Depois daquele susto percebi que não dava pra fazer nada. Eu iria batalhar com a Solidad e pronto.

Olhei para o telão novamente. O Drew ia batalhar contra o Robert e o Harley, contra a Marina.

Eles também tinham oponentes fortes, mas não tanto quando a minha oponente.

Meu nervosismo vinha crescendo a cada segundo. Eu tentava pensar em estratégias de batalha, mas era quase impossível naquela situação. Se eu não me concentrasse e me forçasse a pensar em uma boa estratégia, eu ia perder, sem dúvida.

Minha luta ia ser a terceira. Eu tinha algum tempo, mas não muito. Respirei fundo e comecei a pensar.

Que pokémon eu usaria, foi a minha primeira pergunta. Eu já havia usado a Beutifly e a Solidad já sabia que eu tinha um Blastoise e uma Glaceon. Eu precisava pensar em um pokémon que ninguém imaginaria que eu tivesse. Um que surpreendesse ela. Mas que Pokémons eu tinha comigo além da Beautifly, da Glaceon e do Blastoise? Venossauro, Blaziken, e Delcatty.

Não. Se eu usasse qualquer um desses seria muito esperado dela. Por mais que ela não saiba que Pokémons eu tenho comigo, ela conhece meus Pokémons. Ela tem uma ideia de quais pokémon eu trouxe. Minha escolha tem que ser algo que não esteja nos planos dela, mas é impossível. Só se eu pegasse um pokémon de alguém...

Foi aí que eu percebi. Que era exatamente isso que eu devia fazer. Ainda estava rolando a primeira luta. Me levantei do banco e saí correndo do estádio. Corri pela cidade toda até chegar ao centro pokémon.

Cheguei lá toda suada de tanto correr sem parar.

– Boa tarde, em que posso ajudar? – enfermeira Joy perguntou.

– Eu... – disse, arfando – poderia... usar o... videofone?...

– Mas é claro, fique à vontade.

Corri mais um pouco até o videofone. Liguei para minha casa e por um momento pensei que ninguém iria atender, até a imagem da minha mãe aparecer na tela.

– May? Aconteceu alguma coisa? Que eu saiba, o Grande Festival está acontecendo agora. Estou assistindo ao vivo pela televisão.

– Mãe, é urgente! Eu preciso de um pokémon. Chame o Max!

– Tudo bem, mas só pra você saber. A segunda luta já começou.

Senti um nó no estômago. Eu tinha que conseguir esse pokémon agora! Imediatamente! Era questão de vida ou morte.

Os segundos se passavam e nada do Max aparecer. Eu já estava quase morrendo de ansiedade. Estava batendo os pés no chão, olhando o relógio, puxando meu cabelo, enfim, todas as coisas inúteis que não iam me ajudar em nada para o Max aparecer.

Depois do que pareceu anos, ele finalmente apareceu com uma cara de sono e com uma caneca de café na mão.

– O que você quer? – ele perguntou em uma voz monótona.

– Max, eu preciso do seu Gallade.

– Pra que?

– Não é hora para explicações! Anda logo!

Ela saiu da frente da tela e foi buscar o Gallade. Eu só esperava que tivesse feito a escolha certa.

Mais um momento de espera e ele chegou com a pokébola.

– Ótimo, agora manda pra cá.

– Acho que está se esquecendo de alguma coisa.

– Max, anda logo!

– Você não pode carregar mais de 6 pokémons de uma vez só. Vai ter que mandar um pra cá.

Eu havia me esquecido disso. Mas qual mandar de volta? Depois de pensar um pouco, finalmente me decidi.

– Pronto. – eu disse, colocando a pokébola no pedestal.

Nos videofones, há um dispositivo em que você coloca uma pokébola e pode enviá-la para outra pessoa. É como se fosse um bluetooth. É bem útil em situações como essa.

Max botou a pokébola do Gallade no pedestal e apertou o botão de enviar.

Alguns segundos depois as pokébolas foram trocadas. Peguei a pokébola que o Max me enviou e desliguei o videofone. Nem disse tchau porque estava com muita pressa.

Saí do centro pokémon e corri o mais rápido que pude para o estádio.

A adrenalina aumentava a cada instante. Eu nunca havia corrido tão rápido antes.

Cheguei no estádio quase sem ar, mas cheguei no momento exata em que Lílian anunciou minha batalha.

“E agora teremos May VS Solidad!”

