o orçamento total que Edward havia disponibilizado e o valor com mais de seis números me deixou impactada.
Sabia que ele havia se dado muito bem, mas não imaginava que tivesse tanto poder executivo para investir.
Dei um visto no fim de cada página antes de assinar meu nome completo na última.
—Isabella Cullen. – assobiei ainda mal acostumado com a mudança.
Será que eu iria me adaptar antes de voltar a assinar o Swan?
Chacoalhei a cabeça deixando aquela questão de lado, tinha muita coisa para fazer e não podia perder tempo com aquelas questões bobas.
—Angie? – chamei ao sair da sala, e ela desviou a atenção da janela para me encarar. —Pode entregar esses papéis para a Tanya?
—Claro, sem problema. – sorriu ao pegar a pasta. —Você viu que já estão enfeitando as ruas para o natal?
—Não, nem reparei. – me aproximei da janela e tive a visão da rua, onde os homens arrumavas as luzes natalinas nos postes. No caminhão parado havia várias armações coloridas prontíssimas para serem instaladas.
—Ah, eu amo tanto essa época do ano! É de longe a minha favorita! – Ângela suspirou verdadeiramente encantada pela magia do natal.
Era difícil alguém não se encantar pelo fim de ano em Chicago. Se me pedissem para descrevê-lo, eu usaria apenas três palavras: branco, frio e mágico!
É claro que as temperaturas negativas não podiam ser ignoradas, mas natureza e a paisagem valiam cada “batida de queixo”. A cidade toda se transformava naquela época do ano, as árvores todas cobertas de neve, decoração de Natal linda e colorida. Os Papais Noéis fazendo a alegria da criançada, as lojas e shoppings no clima, para oportunizar as melhores compras. E um coro de “We wish you a Merry Christmas” a cada esquina.
—Será que o zoológico Lincoln Park já está decorado? – ela desviou os olhos da rua para me fitar.
—Não faço ideia. Já tem anos que não o visito nessa época do ano. – coloquei as mãos dentro dos bolsos do meu casaco e dei de ombros.
—Você é a única pessoa que eu conheço que tem aversão ao natal.
—Não tenho aversão ao natal. Só não sou fanática igual a você. – voltei a dar de ombros e em resposta Ângela bufou alto.
A verdade é que aquela época do ano trazia à tona a pior parte da minha vida. Aquela que lutei tanto para esquecer, para acreditar que não passara de um delírio. E agora estava mais viva do que nunca. Não pela época festiva, mas pela presença do protagonista de todo aquele drama.
—Boa tarde, meninas. – a voz masculina encerrou nossa conversa e virando um pouco o corpo, vi Jacob se aproximar.
—Boa tarde. – Angie e eu respondemos em um coro.
—Isabella, sei que está na hora do almoço, mas você poderia analisar rapidamente o esquema que montei para a plataforma do site?
—Claro, já está aí?
—Sim, tudo aqui. – abriu um sorriso largo exibindo os dentes brancos e retos.
—Ótimo, vamos ali na minha sala. – apontei em direção a porta antes de voltar minha atenção para Ângela. —Angie, pode ligar no Hyaku e pedir uns temakis para eu almoçar?
—Vou ligar agorinha.
—Você me acompanha, Jacob? – convidei por gentileza.
Ele pareceu meio hesitante, mas acabou aceitando o convite me dizendo o mesmo que eu disse para Alice: estava frio demais para sair!
—Então, Isabella, eu estava pensando em fazer algo diferente. Com mais opções de busca e compartilhamento. – ele explicou enquanto abria o computador à nossa frente.
—Entendi. – assenti com a cabeça. —Mas antes de começarmos, Jacob, quero te pedir para que me chame apenas de Bella. – já estava casada de repetir aquele pedido.
—Claro, me desculpe. – sorriu amarelo parecendo um tanto quanto envergonhado.
—Tudo bem. – minha voz o tranquilizou. —Agora pode me mostrar o que pensou.
Assim como Alice e Tanya, Jacob era competentíssimo. Atuando na área da tecnologia, ele havia criado um belo esquema da plataforma que disponibilizaríamos para o serviço de streaming, o qual Edward fez questão de que entrássemos.
—Eu gostei bastante, principalmente da parte de uma busca mais ampla. – recostei o corpo na cadeira. —As categorias estão bem divididas e ramificadas... Gostei muito.
—Que bom! – sorriu se mostrando aliviado. —Estava um pouco nervoso, Edward disse que você é bem exigente.
