Aconteceu

21 Capítulo 21



— Como sabe?
— Ele é o único que não tem medo do Rafael e certamente não teme uma demissão.
— Aconteceu. Sei que não devia mas ... – ela continuou a procurar explicações como se precisasse de uma pra gostar de alguém. A gente só gosta e pronto. Pelo olhar dela eu soube que não era um simples gostar. Alice realmente estava envolvida. Confio plenamente em Daniel e ele é um dos homens mais decentes que conheço, pode ser uma boa pessoa pra minha amiga que não namora sério desde o colegial.
— Vocês formam um belo casal.
— Sério?
— É, tenta! – incentivei. – Deixa rolar. Mas evita romance no escritório. Rafael é bonzinho com Daniel, mas não tenho certeza se poderá ser tão tolerante assim com você.
— Eu sei. Ah – ela levantou do meu colo e me abraçou – obrigada. Eu estava morrendo de medo de você dizer que é loucura, que eu ia me ferrar, que ele não é tão bom assim. Você é uma amiga maravilhosa.
— Eu sei.
— Sua metida. Ah, já que meu encontro não vai rolar hoje a gente podia pegar um cineminha. Está passando um ... – tive que interromper.
— Se você falar romance eu vou vomitar.
— Nojenta – me deu um tapinha no braço rindo. – eu ia dizer que tá passando um daqueles filmes de super-herói que você gosta.
— Sendo assim, eu te concedo a honra da minha presença.
— Fico grata por tamanho privilégio – disse irônica. – vou só jogar uma água no corpo e fico pronta em dez minutos. – mas é claro que ela não ficou pronta em dez minutos, ela nunca fica.

Eu poderia ter falado com Alice sobre o que está acontecendo, mas eu não queria que ela ficasse encanada com a Juliana. Elas eram amigas, não muito próximas, mas ainda sim eram amigas. E com certeza se eu contasse à ela, ela iria tomar minhas dores e a relação entre elas poderia se desestabilizar. Eu amo Alice e jamais faria nada que pudesse atrapalhar o bom convívio que ela tinha com os colegas do escritório.

Uma hora e quarenta e dois minutos mais tarde estávamos com os ingressos comprados e na fila de uma loja comprando um monte de besteiras para comer no cinema. Alice teve que ir ao banheiro e me deixou na imensa fila sozinha. Tinha umas trinta pessoas na minha frente e apenas dois caixas funcionando e concluí que não sairia dali antes do filme começar. Para passar o meu tempo fiquei jogando joguinho no celular, mas a minha maravilhosa bateria viciada acabou em menos de dois minutos de diversão. Tudo bem, eu nem queria jogar mesmo. Frustrada, eu bufei alto e o joguei no fundo da bolsa e ouvi uma voz.

— Coitado do celular, acho que ele não merecia ser tratado assim. – ergui a cabeça e me deparei com Rafael, sua mãe, seu pai, sua irmã, um homem que estava de mãos dadas com ela e uma senhora que ... não ia estimar a idade afinal ela parecia ter 50 mas a filha dela tem 62 anos.
— Rafael.
— Boa noite. – disse sorrindo.
— Como é bom te ver, querida. – disse Marcella.
— Não tem nem 24 horas que a viu, não é possível que esteja com saudades. – retrucou Rafael me fazendo sorrir e me tirando a oportunidade de responder Marcella.
— E se eu estiver? – desafiou Marcella.
— Bom eu diria que está no mínimo apaixonada por ela e isso é um problema para o Pedro. Mas acho que é uma boa troca. Ana é mais legal e mais bonita que esse seu namorado.
— Obrigado querido cunhado – disse brincando o moço, que segundo Rafael se chamava Pedro e que segurava a cintura de Marcella. – lembrarei disso mais tarde.
— Parem com isso crianças, estão constrangendo a moça. – disse a senhora. – Não vai me apresentar meu querido?
— Claro vovó. Esta é Ana Siqueira, uma amiga do trabalho. Ana, essa é minha avó Clara Montana.
— É um prazer conhece-la senhora Montana. – afastei a cesta cheia de coisas não saudáveis para ter espaço de cumprimenta-la com um aperto de mão, mas assim como fez sua filha mais cedo, ela também me puxou para um abraço.
— Como você é linda minha jovem. – ela só podia estar brincando. Eu usava uma blusa branca básica, um short jeans surrado, um tênis velho. Pelo menos eu estava com meu coque bagunçado e Rafael gostava dele, talvez eu não estivesse tão ruim assim.
— Falei vovó. Eu devia contratá-la. Meus vestidos ficaram lindos nela. – disse Marcella e reparei que Rafael fechou a cara, me lembrei da nossa conversa mais cedo sobre modelos e entendi que a sugestão de Marcella não o agradou.
— Imagina, seus vestidos é que são incríveis. – disse. Cadê a Alice mesmo?
— Ana, mamãe insistiu para que virmos jantar aqui no shopping, você poderia se juntar a nós, se quiser é claro. – disse Camila.
— Aqui tem um restaurante de comida tailandesa maravilhoso. Você vai adorar. – disse Clara.
— É muito gentil da parte de vocês me convidarem, mas eu estou esperando uma pessoa. – Rafael baixou os olhos e um silêncio constrangedor se instalou. Não entendi o que houve.
— É claro que está – disse Rafael baixo. Será que ele estava pensando que eu ia me encontrar com um homem?