Achados no inferno
2 Capítulo 2 - Ida ao inferno
O inferno não me parece um bom lugar para se ir. Mas o que haveria de tão importante para que eu visse lá? O que eles querem comigo? Por que eu? Que favor é esse? Perguntas e mais perguntas.
— Então você aceita? — ela disse.
— Sim, eu aceito.
Em questão de segundos eu vi meu quarto se desfazer, apodrecer e até mesmo derreter. Aquilo era medonho. Em segundos não havia mais quarto nenhum. O quarto se transformou em uma caverna escura, úmida e quente, onde almas, com correntes pesadas presas em seus pescoços, faziam trabalho pesado carregando pedras e empurrando carrinhos, daqueles que se usam em minas para carregar pedras e tudo mais, enquanto recebiam chibatadas. Eles não eram marcados pelas chibatadas, mas sentiam a dor.
Lara me guiou por um beco que dava para um lugar frio, onde um homem velho conversava com um demônio, que pela conversa, se chamava Asca. O homem virou-se para nós. Ele era um homem de cabelos grisalhos, uma barbicha bem escrota, vestia um terno caro e elegante. Ele tinha uma aparência totalmente humana. Ele olhou para Lara, deu um largo sorriso e a abraçou. Quando olhou pra mim eu senti medo, mas não demonstrei. Ele me abraçou também, mas não retribui.
— Como é bom vê-la, Lisa — o homem disse. — Faz muito tempo que não a vejo. Como vão as coisas? E seu pai como está?
— De onde me conhece?
— Onde estão os meus modos. Eu sou Lúcifer, o ilustre dono desse lugar — ele deu um risinho e enterrou as mãos no bolso. — Deve ter mil perguntas sem respostas nessa sua cabecinha. Bem, antes de mais nada, ASCA! — ele gritou.
O servo veio correndo até ele.
— Sim, senhor.
— Traga-me o cajado e libere a exportação.
— Como quiser senhor. — Ele saiu correndo e quando voltou trouxe consigo um cajado velho, mas feito da melhor madeira. Ele brilhava de tão lindo.
— Este cajado foi dado de recompesa a grandes homens até chegar a mim e eu usei, ou melhor, tentei usufruir do seu grande poder. Mas eu não tinha esse poder, eu não podia porque não merecia esse cajado. Mas você, Lisa, você pode. É claro que eu não darei esse cajado a você e a deixaria ir embora, qual seria o proposito? Chamar você aqui só para isso? Claro que não. Sabe, por incrível que pareça algumas almas escapam daqui e nós não conseguimos trazê-las de volta e outras simplesmente não chegam até aqui, ficam livres no mundo humano. O que eu quero que você faça é simples, traga-as para cá. Não se preocupe, Deus não ficará aborrecido ou irado com você por isso, até porque ele quer o mesmo que eu. O mundo está muito manchado e isso acaba com nós dois. Eu e ele fizemos um acordo e precisamos que você aceite.
— Deixa eu ver se eu entendi. Você quer eu que volte para o mundo real, traga almas para você e que as pegue com esse cajado?
— Sim
— E o que eu vou fazer com esse cajado? Bater na cabeça deles e mandar eles voltarem?
— Carismática, eu gosto. Sabe gracinha, esse belo cajado vira uma arma, uma arma letal para os mortos que estão no mundo humano. Basta segurá-la e ela se transforma na arma perfeita. — Ele estendeu o cajado para mim e por um momento eu hesitei. Lembrei de tudo. Por que eu vim até o inferno, da conversa e pensei: “Nossa, mas que merda eu tô fazendo?” e aquilo não me trouxe paz e a calma que eu queria. Mas de certo modo aquilo me assustava, como Deus concordava com aquilo e como eu acharia aquelas almas. — Acalme-se criança, pense bem, você não ira matar ninguém, afinal essas pessoas já estão mortas. Elas só não querem vir para cá e algumas não querem voltar, são pessoas más. Pense, se não fossem pessoas boas ou que merecem o perdão por que viriam para cá? E se pergunta o que ganha com isso, aguarde o final e verá.
Eu agarrei aquele cajado e ele virou uma arma, uma arma maravilhosa. Uma Winchester 1887. Eu me apaixonei. Acho que aquele cajado sabia do meu amor por espingardas.
— Só basta dizer eu aceito. Não se preocupe, não vai haver sangue, contrato assinado nem nada. Isso não é um pacto. Mas o cajado é o seu contrato.
— Eu aceito. — ele sorriu
— Boa garota. ASCA! — ele gritou para o servo.
— Sim, senhor.
— A exportação já estava libertada?
— Sim, senhor.
— Leve-a até lá e a deixe escolher o que ela quiser.
— Sim, senhor.
Eu acho que era a única coisa que Asca saiba falar era “Sim, senhor.” Eu tinha muita pena dele, por algum motivo, mas também tinha algum motivo para ele estar aqui. Ele me levou para uma espécie de armazém escuro, isso até ele ligar o interruptor e eu conseguir ver armas e mais armas. E por mais irônico que seja, eu me senti no paraíso.
Eu escolhi umas cinco das bilhões de armas que tinham naquele lugar, eram todas lindas, mas sumiram. Eu olhei para porta e lá estava ele de novo, Lúcifer.
— Elas esperam por você em casa, Elizabeth. Debaixo da sua cama estarão as armas, junto com um mapa e nomes das almas que procura. E não se preocupe, seus amigos vão te ajudar, eu tenho certeza.
Num estalar de dedos, literalmente, eu estava no meu quarto de novo e ele não parecia destruído como antes. E debaixo da cama estavam as armas e o mapa. Então passou pela minha cabeça que aquilo não foi apenas um sonho.
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