Acluofobia
3 Capítulo III
Notas iniciais
Eu jamais havia visto minha família tão desconcertada. Estava idêntico àqueles seriados de televisão em que todos passavam por apuros, mas ainda assim mantinham sorrisos largos e brilhantes em seus rostos. Uma falsidade sem igual. Minha mãe jantava normalmente, estava até animada. Meu pai fazia piadas sem graça e contava coisas sobre o seu dia, evitando os detalhes sórdidos.
Meu pai, George, não é o tipo de homem que pode receber o título de “pai de família”. Todos sabem que ele só casou por insistência do meu avô paterno, que via na fortuna do meu tio materno uma oportunidade de “subir na vida”. Engraçado como as pessoas mudam diante da possibilidade de enriquecer... Se ele soubesse que meu tio só deixara aquela maldita casa para minha mãe, talvez tivéssemos sido criados por uma mãe solteira.
Não, eu não gostava do meu pai.
Já minha mãe, Patrícia, era a típica esposa submissa. O sonho de consumo dos machistas e antiquados. Mas eu a amava muito, mais do que qualquer um possa imaginar. Ela fazia o possível para que, pelo menos na hora do jantar, agíssemos como uma família normal e adorável. Aquilo soava bem para os meus irmãos, talvez, mas para mim não.
Meus irmãos gêmeos, Paul e Peter, eram crianças normais e saudáveis. Não tinham nada em especial, exceto o fato de serem gêmeos. O que, atualmente, com o avanço da tecnologia no processo de fertilização, está deixando de ser uma particularidade.
A única que se mantinha séria e calada naquele jantar era eu. Talvez meu pai tenha percebido minha falta de interesse em participar daquela reunião “agradável” e, subitamente, se interessou pelo meu dia, perguntando o que eu havia feito. Fitei seu rosto por alguns minutos, tentando não jogar alguma indireta ou ironia.
— Normal. — foi tudo que consegui responder. Uma simples palavra tornou o clima tenso e desagradável. Minha mãe encolheu os ombros e voltou sua atenção para o prato, e meus irmãos se entreolharam rapidamente antes de fazer a mesma coisa.
— Tenho notado você muito distante da família. Não lhe vejo com amigas, nem com garotos. Existe algo que você queria nos contar?
Era inacreditável como ele conseguia me tirar do sério. O que eu fiz? Ah, eu não fiz nada. Se ele passasse, pelo menos, um dia naquela casa ele saberia exatamente como eu estava. Mas não, claro que ele jamais ficaria sabendo, pois se preocupava mais com sua vida lá fora e com o dinheiro, do que com sua vida conosco.
— Hay, eu estou falando com você. — ele insistiu, colocando suavemente sua mão sobre a minha. Desfiz o gesto rapidamente, e foi aí que percebi algo de errado.
Eu senti raiva. Mas não era aquela raiva comum, que pode ser comparada a uma leve irritação. Foi ódio, fúria. Sombrio. Senti meu sangue ferver, minha respiração tornou-se pesada e eu não havia percebido que estava segurando fortemente a faca até olhar para minha mãe e vê-la desesperada, tentando me fazer largar o objeto. Demorou um pouco até que eu conseguisse voltar ao normal. Ainda com a mão ensanguentada, me retirei da mesa em direção ao quarto.
Hesitei quanto a entrar de novo no banheiro, mas fui mesmo assim. Lavei o corte enquanto tentava explicar a mim mesma o que estava ocorrendo dentro da minha cabeça.
A sensação que eu tive foi algo surreal; um ódio puro e vivo brotou dentro de mim, e tudo foi direcionado ao meu pai. Tudo bem que eu nunca fui muito próxima dele e jamais tivemos um relacionamento de pai e filha saudável, mas eu nunca havia sentido aquilo antes. Nem por ele, nem por ninguém.
Fiz um curativo simples, apenas para tampar o ferimento, e em seguida, fui para debaixo das cobertas. Esperava adormecer rapidamente, mas no estado em que me encontrava, era impossível. Os pensamentos me atormentaram durante um bom tempo até que, finalmente, apaguei.
“Era noite. Ou pelo menos parecia noite, pois estava tudo tão escuro... O quarto cheirava a fumaça e bebida. As janelas estavam abertas, provavelmente por conta da forte ventania. Seria uma tempestade chegando? Olhei em volta, levantando-me cautelosamente. Era como se tivesse acabado de acordar após tomar uma dose cavalar de sedativos. Minha cabeça pesava e doía, mas era algo tão leve, tornando-se quase imperceptível. Tateei o local em que estava na esperança de encontrar minhas cobertas, e tudo que senti foi algo rígido e frio. Espremi os olhos, na esperança de adaptar minha visão àquela escuridão, e só assim pude perceber onde estava: no chão. Mas não parecia ser o chão da minha casa. Respirei fundo e, ignorando o peso na minha cabeça, fiquei de pé, me apoiando na parede. Dei alguns passos até alcançar a porta. Antes que girasse a maçaneta, senti uma mão fria tocar meu ombro. Ao me virar para fitar a pessoa, um calafrio horrível percorreu meu corpo, juntamente com um mau presságio. E quando finalmente consegui enxergar quem era, senti meu coração pesado e acelerado. A coisa que havia aparecido no banheiro agora tocava em mim, estava a milímetros do meu rosto! Minhas pernas paralisaram e eu não consegui gritar. A coisa se aproximava cada vez mais de mim, até encostar os lábios na minha orelha.
— Fuja!”
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