Aconteceu Na Velha Roma
2 Dois
Notas iniciais
Ela desceu as escadas vagarosamente. O vestido de leve tecido escorria pelos degraus de mármore. Reyna pensava que quanto mais devagar descesse, mais invisível ela seria. Com muita sorte, confundida com uma das estátuas.
É claro que ela não teve essa sorte. O salão se silenciou. Todos voltaram sua atenção para ela. No salão, jovens, homens e mulheres. Nobres de todos os cantos de Roma. Discretamente, Reyna conseguiu soltar um suspiro frustrado. Ela desceu o resto das escadas.
Várias pessoas vieram lhe cumprimentar. Alguns moços se apresentaram como pretendentes, mas ela os dispensou de forma sutil.
Todos sentaram-se à mesa e permaneceram quietos durante o discurso do Imperador Julian (N/A: Sim, esse é o nome do pai dela. De verdade. Eu não inventei.), por fim, ele levantou sua taça de vinho e todos brindaram. Quero dizer, os homens brindaram. As mulheres apenas permaneceram sentadas, assistindo tudo. Nenhuma delas parecia se incomodar se eram feitas como brinquedos. Isso enchia Reyna de raiva. Elas observavam tudo sem se questionarem.
Assim que pode, a filha de Julian se levantou e encaminhou-se para o jardim do palácio. Um dos lugares preferidos dela. Rodeado de estátuas de mármore branco em homenagem aos deuses, o local era cheio de flores e frutos de todos os tipos. Os que mais se destacavam dentre eles eram o Romã e as parreiras. Um banco ficava na posição perfeita: De frente para o vale. Ela poderia ver lá embaixo casas, florestas, plantações e os exércitos. Um ponto inteligente estrategicamente. Reyna poderia dizer, ela estuda das mais diferentes matérias todos os dias, com exceção das noites de festa.
Ela sentou-se no banco e ficou apenas sentindo a brisa em seu rosto.
— Com licença, princesa. É um prazer. Sou Piper.
Reyna virou-se, a voz suave acabou com seu momento de paz. A garota era linda. Deveria ter aproximadamente a sua idade. Os cabelos cor de chocolate eram repicados e ela tinha olhos multicoloridos. Seus lábios estavam avermelhados e sua toga rosa-bebê um pouco acima dos joelhos, nela não havia nenhum detalhe. Nenhum cinto nem medalhão. Talvez pertencesse a uma classe mais baixa da nobreza.
Ela levantou-se e estendeu a mão para Piper.
— Reyna.
A menina deu um simpático sorriso.
— É claro que eu sei quem você é.
Reyna acha que ela tentou ser agradável, no entanto a princesa não gostou de sua colocação. Não queria ser conhecida por todos. Isso dificultaria seu plano.
— Veio acompanhada, Piper?
Ela realmente não queria saber, mas encontrou-se num silêncio desconfortável.
— Ah, não. Quer dizer, eu vim com meu pai, mas acredito que não seja disso que esteja perguntando.
As duas sentaram-se no banco.
— Ah, claro.
— Meu namorado é do exército. Ele disse que não pode se dar ao luxo de largar suas responsabilidades para ir em uma festa com a mim… — Piper interrompeu seu pensamentos de repente.
— O que? Ir a festa com…?
— Ahn… I-Ir, ir a festa com...igo. Ir a festa comigo.
Reyna levantou a sobrancelha. É claro que ela não acreditou na moça. Mas pressioná-la não levaria a nada, então simplesmente deixou para lá.
— Você vê com frequência o seu namorado?
Piper a olhou com olhos tristes e gratos, por não tocar no assunto anterior.
— Ah, mais ou menos… Ele é muito ocupado com o exército e essas coisas… Mas eu acho bom. Dessa maneira podemos manter as boas conversas, sem brigas nem nada do tipo.
— Você pensa desse modo? Quer dizer, me desculpe por me intrometer, mas… Quando você ama alguém, não tem vontade de tê-lo por perto?
Piper baixou os olhos.
— Acho que sim. Mas não sei se o que temos é amor. Talvez já tenha sido uma paixão. Foi intenso, mas agora…
— Ah, peço perdão.
— Não! Imagina. É bom desabafar de vez em quando.
As duas conversaram sobre coisas aleatórias por muito tempo. Piper era uma companhia agradável. Mas Reyna interrompeu a conversa quando viu Leo chamá-la detrás de uma estátua.
— Ahn, me desculpe. A conversa estava ótima e eu realmente espero revê-la, mas tenho que ir.
Piper fez uma reverencia a ela, e Reyna retribuiu, deixando a garota de toga rosa corada. A família do Imperador não costumava retribuir reverencias.
A princesa andou rapidamente e passou pela estátua que Leo se escondia, esperando que ele entendesse seu sinal.
Leo entendeu e a seguiu.
Num lugar mais escondido e reservado do jardim, Reyna adentrou uma portinhola, Leo logo atrás. O lugar tinha pouca luz e era abafado.
— O que foi? — A menina de olhos de obsidiana sussurrou ao ferreiro.
— O que? Você não quer conversar comigo?! — Leo disse com um sorriso presunçoso e brincalhão.
— Leo, fique quieto. Você não arriscaria me chamar no meio de uma festa se não fosse algo importante!
— É claro que não! Posso ser um ferreiro, mas ainda não enlouqueci!
— As duas coisas tem ligação, Leo?!
— Não importa! O que importa é que o seu pedido já está quase pronto.
Reyna se surpreendeu.
— Assim? Tão rápido? — Leo assentiu. Reyna abriu um pequeno sorriso. — Como você consegue? Leo, isso é incrível! Você é incrível!
— Ah, é claro que eu sou. Mas só fiz tão rápido porque foi um pedido seu, Imperatriz.
— Cale a boca, Leo. Não me chame assim. Eu não sou Imperatriz coisissíma nenhuma!
— Certo, desculpe. Eu não resisti. De qualquer forma… Acho que consigo finalizar e deixar no seu quarto ao entardecer de amanhã. Você vai conseguir o que quer, Reyna.
Leo disse com um sorriso triste. É claro que ele estava feliz por ela. Mas não queria que ela o deixasse. É sua única amiga.
— Obrigada, Leo! — Reyna tascou-lhe um beijo na bochecha. Só depois, percebendo o que fez, corou. — Eu já vou indo. Até amanhã.
— Até amanhã, Speciosam.
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