—Ah... – não consegui esconder a surpresa. —Ele disse?
—Sim. – concordou arrumando a gola da camisa branca que usava. —Longe de mim querer fazer intriga...
—Não se preocupe. – soltei um riso fraco. —Faz tempo que trabalha com ele?
—Uns quatro anos, mais ou menos. – seus olhos negros não demonstraram muita certeza. —Quando fui contratado as coisas ainda eram mais calmas, não havia mais que trinta funcionários... Hoje já passa dos trezentos.
Tentei não demonstrar o quão surpresa aquela informação me deixara, até porque o normal seria eu saber de tudo aquilo.
Para minha sorte o almoço chegara e mudamos de assunto, voltando a focar no projeto da plataforma digital.
—A de dispositivo móvel ainda está em processo de criação, mas vai oferecer praticamente as mesmas funções. Inclusive continuar reproduzindo com a tela bloqueada. – Jacob comentou após comer um harumaki.
—Que legal. – limpei meus lábios com o guardanapo de papel e abandonei os hashis sobre a mesa. Tinha comido além do suficiente e não gostava de exagerar na comida. Mesmo ela sendo a minha favorita: comida japonesa. —Sabe mais ou menos quando vamos poder lançar?
—Em um, dois meses. – respondeu após pensar um pouco. —Se Edward colocar alguém para me ajudar no desenvolvimento dos softwares, acho que consigo deixar tudo pronto em um mês.
—Já falou com ele? Até onde eu sei estamos com pressa.
Jacob riu das minhas palavras e comeu o ultimo harumaki antes de me responder.
—Ainda não, vou propor a ideia para ele antes.
—Acho que ele vai concordar. O que é uma pessoa no meio de trezentas?
A risada de Jacob voltou a ecoar pela sala e daquela vez eu o acompanhei. Ele se levantou e juntou todo o lixo que nosso rápido almoço rendera.
—Vou levar isso até a lixeira. – informou abrindo a porta. —Depois pego meu computador. Obrigado pelo almoço.
Eu teria dado uma resposta simpática a Jacob, agradecendo-o pela gentileza de se desfazer dos resíduos das embalagens, mas a presença de Edward me impediu. Parado em frente a porta ele intercalou os olhos entre Jacob e eu, contraiu o maxilar e os olhos ficaram cerrados.
—O que está acontecendo aqui? – foi direto atraindo a atenção de Jacob que quase empalidecera ao encarar seu chefe.
—O fim de uma reunião de trabalho. – respondi contendo a vontade de rolar os olhos. Não sabia o porquê Edward intimidava tanto os funcionários. Obviamente aquilo não acontecia comigo.
—Estava mostrando para Bella o esquema da plataforma online.— Jacob disse com a voz mais firme.
Edward tirou os olhos de Jacob e os trouxe a mim. Os orbes verdes estavam sérios, mas não me importei.
—Entendi. – soltou após ficar uns segundos em silêncio. —Agora que já acabou, você pode dar licença para que eu fale com a minha esposa, a sós?
O tom duro e frio era incontestável. Jacob nem hesitou, se despediu de mim com um breve aceno e saiu da sala, Edward fechou a porta em seguida usando um pouco mais de força do que o necessário.
—O que foi isso?
—Isso o que? – cruzei os braços e me recostei a frente da mesa realmente sem entender onde ele queria chegar.
Edward rolou os olhos e deu alguns passos em minha direção. Arqueei o queixo sem deixar de encará-lo, não ia ficar aceitando tudo o que ele falava como seus empregados bem faziam. Comigo ele iria abaixar aquela crista!
—Desde quando tem o costume de ficar almoçando com empregados? Ainda mais dentro da sua sala, de porta fechada. – ele estava realmente incomodado com aquilo e me senti um tanto quanto contente.
—O que isso tem demais? – o respondi com uma pergunta, fazendo-o bufar alto. —Não vejo problema nenhum nisso!
—Ah, mas eu vejo! – pontuou dando mais um passo em minha direção. —As pessoas são maldosas, logo vão começar a comentar.
—Igual comentam sobre Tanya e você? – devolvi olhando-o de cima.
Edward recuou o corpo um tanto quanto surpreso. Entreabriu os lábios e piscou algumas vezes.
—O que? Que absurdo é esse? – seu semblante se contorceu na perplexidade. Só consegui rolar os olhos diante tanto fingimento.