Não conseguia mais correr, então fui andando até o estádio (quase me arrastando, na verdade).

Me posicionei e o nervosismo aumentou novamente quando vi o estádio lotado.

Quando Solidad entrou, recebeu uma aclamação magnífica.

Tentei ignorar o favoritismo que a plateia tinha. Quando eu entrei ninguém me aclamou, mas agora eu faria eles se surpreenderem. Eu iria ganhar a qualquer custo.

“Escolham seus Pokémons!”

A hora havia chegado. Lancei minha pokébola e Gallade saiu, meio confuso, mas quando em viu se acalmou.

Pude ver a expressão de desentendimento no rosto de Solidad. Ela não esperava por isso.

Solidad lançou sua pokébola. Um slowbro saiu dela.

Não deu tempo nem de pensar. Solidad comandou seu primeiro movimento.

– Slowbro, yawn!

Ah! Vai se f...! Yawn faz o pokémon oponente dormir no fim do próximo turno! Eu teria que acabar com o slowbro com dois movimentos! Mas como?

– Gallade, Leaf blade! – usei aquele ataque porque sabia que o slowbro era fraco contra ataques de grama.

Slowbro foi atingido em cheio e Solidad perdeu vários pontos, mas meu ataque não foi suficiente para nocauteá-lo.

– Slowbro, shadow ball!

Ela sabia! Solidad era expert quando se tratava de Pokémons. O Gallade tem fraqueza contra ataques fantasmas.

Minha sorte foi a rapidez dele. Gallade desviou do ataque em uma velocidade impressionante. Max sempre treinou os Pokémons dele para serem rápidos. Ele sempre dizia que a velocidade tinha que vir em primeiro lugar. Escapar de um ataque é muito importante para mudar o rumo de uma batalha.

Era a minha vez.

– Gallade, close combat!

Gallade começou a socar slowbro em uma velocidade magnífica. Quase não dava para ver os braços dele se movendo.

Quando o movimento terminou, slowbro começou a cambalear e Gallade imediatamente dormiu. Era o fim do turno.

Slowbro ainda estava consciente, mas cambaleava e parecia estar prestes a cair a qualquer momento.

Foram segundos de pura tensão. Slowbro arfava e Solidad apenas esperava por um sinal de que ele estava bem e podia continuar a lutar.

Depois de um tempo, slowbro caiu inconsciente e eu fui declarada vencedora, mesmo meu pokémon estando dormindo. Perdi alguns pontos por causa disso, mas fiquei feliz com a vitória.

A plateia começou a aplaudir e fazer barulho. Eles obviamente ficariam bem mais animados e fariam mais festa se a Solidad tivesse ganhado, mas pelo menos eu recebi um pouco de reconhecimento.

– Foi uma batalha muito interessante. As combinações de movimentos fizeram da May uma verdadeira estrategista! – Sr. Contesta comentou – Quando à Solidad, também fez uma ótima batalha, mas infelizmente não conseguiu manipular seus movimentos para transformá-los em uma vitória.

– Uma Gallade simplesmente notável!

– Lindos pokémons que fizeram uma belíssima apresentação. As duas coordenadoras estão de parabéns! – enfermeira Joy favoreceu os dois lados, como sempre.

Coloquei Gallade na pokébola e comecei a andar de volta para a sala até sentir alguém segurando o meu braço.

– Parabéns – disse Solidad – eu não sabia que você tinha um Gallade.

– Não é meu. É do meu irmão.

– Foi uma ótima escolha usá-lo para essa batalha. Tenho que admitir que me surpreendi muito quando ele entrou no palco.

Dei um leve sorriso e nós voltamos juntas para a sala de concentração.

– E agora que você perdeu – me sentei em um banco – O que vai fazer?

– Bem, – ela disse se sentando do meu lado. – vou ficar aqui para olhar as lutas e participar da festa de encerramento.

Eu quase havia me esquecido dessa festa. Todo ano, no final do Grande Festival, tem uma festa para os coordenadores.

– May, mudando de assunto agora. Eu acho que você devia acreditar mais nas pessoas.

Ela sabia. Desde o começo. Podia até ter ajudado a planejar tudo isso, o que explicaria aquela piscadinha que ela tinha dado para o Drew quando ficamos sozinhos.

– Solidad, veja bem. Eu não sei o quanto você está envolvida nessa história, mas eu já fiz a minha escolha.

– Eu só te peço para pensar um pouco.

– Me perdoe pelas palavras rudes, mas isso não é da sua conta.

