Achados e perdidos
1 Achados e Perdidos
O fim da noite encontrou-se com o nascer do dia. Separaram-se logo após o fugaz encontro. Não haviam nascido um para o outro, separaram-se. O sal da dor encontrou-se com a água, sangue dos olhos. Juntaram-se na lágrima e nunca mais se separaram.
O vento passou carinhoso pela pétala. Esta não quis ou não pôde prendê-lo, esquivando-se de seu abraço. O vento perfumado, porém, triste, foi-se embora e passou, sem sequer olhá-las, por outras pétalas.
O mar encontrou furioso a praia e levantou sua voz, com bramidos de cólera. Todos correram dele e a praia ficou fria e deserta.
O mar voltou-se a encontrar com a praia. Desta vez, veio em carícias de espuma, trazendo-lhe conchinhas como se fossem joias.
A areia da praia ficou sorrindo e nela muitos pés marcaram ternas caminhadas na areia úmida do beijo do oceano.
A gota d'água orvalhada encontrou, ao cair, a folha que a amparou com ternura. À luz da lua, a pérola líquida ficou brilhado sobre o verde.
Ao escorregar, a gota d'água perdeu a sua folha e esta não amparou a sua queda: caiu o pingo de luz na terra seca e nunca mais foi encontrado.
A mão perdeu a vontade de acariciar e de apertar carinhosamente: foi aí que surgiu a primeira garra.
O coração encontrou outro coração. Um se tornou a acha, outro, a lareira. Arderam juntos, acalentando o que estava por perto e a seu alcance. O coração perdeu-se do coração que encontrara. A lareira, ficou sem sua acha. O fogo não teve mais lenha para arder e apagou-se.
Foi aí então que surgiu o frio e o escuro.
O apaixonado encontrou a estrela distante. Esta luziu e piscou para ele. Houve o encontro, que vence distâncias. O olhar de ternura não encontrou ternura no olhar próximo, que se negou a fitá-lo. Os olhos se fecharam e o céu não teve mais estrelas.
O hoje não se despediu do ontem e teve a certeza do amanhã.
Deste encontro, nasceu o sempre.
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