—Acha que ninguém comenta o fato de você e ela andarem juntinhos para cima e para baixo? – minha voz saiu destilando irritação.
Nada me irritava mais que uma pessoa sonsa que se fazia de inocente!
—Nós dois não andamos juntinhos para cima e para baixo. – negou usando as minhas palavras e com mais um passo parou a minha frente.
Engoli a seco ao sentir a proximidade do seu corpo. Respirei fundo na vaga tentativa de esquentar meu estômago, mas sentir o aroma do seu perfume só me fez ficar ainda mais abalada.
Era impossível estar tão perto dele e não me lembrar daquele sonho que tive. As lembranças daquele devaneio noturno viviam me assombrando, hora ou outra me pegava presa dentro delas.
—Tanya é responsável pelo controle financeiro de toda a minha empresa, é só por isso que requisito tanto a presença dela. – sua voz saiu mais calma daquela vez, assim como seus olhos que já não exalavam raiva.
Quando aqueles orbes verdes estavam livre de sentimentos ruins eles eram a coisa mais linda do mundo! Era realmente uma pena que aquilo acontecesse tão pouco.
—Uhum. – zombei abaixando os olhos até minhas botas. Encará-lo tão fixamente daquela maneira não era uma coisa muito boa. —Só um idiota para acreditar nisso.
Edward soltou um risinho rouco que era delicioso de ouvir. Surpreendendo-me, sua mão tocou meu queixo e com um puxão suave, ergueu meu rosto. Meu coração assumiu um ritmo descontrolado dentro do peito, e não sabia ao certo o que motivara aquela intensidade: o toque repentino e quente, a proximidade, ou a suavidade dos orbes verdes.
—Está com ciúmes. – acusou com a voz baixa e levemente rouca.
Em condições e distancias normais eu teria negado com toda a minha alma. Contudo, aquilo ficava extremamente difícil quando estávamos tão perto, quando tudo que o meu corpo pedia era ter o dele.
—É claro que não. – as palavras saíram com dificuldade da minha boca e Edward notou aquilo.
—Está sim. – fez um pausa para lubrificar os lábios com a ponta da língua e precisei conter a respiração dentro dos pulmões por um breve momento.
Seus lábios rosados eram tão lindos e receptivos que a vontade de o beijar me fez salivar.
—Mas eu te garanto. – correu o polegar por meu lábio inferior e um calafrio desceu por minha espinha. —Não há motivos para isso.
Algo presente no seu tom de voz e no brilho dos seus olhos me fez acreditar nele. A verdade é que estando tão próxima a Edward, enfeitiçada por seus orbes esverdeados e sentindo o toque quente de seu corpo, era dificílimo discordar de qualquer coisa que ele dissesse.
A distancia que separava nossas bocas diminuiu ainda mais, o que fez com que nossos lábios roçassem entre si, aumentando o frio no meu estômago e o ritmo das batidas do meu coração.
Inebriada por aquelas sensações intensas e pelo aroma do seu perfume, fechei os olhos e me entreguei. A única coisa que queria naquele momento era acabar com a micro distância que ainda nos mantinha nossos lábios separados.
—Bella, o Edward... – a voz de Ângela sumira rápido, mas durara o tempo suficiente para romper aquela bolha que Edward e eu havíamos criado.
Sobressaltados, nos afastamos, e pude sentir em sua respiração funda a mesma frustração que existia na minha.
—Ai, meu Deus! – ela cobriu a mão com a boca e corou intensamente. Só não corou mais do que eu, que sentia meu rosto ferver. —Me perdoem. É que estão ligando da sua empresa, Edward. Parece urgente.
—Já vou atender, obrigado. – Edward respondeu e contraiu os lábios em seguida antes de se voltar para mim. Não tinha coragem de olhá-lo nos olhos, fora isso que me fizera desviar o olhar. —Hoje nós vamos para a casa juntos. – informou com o tom mais firme novamente.
Ele deixou a sala, mas ainda podia sentir sua presença. Podia sentir os efeitos que aquele quase beijo, do toque envolvente, do perfume viciante...
—Bella, me perdoe por ter entrado sem bater. – a suplica de Angie me livrou daqueles pensamentos compulsivos. Olhando-a novamente percebi o quão envergonhada ela estava. —Me perdoe por ter interrompido vocês.
—Você não interrompeu nada, Ângela. – tentei tranquiliza-la, mas a verdade é que ainda estava abalada demais para passar confiança para qualquer outra pessoa. —Está tudo bem. – forcei o sorriso para soar mais convincente.
