Aconchego

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Boa leitura.

Assim que o despertador me acordou notei que o dia de hoje iria para a lista de, como eu carinhosamente apelidei, dias de merda.

Desliguei o despertador ao meu lado e voltei para a posição anterior, encarei o teto branco por tempo suficiente para querer chorar.

Mas as lágrimas não vieram, para minha frustração.

Lembrando que eu não podia me dar ao luxo de faltar ao trabalho, tratei de levantar e me arrumar.

Entretanto, foi apenas me encarar no espelho do banheiro que eu notei que o dia iria para a lista dos dias que eu cogitaria o suicídio a cada cinco minutos. Cinco minutos é uma média positiva, geralmente é menos e bem raramente é mais.

— Você é feia demais. — murmurei para meu próprio reflexo. Que lindo dia para odiar a si mesma… Isso porque eu sei que de acordo com os padrões eu sou linda.

Me arrumei da melhor forma que eu conseguia e mesmo assim o resultado não me agradou. Todavia, eu sabia o quanto eu estar arrumada e bonita ao ver dos outros no dia de hoje era inútil, eu iria continuar me achando uma pessoa horrorosa.

Suspirei frustrada e saí do banheiro antes que eu decidisse socar o espelho e desabar.

Comi granola com iogurte de maneira a dizer para a minha mãe, mesmo que ela nem soubesse das minhas crises e que eu nem fosse contar para ela que eu não tinha fome, que eu estava me alimentando bem. Acho que quando a alertei que iria sair de casa ela implantou uma versão miniatura dela na minha mente.

— Você consegue. —murmurei para mim mesma antes de abrir a porta para sair de casa.

Para ajudar meu carro estava bem longe de mim, no conserto, eu poderia ir buscar hoje, mas eu não queria me deslocar até aquele local.

Cheguei no ponto de ônibus e algumas pessoas olharam para mim.

Respirei fundo ao notar minha mente me auto denegrindo. Eles estavam me julgando, estavam pensando sobre o quanto alguém conseguia ser feia.

Quando entrei no ônibus os pensamentos tiveram mais intensidade. Decidi que era um bom dia para eu poder colocar meus fones e colocar músicas que me agradassem. Suspirei ao notar que nada me agradava, a vontade de pular todas as músicas era tentadora, mas enfrentar dias como esse ouvindo música era melhor do que sem.

Dentro do terminal precisei correr para pegar o outro ônibus, novamente o julgamento dos outros inundou minha mente. Dentro do ônibus me encaravam enquanto eu tentava controlar minha respiração descompassada.

Olhares de julgamento. Pensamentos caçoando mim.

Então duas garotas deram risada, elas poderiam apenas estar rindo de uma situação relatada sobre o dia anterior de uma delas. No entanto, na minha mente riam de mim.

Me senti incomodada ao ser a única a descer no meu ponto, como se eu apenas estivesse atrapalhando a vida dos outros. Tentei tirar isso da minha mente ao tentar não me sentir incomodada com meu próprio andar.

Cheguei no escritório com a minha mente alegando que cada pessoa que me via estava rindo da forma que eu andava.

Assim que sentei no meu cantinho vi uma colega vir em minha direção apenas para me cumprimentar.

— Bom dia. Tudo bem contigo? Não cumprimentou ninguém hoje…

— Bom dia. — cumprimentei praguejando mentalmente o quanto detestava o fato dela ser observadora — Estou bem, não se preocupe. Mas obrigada por se preocupar. E você? Está bem?

— Estou sim. — ela respondeu e vi em sua expressão que ela não estava satisfeita com a resposta — Qualquer coisa, sabe que pode contar comigo, não é?

— Eu sei. — respondi sincera, apesar de eu não conseguir querer me abrir com ela — Obrigada. — ela apenas concordou e saiu dali em direção a sua mesa.

Não fui perturbada durante minha manhã e o almoço eu comi sozinha.

Céus, eu só queria morrer.

