Acho que o ônibus não vem
1 Acho que o ônibus não vem.
Notas iniciais
Acho que o ônibus não vem.
Já é quase uma hora. Ele devia ter passado há quinze minutos.
O problema é que, quando bate o sinal da saída e todos os alunos vão embora, este bairro se revela deserto. Quase não passa ônibus algum. O próximo que vai para o mesmo destino que o meu deve vir só daqui umas duas horas.
Talvez tenha acontecido algum acidente. Ou uma greve.
13:20. O pessoal do escritório já deve ter percebido minha falta. Droga. Droga. Ninguém nunca me disse o que devo fazer numa situação dessas. Vejamos... Devo ligar e dizer que vou me atrasar?
Imagino a cena. Eu falando pra supervisora ”Boa tarde, Suzana, liguei para avisar que meu ônibus não passou ainda. Vou chegar atrasada”. E ela dizendo rude e tediosamente que está tudo bem; enquanto pensa que não passo de uma estagiária preguiçosa que arranjou uma desculpa esfarrapada para chegar mais tarde ao serviço.
Se ela estiver num mal dia, talvez meu atraso lhe acenda a faísca que a fará me demitir. Demitida, o que me restará a fazer da vida é dar aulas. Com certeza o único rápido emprego que eu conseguiria arranjar, seria como professora naquela escolinha de inglês que Thomas disse ter conseguido uma vaga pra mim, mas que eu, mesmo querendo muito, escolhi ficar no escritório.
Porque trabalhar em escritório dá mais dinheiro. E eu não ia ter que me desgastar falando o dia inteiro para um bando de pessoas. E minha mãe ficaria feliz.
Bom, acho que nenhuma dessas consequências iria importaria caso dar aulas fosse minha única opção.
Ok, então após ligar para a Suzana e ouvir alguma discreta demissão, irei falar com o Thomas perguntando – e implorando – se aquela vaga ainda tá de pé. “É claro que tá”, ele dirá, e eu irei à mesma hora preparar as aulas, com aqueles livros que comprei ano passado exatamente para isso.
13:35. Talvez eu pudesse ligar pra algum parente, mas isso seria tão estranho. Acho que não sou tão cara de pau para tal. ”Oi, Vinicius, sou eu, sua prima antipática que se recusa a socializar quando está em festa de família e esquece-se do seu aniversário. Será que você poderia me dar uma carona?”.
Bem que minha mãe sempre me disse para fazer amizades, ter contato com pessoas... ”Nunca se sabe quando você vai precisar da ajuda de alguém”, é o que ela diz.
Bom, quando eu chegar a casa, antes de preparar as aulas para meus futuros alunos, vou procurar no facebook o dia de aniversário de cada parente meu, e mandarei alguma foto engraçada no whatsapp deles. Acho que é um bom começo.
Falando em whatsapp, preciso responder à mensagem que o Pedro me enviou ontem: “ei, já fez sua decisão? Será que a gente poderia sair pra vc me dar uma resposta? Bj.”.
Estou desempregada, prestes a iniciar uma nova carreira, e com a percepção de que sou a excluída da família. Nessa ocasião, já leio a mensagem com novos olhos. E o Pedro é tão compreensível, engraçado... E aquele dia, que apresentou o seminário e estava tímido, percebi como ele é bonitinho.
Quer saber? Vou marcar para hoje mesmo um encontro com ele (já que serei despejada do escritório), e dizer que aceito, sim, oficializar o nosso namoro. Afinal, com tudo perdido assim, nada melhor que alguém ao meu lado pra me fazer companhia. E ele fica tão bonitinho, quando tímido...
Uau, minhas pernas já estão doendo de tanto esperar em pé por esse ônibus. Eu vou é pra casa, isso sim, tomar um leite com chocolate e ir ligar para a Suzana, avisando que vou me atrasar bastante e que, se ela quiser me despedir por isso, que fique a vontad...
O que? Espera, aquele é o meu ônibus? 341, é ele mesmo, não posso acreditar! No fim das contas, ele só tinha atrasado! Por pouco eu o perco.
Dou sinal, o busão para. Entro, e olho para a cara de sapo do motorista. Sento-me encostada à janela. Consulto o relógio. 13:52. Cerca de cinquenta minutos atrasado.
Droga de transporte público!
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