Aconchegados - Desafio de Novembro
1 Capítulo único
Os primeiros raios de Sol na manhã transmitiam um aconchego especial para Gill. Ali, deitado na cama, sentia o crestar da luz entrando pela varanda enquanto admirava as sardas salpicando o rosto de seu amor. Marlin dormiu mal noite passada: Nemo dormia a centenas de quilômetros de casa.
— Acordado?
Os olhos cansados se espreguiçaram num bocejo e então formaram algumas rugas ciliares fitando o veterano de guerra. Um aceno positivo foi o suficiente para ganhar um abraço e sussurros sugerindo que dormisse mais.
Negado, é claro. Mesmo com as súplicas acompanhadas de beijos, dificilmente Marlin voltaria a dormir, restava ao outro se levantar, escovar os dentes e preparar cappuccino para dois.
Na cozinha, um abraço pelas costas indicou a presença do ruivo. Poderia se perder por horas apreciando o estral daquele encaixe dos quadris, mas pressentia a chegada de uma conversa. Ele daria conselhos que seriam ignorados até que fossem reconhecidos como a melhor saída para o dilemas de Marlin a respeito do já não tão pequeno Nemo planejando fazer faculdade longe das asas dos pais.
— Pensei que tivesse se acostumado com os acampamentos de verão…
— É… Diferente. Ele estava a uma hora de viagem daqui, podíamos verificar se estava tudo bem no acampamento e na mesma noite voltar para casa. Mas em Hobart, nem se eu tentasse, poderia ir de carro!
Se Hobart não estivesse em uma ilha a centenas de quilômetros dali, certamente algum surto de ansiedade levaria Marlin — e ele — até lá. Gill lembra-se de rondar de carro a casa dos amigos do filho na madrugada só para certo alguém ter certeza de que Nemo estava bem. O marido recebeu um belo sermão pelo tredo de não confiar em Nemo em diversos momentos, mas, aparentemente, ainda não havia aprendido que seu filho era um peixe de água salgada, não aquário.
— Como ele … Sydney tem excelentes universidades!
— Não tem O programa de ciências na Antártida.
— Ele queria biologia marinha! — Marlin falava alterado o que não poderia desabafar diretamente para o filho — ele gostava de peixes palhaços e de mergulhar na baía…
— Nemo mudou… Não pode esperar que ele seja a mesma criança o tempo todo. É o que há de belo em criar filhos: ganham o amor e proteção, então crescem para criar o próprio mundo!
— Precisava ser um mundo tão longe…?
Não, Gill sabia que Nemo não precisava ir tão longe assim para realizar seu sonho, mas haviam mais detalhes naquela complexa equação que o contador ainda não parecia ter contabilizado.
O desabafo continuou.
— Pelo menos ainda está esperando a carta de aceite. Talvez nessa visita à faculdade, ele nem goste de lá. A baia, o aquário… — nós, Gill completou em pensamento — Ele provavelmente vai sentir falta do que temos aqui em Sydney. Melhor esperarmos ter certeza ao invés de sofrer com antecedência.
Gill evitou esse tópico enquanto foi possível a pedido do filho, mas precisava esclarecer a situação.
— Amor, ele já recebeu a carta. Eu ajudei com as documentações e fiz as primeiras transferências. Nemo não está apenas conhecendo um campus, está visitando o futuro campus dele. As aulas começam no verão.
A caneca fumegante foi lentamente colocada sobre o balcão. Marlin precisava de tempo para processar. Tal qual a carteira de motorista do filho. Na viagem com os amigos pelo litoral. Na primeira vez que experimentou maconha. Nemo aprendeu a recorrer ao papai Gill para aliviar o impacto em Marlin, mas sempre havia o receio da gota d’água. Mesmo depois de 9 anos juntos e 5 anos casados, sempre haveria uma parte em seu subconsciente com receio de ouvir que Nemo não é seu filho. Aquilo o quebraria por dentro mesmo com todo o amor que sentia pelo marido.
Felizmente, Marlin nunca foi um homem cruel. Gill não estava presente em suas primeiras palavras, mas foi quem ensinou o pequeno a andar de bicicleta. Viu os passos iniciais apenas em vídeos de baixa resolução, mas estava ao seu lado ensinando a andar de moto e respeitar as leis de trânsito. Soube da primeira namoradinha e do primeiro namorado, preparou o terreno para Marlin lidar com a constatação de que Nemo não era mais um donzel. Choraram juntos, ficaram acordados madrugada adentro na ala do hospital. Encheram de beijos e fotografias na formatura e o fizeram passar toda a vergonha que os pais têm direito de jogar sobre os filhos.
A imensidão de pensamentos invadiu o ruivo e isso, como bem planejado por seu filhos, amenizou o pânico dele estar longe por meses. Um dia, quem sabe, por anos ou mais. O casal suspeitava que Nemo começou em águas rasas, mas logo logo seu desejo de explorar o levaria para o espaço.
Gill sorriu preocupado. Conhecia aquele olhar perdido, praticamente pedia um abraço.
Dito e feito, levantou-se e o abraçou.
Uma brisa fresca entrava pela janela na cozinha. Permaneceram grudados enquanto alguns fungados escaparam pelas narinas.
— Ele vai ficar bem?
—Nós o educamos bem. E se algo acontecer… Ele sabe que pode voltar para casa, nós estaremos aqui.
Marlin riu com o rosto molhado.
— Eu quero e não quero que algo aconteça para ele voltar para casa. O quão horrível isso parece?
—Só um pai regular, amor. Talvez, um pai exageradamente amoroso, mas teremos muito tempo para trabalhar nisso.
Beijaram-se.
Num movimento rápido, Gill pegou o marido no colo, dando-lhe a única opção de enlaçar os braços fortes. O ruivo sabia onde iriam parar, era o jeito romântico de ser lembrado das vantagens de Nemo estar fora de casa. Logo chegaram à sala de estar da casa, onde foi colocado com carinho sobre o sofá e os botões do pijama foram cuidadosamente desabotoados.
Gill logo se livrou da bermuda e puxou o marido para se aconchegar em seu peito nu. Ambos nus. Ligaram a TV e colocaram alguma sitcom que já maratonaram dezenas de vezes. Ali, juntinhos, poderiam desfrutar da vida a dois com a certeza de terem feito um bom trabalho com o já não tão pequeno fujão da família.
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