Eu achei que ela ia ficar com raiva por ter dito aquilo, mas me surpreendi quando ela sorriu.

– É verdade. Isso não é da minha conta. Mas se isso te fizer mudar de ideia, saiba que eu conheço o Drew a muito tempo. Ele disse para mim o quanto gostava de você e pediu a minha ajuda. Ele nunca faria isso se não estivesse realmente apaixonado.

– Apaixonado? E quanto tempo você acha que essa paixão vai durar?

– Eu não sei...

– Não sabe? Pois fique sabendo que eu não sou como ele. Eu não quero uma diversãozinha que vai durar um mês, no máximo. Eu não quero ser iludida de novo, então pode dizer a ele para parar de insistir, por favor?

– Acho que devia dar uma chance para ele.

– Você ouviu o que eu falei? Por favor, pare de insistir. Eu já dei a minha resposta.

– Você poderia pelo menos...

– Não, eu não poderia fazer nada. Sabe o que eu estou achando legal nessa história toda? Ele está sendo o coitadinho. Talvez pela primeira vez na vida dele. Tomara que isso sirva de lição para ele ser menos idiota.

– Já vi que essa conversa não vai dar em nada.

– Ótimo, então gostaria de fazer o favor de sair da minha frente?

Ela ficou ali por um momento, olhando para mim. Depois se virou e foi embora.

Fiquei algum tempo refletindo sobre o que tinha acabado de acontecer.

Eu com certeza tinha sido muito grossa com ela, mas eu não pude me controlar. Meus nervos estavam à flor da pele e eu já estava simplesmente de saco cheio daquele assunto.

Agi impulsivamente, eu sei. Só esperava que aquilo acabasse de uma vez por todas com toda aquela discussão.

Se eu não gostava do Drew? Bem, como alguém pode não gostar? Ele é bonito, tem uma voz hipnotizante, é romântico... me lembro de todas as rosas que ele me deu, dizendo que eram para a Beautifly.

A única coisa que me impedia era a insegurança. Eu sempre me lembrava do Dylan. Ele foi o cara mais fofo do mundo comigo, mas no final só estava querendo mesmo era me ‘pegar’ para se gabar com os amiguinhos depois.

Tinha medo de que o Drew fosse fazer o mesmo. Garotos sabem enganar muito bem.

Eu ainda sofria com isso. Eu realmente gostava dele. A dor de um coração partido é a pior dor que já senti em toda a minha vida. Não é algo que simplesmente desaparece com o tempo. No começo você chora muito e depois a dor parece que vai sumindo. Ela vai ficando mais fácil de suportar, mas depois ela volta de novo, mais forte do que nunca.

Esse ciclo se repete infinitamente. A dor volta e depois vai sumindo e quando você pensa que vai acabar, ela volta de novo. É quase insuportável. Não é algo que eu queira sentir outra vez.

“E agora, teremos Drew VS Robert!”

Tudo bem, vou confessar: essa era a luta que eu mais queria ver hoje. Os dois melhores coordenadores de Hoenn batalhando entre si.

Quando Drew entrou no palco, a fãs retardadas dele começaram a fazer o maior barulho. Gritavam coisas como “LINDOOO!”, “GOSTOSO!”, “CASA COMIGO!”, “SE VOCÊ QUISER EU DOU PRA VOCÊ!!”, “TESÃO!”, e outras coisas obscenas. E a Solidad ainda queria que eu desse uma chance para um cara assim.

Robert entrou e aconteceu a mesma confusão. Muita gritaria e algazarra, e eu também ouvi várias pessoas gritando “LINDO!”, mas as fãs do Robert eram mais maduras, tinham em torno de 19 anos. As fãs do Drew eram quase todas pirralhas de 15 anos que não sabem se comportar.

“Muito bem, escolham seus pokémons!”

Drew foi o primeiro a lançar a pokébola. Escolheu a Roserade. Achei meio estranho. Ele sempre deixava ela para o final.

Robert escolheu um Claydol.

– E... comecem! – o juiz deu início à apresentação.

– Roserade, sunny day!

A luz do sol invadiu o estádio. Roserade se beneficiaria muito com aquele movimento.

– Claydol, extrasensory!

Uma onda psíquica atingiu quase todos as pessoas no estádio. Me lembro de ter ficado tonta por um momento e quase caí. Vi algumas pessoas do meu lado caindo ou desmaiando. Era indiscutível que aquele Claydol era poderoso.