Ângela votou a pedir desculpas antes de sair da sala, e a verdade é que não conseguia prestar atenção em mais nada. Tudo o que preenchia minha mente era o aquele quase beijo. E o que me deixava com o estomago frio, de um modo ruim, era a forma que me entregava rapidamente a Edward.
Estar a frente dele e não conseguir usar aquelas barreiras que criei ao longo dos últimos quinze anos, me deixava sem ar. Era desesperador perceber que me rendia facilmente aos encantos da pessoa que me destruíra há uma década e meia.
Sabia que aquilo não era apenas tesão, não era apenas atração sexual... Sabia que algo mais profundo, mais complicado estava envolvido, e assumir aquilo era uma tortura.
Como eu ainda poderia gostar daquele homem, depois de tudo o que ele fez? Como o sentimento conseguia falar mais alto que toda a mágoa, que todas as cicatrizes?
Afundei o rosto nas mãos sentindo uma vontade enorme de que o chão se abrisse abaixo de mim e me engolisse.
Como podia ser tão estúpida?
Entreabri os lábios para tomar fôlego na vaga tentativa de amenizar toda aquela confusão que acontecia dentro de mim.
Foi tão difícil tirar ele da minha vida... Porque tinha deixado ele voltar? Analisando tudo friamente a falência nem parecia uma ideia muito ruim agora.
Maneei a cabeça tentando ignorar todas aquelas indagações. Talvez se eu as deixasse de lado, elas sumiriam de vez.
O relógio do celular marcou cinco horas em ponto assim que o peguei, juntamente da minha bolsa. Estava na hora de ir embora, de voltar para aquele apartamento tão impessoal e silencioso, para lidar com todos os meus fantasmas.
—Angie, já pode ir embora se quiser. – proferi assim que deixei meu escritório. Ela concordou com a cabeça rapidamente, estava um tanto quanto concentrada na tarefa de grampear alguns papeis.
—Vou aproveitar que estamos saindo mais cedo para ir até o Lincoln Park. — a animação em sua voz me fez sorrir. —Já estou até com o discurso pronto para convencer o Ben.
—Não vai ser difícil, ele faz tudo o que você quer. – aquela era uma verdade incontestável. Benjamin, o noivo de Ângela movia céus e terras por ela. Eles eram muito fofos juntos!
—Porque você não vem conosco? – ela ergueu a cabeça para me olhar. —Você e o Edward, é claro.
Soltei um riso sem vida ao negar com a cabeça, e estava prestes a externar minha negativa com a fala, mas a chegada de Jacob me interrompera.
—Bella, posso pegar meu computador na sua sala? – sua voz tivera o mesmo tom cordial de sempre.
—Claro, fique à vontade.
Jacob sorriu em agradecimento antes de caminhar para dentro da sala. Ângela o acompanhou com o olhar sorrindo maliciosamente.
—Que homem, hein? – sussurrou usando a mão livre para se abanar. Rolei os olhos diante seu assanhamento constante.
—Se controle... Esqueceu que está noiva?
—Sim, estou noiva, mas não estou cega. – deu de ombros e não contive o riso.
A verdade é que ela tinha razão. Jacob era um homem muito bonito. Tinha cabelos e olhos em um preto intenso. O sorriso largo dentro de lábios cheios e bem desenhados. E além da beleza, era muito educado e gentil.
—Mas então, porque você e o Edward não vão conosco? – Ângela repetiu o convite e voltei a negar com a cabeça.
—Está frio demais para sair. – aquela era uma desculpa incontestável. A temperatura negativa era completamente desmotivante para mim, além é claro de existirem mais mil questões.
—Desculpem, eu acabei ouvindo a conversa de vocês, e preciso concordar com a Bella. Está frio demais para sair. – Jacob se colocou ao meu lado assim que deixou minha sala trazendo nos braços o macbook.
—Estou dizendo! – exclamei arqueando as mãos. Ângela bufou alto.
—Vocês não têm casaco, luva, e protetor de orelha, não?
—Tenho sim, mas prefiro ficar quietinha em casa e tomar um vinho a frente da lareira, enquanto leio um bom livro. – respondi com toda minha verdade. Sair em meio a uma nevasca não me parecia nem um pouco atrativo.
—Nossa, eu também... Ou vendo uma boa série.
—Uhum. – concordei com a proposta de Jacob. —Só não vale dar audiência para nossa concorrente, hein?