Minha tarde foi em parte silenciosa, vieram alguns pedidos para que eu fizesse tarefas específicas e tive de atendê-las.

— Você está linda hoje. — minha colega disse antes de ir embora. Para mim era uma mentira.

Antes de sair do escritório agradeci mentalmente que minha época como vendedora já havia passado, pois eu não iria aguentar.

O trajeto de volta apta casa fora uma tortura, mas quando enfim cheguei em casa tratei de procurar um pijama de inverno e tomar um banho quente.

A temperatura estava fresca, estava ideal, mas fiz o favor de ligar meu ventilador na minha frente na cama e me colocar debaixo de uma coberta.

Encolhida na cama eu não conseguia dormir, meu corpo cansado não condizia com minha mente sendo alimentada por duzentos volts.

Então meu celular começou a tocar, olhei apenas o coração na tela e estranhei.

— Alô?

— Oi. Eu estou aqui na frente já, sei que você não deve estar pronta, mas eu queria esperar aí dentro.

Encerrei a ligação no desespero, como assim eu tinha algo para fazer hoje a noite?

Saí da cama e abri a porta de casa e vi meu namorado no portão arrumado e com um sorriso que se desmanchou ao me ver de pijama.

Ele estava bravo. Eu também estaria se fosse ele. Eu terminaria comigo se fosse ele.

— Desculpa. — pedi envergonhada enquanto eu abria o portão.

— Você esqueceu? — perguntou enquanto entrava.

— Sim… Desculpa, minha cabeça não está me ajudando muito hoje. — respondi enquanto trancava o portão.

— Tudo bem. — ele murmurou e pegou minha mão, me puxando para dentro de casa.

Em silêncio o vi trancar a porta de casa e então me pegar no colo como uma princesa.

— Me solte! — exclamei assustada com seu ato e ele riu — É sério, caramba!

— Vou te soltar se você me disser o que está sentindo hoje. — disse me levando para meu quarto.

Suas palavras ecoaram em minha mente. Então eu processei que ele não estava bravo comigo. Estava preocupado.

— Estou cansada, fisicamente e psicologicamente, mas minha mente não para. Quero chorar e não consigo. Quero dormir e não acordar mais. Eu sou um estorvo… Desculpa, estou no meu limite hoje.

— Pare de pedir desculpas, não é sua culpa. — encarei ele após essas palavras e senti o conforto da minha cama, então o vi deitar ao meu lado — O que acha de um drama? Baixei mais alguns, e como você disse que quer chorar…

— Pode ser… — murmurei e ele se levantou.

O pen-drive em seu bolso, junto ao molho de chaves, foi separado do grupo e colocado na entrada USB da televisão.

Assistimos o filme em silêncio, mas ele fez questão de me deixar em meio aos seus braços, em um confortável abraço, o tempo todo.

Assim que comecei a chorar com o filme eu não parei mais, e ele não reclamou, apenas me abraçou com mais força e fez carinho em minha cabeça, às vezes deixando um beijo em minha testa.

Era sua forma de expressar a frase “estou aqui por você”, e notar isso sempre só me fazia chorar mais.

— Obrigada. — agradecida depois de me acalmar — E desculpa, de novo, nós até tínhamos pago para irmos.

— Não se preocupe com dinheiro e não se preocupe com a saída. O importante é você estar bem. Você está?

— Estou um pouco melhor. — admiti sem graça — Graças a você. — falei e pela primeira vez na noite correspondi seu abraço.

— Vou desligar a televisão e vamos dormir, pode ser?

— Uhum. — concordei sem saber ao certo o que deveria ser feito, apesar daquela situação não estar ocorrendo pela primeira vez.

— Durma. — ele disse e me abraçou novamente.

A tensão se esvaiu, meu corpo agradeceu e dormi naquele aconchego.

Porque tudo que eu precisava era de alguém que fosse meu pilar naquele momento, o apoio ideal.

Notas finais
Eu amo como a escrita é minha válvula de escape, me aliviou muito ter escrito isso por causa do final

Lembrando que o número do CVV é 188
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!