Roserade foi atingida, mas não caiu. Era um Pokémon resistente, sem dúvida. Drew também não pareceu ter sofrido tontura com aquele ataque, mas o próprio Robert quase caiu.

– Roserade, Solar beam.

Um ataque arriscado, com certeza. Demora um tempo para carregar e, consequentemente, o Claydol teria uma ideia de onde o ataque iria atingir e poderia desviar facilmente dele.

Para a surpresa de todos, ele não foi tão rápido. Claydol foi atingido em cheio.

Era evidente que esse ataque causara muito dano nele. Agora o Robert só precisava de uma estratégia minuciosa para recuperar o controle da situação.

Mas o que ele fez em seguida deixou todos de boca aberta.

– Claydol, explosion!

Fiquei meio confusa quando ouvi ele comandar esse movimento. Achei que tinha ouvido errado, mas não. Ele havia mandado mesmo o Claydol usar explosion.

Olhei para o placar de pontos e percebi o que ele queria fazer.

O estádio foi tomado por uma explosão seguida de uma nuvem de fumaça que cobriu o palco todo. Ficamos alguns segundos sem ver o que tinha acontecido, mas todos já sabiam o resultado.

Quando a fumaça começou a se dispersar, olhei bem para o palco e simplesmente não acreditei no que vi. Roserade estava de pé. O plano de Robert foi por água abaixo.

Quando a fumaça se dispersou por completo, todos puderam ver que Roserade não havia sido nocauteada e vários gritos de espanto correram por todo o estádio.

Robert tinha um sorriso no rosto, obviamente para disfarçar a decepção de seu plano não ter dado certo e Claydol jazia inconsciente no palco.

“E o vencedor é Drew!”

Mais gritos das fãs retardadas do Drew.

Robert parecia totalmente desconcertado. Fora desclassificado por causa de uma burrice. Ele queria que ocorresse um empate, então usou explosion para que os dois pokémons fossem nocauteados. Isso faria ele ganhar a luta, pois em caso de empate, ganha o coordenador que estiver com mais pontos na apresentação. O Robert tinha mais, então se ocorresse um empate, ele iria ganhar.

Infelizmente para ele, as coisas não ocorreram como ele pensou que ocorreriam. Roserade era mais resistente do que ele achava que era. São poucos os pokémons que conseguem continuar na ativa depois de serem atingidos por uma explosão.

– Um Pokémon incrível, essa Roserade do Drew. Resistiu a um dos movimentos mais poderosos que um Pokémon pode realizar. Robert, por outro lado, confiou muito em sua estratégia de última hora e esqueceu de analisar os dois lados da moeda – Sr. Contesta sempre analisava as batalhas com muita profissionalidade.

– Uma Roserade notável!

– Ótimos pokémons, ótimos movimentos e coordenadores lindos! – enfermeira Joy mostrou seu lado fangirl com esse comentário.

Depois de mais uma vitória, Drew jogou beijos para suas fãs retardadas e saiu do placo.

“Parabéns aos dois coordenadores! Agora vamos ver a batalha entre Harley e Marina!”

Se quer saber minha opinião, foi a batalha mais chata do dia. Marina acabou com Harley em menos de 5 minutos e ele foi desclassificado. Saiu do estádio batendo os pés e com certeza não ia voltar para participar da festa de encerramento.

Para minha alegria, só faltavam mais uma batalha e eu finalmente saberia com quem ia lutar na semifinal.

Mas minha alegria se desmanchou quando eu vi um certo metrossexual se aproximando de mim.

– O que você quer agora? – perguntei sem olhar para ele.

– Olha, não precisa me tratar desse jeito.

– Ótimo. Dê o seu recado e depois volte para as suas fãs.

– Então o problema são as fãs?

– Não. O problema é você.

– Às vezes o problema é a própria solução – ele abriu aquele sorriso irônico.

– Não nesse caso.

Não deu nem tempo de ele responder e a última batalha havia acabado.

“Agora anunciaremos as lutas das semifinais!”

Mais aplausos e gritarias vindos da plateia.

As fotos no telão começaram a se embaralhar e eu rezava baixinho para que conseguisse algum oponente fácil (se bem que isso iria ser bem difícil, já que o Harley foi desclassificado).

Quando as lutas finalmente foram reveladas eu literalmente caí do banco e dei um gritinho de desespero que atraiu olhares confusos.

Adeus, sonho de ser Top Coordenadora.