O riso de Jacob saíra alto e Ângela e eu não deixamos de acompanha-lo.
—Até nossa plataforma ser lançada, só vou ver série em sites piratas!
—Vai acabar sendo hackeado. – Ângela zombou e mais uma vez nós três rimos.
O clima divertido e leve que havia se instalado entre nós três evaporou no instante em que o semblante de Ângela se fechou, ao meu lado vi Jacob fechar o sorriso e assumir uma postura mais séria, e eu nem precisei me virar para saber que Edward estava ali.
—Boa tarde. – a voz rouca saíra um pouco mais alta que o normal.
—Boa tarde. – Ângela e Jacob responderam em um coro descoordenado e levemente sem jeito.
Prendi o ar nos pulmões antes de me virar e lidar com o semblante fechado mais uma vez. Com os lábios contraídos e os olhos cerrados, Edward se mostrava completamente serio e infeliz.
Contudo, mesmo com cara de poucos amigos, ele estava lindo. O sobretudo caramelo que cobria seu terno preto realçara ainda mais beleza. E com a face contraída ele parecia ter saído de algum filme onde interpretava o maior dos vilões. Daqueles que a gente ama odiar e odeia amar.
—Vamos? – com os olhos fixos em mim ele me chamou.
—Sim. – respondi soltando o ar pela boca. —Até amanhã. – acenei na direção dos dois. —Bom passeio para você e o Ben, Angie. – desejei a ela que sorriu em agradecimento.
O clima entre Edward e eu nunca era calmo e leve, mas durante o percurso que fizemos até o carro SUV, a tensão que havia se instalado era absurdamente incomoda. Ele abriu a porta do carro para que eu entrasse e a fechou com uma força desnecessária.
—Não estou gostando de toda essa intimidade que está dando ao Jacob. – sua voz saíra dura, e os dedos apertavam tanto o volante que o sangue estava deixando as pontas de suas unhas.
—Não estou dando intimidade nenhuma a ele. – rolei os olhos observando o transito a nossa frente. —Você está vendo coisas onde não tem!
—Acha que não vi vocês dando risadinhas e comentando o que gostam de fazer?
—O que isso tem de mais? – me virei rapidamente para olhá-lo. Não conseguia entender o porque ele estava tão incomodado com aquilo. —Por favor, não banque o ridículo, Edward.
Edward bufou alto e a vermelhidão que subiu por seu rosto me fez perceber que ele estava verdadeiramente irritado.
Nós fizemos o restante do trajeto no mais profundo silencio, esse que só era quebrado pelas constantes respirações profundas de Edward. Contudo, não me apeguei aquilo. Já tinha coisas demais para lidar, se acumulasse mais aquele problema iria surtar!
—Vou te dizer só uma vez, Isabella. – sua voz saíra autoritária, assim que entramos no elevador privativo que nos levaria da garagem até o apartamento. —Não quero que fique de risinhos com Jacob, não quero que tenha reuniões de porta fechada com ele, não quero nem que tenham muito contato...
—Você não tem que querer nada! – o interrompi verdadeiramente irritada. —Você não manda em mim, você não é meu dono! – fiz questão de relembrá-lo e vi seus olhos esverdeados ficarem ainda mais flamejantes. —Pare de achar que você vai me controlar, porque não vai! Você não tem esse direito...
—Tenho sim! – dessa vez foi ele quem me interrompeu, a postura ainda mais firme. —Tenho total direito sobre você, porque eu paguei por isso, e paguei muito bem!
Pisquei algumas vezes enquanto repassava suas últimas palavras. O insulto me atingiu em cheio e no ímpeto, arqueei minha mão e a espalmei em seu rosto com toda a minha força. Edward chegou a virar a cabeça diante o impacto da minha bofetada.
—Presta atenção, Edward, porque eu não vou repetir. – abaixei minha voz enquanto tentava não me afundar naquela onde de emoções intensas. —Não vou admitir que me ofenda dessa maneira. – contraindo o maxilar, ele se virou para me encarar. —E se por algum acaso você tentar insinuar isso novamente, juro por Deus, que aceito a falência, que arrumo um emprego lavando pratos no primeiro Starbucks que eu encontrar. – precisei fazer uma pausa para tomar fôlego, minha garganta e meus olhos ardiam. —Mas vou pedir o divórcio e vou manter a maior distância possível de você!
As portas do elevador se abriram no instante em que terminei de falar. Sem pensar duas vezes, lhe dei as costas e me afastei o mais rápido que consegui.
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