Acidente de percurso
1 Capítulo 1
Notas iniciais
- Quem é você? — Perguntou o diretor.
— Sou Cintya Lopez. — Eu disse com firmeza, mas tremendo por dentro.
— Quantos anos você tem? Como veio parar aqui?
— 18, completei semana passada. Fugi de casa.
— E como você está vivendo aqui? — Ele parecia interessado.
— Estou dividindo um apartamento com uma colega do cursinho.
— Ok, conte sua história.
Foi o que bastou para que todas aquelas lembranças voltassem em minha mente. Fui contando enquanto revia a cena.
- Tudo começou no dia 4 de agosto. Estava voltando de Minas com meu pai, quando um caminhão perdeu o controle e invadiu a pista em que nós estávamos. — Senti novamente a pancada que levei no acidente, revi as fotos e reportagens que exibiram na época. Meus olhos se encheram de água, mas continuei.
- Eu estava sem cinto, até hoje não consegui me lembrar por quê. Eu sou tão chata com essas coisas de segurança. — Voltei meu olhar para ele, que ouvia atentamente e prossegui. — Fiquei em coma durante 3 meses, meu pai teve ferimentos na cabeça e está começando a apresentar problemas, pelo acidente e pela idade. Durante o período que estava dormindo, tive uma experiência de quase morte. — Olhei para o chão e respirei fundo.
- Você está bem, quer parar? — Ele pareceu preocupado, mas interessado.
— Não, tudo bem. — Dei um meio sorriso.
— E o que esse acidente tem a ver com isso aqui? — Ele olhou ao redor e depois voltou para mim.
— Já estava tudo planejado, eu terminaria o ensino médio naquele ano e faria vestibular para jornalismo. Mas durante o coma, me vi em um palco. — Tenho certeza que meus olhos se iluminaram. Toda aquela lágrima havia de transformado em brilho. — Na platéia estavam meus pais, minhas amigas e alguém, alguém que eu não reconheci. Eu estava radiante, dizia que tinha me encontrado naquele lugar e pude até sentir cheio de teatro, cheiro de platéia, de coxia. Quando recobrei a consciência, voltei decidida a fazer cursos de teatro, testes, qualquer coisa. Senti algo que nunca tinha sentido antes, que ninguém nunca vai sentir, eu acho. — Voltei para a realidade e vi que ele me olhava diferente. Dei um sorriso meio bobo e enfiei as mãos dentro do bolso do jeans.
— Hum. — Que comentário gélido! Ele deve me achar uma idiota. Ele e todo mundo. Pois é, uma câmera gravava todas as minhas ações, todas as minhas falas, era constrangedor. Será que meus olhos realmente brilhavam? Senti um súbito desejo de roubar aquela fita.
— Você tem dois minutos, a partir de agora.
O tempo já estava contando e todo segundo era valioso demais para ser perdido. Comecei cantando o refrão de uma música do John Mayer, que traduzia perfeitamente o que eu sentia.
Someday I'll fly Um dia eu vou voar
Someday I'll soar Um dia eu vou me elevar
Someday I'll be Um dia eu vou ser
So damn much more muito mais
Cause I'm bigger than my body Porque eu sou maior do que o meu corpo
Gives me credit for me permite ser
E logo depois, emendei com o refrão de outra música, dessa vez, de Ashley Tisdale, minha cantora preferida da adolescência.
Suddenly people know my name De repente as pessoas sabem meu nome
Suddenly everything has changed De repente tudo mudou
Suddenly I feel so alive De repente me sinto tão viva
In the blink of an eye Em um piscar de olhos
My dreams begin to reign Meus sonhos começam a se realizar
E também retrata tudo o que eu queria para o meu futuro. Novelas, filmes, séries, teatro... Naquela hora senti vontade de abraçar o mundo e dizer o quanto é bom fazer o que gostamos.
Ele me disse que ligaria se eu fosse aprovada. Saí do prédio tentando me convencer de que tinha ido bem e com certeza teria passado. E mesmo se não passar, qual o problema? Não vou desistir dos meus sonhos tão fácil!
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